terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Você

Você.
É por isso, e só por isso, que continuo viva.
Com as nossas expectativas de quando você vier para Brasília, e aí sim poderemos visitar a Catedral, apontar os anjos e trocar beijos dentro dela. Seremos abençoados.
Porque tenho muita vontade de tirar novas fotos com você – fotos que você gosta, fotos que você não gosta, fotos que nós dois gostamos e pensamos em mostrar para o mundo, com muito amor, para que todos aqueles que nos apoiaram vejam como estamos felizes.
Estou viva por sua causa, porque quero chegar em casa e conversar com você, escutar a sua voz, escutar suas piadas sem graça, ouvir você me contando como seu colega de trabalho não vale nem um centavo. Te ajudar a achar um novo desenho para você tatuar na sua pele, que tanto venero, e que, todas as noites, anseio beijar.
Estou viva porque você apareceu, e me salvou.

E em todas as vezes nas quais mantive aquela velha reflexão de Camus, parei e pensei em você. E em como você ficaria decepcionado se eu desistisse da gente logo agora...

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cabeça

O que mais gosto na gente, meu amor, é como conseguimos (e tão intensamente) ser poesia, que se envolve na mais bela de todas as melodias e, ao mesmo tempo, se propaga em todas as direções.
Gosto do jeito que a tempestade alaga A Cidade, enquanto apreciamos a beleza do espetáculo, gota por gota.
Gosto do jeito que você sorri abertamente quando te ligo e, mais que tudo, da sua voz de sono, que tantas vezes confundi com voz de outras coisas.
Construímos, juntos, atores, cenários e marcações. Fizemos um terreno, delimitamos nosso território e, juntos, aprendemos a nos impor e a nos expor um para o outro e, aos poucos, para o mundo.
E brigamos, fizemos as pazes, aprendemos a superar e a lidar com os ciúmes, passamos mais de dez mil minutos falando absurdos, trocando juras e rindo quando combinamos de desligar juntos e não desligamos o telefone.

É assim o amor.
E, enquanto ainda formos poesia, melodia ou harmonia, assim será.
Será para sempre.
E, ao fim da tua eternidade (e digo tua porque fatos são fatos), terá sido eterno enquanto foi.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Arcano sem-número

Algumas achavam que ele era um bobo da corte, sempre pronto para debochar de quem passasse. Outros, por sua vez, achavam – e mais corretamente – que ele era só um louco. Louco. Mas eles não reparavam que, justamente por ser louco, esse tipo tinha uma visão ampla da realidade.
Ele chegou, trôpego porém estranhamente compenetrado. A vila toda, uma espécie de Vaticano com cinqüenta habitantes, fingiu não tê-lo visto, por mais que ele chamasse a atenção de todos com seus olhinhos pequenos, os óculos espalhafatosos e os sinos pendurados na roupa.
Subiu no banco e pôs-se a gritar:
- Oh, moças que têm ódio no coração! Busquem o amor, sempre!
As tais moças pararam para ouvi-lo por um instante.
- O ódio é transgressão, caras! Pensem também que se alguém lhes causa tais sentimentos, é porque vocês permitiram.
O Louco lacrimejava, como se achasse a situação inaceitável. Já a platéia de donzelas estava estática, como se tivessem absorvido a idéia. Estavam chocadas, mas não felizes.
Num salto, o Louco pôs-se a pensar. Continuou seu monólogo, por mais que tivesse notado a reação da platéia.
- O que mais me intriga é o ódio pelos homens honestos. Ora, afinal, são homens honestos! Não enganaram a vocês, em momento algum. Se hoje estão com outra pessoa, é porque nunca lhe prometeram nada. Se hoje estão com outra pessoa é por questão de afinidade! Sejam altruístas, desejem-lhes luz e amor, e depois superem a perda. E fiquem tranqüilas, porque, como me disse uma senhora de olhos puxados e pulseiras de Bangladesh, as pedras se encontram. Para quê nutrir tal sentimento como ódio por alguém que teve papel especial e lisonjeiro em suas vidas, ou para quê nutrir ódio de uma criança, simplesmente?
O Louco ria, agora.
- É mais do que fácil abster-se da culpa pela própria entrega e vulnerabilidade, não é? Só não é mais fácil que iludir-se, achando que iria curá-lo de outra pessoa, ou achando que viria a partilhar uma eternidade com o Homem Honesto que, com tremenda sinceridade, sempre deixou claro que não seria o caso!
A platéia, agora, borbulhava de raiva. Havia sido forçada a encarar a realidade, mas pôr um pano sobre os olhos era tão mais simples...
- Cegas! Todas cegas! – exclamou o Louco.
E, do mesmo jeito que entrou, saiu. Cantarolava:
- “Eu sou rapaz direito, fui escolhido pela menina mais bonita”...

domingo, 7 de novembro de 2010

Indo para o banho, tirou a roupa, fechou os olhos e prendeu a respiração. Não queria olhar pra baixo - olhar pra baixo lhe dava dimensão do tamanho da queda, e ela sempre teve medo de altura.
Entrou no banho, esperou até a água escaldante cair-lhe sobre os cabelos e tudo evaporou junto com o líquido. Brincou com o sabonete em suas mãos, até que visse espuma branca e soprasse bolhas.


Afinal, o que seria de um peixe sem aquelas sessões de meia hora dentro daquele cubículo abafado?

terça-feira, 2 de novembro de 2010


"Vou te ensinar um pouco mais sobre o zodíaco.
O primeiro signo é áries
". E acariciou-lhe o rosto e os cabelos.
"Depois, vemos touro." Beijou-lhe a boca e mordeu-lhe o pescoço.
"Em terceiro, gêmeos". Segurou-lhe as mãos com força, com tanta força que achava que nunca mais conseguiria soltar.
"Câncer." Soltou uma das mãos do rapaz e acariciou-lhe o peito.
"Leão". Massageou suas costas por alguns segundos.
"Virgem". Alisou sua barriga com um sorriso de orelha a orelha, como que se fosse uma oração para que seu intestino fizesse corretamente o trabalho de filtrar somente as coisas boas para o corpo dele.
"Libra". Descansou as mãos sobre a região lombar dele.
"Escorpião". Muito de leve, roçou os dedos no centro do corpo amando.
"Sagitário". Apertou-lhe as coxas, com um sorriso travesso.
"Capricórnio". Ela, agora, estava agachada. Mordia-lhe os joelhos.
"Aquário". Segurou suas pernas com muita força.
"E, por fim, peixes".

Terminou a noite beijando-lhe os pés.

sábado, 30 de outubro de 2010

Golden Slumbers/Carry That Weight/The End

Brincando de doceira hoje, inventei de te dar meus brigadeiros na boca. Você olhou para mim com a sua cara de cão sem dono e pediu beijos. E fui alternando - um brigadeiro na boca, um beijo na boca. Um brigadeiro para mim, um beijo de chocolate pra você.
O que mais gosto nas nossas conversas é que, depois de cinco minutos com nós dois nos derretendo com a voz um do outro, começamos a falar em prosa.

E aí eu quero te beijar.

Meia dúzia de palavras bonitas fazem com que eu não queira tomar meia dúzia de comprimidos por segundo.

Cansado, ele arrancou seu pulso do meu braço para conseguir gesticular melhor. Eu sabia que estávamos no meio de uma briga, mas não pude deixar de sorrir.

Era meu namorado com ascendente em gêmeos, só meu...

domingo, 24 de outubro de 2010

Um Pouco de Cada (I)

A menina dos olhos profundos tem o nome parecido com uma música da Legião Urbana. Usa vários anéis, porque seu Beatle favorito é Ringo Starr. Solta os cabelos negros e deixa que caiam sobre os ombros, me dando uma imensa vontade de tocá-los. Não se equilibra bem num salto alto, mas arranca suspiros de ambos os lados quando se enfia em um tomara-que-caia preto, leve e solto.
A menina das mãos bonitas gosta de falar, e estuda misticismo. Gosta de música, e pode ficar louca e procurar um analista, tamanha seria sua tristeza - mas isso só me dá mais vontade de vê-la nua, despida de todas as suas máscaras, no divã.
A menina do sorriso lindo me deixa curiosa quando futrica em sua bolsa amarela, e me deixa aliviada ao curar minhas insônias homéricas. A menina dos óculos de armação preta me desarma ao me revelar seus fetiches mais íntimos e seus carmas mais profundos. Fala-me sobre nomes e signos que traumatizaram-na, e também sobre quem a fez feliz. Ao reclamar - de cansaço ou falta de grana -, me deixa com uma vontade de massagear suas costas. Desejos platônicos que nunca serão realizados, por um lado. E desejos possíveis, por outro, porque somos dois. II.
Duas.
A menina inalcançável me faz de boba, porque invento desculpas para pegar nas suas mãos.
Nossas palmas são parecidas; nossas linhas têm o mesmo comprimento, mas não são cruzadas.

