sexta-feira, 30 de abril de 2010

Eternos Campos de Morango

- Estou com um sério problema – disse ela, depois de entrar naquela salinha escura, cheia de incensos e velas. Falava com o homem que estava meditando no centro da sala.
Ele abriu os dois olhos e a respondeu:
- O que você tem?
- Não consigo parar de pensar em idéias e teorias póstumas.
- Como é? Como assim, querida?
- Você sabe como é; vida após a morte, para onde vamos depois que tudo acaba. Às vezes penso em por que acaba, se a eternidade valeria a pena. Acho que estou ficando louca.
Ele sorriu à Mona-Lisa.
- Você só não descobriu a verdade ainda.
Ela arregalou muito os olhos e franziu completamente as duas sobrancelhas.
- Como assim?
- Veja bem, já deixaram o recado antes.
- Já? Quem? Como?
- Há quase cinqüenta anos, o recado foi explicado por uma música.
- Que música? – ela começava a se empolgar com a idéia.
- Strawberry Fields Forever.
Agora ela parecia confusa e desapontada, e ao perceber isso, o homem tratou de continuar explicando.
- John Lennon, sempre em busca da paz. Um cara espiritual. É evidente que ele psicografava.
- (?)
- Sim. John Lennon psicografou Strawberry Fields Forever. Não é óbvio?
- Na verdade, não. Olha só, em um pouquinho mais de cinco anos escutando músicas dos Beatles, eu nunca imag...
- Então você não escutava as músicas direito – ele replicou com arrogância.
Pausa.
- Quero saber mais sobre os Campos de Morango.
- É para lá que vamos quando morremos.
- Todos nós?
- Todos nós.
- Até o Mark Chapman?
O homem coçou a cabeça.
- Bom, aí eu não sei. Isso é com eles – falou, apontando para o céu. – Mas a grande maioria vai para lá, sim.
- Que incrível.
- De certa forma. O problema é que não há vida em sociedade nos Campos de Morango. Não é como se fosse outro plano da Terra, entende?
- Prossiga.
- Você tem que aprender a conviver sozinho.
- Completamente sozinho?
- Sim; só haverá você e os morangos, em um nirvana profundo.
- Eu poderei ver as outras pessoas que estarão nos campos de morango?
- Claro que sim; cada um terá sua própria árvore, cada um poderá ver um ao outro. Mas ninguém conviverá um com o outro.
- Por quê?
- Todos estarão concentrados em outras questões. Só haverá você e o útero suculento dos morangos, em eternos orgasmos alimentícios.
A mulher parecia ainda mais confusa do que quando entrou.
- Há outra coisa importante.
- Diga.
- Você só vai estar no Strawberry Fields se você quiser.
- Mas você não disse que todos iriam para lá após a morte?
- Eles vão. Mas não acreditam que estiveram.
- Por quê?
- Nada é real.
Ele voltou a fechar os olhos em posição de concentração.
Ela tinha entendido.
- Aonde você vai? – disse ela.
Ele sorriu.
- Deixe-me levar você lá para baixo, porque eu estou indo para os Campos de Morango, onde nada é real.
Ela descalçou-se e sentou ao lado dele. Fechou os olhos e começou a aspirar o cheiro dos incensos frutíferos.


E os dois continuaram a busca pela eterna paz dos Eternos Campos de Morango.

