sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cabeça

O que mais gosto na gente, meu amor, é como conseguimos (e tão intensamente) ser poesia, que se envolve na mais bela de todas as melodias e, ao mesmo tempo, se propaga em todas as direções.
Gosto do jeito que a tempestade alaga A Cidade, enquanto apreciamos a beleza do espetáculo, gota por gota.
Gosto do jeito que você sorri abertamente quando te ligo e, mais que tudo, da sua voz de sono, que tantas vezes confundi com voz de outras coisas.
Construímos, juntos, atores, cenários e marcações. Fizemos um terreno, delimitamos nosso território e, juntos, aprendemos a nos impor e a nos expor um para o outro e, aos poucos, para o mundo.
E brigamos, fizemos as pazes, aprendemos a superar e a lidar com os ciúmes, passamos mais de dez mil minutos falando absurdos, trocando juras e rindo quando combinamos de desligar juntos e não desligamos o telefone.

É assim o amor.
E, enquanto ainda formos poesia, melodia ou harmonia, assim será.
Será para sempre.
E, ao fim da tua eternidade (e digo tua porque fatos são fatos), terá sido eterno enquanto foi.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Arcano sem-número

Algumas achavam que ele era um bobo da corte, sempre pronto para debochar de quem passasse. Outros, por sua vez, achavam – e mais corretamente – que ele era só um louco. Louco. Mas eles não reparavam que, justamente por ser louco, esse tipo tinha uma visão ampla da realidade.
Ele chegou, trôpego porém estranhamente compenetrado. A vila toda, uma espécie de Vaticano com cinqüenta habitantes, fingiu não tê-lo visto, por mais que ele chamasse a atenção de todos com seus olhinhos pequenos, os óculos espalhafatosos e os sinos pendurados na roupa.
Subiu no banco e pôs-se a gritar:
- Oh, moças que têm ódio no coração! Busquem o amor, sempre!
As tais moças pararam para ouvi-lo por um instante.
- O ódio é transgressão, caras! Pensem também que se alguém lhes causa tais sentimentos, é porque vocês permitiram.
O Louco lacrimejava, como se achasse a situação inaceitável. Já a platéia de donzelas estava estática, como se tivessem absorvido a idéia. Estavam chocadas, mas não felizes.
Num salto, o Louco pôs-se a pensar. Continuou seu monólogo, por mais que tivesse notado a reação da platéia.
- O que mais me intriga é o ódio pelos homens honestos. Ora, afinal, são homens honestos! Não enganaram a vocês, em momento algum. Se hoje estão com outra pessoa, é porque nunca lhe prometeram nada. Se hoje estão com outra pessoa é por questão de afinidade! Sejam altruístas, desejem-lhes luz e amor, e depois superem a perda. E fiquem tranqüilas, porque, como me disse uma senhora de olhos puxados e pulseiras de Bangladesh, as pedras se encontram. Para quê nutrir tal sentimento como ódio por alguém que teve papel especial e lisonjeiro em suas vidas, ou para quê nutrir ódio de uma criança, simplesmente?
O Louco ria, agora.
- É mais do que fácil abster-se da culpa pela própria entrega e vulnerabilidade, não é? Só não é mais fácil que iludir-se, achando que iria curá-lo de outra pessoa, ou achando que viria a partilhar uma eternidade com o Homem Honesto que, com tremenda sinceridade, sempre deixou claro que não seria o caso!
A platéia, agora, borbulhava de raiva. Havia sido forçada a encarar a realidade, mas pôr um pano sobre os olhos era tão mais simples...
- Cegas! Todas cegas! – exclamou o Louco.
E, do mesmo jeito que entrou, saiu. Cantarolava:
- “Eu sou rapaz direito, fui escolhido pela menina mais bonita”...

domingo, 7 de novembro de 2010

Indo para o banho, tirou a roupa, fechou os olhos e prendeu a respiração. Não queria olhar pra baixo - olhar pra baixo lhe dava dimensão do tamanho da queda, e ela sempre teve medo de altura.
Entrou no banho, esperou até a água escaldante cair-lhe sobre os cabelos e tudo evaporou junto com o líquido. Brincou com o sabonete em suas mãos, até que visse espuma branca e soprasse bolhas.


Afinal, o que seria de um peixe sem aquelas sessões de meia hora dentro daquele cubículo abafado?

terça-feira, 2 de novembro de 2010


"Vou te ensinar um pouco mais sobre o zodíaco.
O primeiro signo é áries
". E acariciou-lhe o rosto e os cabelos.
"Depois, vemos touro." Beijou-lhe a boca e mordeu-lhe o pescoço.
"Em terceiro, gêmeos". Segurou-lhe as mãos com força, com tanta força que achava que nunca mais conseguiria soltar.
"Câncer." Soltou uma das mãos do rapaz e acariciou-lhe o peito.
"Leão". Massageou suas costas por alguns segundos.
"Virgem". Alisou sua barriga com um sorriso de orelha a orelha, como que se fosse uma oração para que seu intestino fizesse corretamente o trabalho de filtrar somente as coisas boas para o corpo dele.
"Libra". Descansou as mãos sobre a região lombar dele.
"Escorpião". Muito de leve, roçou os dedos no centro do corpo amando.
"Sagitário". Apertou-lhe as coxas, com um sorriso travesso.
"Capricórnio". Ela, agora, estava agachada. Mordia-lhe os joelhos.
"Aquário". Segurou suas pernas com muita força.
"E, por fim, peixes".

Terminou a noite beijando-lhe os pés.