Eu acho que é isso que está escrito.

sábado, 9 de outubro de 2010

Anatomia Astrológica

No início do meu estudo sobre astrologia, comecei a ler sobre anatomia astrológica. Cada signo tem relação com uma parte específica do corpo; Áries com a cabeça e rosto; touro com a boca e garganta; gêmeos com as mãos e braços; etc. Daí li que peixes estava ligado aos pés.
"Ora! Como assim? Uma falha na minha religião?", pensei. Meus pés são feios, descuidados, dedos desproporcionais. As solas são desgastadas e sujas, porque estou sempre andando descalça pela grama ou pelo asfalto. Sempre achei estranho gente que tem fetiches com pés (devido a minha imensa capacidade de me apaixonar por rapazes com gêmeos em algum ponto importante do mapa astral, sempre preferi as mãos). Tudo bem, astrologia continuava fazendo sentido e sendo um estudo interessante; eu só era uma pisciana desligada aos pés, afinal. Fui estudando mais, e vi que os signos não estão ligados a somente uma, mas a mais ou menos três partes do corpo. Ah, tudo bem. Agora sim.
Mas é claro que ele tinha de aparecer para derrubar todas as minhas convicções.
Apoiou meus pés no seu colo e começou a massageá-los. Era como se eu tivesse descoberto uma nova zona erógena - meu Deus, como ninguém havia feito isso antes?!
Eu ia explodir de relaxamento. Minhas unhas estavam curtas e pintadas de vermelho, minhas solas estavam limpas e as mãos mágicas daquele rapaz esperto estavam apertando meus pés firme e calmamente. Pendi a cabeça para trás e sorri longamente. Aproveitei cada cutucão.
Olhei no fundo dos olhos dele, e percebi seu desejo de beijar meus pés; levá-los à boca e me derreter.
Um gênio, simplesmente.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Canino

Hoje eu estava na janela, olhando os carros e a paisagem, quando me peguei pensando em você.
Olhei para o meu ombro e peguei um punhado de cabelos que havia caído ali.
Soprei-os para fora da janela e encarreguei as fadas de levarem-nos até a sua casa. Têm o meu cheiro - você os reconheceria.
(Espero que tenham chegado...)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Perfume das Salamandras

As fadas foram até a minha orelha com um perfume doce e marcante. Dedilharam a melodia dos ventos para mim e, quando resolvi olhar para elas, vi uma chuva de violetas, lírios e Rosas, todas bem vivas e cintilantes.
Daí eu soube que tudo ficaria bem.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Algumas Verdades

Tu chegas no paraíso após minhas juras e pronúncias repetidas de amor. Teu corpo queima como o teu cigarro de aura roxa.
A liberdade não vale a pena se estou contigo. Ou sou tua ou não sou. Não fazemos as coisas pela metade. Sentimentos só valem a pena se forem intensos como os monges em chamas da tua imaginação.
Tudo em ti me completa; não acho que seria capaz de admirar fotografias, fragmentos e jeitos entusiasmados assim como admiro essas tuas partes.
{Eu};
sempre tua
{Você};
sempre meu
{O amor, o terreno e os dilúvios}
sempre nossos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Cumplicidade

Chego em casa de madrugada e entro no chuveiro para lavar seu cheiro e as lembranças dos passos descompassados que demos juntos da minha pele.
Deito-me na cama, cansada porém eufórica, e lembro da graça que você é por ter nascido com o terceiro signo no ascendente, fazendo tuas mãos inquietas circularem no ar. Tua voz sonolenta, semelhante à tua voz excitada, me provocando eterna e simplesmente. A água do chuveiro que cai enquanto você ouve e todos os gêmeos que fizeram parte de um trio na hora do amor.
Você acha que sou uma grande provocadora e que eu faria um homem crescido chorar num tobogã, mas não é verdade.
A espera do dezembro frio está me matando; anseio o momento em que vou fincar, novamente, minhas presas nos seus ombros.

Um dia é da caçadora, o outro também.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A Ovelha e o Lobo

A ovelha entra na toca do lobo. Não enxerga muito bem, com a escuridão que faz lá dentro. Esbarra em alguma coisa que se quebra - é uma garrafa. Ela não poderia saber que, antes de se despedaçar em mil pedacinhos, o recipiente levava escrito de um lado "amor" e do outro "infelicidades da vida". Da garrafa sai um líquido que tem cheiro de proibido e aspecto de Afrodite, mas a ovelha, lambendo o chão, o toma mesmo assim.
Quando acorda, o lobo está fitando-a incessantemente. A ovelha não entende e nem sabe como, mas sente como se estivesse pronta para sacrificar-se e a doar-se para o lobo - e, conhecendo a natureza de ovelhas e lobos, provavelmente é o que acontecerá.

Passa-se um tempo. O lobo, uma espécie ferina e sem-matilha, convive com a ovelha, dócil como sempre fora. O lobo dá abrigo e deixa que a ovelha saia para comer e volte para a toca.
Não se sabe quanto tempo os bichos ficaram assim, mas, numa noite, o lobo esperou até que a ovelha ficasse cega de sono, afundou o focinho sobre o peito revestido de lã e, num impulso facilmente concebido, arrancou o coração da ovelha fora.
Com o órgão na boca, deu meia volta e deixou um corpo fraco e suplicante na penumbra da toca.

domingo, 5 de setembro de 2010

Seca

Caminhando, chego na árvore sem folhas por causa dos cento e um dias sem chuva. Minha melhor amiga de troncos e galhos retorcidos, que nem a gente aprende nos livros de Geografia que falam sobre o cerrado.
Sento no tronco; "prazer, sei que você não está me reconhecendo. Sou a Srta. Nostálgica, lembra-se de mim? Não? Acho que da última vez me apresentei como srta. Medrosa".
Jogo-me no chão. De pernas cruzadas, amaldiçôo a chuva que não cai e começo a quebrar as folhas secas que estão espalhadas pelo terreno avermelhado. Faço um paralelo entre as folhas e o meu coração.
Com o mesmo estilete que fez meu pulso arder e sangrar na noite anterior enquanto um tango soava no quarto, marquei nossas iniciais no tronco da árvore, lembrando-me sempre que amores de verdade deixam marcas.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A Orla

            De mãos dadas com ela na praia, ele chorava. Ela, aflita e sem saber o que falar, jogou-se nos braços dele e enxugou-lhe as lágrimas.
            As primeiras palavras foram dele:
            - Você vai encontrar alguém mais legal e menos chato e ciumento do que eu.
            - Não vou, porque essa pessoa não existe.
           - Existe, sim.
            - Mas foi você que eu escolhi. Não quero mais ninguém.
            - Eu não quero que você canse de mim. E você já está cansando.
            - Não estou. “Eu te amo sempre e para sempre”, lembra?
            Ele estava parando de chorar.
            - Ei, amor, eu gosto de você. Só de você, para sempre, se você quiser.
            - Eu vou parar de ser assim.
            - Não, você não vai. É assim o cara pelo qual eu me apaixonei, e você não vai, quer e nem consegue mudar a sua essência. Não fica mais assim; promete?
            - Prometo.
            - Acredita em mim?
            - Acredito.
            Mas ela sabia que não seria assim. Ele teria suas crises de novo, assim como ela. Ela teria de consolá-lo e cuidar dele mais vezes, e dizer-lhe que estava tudo bem. Sorriu ao pensar nisso – sentiu-se súbita e inexplicavelmente feliz ao pensar nas coisas dessa forma. Seria ele, o cara que ela escolheu, com ela – sempre.
            Era assim o amor.

sábado, 7 de agosto de 2010

Ensaio Sobre o Amor

Como pode um adulto sinceramente acreditar que um jovem adolescente não é capaz de amar?
Digo isso porque nós, a juventude, somos movidos por paixão simples e pura, e temos uma capacidade de amar que é deveras mais sincera que a capacidade adulta em o fazer.
- Diálogo I entre jovem e adulto –
Jovem: Estou amando.
Adulto: Oh, cale a boca, você é novo demais para saber o que é amor. O amor é cheio de dívidas, perdão, concessão e coisas desse tipo. O amor é difícil. Se amor, para você, é algo bom – esqueça, porque isso que você está sentindo não é amor. Amor é outra coisa.
---
Sendo que nós simplesmente sentimos um mar de coisas infinitas que acabam (ou não!) logo ali, do jeito mais puro que alguém pode sentir.
Nosso amor é infinito, incondicional, irredutível, inigualável, irreverente e, de longe, é a coisa mais importante para nós. Amar e se entregar, como amar e ser amado, fazem parte dos nossos anseios e desejos mais profundos.
E, se você tem mais de dezoito anos, pode até desdenhar de nós e achar que não sabemos de nada. Mas agüente a nossa revanche – vamos rotular os adultos de sem-coração, sem-sal e vamos sair gritando que vocês não nos levam a sério.
Agüentem a nossa revanche sem sair por aí dizendo que adolescente é um bicho chato e mal-humorado, porque se somos assim, a culpa é de vocês.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Incondicional

Incondicional

que transcede quaisquer noções da sociedade que dizem respeito à cor, raça, idades, localização e sexo. Tridimensional, disposto a se propagar em todas as direções. Intenso. Preciso como a vida e como a água. Vibratório como um tambor que ressoa a 120 decibéis.

É assim o meu amor, e ele é teu.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Gente

que acena para o avião que voa ao longe, como se fosse um sonho tão bonito quanto distante. Gente malandra, que não poupa um assobio para a mulata que passa de vestido. Um pessoal que cria galinha, cabrito, cachorro e gato dentro de casa e ainda dá um jeito de deixar todos os bichanos felizes. Gente que ouve o forrozinho gostoso demais da conta dentro da casa que deixa ver as telhas, e que não se importa se está alto demais. Gente que se suja de terra e come arroz com feijão todo dia, que deita na rede e anda com todas as canas da plantação no ombro. Gente que pendura roupa molhada no fio do lado de fora da casa e não se preocupa se os outros virem, porque os outros fazem o mesmo. Quase-gente que carrega doze quilos de carvão nas costas, volta para casa e vê a mãe lavando roupa no balde e o pai metendo a enxada nessa terra do serão feio e seco, pra depois a família toda ir pra missa eu vai acontecer na igrejinha do meio da praça, aquela mesma, que tá com a pintura amarela descascando e que tem o sino enferrujado bem no alto. Gente que toma banho na cachoeira, olha pro alto e vê aquele mesmo avião e acena pra outra gente, uma gente diferente que não sabe nem o que é sofrer por causa da chuva que não vem.
E mesmo assim eu não consigo ficar com raiva, porque é tanta beleza nesse mundão lindo de meu Deus...
Porto de Galinhas, 17 de julho de 2010.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

À Flor da Pele

Ela foi explorar aquele prédio pequeno no qual caíra de pára-quedas e acabou achando uma sacada. Estava chuviscando.
Olhou para o lado e, enciumada, viu que um homem de jeans e blusa laranja fumando. Portanto, a sacada não podia ser considerada sua descoberta. Os tocos de cigarros no chão comprovavam isso.
Tirou da bolsa os manuscritos e os releu. Essa segunda vez pareceu mais uma facada no peito do que qualquer outra coisa.
Acendeu seu cigarro com aroma de maçãs. Estava escurecendo, mas ela decidiu que tinha que contar a ele – logo, saiu correndo até a sua casa.
Não era tão longe assim. Cortou caminho pelo gramado – descalçou-se.
Tocou a campainha da casa gótica. 19:09.
Ele abriu a porta, ela entrou. Ele deu-lhe uma toalha, ela se secou e acendeu outro cigarro.
Tomou coragem e resolveu contá-lo sobre o que havia sentido ao ler seus manuscritos.
Soltou a fumaça e apagou o cigarro. Ainda estava tremendo.
- Não suporto mais ler o que você escreve, porque admiro demais as suas musas barra personagens, e sei que você não as escreveu pensando em mim.
- Amor, você me faz sentir do mesmo jeito. Toda vez que leio um conto seu, penso: “porra, mas isso foi fantástico!”.
- Mas você não fica enciumado.
- Fiquei com o conto das cerejas, lembra?
- Foi só uma vez, com um conto só.
Pausa. Ela retomou a fala.
- Sinto ciúmes da sua literatura, primeiro porque escrevo cada vez mais para você enquanto você dá cada vez mais espaço para outras mulheres na sua escrita. E segundo porque nunca imaginei que eu namoraria alguém que escreve tão melhor que eu. Por outro lado, não consigo parar de te ler, simplesmente porque você é bom nisso.
Ele riu diante das afirmações que considerava absurdas e da arrogância que considerava deliciosa.