sábado, 24 de abril de 2010

Pedacinhos de Mim

Eu nunca me depilo no primeiro encontro, não faço as unhas, me sinto feia quando saio do salão de beleza. Queria ter um geminiano com ascendente em escorpião por pelo menos um pequeno momento. Adoraria namorar alguém que tocasse "Something" pra mim {clichê}. Beijar na boca é muito íntimo pra mim {duas pessoas se encontram, se tocam, fecham os olhos e, como numa tentativa de congelar o momento, encostam seus lábios no do outro}, todo o resto é demasiado intenso. Eu cheiro incensos o dia inteiro, pra mim escrever é a mesma coisa que exorcismo, odeio quando se hospedam no meu quarto porque isso me impossibilita de pegar um papel, uma caneta e talvez um CD na hora que eu quiser para ver se eu me inspiro e escrevo alguma coisa. Adoro leituras eróticas e penso em sexo mais do que qualquer um imaginaria. Já fui largada em um cinema e não levo ninguém a sério. Amo os Beatles e não vou deixar dessa mania tão cedo. Adoro ter e rir de amores platônicos. Respiro cinema, música, literatura, teatro, fotografia. Queria ter uma câmera profissional ao invés de me contentar com a câmera do meu celular. Queria também saber tocar violão do jeito certo, pandeiro, gaita, violino, piano, bateria, queria conhecer a Itália e a Grécia. Adoro mitologia, astrologia, filosofia. Babo por todas as pessoas que tem talentos artísticos, e sempre cresce uma admiração {platônica} muito grande por elas. Eu gosto de desenhar, mas meus desenhos são primários. Meus textos nunca saem exatamente do jeito que eu quero. Sou a única escritora de contos que eu conheço. Tenho um grande complexo com o tamanho dos meus seios. Acredito em astrologia, acho que porque eu sou do signo mais místico do zodíaco {peixes}. Ando com mania de usar chaves nos meus textos e adoro parênteses (porque eles parecem (caixinhas dentro de (caixinhas dentro de (caixinhas). Me apaixono por "eus-líricos" e culpo o meu por muita coisa. Escrevo cartas que nunca vou mandar, faço terapia, já pensei em suicídio, psiquiatria, literatura, cinema, fotografia, socialismo e ainda não achei uma solução. Gosto dos trechos do Caio, contos da Clarice, já comecei a chorar no meio de uma aula de interpretação por ter lido um poema do Neruda em voz alta. Adoro quando os leitores do blog me adicionam no Orkut. Não faço a menor idéia do que está tocando nas rádios atualmente, reclamo muito, sou depressiva. Sou doce, carente e criativa. Não sou bonita. Não gosto de mim grande parte do tempo. Queria não ter vergonha de conversar sobre política. Quero um cara legal, de sorriso bonito, só. Às vezes, me dói muito perceber que ele achou a garota legal dele e eu tô aqui. Ando convencida de que vou morrer virgem, sozinha e com quatorze gatos.
Que bom, porque eu amo gatos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Marina

Marina estava com insônia. Ela ficava daquele jeito sempre que tinha algum problema emocional – não dormia direito quando estava sofrendo por amor. Não dormira direito depois do divórcio dos pais. Marina não era uma das amantes mais leais do sono.
Era uma garota incrível, aquela moça. Tinha olhos verdes e focados, cabelos castanhos e lisos, mania de se mostrar séria, paixão por The Doors, um turbilhão de emoções acontecendo dentro dela, tendência à depressão. Ela se mostrava sempre focada, compenetrada em tudo, mas na verdade sua essência era 100% emocional. Marina era confusa, Marina era amor, Marina era fantástica, Marina era exagero e agora estava se revirando na cama. Todos os lugares do seu corpo estavam absurdamente quentes, ela queria se coçar de calor, detestava aquela sensação – principalmente quando estava misturada na sonolência.
Ela foi tomar banho, ligou o chuveiro no máximo de frio que poderia ter. Ela acabara de tomar uma decisão impulsiva.
Saiu do banho, se vestiu com pressa. Ela estava usando uma calça jeans, um tênis preto e surrado e uma blusa justa. A roupa a favorecia muito bem e mostrava a todos a menina bonita que ela era.
Ela pegou as chaves do seu Ford KA e foi dirigir até a casa da pessoa que amava. Suas mãos suavam, ela tentava se concentrar na estrada. Estava nervosa. Sabia que tinha tomado uma decisão importante, mas não tinha certeza de que sua decisão seria aceita ou compartilhada. Ela sentia aquilo mais forte do que jamais seria qualquer coisa.
Estacionou na frente daquela casinha branca, onde já fora tantas vezes, onde já amara com tanta intensidade e tantas vezes que já havia até perdido a conta.
Tocou a campainha e alguns minutos depois, uma mulher apareceu vestindo uma camisola curta de seda. Ela era linda – japonesa. Pele branca e lisa, cabelos compridos e negros, olhos escuríssimos sempre muito bem pintados por delineador, rímel e lápis de olho preto. Sua boca tinha um tom indefinível, mas que vagava do rosa ao castanho.
A mulher olhou bem no fundo dos olhos de Marina. Marina resolveu ganhar das palpitadas loucas do seu coração e abriu a boca.
- Alice, vamos nos casar.
Alice olhou pra Marina e tentou conter um riso de desdém.
- Marina, pela milésima vez, nós terminamos. Eu não te amo mais. Acabou.
- Alice, pelo amor de Deus. Nascemos uma para a outra. Você é perfeita. Nunca imaginaria um namoro tão bonito quanto o nosso acontecendo de novo. Vamos nos casar.
- Marina, não. Não vou me casar com você. É ilegal que nós duas nos casemos no Brasil.
- Então se mude comigo para o exterior! Vamos fugir de todo mundo, fugir dessa gente preconceituosa, desse governo ignorante. Casa comigo, Alice, pelo amor de Deus, se não eu me mato.
- Marina, pára com isso. Não quero me casar com você.
- Tem outra pessoa, é isso?
- Não, não tem mais ninguém. Só não podemos continuar nos vendo, muito menos nos casar.
- Por que não, Alice? Por quê?
- A gente não tem dinheiro, não tem aprovação da nossa família, a gente não tem nada a ver uma com a outra, a gente não tem motivo nenhum para se casar. Até porque a gente terminou. Resumindo, a gente não tem nada.
- A gente se completa. E você tá colocando todas as coisas racionais antes do mais importante.
Os olhos da japonesa agora pareciam cansados demais.
- O que é o mais importante, Nina? Fala logo, vá embora e eu vou voltar a dormir.
- AMOR, Alice! Amor é o mais importante de todas as coisas, “o amor é algo esplêndido! Amor nos leva aonde pertencemos, tudo que você precisa é amor”!
- Pára de citar Moulin Rouge. A gente não vai dar certo, eu não te amo mais, não tem um motivo racional para que...
- Larga de ser exageradamente racional.
Ela ficou brava.
- Marina, olha só. Quando você parar de ser exagerada, exageradamente emocional, você vem me procurar e a gente tenta de novo. Por enquanto, não. Boa noite, Marina.
E bateu a porta na cara da depressiva, que houve de passar os próximos meses se cortando.
A dor era alívio. Suas cicatrizes emocionais viraram físicas – a diferença é que agora elas jamais sumiriam.

