sexta-feira, 5 de março de 2010

Bipolar

"Nunca vai passar, e eu não sou boa o suficiente para ninguém. Eu, sempre intensa e entusiasmada com tudo, quero dar três passos de uma vez e com uma perna só. Não dá pra fazer isso, cara. É anatomica e humanamente impossível. E por que diabos é sempre tipo: "Ela é legal. Bonita. Vai me encher de amores... Mas não quero isso para mim, obrigado"? Eu vou parar de me entregar. Ia dar certo, né? Ninguém quer ter uma guriazinha na palma da própria mão.
Eu estou te odiando por:
1) Você estar bem;
2) Você ter ligado para outra.
Eu estou me odiando porque afinal de contas, acabei escrevendo sobre o meu maldito platonismo como você avisou que aconteceria. E como você queria que acontecesse, não é mesmo?
Eu estou odiando a todos que me lembram como você é o máximo, porque isso faz eu me dar conta de tudo que eu perdi.

Brasília, 04/03/2010, 22h17."

"Ah, eu tô com saudade de você. Mas vai parar de doer uma hora, né? Fazer o que. Seja feliz.

Brasília, 05/03/2010, 00h23."

quinta-feira, 4 de março de 2010

Epílogo

"Essa é a última vez que você vai sentir os meus lábios na sua orelha. E a última vez em que vou sentir essas mãos pequeninas em mim. Ai, pára com esses dedos inquietos. 'Cê sabe que eu gosto. Isso me lembra que hoje vai ser a última vez em que sinto o seu gosto - putz, como eu vou ficar com saudade desse gosto. Eita, se eu continuar com isso, eu vou ficar com seu cheiro na minha mão, né? Ah, tudo bem. Melhor que eu não sinto tanta falta por hoje, o problema vai ser o dó de lavar as mãos depois. Última vez aproveitando o banco traseira do Fiesta. Última vez em que eu desço do Fiesta. Que nostalgia. Heeeey, eu nunca mais vou andar de mãozinhas dadas com você, isso é terrível! Ei, calma aí, não chora. Não chora porque você não tá sozinho nessa, tá legal? A gente aproveitou até o nosso último dia - e isso é literal. Valeu a pena, não valeu?! Eu sei que sim. Vem aqui pra perto, me dá o nosso último beijo ao som dessa musiquinha pop ridícula. Também vou ficar com saudade, meu am... Ei! Ficou louco?! Não arranca o carro desse jeito, não me deixa falando sozinha! Desgraçado."

terça-feira, 2 de março de 2010

Re-amar.

"É que eu tô sentindo esse barco afundar e acho que você deixou de remar comigo. Dá pra sentir que quando a água começar a entrar aqui você vai pular fora e sair nadando. Sozinho. E você também não vai sentir muito quando me vir remando sem ninguém, e não vai me ajudar a nadar. Não vai me mostrar que é possível nadar e também não vai se esforçar pra me ensinar.

Vamos começar a remar juntos antes que isso tudo aconteça?


Por favor."


Brasília, 2/03/2010.