***

Horas mais tarde, depois de alguns capuccinos que ela fez e de um dilúvio n’A Cidade – que antes era só uma porção de gotas chuviscadas -, ele falou:

- Então vou escrever um conto sobre você.
Ela, sorrindo, olhou para ele com a mesma cara com a qual olharia para o Paul McCartney. Depois de instantes, dissuadiu-se:
- Mas, se for sobre mim, eu não vou admirar a personagem como admiro as suas outras, entende?

***

Era assim o amor.

***

Definitivamente para Rodrigo Correia.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cold December

Estar apaixonada é ouvir a mesma música um milhão de vezes e ainda assim achar que não precisa de nenhuma outra.

Porto de Galinhas, 17 de julho de 2010.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Happiness Is a Warm Gun

Ficar sozinha ouvindo música que outras pessoas escreveram, deitar na grama, chupar tangerina, reconhecer que se começa a chover o melhor a fazer é dançar na chuva.

Comer chocolate, sorrir de paixão, brigar e fazer as pazes, chorar de soluçar, lambuzar o rosto com o recheio de um bolinho.
Ver filmes, dançar sozinha na frente do espelho, suspirar pelo baixista, contar segredos, querer dormir a tarde inteira, te ligar a cobrar de madrugada. Abraço de tamanduá, beijos com mordidas.

{Pequenas noções de felicidade que parece que só eu tenho}.


P.S.: Viajarei, e passarei dez dias sem postar. Ou não. Esse blog é uma surpresa! (Ou não).

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mais Estranho que a Ficção

"O telefonema pegou-a de surpresa. Atendeu com impaciência, os olhos presos ao livro que tinha em mãos, uma história policial que não conseguia parar de ler. Era bom estar sozinha, lendo um livro de suspense numa noite de ventania. O sábado já estava quase no fim e ela ali, presa àquelas páginas. O som do telefone era uma intromissão, um estorvo. Atendeu a contragosto."*
- Alô?
- Boa noite, é do telefone da Cecília Marques?
- Sou eu - disse ela, tentando identificar a voz.
- Aqui é o chefe da polícia. Cecília, me diga: o nome Priscila Coluccini é familiar para você?
- É, sim. - Ela começou a sentir medo com a menção do nome da sua melhor amiga - Nos conhecemos há oito anos. Aconteceu algo?
- Sua amiga acabou de ser encontrada morta. Ela não estava com a identidade, mas seu número estava entre os favoritos do celular dela.
Silêncio. Cecília sentia a sensação estranha de dèja vú.
- Precisamos de você para nos ajudar a resolver este caso.
- Claro. Faça as perguntas que quiser.
- Você precisa vir até aqui.
- Mas... por quê?
- Se nós a virmos pessoalmente, saberemos se você mentir.
Cecília ficou ofendida com a idéia, mas pegou o endereço do lugar e em quinze minutos estava lá.
Encontrou-se com o chefe da polícia, mas toda frase que ele falava e também todas as respostas que ela davam faziam com que Cecília se sentisse familiarizada com a situação nunca vivida.
Respondeu à perguntas banais que soube responder com facilidade; "Não, Priscila não era depressiva e não cometeria suicídio sem deixar uma carta. Ela não era bem-vista por todos em seu trabalho. Sim, ela costumava freqüentar o local do crime."
Algum tempo depois de interrogatório, Cecília foi liberada.
Ela estava dirigindo a caminho de casa com a janela aberta quando percebeu. Estava tão atordoada com a morte da amiga que não havia se tocado de que todas as cenas que tinham acontecido naquela noite aconteceram também no romance policial que lia mais cedo.
Ela ficou atônita ao constatar que era uma personagem secundária, que aparecera na história logo no início, para dar continuidade a uma série de assassinatos.
Cecília seria o segundo caso de homicídio, que aconteceu logo nas primeiras cinqüenta páginas do livro.
Ela tinha sua história escrita por alguém. Era escrava da literatura alheia - e, pessoalmente, achou a idéia um saco.
Foi consumida por um desejo louco de chegar em casa, terminar o livro para identificar o assassino e o revelar para a polícia.
Não deu tempo. Antes disso, dois tiros adentraram o carro pela janela aberta e acertaram Cecília na cabeça.

*: O início do texto é da Heloísa Seixas, do livro Contos Mínimos.

Diálogo I entre II amigas

- Então, eu estou apaixonada por ele.
Pausa.
- Não, você não está.
- Por que eu não estaria?
- Você acabou de terminar um namoro.
- Já fazem duas semanas.
- fazem duas semanas.
- Ok, eu não escolhi isso. Things just happen.
- Mas você... Desculpe se isso te magoar, mas você era louca pelo seu ex. Você não pode simplesmente estar gostando de outro agora. Deve ser só um caso típico de transferência.
Nova pausa.
- Hã?
- Em termos banais e não-psiquiátricos, transferência é quando você transfere seu sentimento para uma segunda pessoa.
- Besteira. Estou apaixonada.
- É? E ele sabe?
- Não. É platônico, por enquanto.
- Ai, eu sabia! Agora eu entendi porque você gosta - não, porque você acha que gosta - dele. Vocês conversam?
- Hmmmmm... Não muito.
- É por isso! Você não está apaixonada por ele! Você está apaixonada pela projeção dele que você fez! Você só diz gostar dele por causa da imagem de poeta-anarquista-boêmio-músico-intelectual que ele te passa!
- Bom, mas eu gosto, não gosto? Então pronto!
- Mas... E o seu ex?
- É um babaca.
- Sim, disso eu sei. Mas você gostava dele.
- Passado. Ele me destruiu, e agora gosto de outro. Simples assim.
- Mas, querida, isso não faz sentido.
Do outro lado da linha, ela sorriu.
- Mas não tem que fazer sentido. O amor não tem sentido: o amor é o sentido!
Desligou.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Hiperflexível

A garota loura entrou no picadeiro dando cambalhotas. A platéia aplaudiu a ilustre contorcionista.
Ela levantou-se de um salto e sorriu.
Pegou a caixa do tamanho de um microondas e a mostrou no alto. Todos ficaram boquiabertos – “não creio que ela consegue fazer isso!”.
Pôs a caixa no chão, saiu do palco por uns instantes para logo voltar fazendo bananeiras com as pernas sob os ombros.
Aplausos.
Rolou para dentro da caixa. Com as pernas cruzadas, os braços amarrados em si e o tronco inclinado para trás, fazendo-a parecer uma tábua esquisita, ela sumiu dentro da caixa.
Com a mesma facilidade com a qual entrou, saiu da caixa.
Pulando, foi exibir-se ao público. “Olhem como meu braço forma um ângulo de 360°! E como meus dedos encostam no dorso da minha mão. Vejam! – consigo fazer a ponta dos meus pés encostarem na cabeça! Agora, respeitável público, atenção. Vejam o que eu faço com os panos que saem do teto”.
Rapidamente enroscou-se no pano vermelho, parecendo um pequeno macaquinho. Pôs-se de cabeça para baixo em um pequeno movimento muscular. Colocou as mãos nas costas, cruzou as pernas – ramo de planta venenosa parasitando um vegetal saudável. Subiu até finalmente alcançar o topo da corda – demorou muito para pôr os pés no chão.
Contorcia-se.

domingo, 11 de julho de 2010

Telegrama

- É, então é isso. Eu vou te deixar em paz, sem mais ligações a cobrar de madrugada ou bem no meio do seu almoço. Sabe, olha como vai ser bom... Ninguém nunca mais vai te cobrar respostas que você nunca tem para as minhas mensagens.
- Você nunca mais me mandou uma mensagem.
- Porque você não responde – sorriu engolindo as lágrimas, muito triste.
Pausa. Ela recomeçou.
- É... Enfim... Veja como um favor. Agora você pode passar mais tempo com suas amigas, namoradas e todo mundo que você gosta sem eu para reclamar de ciúmes.
Houve uma pausa.
- Desculpe ter interrompido seus estudos – na verdade, queria dizer “desculpa ter atrapalhado a sua vida” -. Já vou.
- Mas e as vasilhas?
- Pode ficar para a sua coleção. Come os biscoitos, porque são os que você gosta.


Saiu da casa e agradeceu por nunca mais ter que ver o cachorro que latia. Despediu-se das ondulações do telhado.
Chorava muito, mas sabia porque estava fazendo isso. Por todas as vezes que havia o convidado para um cinema e ele havia dito “pode ser”; por todas as vezes que ela tinha aberto o seu coração enquanto os conselhos dele eram de uma frieza sobrenatural. Estava fazendo aquilo por todas as vezes que havia mandado uma mensagem de “dorme bem” no celular e não havia recebido resposta. Por todas as vezes que sentiu o corpo estremecer de alegria por estar com ele e não viu a mesma reação. Por todos os “acho que sim” que ela ouviu enquanto precisava ter ouvido “com certeza!”. Por todos os “eu te amo” não ditos, por todos os textos que ela suplicou para ele ler de madrugada enquanto ele alegava algum motivo banal para se esquivar da tarefa. Estava fazendo aquilo porque ela precisava de alguém e queria que ele fosse esse alguém – enquanto ele fazia questão de parecer não significar ninguém.