Brasília, 19/04/2010.

sábado, 17 de abril de 2010

A Menina das Unhas Azuis

                Quando ele olhou para o lado no ônibus, a viu. Era uma japonesa que colorira os cabelos extremamente lisos e repicados na altura do busto de vermelho. O vermelho falso do cabelo acrescentava algo de especial naqueles olhos puxados. Mas o que mais encantava o homem era o esmalte cor-de-céu que ela usava. Era de um azul lindo.
                E, como uma chuva de verão, o sentimento surgiu, rápido e intenso. “Estou olhando uma japonesa ruiva. Mais que isso, estou olhando para a menina das unhas azuis”.
                Ele tentou se distrair da enorme vontade que lhe surgira de roer as unhas da moça – concentrou-se em obter informações.
                Pela roupa que ela usava, ficara implícito que ela iria ao centro da cidade. Como ele não saberia dizer a freqüência, desistiu das roupas e foi olhar suas mãos e braços – não usava relógio, anéis ou pulseiras. Nos dedos, só o esmalte azul-cor-do-céu. Ela usava um chapéu, uma espécie de boina, mas o moço não saberia identificar de onde ele viera. Tinha também uma bolsa – simples, preta – e um livro.
                Em um gesto desengonçado, ele deu dois passos para o lado para tentar ver o título do livro. Parecia ser algo de alguma das Brontë, mas especialmente antigo: tinha as páginas amareladas e uma capa terrivelmente desgastada. No canto esquerdo, possuía carimbado um símbolo relativamente conhecido na cidade. Era o símbolo do sebo, que ficava em uma espécie de praça e abria às 18h30, ao anoitecer.
                O homem, pobre vítima de um amor à primeira vista incurável, iria lá à noite. Apesar de morar do outro lado da cidade, apesar de não freqüentar sebos e nem ao menos gostar de ler, ele estaria lá só para ver a Menina das Unhas Azuis.
                A Menina levantou-se do seu banco e pediu licença a ele com uma voz baixa. Puxou a cordinha do ônibus e desceu na próxima parada.