Sirena

            Deu um beijo em sua doce esposa e saiu a caminhar. Era um pescador humilde, de casa pequena situada na Itália, na agradável cidade de Nápoles.
            Caminhou e caminhou e caminhou até chegar ao seu destino – o Mar Tirreno. O homem de cabelos loiros e olhos azuis estendeu sua vara de pescar e esperou para que os peixes fossem atraídos pela visão ou pelo cheiro da sua isca.
            Começou a sonhar acordado com a sua mulher. Ela o encantava de várias que são as formas de se encantar um homem. A doçura que a envolvia e a beleza que suas compridas madeixas negras tinham, principalmente quando entravam em contraste com aqueles enormes olhos verdes e penetrantes, faziam-no ficar deslumbrado. Ele gostava das curvas discretas do seu corpo, e sabia que jamais encontraria outra moça que apreciasse o gosto dele tanto quanto ela o fazia, mas se incomodava com o fato de que poderia jogar com ela e não dá-la seu devido valor e ela continuaria ao seu lado. Se sentia o monstro dos monstros quando a fazia chorar, e pior ainda quando a deixava brava. O ponto é que se amavam e estavam casados há dois anos – ainda sem filhos.
            O pescador olhou para frente, frustrado com a ausência de peixes. Avistou uma cascata de cachos ruivos ao longe e tentou identificar a dona. Ela parecia nua da cintura para cima, e ele não conseguia identificar suas pernas.
            A moça olhou para ele. Tinha olhos castanhos de mistério e, ao sorrir, mostrava dentes bonitos e um sorriso meigo.
            Ela pulou no mar e pareceu se aproximar dele. Quando voltou à superfície, o pescador pôde contemplar os seios médios e bem formados, acompanhados de mamilos rosados. Possuía um corpo formoso, a tal da moça.
            - Por que me observavas? – disse ela, com a voz mais bonita que o homem já havia ouvido: soava alta, nítida e, contudo, tranqüila. Lembrava uma cachoeira. Falou-o, também, em tom de ironia, como se já soubesse a resposta e como se fosse acostumada com tal ato.
            - Observava-a porque não tinha nada mais a fazer. O Tirreno não está para peixes hoje.
            - Entendo.
            - Um pobre pescador como eu não deveria perder seu tempo.
            Ela jogou a cabeça para trás e se desmanchou na gargalhada mais gostosa que ele já tinha ouvido. Não pôde evitar um sorriso.
            - Por que a donzela estava gargalhando?
            - Eu não sei; pelo simples prazer de gargalhar, quem sabe.
            Ele estava se encantando com o carisma da jovem.
            - De qualquer forma – ela completou – onde eu moro é fácil de achar o que procuras.
            - Peixes? – ele indagou.
            - Ou ao menos tuas caudas – ela sorriu de mistério. – Diga-me, pescador, qual é o teu nome?
            - Saulo. E o teu, bela dama?
            Ela o olhou fundo nos olhos. Penetrou sua alma e, com a mesma voz suave, quebrou o mesmo silêncio que havia construído.
            - Sirena.
            Os dois se fitaram. Pareceram até se compreender e Saulo parecia enfeitiçado.
            - Me diga, senhor Saulo; gostarias de ir à minha casa para obter o que precisas?
            Saulo teve um sentimento de ansiedade e urgência como jamais havia sentido. Junto dele, no entanto, a hesitação.
            - Donzela Sirena, eu possuo uma esposa. E não acho que deveria fazer pouco caso da mulher que resolveu ser minha e somente minha.
            - Entendo. E qual o nome da tua senhora?
            - Lara.
            - E Lara tem a voz como a minha?
            - Não.
            - E o corpo gracioso como o meu?
            - Também não.
            - O cabelo dela tem o mesmo tom vivo de vermelho como o meu?
            - Os cabelos de Lara são negros.
            - Entendo. Mas, meu caro Saulo – ela se aproximou e encostou sua mão cor de leite no tórax dele – ela o persuade e o seduz como eu faço, fiz ou faria?
            - Não, Sirena. És melhor que a minha presente amada.
            - Sim. E não vejo por que não deverias ir à minha casa, então. – Agora, sua mão encontrava-se sobre a mão dele.
            Houve uma pausa.
            - Me leve onde você mora, minha querida sedutora. Lara me perdoará; tu possuis a voz mais bela que já ouvi, e a ti não resistirei.
            Sirena, então, o puxou para o fundo do mar em um gesto brusco. Da superfície, ouvia-se uma canção que falava sobre corações partidos. Sirena estava cantando enquanto nadava.
            Já escurecia na cidade, e Lara observava o lugar aonde seu marido estava há alguns minutos.
            Saiu de casa com o intuito de procurá-lo – ele nunca havia se atrasado tanto após um dia de pesca – e voltava para lá aos prantos, com a certeza de que seu marido haveria de ser devorado por uma sereia.