Alguns meses a partir de agora, e o Gol da cor dos olhos dela buzinaria embaixo do prédio de seis andares no qual ela morava.
- O que você está fazendo aqui?
- Não agüento mais o chororô lá em casa. Vem.
Chorava muito, mas sabia porque estava fazendo isso. Estava fazendo aquilo porque “ohana” quer dizer família, e família quer dizer nunca abandonar ou esquecer.

(Para João Victor Gusmão).

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Queda

Ela olhou para baixo do sétimo andar. Sentiu medo da altura, mas, pela primeira vez, pular não pareceu uma má idéia.
Ficou lá, parada, com uma única pergunta:

"O que acontece se eu me jogar?"

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cidade Maravilha

Rolava na areia sorrindo de boba. Há tempos não sentia tão gostosa sensação quanto a que os grãos de areia provocavam em seu corpo.
Ventava.
Levantou-se da toalha e correu até o mar, deixando a espuma gelada e branca levá-la pelos tornozelos.
Seus pés faziam amor com a água.

Percebeu-se feliz.


Rio de Janeiro, 6 de julho de 2010.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A Busca Pelo Sexo

Ana estava estirada no sofá, tomando um café. Parecia frustrada com o rumo que as coisas {não} haviam tomado recentemente.
Tinha 20 anos e era virgem – e não gostava da idéia. Tinha ascendente em escorpião, mas na verdade era capricorniana. Evidente que seu mapa astral era o problema.
Aos 18, estava buscando nos contos de desespero achar o amor da sua vida. Resolveu mudar seu estereótipo de boazinha que nunca teve um namorado. Fez as malas, comprou uma passagem só de ida pela Europa e lá se foi.

Tudo começou quando entrou na faculdade. Passou a freqüentar os bares com a turma feminina, em meio à boemia, as conversas sempre acabavam girando em torno de uma só coisa: homens.
Ela ficava sempre como ouvinte e, raramente, quando pediam sua opinião, inventava um ou outro detalhe visto nos filmes do Almodóvar.

Passou um ano na Europa. Teve uma estadia fantástica nos seis países em que ficou. Conheceu três caras que poderiam ter sido o seu primeiro.
O primeiro possível candidato a desvirginá-la era Calisto, da Grécia. Calisto era bonito; fazia Ana rir; levou-a para conhecer a parte histórica de Atenas. Ana estava adorando tudo: era o primeiro país no qual fora e parecia estar perto do seu objetivo.
Um mês e meio depois de flertes e beijos escondidos, Ana foi à casa de Calisto – e descobriu que ele tinha um defeito que ela não poderia curar.
Chamava-se Sofia.
Ela entrou repentinamente no quarto enquanto Calisto estava com as mãos quentes nas zonas úmidas de Ana. Começou a proferir xingamentos gregos, mas quando começou a agredir o marido com uma vassoura, Ana achou melhor ir embora.

Foi para a Escócia 15 dias depois, e tudo que conseguiu lá foi ter certeza de que o monstro do Lago Ness não existia.
De lá foi para a França – onde tudo que conseguiu foi trocar beijos um tal de Jean. Ou seria Jacques? Não se lembrava mais; não acrescentara nada.
Quando foi para a Itália, estava desanimando. Foi quando, de repente, esbarrou com Fabrizio na frente da Torre de Pisa. Ele quebrou sua máquina fotográfica e pediu “perdono” mil vezes; convidou a máquina digital para um conserto e Ana para um jantar.
Não demorou mais de dez dias, e Ana foi convidada para a cama.
Despir. Tocar. Beijar.
E ele falhou na hora de penetrá-la.
Ana ficou decepcionada, mas manteve a calma e seguiu os conselhos das revistas femininas – manteve a calma, fez ele se deitar e deu-lhe alguns beijos. Fabrizio se trancou no banheiro por alguns minutos. Quando saiu, com os olhos vermelhos, pediu para que Ana saísse da casa.
Os dois nunca mais se viram.
Última parada: Inglaterra. Não muito diferente dos outros lugares: hotel bacana, gente bonita, vários pontos turísticos.
Foi em uma das boates londrinas onde Ana conheceu James. Ele era quinze anos mais velho que ela, separado e sem filhos. Executivo bem-sucedido.
Naquela mesma noite, Ana foi para o apartamento dele.
O mesmo ritual de despir-tocar-beijar aconteceu. Mas dessa vez, Ana chegou a ser penetrada.
E doeu tanto que ela não foi até o final. Permaneceu virgem e resolveu voltar para casa.
Um ano depois, e ela estava estirada no sofá tomando café. Algum mentecapto assoprava vuvuzelas às 21:27 daquele sábado. Sentiu vontade de externar sua raiva por aquela buzina estúpida vendo algo bem violento e cheio de sangue com vingança.
Kill Bill.
Discou o número da locadora que entregava filmes. Pediu os II Volumes de Kill Bill para rever.
- Em 15 minutos vamos estar entregando, senhora.
- Estaremos. E sou senhorita.
Pausa.
- Em 15 minutos estaremos entregando, senhorita.
- Bem melhor.
Terminou o café, levou a xícara para a pia e olhou-se no espelho: cabelo solto, shortinho jeans, blusa de banda (The Beatles) e meias. Soprou a franja para cima e foi atender a porta.
O entregador dos filmes era ligeiramente alto e tinha a pele muito branca. Usava barba e seus óculos vintage eram vermelhos.
Ele olhou para a blusa dela.
- É claro que a pessoa que alugou Kill Bill dezessete vezes em dois anos é uma fã dos Beatles.
Ana sorriu, boba.
- Quer entrar para um café?
Ele assentiu com um sorriso à Mona Lisa.
E, naquela noite, Ana perdeu sua virgindade enquanto o estéreo berrava Helter Skelter.

(Conto baseado na idéia do Gustavo Haeser. Obrigada pela ajudinha extra à Bruna Calland e ao Henrique Gattermeyer).

"Peixes, logo vi, regente Netuno, ah Netuno, cuidado com as ilusões mocinha, profundas e enganosas como o mar que é teu elemento."
(Caio Fernando Abreu)

sábado, 26 de junho de 2010

Trechinhos

Ela acordou atrasada. Entrou no banho e amaldiçoou o despertador que não tocou. Tomou sua ducha, frustrada por não poder conversar com seu chuveirinho por uns minutos.
Passou maquiagem, enxugou o corpo e vestiu-se para a sua reunião. Estava no mundo da lua.

Ao entrar no elevador, aquele rapaz bonitinho do andar de cima abriu a porta para ela.




E o mundo começou a girar.


E mesmo que você tenha chegado à conclusão que eu sou uma filha da puta arrogante, sua foto vai continuar sendo o plano de fundo do meu celular.


Porque te amo.

Renata

O celular dele começou a tocar bem alto, quebrando o silêncio da agradável madrugada.
Ele esfregou os olhos e olhou para o visor que piscava freneticamente. Lia-se “Renata”.
Atendeu, sonolento.
- Oi – e bocejou.
- Oi, querido. Você está por aí?
- Estou.
- OK, abra a porta em cinco minutos.
- Mas... Eu estou de pijama.
Ela riu.
- Já te vi com muito menos que isso. Mas tudo bem, abra em quinze minutos se preferir.
- Prefiro.
Desligaram, e ele ficou deitado por mais um tempo. Levantou-se e enxaguou o rosto com água fria. Vestiu um jeans e uma blusa qualquer.
Ligou a cafeteira, quando a campainha tocou.
Renata estava maravilhosa, porém completamente encharcada. A maquiagem havia escorrido, fazendo surgir duas faixas pretas sob os olhos dela.
Beijaram-se.
- Desculpe ter deixado você se molhar. Não sabia que estava chovendo.
- Não faz mal. Posso entrar?
Ela entrou, e foi direto para a cozinha. Abriu a geladeira e foi logo se servindo de um pote de cerejas que estava lá.
Ele começou a rir descontroladamente.
- O que foi, Carlos?
- Então você me acordou às duas horas da manhã para roubar minhas cerejas. Sagaz.
Os traços delicados dela demonstravam vergonha.
- Não entendi o que você quis dizer.
- Ora, Renata. Você só vem aqui por dois motivos: ou você quer saciar sua vontade de cerejas ou você está carente e quer transar. Mas você nunca havia me acordado de madrugada para fazer um dos dois.
Renata sorriu.
- A gente pode fazer amor mais tarde.
- Não, Renata, hoje não. Estou cansado.
- Nem tente discutir comigo. Estarei te esperando no seu quarto em meia hora. Tome um banho, escove os dentes e fiquemos juntos até nascer o sol.
- Mas...
- Sem “mas”.
Ela entrou no quarto dele com a sua bolsa cheia de segredos. Ele suspirou e foi tomar seu banho.
Meia hora depois, ele voltou para o quarto.
Renata estava lá, nua e molhada de chuva.
Carlos se deitou sobre ela e beijou as sete cerejas que ela havia tatuado em sete partes diferentes do corpo – ombro, tornozelo, pulso, atrás da orelha esquerda, colo, barriga e nuca. Sete era o número da sorte de Renata; sete era o andar de Carlos; era o mês em que eles se conheceram; sete era o dia do aniversário de Renata; era o número de anos que os dois se conheciam.