***
                Eram mais ou menos 19h quando ele chegou ao sebo. Nesta noite, estava especialmente vazio. O homem não costumava freqüentá-lo, mas achou estranho que não houvesse mais de vinte pessoas lá.
                Começou a procurar os cabelos vermelhos e as Unhas Azuis. Não achou, e o óbvio lhe veio à cabeça: e se ela não freqüentasse o lugar? E se o livro que lia mais cedo no ônibus fosse somente um presente de algum conhecido? O homem teve uma enorme decepção com sua pequena epifania.
                Saiu a caminhar até adentrar um bosque. Entre as árvores, ele viu uma arquibancada que exibia letreiros enormes, que continham a seguinte frase: "Não haverão milagres aqui".
                Tomou o escrito como um aviso, mas antes que pudesse virar de costas para voltar para casa, sentiu uma mão de mulher agarrando o seu pulso. Olhou para as unhas pintadas de azul.
                Virou-se para a japonesa e a olhou fundo nos olhos. Ela sabia do mesmo jeito que os apaixonados sabiam. Não havia lógica ou provas de que se tinha certeza, mas a certeza existia, e era forte como o aço e contradizia qualquer escrito racional que já fora expresso.
                Terminaram a noite amando-se pelo gramado, sem se importar nem com a lua ou com os átomos. Tudo o que queriam era observar a mão pintada de azul segurando a imensa mão de homem. Para sempre.

“O amor impossível não existe. Ou existe ou não é amor.” (Alejandro Jodorowsky)

                                                                                                                                             Para Rodrigo Correia.

Designers

Muitíssimo obrigada ao Dinho, que ficou sendo perturbado por horas a fio (já que eu não sei fazer layouts e pedi insistentemente para que ele fizesse esse meu novo). Realmente fico grata e arrependida por encher tanto o saco dele.
A propósito: deu erro no layout há um tempo atrás, não estava abrindo direito no navegador Internet Explorer. O erro, de acordo com o Dinho, estava em algum dos posts de março. Deletei todos e os postei de novo, então não estranhem que os posts antigos tenham sido repostados, certo?

Beijinhos!

O Teatro da Ilusão

                Entrou na tenda vermelha com o violão nas costas e se sentou em frente à mulher de imensos cabelos ondulados e negros. Os olhos azuis-acinzentados dela, acompanhados por lábios pintados de batom vermelho, lhe davam uma aparência de espanhola. Ela tinha seios fartos e uma pinta sobre o lábio superior.
                Já o rapaz tinha a pele castanha e olhos da mesma cor. Seu corpo era discretamente musculoso e ele possuía uma barba rala. A coisa mais fascinante nele, diria, era o sorriso bonito e contagiante. O sorriso que, hoje, não estava presente.
                - Está em chamas – disse a cigana.
                - Estou sempre ardendo em chamas. Chamas de amor.
                - Percebo. Os calos dos seus dedos se devem à...?
                - Minha constante mania de transformar sentimentos em melodias dedilhadas.
                - Bonito hábito. Você também canta?
                - Sim.
                Houve uma pausa.
                - Está em chamas.
                - Sim, estou. Mas ela não está. O sentimento da bailarina não arde por mim.
                - Bailarina?
                - Sim. A mais doce e delicada bailarina de todas. Pele branca, olhos de ardósia, cabelos loiros aparados no ombro. Eu falaria sobre o sorriso dela, mas só o vi uma vez: na noite em que ela atirou-se em meus braços e comigo pôs-se a dançar.
                - Em Veneza.
                - Precisamente. Lindo quadro: por entre ruas e rios de Veneza, a bailarina e o cantor. Eu cantava, ela bailava no meu compasso. Achei que morreria de amores naquela noite.
                - E hoje, esse quadro completa um ano desde visto.
                - Sim. Comecei a viajar pela Itália, com o intuito de encantar gente com as minhas canções. E agora que estou em Verona, cenário de Romeu e Julieta, me pergunto se é a hora certa de reencontrar a minha bailarina.
                A espanhola o analisou com aqueles olhos cinzentos.
                - Por que você não está sorrindo hoje?
                - Não faz sentido fazê-lo.
                - Mas você está sempre sorrindo. Algo lhe tira a paz neste dia. O que é?
                - Queria que ela estivesse ardendo de paixão como eu estou – ele disse, em um murmúrio envergonhado.
                A cigana sorriu, triste.
                - Eu sabia que você viria. E pensei muito no que lhe dizer. Um rapaz de talento tão meigo quanto fazer amor com palavras, que demorou tanto tempo para conquistar a bela bailarina... Tantos versos escritos para ela, mundos que você prometia sem sucesso. Sofreu como um tolo até que ela lhe desse a atenção merecida. Até que, finalmente, vocês dançaram juntos naquela noite. No mesmo ritmo. Meses se passaram até essa cena acontecer – meses em que você se esforçou loucamente para conquistá-la.
                O cantor assentiu com os olhos marejados.
                - Pois lhe digo, jovem: volte depressa, pois ela está em chamas.
                O rosto do cantor se iluminou, e ele abriu aquele especial sorriso que sempre o acompanhava.
                Agradeceu à cigana e foi tomar a próxima balsa que saía do Rio Ádige. Chegou em Veneza em questão de horas.
                Ao pisar na cidade, usou um cavalo para ir até o teatro onde sua donzela se apresentava todas as noites.
                Seu coração bombeava quantidades absurdas de sangue para cada pedacinho do seu corpo. Ele nunca havia sentido o coração tão acelerado como ele estava no momento. Ele enfartaria se visse a bailarina, e enfartaria ainda mais rápido se não a visse.
                Estava anoitecendo, quase na hora do espetáculo, quando ele chegou ao seu destino.
                O teatro estava em chamas.
                O lugar inteiro pegava fogo. Ardia e crepitava em chamas absurdamente quentes e avermelhadas. Tudo isso acontecendo pela presença de um ator descuidado que acendera um palito de fósforos onde não deveria.
                Pensando na bailarina, o cantor sentou-se no chão daquela Veneza irreconhecível. Seu coração, agora, estava queimado – como a sua bailarina e o Teatro da Ilusão.
Conto baseado na música “Bailarina”, da banda Veneza em Apuros.