Naquela noite, Carlos pensou “estou perdido” sete vezes.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Formspring

Ela resolveu se declarar anonimamente. Foi ao Formspring.me dele e digitou:

"Você é lindo. Tudo em você me fascina, completamente. Seu mapa astral que fiz em segredo (tirando a lua em leão, mas podemos lidar com isso), os poemas que você constrói, seus cabelos completamente bagunçados, seu sorriso torto, os seus olhos limpos, seus músculos discretos. Sua personalidade, composta de autores brasileiros que você admira e de filmes franceses que você venera. Sua inteligência, sua beleza não tradicional, sua gargalhada. Tudo, tudo em você me encanta. Estou completa, platonica e perdidamente apaixonada por você".
Clicou em enviar - e percebeu que tinha esquecido de perguntar anonimamente.
"Merda".

domingo, 20 de junho de 2010

The Dark Side of the Rainbow

Ele estava fumando de novo. Prometera que iria parar, mas o vício lhe acompanhava desde os 17 anos. Agora ele já tinha 33, e a promessa de parar aos 20 tinha sido quebrada há tempos.
Estava vestido de palhaço; trabalhava no circo e percebia que não havia emprego mais medíocre, mas era o que era.
Já havia tirado a maquiagem tragicômica do rosto, então lhe restava uma barba por fazer, olheiras impressionantemente roxas e um olhar cansado. Tirou a bola vermelha que lhe cobria o nariz e o coçou. Olhou-se no espelho: estava se sentindo muito cansado. Arrancou a peruca de cachos vermelhos e bagunçou os cabelos desgrenhados.
Vestiu uma roupa normal e pôs-se a andar no escuro. Ao chegar em casa, limitou-se a tirar o cordão que continha suas quatro chaves prateadas. Durante o caminho, elas tilintavam no seu bolso. Ele não gostava disso – o barulho o irritava. As quatro chaves estavam presas ao cordão cinza. As duas maiores seriam idênticas se não fosse pelos números inscritos nas costas de cada uma. Outra era menor e quadrada, e a última e a menorzinha lembrava um cogumelo de caule avantajado.
Pegou a chave de número 611172 e abriu a porta da sua casa. Largou o material do circo em cima do sofá, colocou um hambúrguer no microondas. Esperou ficar pronto e foi comendo à casa de Lisbete Caulfield. Sabia que esse não era o seu verdadeiro nome, mas era assim que ela preferia e era assim que era conhecida na internet.
Pegou a chave de número 611241 e abriu o apartamento dela. Estava escuro e sem o menor sinal de vida. Os pais já haviam cremado o corpo da filha há uma tarde. Os dois sofriam muito ao pensar que sua filha, aparentemente normal, havia cometido suicídio.
Havia se matado com cicuta, para fazer uma homenagem sombria a Sócrates. Seu corpo, portanto, estava sereno quando fora encontrado – ela estava praticamente sorrindo à Mona Lisa. Estava em paz, por mais que tivesse agonizado antes de morrer, perdendo o controle das pernas.
A questão era por quê ela havia feito isso. Tinha 15 anos e já não era virgem, fumava seus baseados de vez em quando, estava sempre ouvindo Pink Floyd e tinha uma inteligência em exatas sobrenatural. “Por que uma adolescente que conhece o sexo, as drogas e o rock’n’roll gostaria de morrer?”.
Antes de tomar cicuta, deixou uma última mensagem em seu site de desafios matemáticos.
“Fiéis leitores,
Honrarei a Sócrates esta noite tomando do mesmo veneno que ele tomou. Comprei as flores em um estabelecimento qualquer, e com meus conhecimentos químicos não foi difícil extrair o veneno. Deixarei este site se perpetuar após a minha morte para que qualquer um que esteja interessado possa lê-lo.
Obrigada por terem me acompanhado até aqui.
Lisbete Caulfield.
P.S.: A única pessoa que pode descobrir a razão do meu suicídio usa o pseudônimo online de Holden Salander. Ele tem todas as chaves. Não o procurem.”
A verdade é que Lisbete Caulfield havia sido uma grande amiga de Holden Salander. A diferença de idade nunca havia atrapalhado – Lisbete era muito mais madura e sagaz que o próprio Holden.
Ele lera o texto de despedida – como ela havia pedido, ninguém o procurara.
“Ele tem as chaves”.
Pegou uma das duas chaves menores, entrou no quarto dela e sentou-se na cama. Pôs-se a relembrar: ela o vira vestido de palhaço na chuva e o convidou para ir à casa dela. Era linda, como uma adolescente pode ser. Ele aceitou o convite, e ela riu quando ele tirou a fantasia: “Você é um palhaço frustrado”, ela disse.
Os dois foram ao quarto dela. Tinha uma estante com no mínimo cem livros de literatura contemporânea. Não era segredo que ela gostasse de tramas bem boladas. A trilogia Millennium estava lá, ao lado de “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”. Tinha livros de bons autores, como Stephen King, Agatha Christie, Sidney Sheldon. Machado de Assis, Voltaire, Dan Brown, Saramago, Kafka, as irmãs Brontë, Virginia Woolf, Jane Austen e Anne Rice. Na parede, um pôster do LaVey; tinha uma coleção imensa de vinis escondidos no armário.
Naquela noite, ela lhe ofereceu um cigarro de maconha.
Tragaram e acabaram fazendo sexo a noite inteira. Era uma atração fatal, quase que um caso de vidas passadas. Depois disso, o sexo entre eles passou a ser freqüente, assim como as confissões. Ele fora o segundo homem com quem ela dormira, e ambos sabiam que Holden era muito melhor do que o primeiro cara dela. Nessa época, ela tinha quatorze anos e ele tinha trinta e dois.
Numa noite, ela lhe confessou a origem do seu pseudônimo: Lisbeth Salander, da trilogia Millennium, a fascinava. Holden Caulfield (O Apanhador no Campo de Centeio) tinha muito em comum com ela: Lisbete Caulfield.
Ele tornou-se Holden Salander na mesma noite, abandonando o pseudônimo feminino de Lilly Costello.
Lisbete tinha aprendido tudo que pôde sobre computação depois de ler “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”. Logo, Holden sabia que qualquer tentativa de invadir o computador dela seria em vão.
Tentou entrar no perfil do PC dela da forma mais banal possível: chutando a senha. Não era o nome de nenhum dos seus autores ou livros favoritos. Pegou a chave que tinha o formato de um cogumelo e abriu a gaveta de rascunhos dela. Vários papéis em branco; um deles tinha o nome dos sete pecados. Lembrou do filme que eles viram juntos, “Seven”. Sorriu triste. Viu os poucos DVDs que ela tinha, resolveu guardá-los de lembrança.
Viu suas contas matemáticas ainda não resolvidas e, no fundo da gaveta, achou o papel escrito: “Meet me in Mountak”.
O que era aquilo? Um rabisco indefinível em meio a papéis em branco? Saiu procurando o DVD que tinha essa frase, e achou. Colocou para rodar, e nele só havia a frase: “PINK FLOYD GRAVOU TRILHA SONORA”.
Ficou olhando incrédulo. Parecia ser um enigma, e não muito difícil de ser decifrado, mas ele não estava conseguindo pensar direito.
Dormiu.

Quando acordou, lembrou que Lisbete havia comentado com ele que se o álbum contemporâneo “The Dark Side of the Moon” fosse tocado simultaneamente enquanto o filme “O Mágico de Oz” fosse exibido, pareceria uma autêntica trilha sonora. Não demorou muito para descobrir que a senha do computador da garota era “dorothy”.
Quando finalmente acessou o computador de Lisbete, viu duas pastas: “Platonismo” era o título da primeira e “Para Holden” era a segunda.
Ele respirou fundo e abriu “Platonismo” primeiro. Haviam vários arquivos nela: contos, músicas românticas e poemas dele mesmo. Ele entendeu o propósito da pasta: guardar os arquivos de seus amores platônicos; arquivar coisas que ela queria que tivessem sido escritas para ela.
Sentiu os olhos úmidos.
Abriu a pasta “Para Holden”. Estava criptografada. Decifrou o código com ajuda de um programa da internet e pôs-se a ler.
“A Cidade, 30/04/2010
‘-Holden.
- Diga, meu bem.
- E se nós fossemos namorados?
Eu estava nua ao seu lado. Insegura e apreensiva. Você parou para pensar.
- Seus pais me odeiam.
- Foda-se. Não foi isso que eu perguntei.
- Lisbete... Não daria certo.
Fiquei completamente arrependida de ter iniciado aquela conversa.
- Você sabe que me linchariam em praça pública por estar namorando alguém 18 anos mais nova que eu.’
Comecei a chorar. Eu sei que você ficou surpreso, eu não queria ter chorado. Mas me senti completamente idiota por – sim! – ter me apaixonado por você. Obviamente, você só queria um relacionamento casualmente sexual, e eu lhe proporcionaria muito mais com as conversas que tínhamos.
Holden, naquela hora eu me odiei mais do que me oidiava. Detestei não ter dezoito anos, ou ao menos uma idade parecida com a sua para que você quisesse namorar comigo.
Eu chorava muito, você estava extremamente confuso e ficava me abraçando.
Pus as roupas e parei de chorar.
Você lembra disso?”
Ele interrompeu a leitura. Lembrava, claro que lembrava. E sentiu um remorso muito grande – foi a primeira vez que a viu tão sentimental; não sabia que tinha provocado tudo aquilo nela.
Voltou a ler.
“Além de tudo aquilo, a escola estava uma merda, você era meu único amigo, meus pais começavam a me odiar, eu me cortava às escondidas. Eu estava me sentindo uma pentelha arrogante adepta das idéias da Igreja de Satã. Uma completa filha da puta.
Tornei-me mais impessoal com você. Só trepávamos quando você tinha vontade, e eu praticamente não sentia mais tesão. Tinha vergonha do meu corpo adolescente.
Faz quase dois meses que isso aconteceu. Sei que você vai ficar triste, mas continue sua carreira no circo e seja feliz. Tá legal?
Sei também que se você me amasse, faria jus a mim e acabaria como Virginia Woolf. Não se preocupe com isso, mas vou acabar essa carta como ela acabou a dela:
‘Não acho que seja possível que duas pessoas sejam mais felizes do que nós fomos’.
Com amor,
L.”
Ele chorava muito.
Saiu da casa dela, trancou a porta e colocou pedras nos bolsos.
Acendeu seu último cigarro e se jogou no oceano.
Fizera jus à Lisbete se matando como Virginia Woolf. Agora, só restava encontrá-la em Mountak.
Esperava.


Hey, possíveis leitores... Há muito tempo não deixo um recado por aqui para quem me lê (e eu sei que vocês existem porque instalei o Google Analytics no blog, tenho uma média de mais ou menos 30 visitas diárias. Muito bom mesmo), então depois de muito tempo sem me comunicar, lá vai uma sessão dos antigos "Asteriscos Aleatórios" (que, sim, eu roubei descaradamente da Liliane Prata):

* As estatísticas do meu blog realmente me deixaram superfeliz. De verdade.
* Porra, o Saramago morreu! Como assim?
* Meus textos andam ficando cada vez mais fortes, então tudo que eu posso dizer é: se você é supersensível, não venha no meu blog. E acabou.
* Meus textos andam ficando cada vez mais fortes, e queria também ter a possibilidade de mudar totalmente o "padrão" que o blog está tendo e publicar ALÉM DOS CONTOS coisas mais leves.
* Ando carente de comentários. Leio todos, juro. Comentem!
* Vou acabar fazendo um post sobre o Google Analytics. É a oitava maravilha do mundo, e as coisas que vocês jogam no Google e que fazem vocês aparecerem aqui são cômicas. Sério.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Delírios d’A Cidade

A serpente preta e amarela se rastejava pel’A Cidade inquietamente. Encantava os moradores d’A Cidade com seu couro bonito, que era amarelo-cor-de-feno com preto-que-no-sol-virava-verde.
Não era perigosa, só ousada o suficiente para desafiar os moradores d’A Cidade a colocarem-na na boca e provarem do seu veneno.
A serpente observava tudo com seus olhos brancos e quase ocidentais. Pelo caminho, viu uma menina de unhas azuis lendo um livro e seu admirador secreto; viu uma bailarina dançando com um cantor; uma mulher com uma pimenta tatuada na virilha; uma prostituta ruiva e cenas mais simples como um homem comprando rosas para a sua esposa. Ela vira todos esses e os desafiara mostrando sua língua que se mexia sem cessar, como se dissesse: “provarei do teu veneno se quiseres provar do meu”.
Como fora parar n’A Cidade, no entanto, não sabia. Saíra de um cesto de um indiano que a forçava a esgueirar-se musicalmente para fora do cesto quando ele bem entendesse. Cansou-se, e rastejou até onde pôde fazê-lo.
Dentro d’A Cidade, acabou achando um verdadeiro apreciador de serpentes que era fascinado pela sua espécie.
Por fim, ela enrolou-se pelo corpo dele, e o penetrou com a boca. Provou do veneno dele e deu-lhe do seu.

“A insegurança não me ataca quando erro, e o teu momento passa a ser o meu instante”.

sábado, 5 de junho de 2010

Pequena

Estou sentado na praça onde tive minha vida irrevogavelmente alterada. Para me sentar, escolhi o mesmo banco onde estava sentado naquela tarde de junho, no momento em que a conheci.
Devia estar no início da juventude, com meus vinte e poucos anos. O ano certo não me vem à mente.
Eu era um jovem tímido na década de 80. Estava sentado no banco citado, vestindo a camiseta mais larga que tinha, da banda liderada por um pisciano depressivo que acabou se matando. Eu roia as minhas unhas, mania que demonstrava a minha infinita insegurança.
Ela se aproximou de mim; não peguei seu nome, por isso a chamarei carinhosamente de Pequena. A primeira coisa que ela disse foi surpreendente:
- Tire a mão da boca.
Olhei para a criatura lourinha e sardenta. Tinha imensos olhos azuis e curiosos.
Eu não soube respondê-la.
- Por favor, pare de roer as tuas unhas.
Tirei a mão da boca e não vi outra opção senão questioná-la.
- Por quê?
- Porque é terrível. De longe senti a tua insegurança, percebi metade dos teus medos.
Percebi, naquela hora, tanta firmeza e verdade na voz dela que até me arrepiei. Pequena definitivamente tinha um grande lado espiritual.
- Responda-me, garoto: quando você faz aniversário?
- Hoje – respondi.
Ela arregalou os olhos. Tentando ter tato, me disse:
- Você é o primeiro geminiano que eu conheço que passa o aniversário sozinha. A idéia deve te desagradar muito.
- Realmente, é desagradável passar um aniversário sozinho. Gosto de vir aqui para pensar, e o fiz.
- Quer um conselho?
“Não”.
- Diga.
- Converse com todos, faça amigos, ande descalço na grama, largue as drogas – mas mantenha o sexo e o rock’n’roll bem alto -, cheire incensos, pense que você é jovem e tem tudo pela frente quando quiser esquecer problemas. Esqueça os problemas! Leia muito, aprenda sobre tudo, descubra-se através do misticismo. E pare de roer as unhas – alem de conotar insegurança, é nojento.
Ela me pediu um abraço e saiu dançando-saltitando-andando.
Acabou que Pequena me fez voltar a sonhar e a gostar da vida, a acreditar nas pessoas. Nas coisas simples.
Fiz tudo que ela me recomendou e ainda mais: viajei pela Europa, mergulhei no mar, me apaixonei platonicamente e comprei uma tesoura de unhas para deixá-las sempre limpas e aparadas.
Voltei à praça hoje porque em casamento a mulher que será minha até o apocalipse.
Sei que é ela, e o sei porque logo no primeiro encontro ela falou que minhas mãos eram lindas, por conta das minhas unhas limpas e bem cortadas.
Nunca mais vi Pequena, mas devo a minha condição de atual e eterna felicidade à ela.
(Para a Tia Paulinha).

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ruiva Suicida

“Ela resolveu liberar seus instintos cruéis
Ao cair da noite, em quartos de motéis
Era mais que conhecida pelas ruas da cidade
Uma ruiva suicida travestida de beldade
Chicote e salto alto pisando corações infiéis
Foi eleita a padroeira invertida de insanos bordéis
Um cartaz de procurada pelas ruas da cidade
Uma ruiva suicida paria da sociedade”.

Ruiva Suicida
Christina se cansou de ser maltratada, incompreendida e vilipendiada. Olhou-se no espelho, viu o cabelo laranja e as sardas que a davam uma aparência de garota.
Rebelou-se, e o que veio a seguir foi um completo ritual.
Pegou a tinta vermelho-sangue e deixou agir no cabelo. Lavou e viu as madeixas molhadas escorrendo pelos ombros.
A partir daquele momento, Christina deixou de ser só uma menina. Pintou os cabelos de sangue, e, automaticamente, sentiu-se mais poderosa. Agora voluptuosa, sentiu-se mulher. Não era mais Christina; precisava de um novo nome. “A Ruiva Suicida” logo lhe veio à cabeça. E lhe agradou.
Maquiou a pele com base, pó e corretivo. Escondeu as sardas. Pintou os olhos, deixando a negritude deles mais fria do que nunca. Nos lábios, a cor dos seus cabelos.
Quando olhou pela janela, a noite tinha caído, envolvendo a cidade com um véu negro salpicado de estrelas.
Foi dar o troco aos in felizes que haviam partido o coração dela. Nua em frente ao espelho, ela olhou bem para os seios que nunca haviam sido tocados ou beijados com amor. Nua em frente ao espelho, Ruiva Suicida perfumou-se. Vestiu sua gargantilha preta, e depois seu espartilho-lingerie. Calça de couro passou a revestir a sua pele, e por cima dos ombros cor de leite, caiu-lhe um bolero felpudo.
Olhou com a alma para o fundo da sua sapateira e escolheu, com minúcia, o sapato que usaria. Um salto-alto vermelho. Vermelho, cor da fruta proibida que Eva comera. Vermelho, cor do sangue que ela faria jorrar naquela noite. E, agora, vermelho, cor dos seus cabelos.
Contemplou suas unhas. Estavam pintadas de branco. Foi até o banheiro, pegou um chumaço de algodão e um vidro de acetona que estavam sobre a pia. Limpou as unhas compridas e tentou se lembrar aonde havia colocado o frasco de “Gabriela” que ganhara anos antes. Estava na gaveta.
Pintou as unhas com perfeição, tirou de debaixo da cama seu chicote dos tempos de circo. Saiu caminhando pelas ruas da cidade; uma ruiva suicida travestida de beldade.
Esperou embaixo do poste no qual se enroscava. Viu a cena do marido deixando sua esposa em casa e dando meia volta para procurar cortesãs do século XXI. Não demorou muito para que o primeiro carro estacionasse a levasse para um quarto de motel.
Tornou-se mais que conhecida pelas ruas da cidade. A Ruiva Suicida se divertia chicoteando e arranhando os homens em quartos alugados. Agredia um pelo dano que outro, há muito esquecido, já lhe havia feito. Divertia-se, no entanto, ainda mais no final das suas brincadeiras, porque era quando arrancava corações infiéis e os roubava.
A Ruiva Suicida estava satisfeita por estar imersa em luxúria e gula, até que passaram a reclamar seus corações de volta. Não viu alternativa senão fugir, deixando prevalecer seu cartaz de “Procurada” espalhados pelos muros da cidade.

Conto baseado na música “Ruiva Suicida”, da banda “Os Lendários Dromedários”.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Tobogã

Helter Skelter andava de maneira suicida pelas ruas, sem respeitar o sinal que marcava verde para os carros. Helter fumava um cigarro e achava graça quando via a fumaça envolvendo suas duas tatuagens visíveis. A terceira só seria vista pelo plebeu sortudo que conseguisse despi-la.
A Senhorita Skelter tinha um poder de persuasão tão enorme que, enquanto percorria a rua, nenhum carro businou para tirá-la do caminho. Helter Skelter fazia os carros desviarem dela, e o fazia porque sabia que ninguém ousaria atropelar tão formosa moça.
Duas horas a partir de agora, e ela estaria no ônibus, encarando de volta os passageiros que a olhavam, maravilhados.
Dez horas a partir de agora, e ela chegaria n'A Cidade.
Onze horas a partir de agora, e ela jogaria seu inimigo no chão.
Doze horas a partir de agora, e se sujariam fazendo arte.
Treze horas a partir de agora, e ela lavaria as mãos dele sob a água fria na torneira enferrujada.
Quatorze horas a partir de agora, e ele olharia bem para a pimenta malagueta que ela tatuara na virilha.

Vinte e quatro horas a partir de agora, e ela entraria em um ônibus que a levaria para fora d'A Cidade.

Vinte e quatro horas a partir de agora, e o pranto dele estaria tão limpo e tão claro quanto as unhas de Helter Skelter.