A Fênix

                Tinha uma moça sentada lá. E algo nela mostrava que não se parecia com as outras. Ela era diferente. Era miudinha, pequena mesmo. E tinha um corpo formosamente magro. Cabelo cacheado preto, olhos profundos da mesma cor dos cachos e uma boca pequena – lábios que tremiam por entre lágrimas. Seu rosto estava manchado de maquiagem preta que havia escorrido enquanto ela estava chorando.
                E ela chorava pelo mesmo motivo pelo qual todos choram um dia. Eva chorava por amor. Ela se sentia indefesa, frágil e pouco atraente. Isso a dava vontade de se enfiar em um enorme casaco com calças largas e esconder todo o seu corpo. Eva chorava por querer ser Lilith, a dama de personalidade forte que preferiu desistir do paraíso do que desistir da sua liberdade. Lilith não se submetia, Eva achava que nascera para a submissão.
                Achava que tinha o encontrado, e fazia sentido que isso tivesse acontecido: eles eram iguais. Ela se via namorando seu espelho, seu igual de sexo oposto. Como dois curingas do mesmo baralho – diferentes do resto das cartas, mas iguais entre si. Viveram um ano de utopia – e agora ela estava achando irônico e revoltante que não só a sua, mas que todas as utopias acabassem um dia.
                Ela chorou porque se sentia morta. Ela estava morta porque havia chorado.
                Eva usava um vestido gracioso, que brilhava e cintilava em cores cintilantes – deveriam ser várias, talvez só algumas. Púrpura, azul, vermelho, branco, dourado e um preto de luto se misturavam, cintilavam e confundiam a vista do vestido da mulher. E o vestido não era a única coisa especial, diria quase mágica, que ela possuía – ela irradiava luz. Ela era toda energia, toda amor. E sua energia linda, aquela energia sempre em fusão com o amor, fora rejeitada. E isso estava doendo em seu peito. Latejava forte, latejava fundo.
                Bobagens passavam pela sua cabeça. Caraminholas que transbordavam desesperança, medo e insegurança vinham à tona, vinham a toda hora e no formato dos seus piores pesadelos.
                Todos passavam pela praça e observavam a menina-mulher com sintomas de coração partido. Alguns achavam a cena estranha, outros sorriam numa tentativa idiota de ajudar e demonstrar compaixão. A maioria, no entanto, sentia pena. E isso a dava ainda mais vontade de chorar.
                Pousaram corvos. Ela não gostou nem um pouco disso. A visão daqueles pássaros sombrios, simbolizando o mau-presságio, se misturava com coisas que ele disse. Coisas ruins e coisas boas. Lembrava das cartas que ela havia escrito para ele. Lembrava de todas as coisas ótimas e lembrava de todas as coisas terríveis das quais poderia se lembrar, desde que essas coisas envolvessem os dois juntos.
                E se cansou.
                Revivera o passado. Sofrera duas vezes – e daí? Não se sentia bem, não achava que amaria alguém novamente, mas a aceitação viria com o tempo.
                Não queria mais se imaginar sozinha, virgem e com quatorze gatos no futuro de cinqüenta anos. Queria amar a todo tempo com um cara de sorriso bonito, queria amá-lo em cima de um piano de cauda enquanto o estéreo berrava The Doors.
                Cansou de sentir pena de si mesma.
                Com algum esforço, seu vestido genialmente colorido, agora, virou penugem. Eva agora era ave. Agora tinha olhos escuros e penas cintilantes. Penas coloridas pelas cinco cores sagradas.
                Levantou vôo, espantou os corvos. Viu-se em chamas, fez com que uma chuva de pó banhasse a praça – e, contente, percebeu que novos ventos não demoraram a soprar, juntar as cinzas da garota e recompô-la.
                Ela estava morta; agora ela renascera.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Segundo de Junho