{Para Rodrigo Correia}.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Rabiscando

Há o sentido? Há sentido em amar tanto alguém impossível e inalcançável? Ou será que há mais sentido em amores possíveis?
Afinal, há sentido no amor?
{Incógnita}.
Onde está o sentido em relembrar do teu semblante na hora do gozo? Há sentido em relembrar-te?
{Não}.
Há sentido em sentar na borda da cama com uma camiseta insuportavelmente quente e igualmente larga em uma noite de segunda-feira? Onde está o sentido de, nesta posição, pôr-se a escrever com uma caneta preta?
Será que não escrever faria mais sentido?
{Se a escrita é sem-sentido, concluo que a não-escrita também há de ser}.
Há o sentido em não me deitar por enquanto só por estar aguardando uma ligação tua?
Faz sentido em esquecer-me do que ia escrever a seguir? Se estou escrevendo, eu não deveria ter em mente exatamente o que rabiscarei?
Leitores que não gostam da minha auto-exposição neste blog ainda assim me lêem.
{Insensato}.
Procurar saber a opinião de outro louco sobre as loucuras que fazemos separados.
{Ridículo}.
Amar-te sem tocar-te.
{O cúmulo}.

Ousar publicar este texto?
{Patético...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Le Pays Imaginaire

Era uma vez, em uma terra distante e ainda não vista por olhos humanos, uma sereia que se chamava Parténope. Ela tinha uma personalidade doce e imaginativa, o que a fazia sentir-se triste, porque sereias não deveriam se comportar docemente. Sereias deviam ser como Lilith ou Ligeia, que eram companheiras de Parténope sob as águas.
Ligeia, apesar de irromper em lágrimas com uma facilidade gigantesca, poderia ser altamente chantagista se quisesse. Além disso, ela nunca esquecia o mal que havia sido feito a ela – mesmo que tivesse ocorrido há muito, muito tempo mesmo.
Já Lilith era a mais exemplar das três sereias. Era extremamente sensual e conseguia conquistar todos os pescadores que às margens do rio apareciam. As outras criaturas que viviam sob as águas falavam horrores sobre Lilith. Corriam boatos que diziam que sua cauda possuía veneno, e que ela se vingava de quem quer que fosse. Não sabiam que Lilith, apesar da personalidade forte, poderia ser incrivelmente intensa e apaixonada.
Certo dia, Ligeia viu Parténope aos soluços. Sensível que era, perguntou à parceira o que havia acontecido. Ouviu com atenção a voz trêmula lhe contar o quanto ela sofria por não ser igual a ela ou a Lilith. Ouviu-a dizendo que queria devorar os humanos sem piedade, assim como sereias estavam predestinadas a ser.
Ligeia, preocupada e atenta, foi conversar com Lilith. Elas concordaram em levar Parténope para caçar com elas, e assim se sucedeu.
Parténope ficou feliz com a notícia, pois agora já poderia ser como as outras sereias; mas insegura, com medo de não dar conta de transformar sua essência.
Nos primeiros dias de caça, tudo correu perfeitamente bem. As três sereias seduziram pescadores cantando com perfeição, e Parténope tinha uma sensualidade óbvia, porém que nunca conseguiria enxergar.
As outras duas sereias, considerando que a terceira já havia aprendido tudo o que deveria, disseram a ela que ela passaria a caçar sozinha. A essa altura, Parténope já havia se convencido de que o que ela passara a fazer não era um assassinato cruel, mas sim algo que fazia parte da sua natureza.
Passou a caçar sozinha, e sua rotina era tranqüila: ia à superfície, avistava algum pescador, cantava para ele enfeitiçando-o e o levava para as profundezas – e assim ia acontecendo sucessivamente durante o dia todo. Ocasionalmente, avistava Europa passando pelo rio. Europa era uma dos três gnomos que habitavam Le Pays Imaginaire, e como seus parceiros, coletava e tirava proveito da mãe-natureza. Sua vida dependia da terra, mas Europa era meiga e tranqüila. Também muito bonita, era considerada dona de uma sensualidade evidente. Parténope e Europa conversavam brevemente e cada uma ia fazer suas tarefas.
Em um dia corriqueiro, Parténope estava procurando pescadores normalmente quando avistou um dos Caçadores. Ele passou ao lado dela, e os dois se olharam com uma espécie de admiração – era o Arqueiro. Ele ia seguir o seu caminho, mas algo o impediu. Voltou-se para a sereia e disse:
- Adoro teus cabelos.
Ela abriu um sorriso involuntário.
- São os maiores e mais bonitos cachos da ilha inteira.
O Arqueiro ficou surpreso por ter conseguido articular com aquela moça tão bonita, de olhos e cabelos tão imensos. Quem não conseguia articular era ela.
O Arqueiro voltou a trilhar seu caminho, quando de repente Parténope gritou:
- Arqueiro! Volte amanhã, sim? Gostaria de conversar contigo direito.
O Caçador assentiu, surpreso.
Parténope foi dormir meio boba naquela noite.
***
No dia seguinte, a ansiedade tomou conta da sereia. Ela parecia estar apaixonada, mas não queria admiti-lo. Suas irmãs o percebiam, mas nada comentavam.
Parténope logo foi à superfície e viu a bela Europa passando por lá, junto com os outros dois gnomos da Ilha – Astréia e Lupércio.
- Olá, gnomos! – gritou alegremente, nadando até margem.
- Olá, Parténope. Pareces feliz hoje.
- E estou, querida Astréia! Estou.
- Devo perguntar-lhe o motivo?
- Hoje, conversarei com o Arqueiro.
Os gnomos se entreolharam preocupados, mas foi Lupércio quem tomou a palavra.
- Querida Parténope, tens certeza disso? Afinal, és conhecida como a habitante mais sonhadora da Ilha, e não queremos que se iluda.
- O que você está querendo insinuar? – disse a sereia na defensiva.
- Parténope, és uma Sereia, ele é um Caçador. Moram em cantos opostos da ilha. Não parece ser algo saudável de se manter.
- Estás insinuando que o amor verdadeiro não enfrenta todas as barreiras!? – disse ela, furiosa.
- Querida – interveio Astréia – descubra antes se há o amor verdadeiro. Não se precipite, deixe as coisas acontecerem perfeitamente, de forma recíproca e organizada. Vamos andando, irmãos?
Lupércio e Astréia foram caminhando, mas Europa demorou-se um pouco mais e falou para Parténope:
- Acho muito bonito seu amor infinito a ser dado, apesar de não apoiar sua ilusão completa neste romance. Mas caso você se magoe, estarei aqui para te apoiar.
Parténope se emocionou e agradeceu de coração à amiga dos olhos cor de mel.
Apesar de saber que os gnomos estavam certos, a sereia esperou ansiosamente a chegada do Arqueiro.
Ele chegou lá pelo início da tarde, e os dois conversaram por muito tempo. Parténope não caçou naquele dia, pois ficou demasiadamente distraída com o Caçador com quem – pasmem! – tinha muito em comum. O Arqueiro, que vivia embaixo da terra cercado por fogo com seus dois companheiros, fazia a sereia extravasar seu quase anulado fogo. Os dois se compreendiam bem, e começaram a se encontrar todos os dias.
Não demorou muito para que todas as tribos soubessem da notícia. As Sereias ficaram encantadas com a notícia, os Gnomos ficaram preocupados, os Caçadores pareciam incrédulos e as Fadas desdenharam da situação.
***
Um dia, Parténope ficou extremamente chateada: foi quando o Arqueiro falou que Lilith tinha uma personalidade terrível. Parténope perguntou-se se ele achava que, por ser também uma sereia, ela teria uma personalidade detestável. Mas o Arqueiro não o achava, já que continuou indo visitá-la todos os dias.
“Será que isso é o verdadeiro amor?”, perguntavam-se quando percebiam que só pensavam um no outro o dia inteiro.
Concluindo que sim, Parténope chamou as três fadas para virem visitá-la no rio: mandou a mensagem pelo vento e logo elas estavam lá.
As fadas eram conhecidas pela sua leveza e capacidade de intervir no destino dos outros seres de Le Pays Imaginaire. Eram três: Morgana, a Equilibrada; Melusina, a Inteligente; e Lorelei, a Excêntrica.
Logo chegaram, vestidas de azul, amarelo e roxo, e Parténope logo fez perguntas cordiais. Responderam polidamente e seguiu-se o diálogo:
- Diga, amiga sereia: no que podemos ser úteis?
- Bom – ela corou ao responder. – Estou trocando juras de amor com o Arqueiro.
As fadas sorriam.
- Amigas do Vento, não sei o que fazer! Já falamos sobre todos os assuntos existentes, nos exploramos com palavras, trocamos juras o dia inteiro...! Europa tenta pôr meus pés no chão, Astréia tenta me convencer a esperar, Lupércio quer que eu perceba o quão ridículo isso é: tudo em vão! Minhas irmãs me apóiam, mas não sei mais o que fazer! Quero a ajuda das Fadas; só elas saberiam me ajudar.
- O que acham os Cavaleiros?
- O Arqueiro corresponde aos meus sentimentos. O Soldado acha que o melhor a fazer é mantermos um relacionamento físico e superficial. O Cavaleiro, apesar de agir com enorme curiosidade sobre mim, acha que é um envolvimento demasiado perigoso, já que somos tão distantes.
- Por que, distantes? – Perguntou Morgana.
Ela suspirou antes de responder.
- Ele está do outro lado da Ilha, e tenho medo de me espantar com a intensidade do fogo com o qual ele convive ou de encharcá-lo com toda essa água – apontou para o rio. – Além do mais, ele morreria se vivesse no rio, e eu morreria se morasse em terra firme.
Lorelei, a Excêntrica, logo sugeriu:
- Faremos um feitiço para que vocês possam ficar juntos, porque amores bonitos como esse não devem ser desperdiçados.
- Cada um de vocês abrirá mão de sua condição atual – disse Morgana, a Equilibrada. – Vocês dois se tornarão meramente humanos, e terão outro lugar para viverem a sós.
- Ficarei encarregada de criar Le Chez Lune para que vocês vivam juntos, mas para que isso ocorra vocês dois precisam dos seus irmãos presentes. Chamaremos os prestativos Gnomos para nos ajudar a organizar a cerimônia. Avise ao seu amado que isso ocorrerá em alguns dias. Mandaremo-lo vir te encontrar com uma mensagem através do vento. Agora, adeus, companheira das ondas! Veremo-nos em breve!
Parténope estava extasiada – quando o Arqueiro soube da notícia, também ficou cheio de sentimentos bons em si.
***
Os Caçadores, as Fadas, os Gnomos e as Sereias se reuniram na linha do horizonte. As Sereias choravam, os Caçadores estavam enérgicos e surpresos com a cerimônia. As Fadas estavam sereníssimas, e os Gnomos aparentavam estar contidamente felizes.
- Arqueiro, tu concordas em deixar tua atual condição de Caçador para unir-se à Sereia Parténope?
- Concordo.
- Parténope, tu concordas em deixar tua atual condição de Sereia para unir-se ao Caçador Arqueiro?
Ela olhou para as frutas carinhosamente colhidas por Lupércio, para os arranjos florais que Astréia havia feito com perfeição. Observou as esculturas de gelo que suas irmãs haviam feito, e os Caçadores decoraram tudo com muita luz e fogo. Morgana estava tocando harpa lindamente, Melusina servia de presbítero e Lorelei e Europa observavam tudo com sorrisos imensos nos rostos. O Cavaleiro estava envaidecido com sua armadura polida, o Soldado parecia ter tido um cuidado especial com seu capacete às vésperas da cerimônia.
Parténope gravou a cena inteira em sua mente, logo antes de dar a resposta mais importante de toda a tua vida.
- Concordo.
Uma chuva de pó cintilante caiu sobre o lugar, e os dois amantes tornaram-se meramente humanos. Aplausos, gritos e lágrimas irromperam sobre o local. Tocaram-se, beijaram-se e amaram-se pela primeira vez durante o percurso até o cantinho preparado por Melusina especialmente para os dois.
E, em La Chez Lune, eles viveram felizes para sempre.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Acontece que

meu novo amor platônico é um carioca sagitariano de ascendente em gêmeos que joga cartas de tarot.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Esbarrão

E eu ainda vou te encontrar na rua. O cenário é sempre aquele shopping que você não gosta, entre a sorveteria do nosso primeiro beijo e o cinema.
Aí eu vou ficar nervosa. Você, não. Vai me ver, sorrir e ir falar comigo {sempre no controle, right?}. Vou fazer uma porção de movimentos automáticos, sem me concentrar neles – porque eu vou estar desesperada por me esbarrar com você e nervosa porque a gente vai se abraçar como forma de cumprimento e você vai sentir as loucas palpitadas dançantes do meu coração. Vou te contar como foi a estréia do curta-metragem, você vai sorrir de volta e fazer perguntas educadas. Ficarei desesperada com a possibilidade de a tua nova namorada estar te esperando em algum canto, como por exemplo na sacada. Virá a vontade de te perguntar, com leveza e bom-humor, como é namorar uma garota de cabelos lisos pela primeira vez {a verdade é que quero saber se você sente falta dos meus cachos}. Mas me conterei.
Você notará minhas unhas agora roídas e pintadas de corretivo escolar, eu darei um sorriso sem graça e explicarei que já que nunca as pintei, resolvi voltar a roê-las de vez.
Vou te contar sobre a minha nova sede dos livros do Saramago – me recomendarás outros tantos do Kafka. Resumirei como está a escola para você, reclamaremos um pouco da greve com muxoxos.
O silêncio vai surgir; você vai interrompê-lo com um “tenho que ir; ela está me esperando”. Sorrirei triste. Você me olhará com pena, vai me dar seu abraço muito do gostoso. Vou te olhar com meus imensos olhos de cinema mudo e, verbalmente, te mandarei um beijo gordo.
Depois de me desejar outros tantos, você dará meia volta e me deixará perguntando se vocês fazem amor juntos {all night long} ou se ela já ouviu a tua versão de Meninos e Meninas, saindo da tua boca.
Você me deixará novamente sozinha, para ir se esquecer das coisas da gente com novas unhas e cabelos, dessa vez arrumados pelo salão de beleza.
Desejarei com todas as minhas forças fazer o mesmo, impressionada com o fato de que te ver remando me dá uma imensa de me afogar de vez.

{Nunca imaginei}.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Eternos Campos de Morango

- Estou com um sério problema – disse ela, depois de entrar naquela salinha escura, cheia de incensos e velas. Falava com o homem que estava meditando no centro da sala.
Ele abriu os dois olhos e a respondeu:
- O que você tem?
- Não consigo parar de pensar em idéias e teorias póstumas.
- Como é? Como assim, querida?
- Você sabe como é; vida após a morte, para onde vamos depois que tudo acaba. Às vezes penso em por que acaba, se a eternidade valeria a pena. Acho que estou ficando louca.
Ele sorriu à Mona-Lisa.
- Você só não descobriu a verdade ainda.
Ela arregalou muito os olhos e franziu completamente as duas sobrancelhas.
- Como assim?
- Veja bem, já deixaram o recado antes.
- Já? Quem? Como?
- Há quase cinqüenta anos, o recado foi explicado por uma música.
- Que música? – ela começava a se empolgar com a idéia.
- Strawberry Fields Forever.
Agora ela parecia confusa e desapontada, e ao perceber isso, o homem tratou de continuar explicando.
- John Lennon, sempre em busca da paz. Um cara espiritual. É evidente que ele psicografava.
- (?)
- Sim. John Lennon psicografou Strawberry Fields Forever. Não é óbvio?
- Na verdade, não. Olha só, em um pouquinho mais de cinco anos escutando músicas dos Beatles, eu nunca imag...
- Então você não escutava as músicas direito – ele replicou com arrogância.
Pausa.
- Quero saber mais sobre os Campos de Morango.
- É para lá que vamos quando morremos.
- Todos nós?
- Todos nós.
- Até o Mark Chapman?
O homem coçou a cabeça.
- Bom, aí eu não sei. Isso é com eles – falou, apontando para o céu. – Mas a grande maioria vai para lá, sim.
- Que incrível.
- De certa forma. O problema é que não há vida em sociedade nos Campos de Morango. Não é como se fosse outro plano da Terra, entende?
- Prossiga.
- Você tem que aprender a conviver sozinho.
- Completamente sozinho?
- Sim; só haverá você e os morangos, em um nirvana profundo.
- Eu poderei ver as outras pessoas que estarão nos campos de morango?
- Claro que sim; cada um terá sua própria árvore, cada um poderá ver um ao outro. Mas ninguém conviverá um com o outro.
- Por quê?
- Todos estarão concentrados em outras questões. Só haverá você e o útero suculento dos morangos, em eternos orgasmos alimentícios.
A mulher parecia ainda mais confusa do que quando entrou.
- Há outra coisa importante.
- Diga.
- Você só vai estar no Strawberry Fields se você quiser.
- Mas você não disse que todos iriam para lá após a morte?
- Eles vão. Mas não acreditam que estiveram.
- Por quê?
- Nada é real.
Ele voltou a fechar os olhos em posição de concentração.
Ela tinha entendido.
- Aonde você vai? – disse ela.
Ele sorriu.
- Deixe-me levar você lá para baixo, porque eu estou indo para os Campos de Morango, onde nada é real.
Ela descalçou-se e sentou ao lado dele. Fechou os olhos e começou a aspirar o cheiro dos incensos frutíferos.


E os dois continuaram a busca pela eterna paz dos Eternos Campos de Morango.

sábado, 24 de abril de 2010

Pedacinhos de Mim

Eu nunca me depilo no primeiro encontro, não faço as unhas, me sinto feia quando saio do salão de beleza. Queria ter um geminiano com ascendente em escorpião por pelo menos um pequeno momento. Adoraria namorar alguém que tocasse "Something" pra mim {clichê}. Beijar na boca é muito íntimo pra mim {duas pessoas se encontram, se tocam, fecham os olhos e, como numa tentativa de congelar o momento, encostam seus lábios no do outro}, todo o resto é demasiado intenso. Eu cheiro incensos o dia inteiro, pra mim escrever é a mesma coisa que exorcismo, odeio quando se hospedam no meu quarto porque isso me impossibilita de pegar um papel, uma caneta e talvez um CD na hora que eu quiser para ver se eu me inspiro e escrevo alguma coisa. Adoro leituras eróticas e penso em sexo mais do que qualquer um imaginaria. Já fui largada em um cinema e não levo ninguém a sério. Amo os Beatles e não vou deixar dessa mania tão cedo. Adoro ter e rir de amores platônicos. Respiro cinema, música, literatura, teatro, fotografia. Queria ter uma câmera profissional ao invés de me contentar com a câmera do meu celular. Queria também saber tocar violão do jeito certo, pandeiro, gaita, violino, piano, bateria, queria conhecer a Itália e a Grécia. Adoro mitologia, astrologia, filosofia. Babo por todas as pessoas que tem talentos artísticos, e sempre cresce uma admiração {platônica} muito grande por elas. Eu gosto de desenhar, mas meus desenhos são primários. Meus textos nunca saem exatamente do jeito que eu quero. Sou a única escritora de contos que eu conheço. Tenho um grande complexo com o tamanho dos meus seios. Acredito em astrologia, acho que porque eu sou do signo mais místico do zodíaco {peixes}. Ando com mania de usar chaves nos meus textos e adoro parênteses (porque eles parecem (caixinhas dentro de (caixinhas dentro de (caixinhas). Me apaixono por "eus-líricos" e culpo o meu por muita coisa. Escrevo cartas que nunca vou mandar, faço terapia, já pensei em suicídio, psiquiatria, literatura, cinema, fotografia, socialismo e ainda não achei uma solução. Gosto dos trechos do Caio, contos da Clarice, já comecei a chorar no meio de uma aula de interpretação por ter lido um poema do Neruda em voz alta. Adoro quando os leitores do blog me adicionam no Orkut. Não faço a menor idéia do que está tocando nas rádios atualmente, reclamo muito, sou depressiva. Sou doce, carente e criativa. Não sou bonita. Não gosto de mim grande parte do tempo. Queria não ter vergonha de conversar sobre política. Quero um cara legal, de sorriso bonito, só. Às vezes, me dói muito perceber que ele achou a garota legal dele e eu tô aqui. Ando convencida de que vou morrer virgem, sozinha e com quatorze gatos.
Que bom, porque eu amo gatos.