Minha mulher sempre acordava tarde. Nunca gostou de acordar cedo e portanto nunca o fazia. Se um dia o fizesse, eu chegaria à conclusão de que ela estava doente.
Mas naquele dia - ah, aquele dia foi diferente. Não só se levantou cedo, como também começou a fazer o meu café da manhã. Perguntei a ela se ela estava se sentindo bem, ela respondeu um sim naquele sorriso maravilhoso que possuía e esqueci o assunto.
Tomamos um café da manhã maravilhoso e logo tive de sair de casa.
- Tchau, meu bem.
- Tchau, meu amor!
Cheguei à escola onde dava aula e comecei a escrever o cabeçalho no quadro negro. O giz branco riscava o quadro, eu olhava maravilhado as minhas letras redondas se formando. Eu percebia o quanto eu gostava de dar aula - gostava, não. Isso se chama amor. Eu percebia o quanto amava dar aula enquanto escrevia no quadro.
"Brasília, 2 de junho de 20...". Caiu a ficha. Levei um susto, fiquei pálido, estava passando mal, achava que ia desmaiar. Meus alunos me consolavam, me perguntavam se queria que eles trouxessem remédios, copos d'água ou, em última instância, um canivete para que eu cortasse os pulsos.
Continuei a dar aula me sentindo um estúpido. Me sentia o pior marido do mundo, apesar de ter ciência de que não era o primeiro a esquecer o aniversário da própria esposa.
O dia de segundo de junho se arrastou. Já havia feito um plano - sim, eu colocaria em prática a primeira coisa que todos devem saber: se você esqueceu de uma data especial, finja que vá fazer uma surpresa.
Saí da escola, fui à floricultura. Comprei um buquê de doze rosas argentinas vermelhas - no centro, uma branca. O buquê foi acompanhado de um cartão: "Minha querida, entre todas as outras, você é única - assim como esta rosa branca".
Dei o fora da floricultura e pus em prática a segunda coisa que todos devem fazer - uma gafe não se conserta com um buquê de rosas: há também de se fazer uma surpresa, logicamente!
Cheguei ao meu apartamento de mãos suadas, coloquei o buquê em cima do tapete e toquei a campainha.
Depois disso, claro que saí correndo feito um louco pelas escadas abaixo. Dez minutos depois, fui para casa.
Minha esposa, linda, linda linda, atendeu a porta. Recebeu-me maravilhosamente, nos perdemos entre beijos e abraços.
Dias depois, confessei a ela que na verdade não era surpresa nenhuma. Disse a ela, olhando-a nos olhos, que havia esquecido do aniversário dela.
Ela nem ligou para isso.
"O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." Coríntios 13:4-7.



Espero que tenham gostado do novo layout!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Confesso

Que estou abandonando o blog! Obrigada a todos os meus fiéis leitores que sempre comentaram e aos que não comentaram também. Adeus!


Primeiro de Abril.