sábado, 31 de dezembro de 2011

O Surfista

A moça estava parada na extremidade da ponte, mas sua cabeça estava na lua. O lugar era bonito, ela sabia - era verde, tinha cheiro de praia, fazia sol e o vento bagunçava a juba escura da garota. Então o surfista passa e tudo muda. Ela finca os olhos verdes e intensos no mel do olhar do rapaz e as coisas viram de cabeça para baixo. Os "quem", "quando", "onde" e "por quês" inundam aquela mente despreocupada, tranqüila e que só buscava descanso e paz.
A mente volta ao seu retiro, alcança descanso e paz porque é isso que ela quer. O surfista se perde da vista dela e a troca de olhares é esquecida. Tem de ser. Mas não foi por completo, porque quando a garota foi se despedir do mar e o surfista a recebeu sorrindo, ela desmontou. E tudo vira de cabeça para baixo novamente. Uma prancha, os dois sentados na areia, mãos dadas, sorriso e vontade.
Na pseudo-ilha-quase-deserta, a garota sentiu os cabelos louros dele se emaranhando nos dedos dela e as costas quentes e bronzeadas do sol sob sua mão. Ele não ria, era sério e compenetrado, mas falava bonito sobre o mar e sobre a liberdade que os aquarianos típicos - como ele - sempre anseiam.

E na madrugada seguinte, tomada pela insônia e pelo sorriso, ela acorda e descobre que ainda sente o gosto dele de sal, protetor solar e calor em sua própria boca.

- Se eu escrevesse para você, você leria?
- Claro. Por que não?
- Então tá.
- O texto está aí? Como eu vou ler?
- Eu te acho.

E a moça é de cumprir sua palavra.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Para alguém que não vai ler

Se eu morasse em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, apagaria você da minha vida, agora. Você não passa de um garotinho assustado, igual a todos os outros, que faz promessas vazias que você não pode nem pretende cumprir, e logo depois some, me deixando sozinha, desamparada, cansado de mim por causa dos meus impulsos e dos meus choros descontrolados e eu te odiaria por isso se não quisesse que sua vida desse certo. Estive aí para você sempre que você precisou, e você esteve aí para mim enquanto eu estava sozinha. Não estou mais sozinha, mas agora você me trata com indiferença e raiva mesmo sabendo que não sou culpada de nenhum dos seus problemas. Você é só mais um, um filho da mãe idêntico aos outros, que faz questão de marcar a minha vida e desaparecer dela quando bem entende, ignorando meus pedidos de atenção. Diria que sinto falta das suas mãos, das suas risadas, do seu cabelo bem cuidado - mas não vou dizer, porque todos esses itens são substituíveis e vou encontrá-los em outra pessoa. Você foi a pessoa mais incrível na minha vida por um tempo, certo? Você escolheu ser só mais um, você escolheu fugir e, por mais que eu e você saibamos que não sou lá a pessoa mais religiosa do mundo, sei que o karma voltará pra você. Um dia, você estará sozinho e vai precisar de mim. Nesse dia, não vou retribuir seu afeto, suas mensagens, vou te tratar com indiferença, vou fingir que "nós" nunca existimos, que você nunca provou o gosto de xampu dos meus cabelos nem a saliva da minha boca, que nunca demos as mãos, que nunca vimos filmes na casa um do outro. Você pode ter se esquecido, mas eu não. E as cicatrizes vão ficar para sempre, manchando de sangue a minha roupa.

Abençoados sejam os esquecidos, pois deles tiram o melhor dos seus equívocos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Fragmento Sobre a Beleza do Lírio

A flor estava acanhada, tímida no seu canto como de usual. Às vezes, o vento fazia com que ela virasse suas pétalas em minha direção, o que fazia com que eu me derretesse e me enchesse de timidez ao mesmo tempo.
Não é meu dever fazer o que fiz, e talvez seja errado - mas, tomada por um carinho sem limites ao ver o lírio iluminado pela lua, as pétalas bem contornadas e o caule carnudo, não pude evitar. Deixei dentro do seu vaso de cristal um bilhete que dizia "lírio, você está lindo esta noite".

E a flor sabe que a acho linda todos os dias.

P.S.: Tenho sonhado com você.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Poseidon

O mar é a personificação do dual: tem de incrivelmente belo e calmo o mesmo que tem de traiçoeiro e furioso. Isso porque o mar é como a vida: ele tem seus momentos.
A imensidão azul tem dias em que o vento leva o cheiro de sal, areia e calor para os quatro cantos do mundo. Em dias assim, as ondas quebram com graça e leveza, parecendo sussurrar o segredo da eternidade.
Mas há também os dias em que o que antes era um grande macio azul se torna um grande espetáculo de fúria dirigido por Netuno. Nos dias como esses, a maré está alta e agitada, a água parece não dar pé e a sensação de que o afogamento é inevitável está sempre presente. E nos dias em que Netuno se enfurece, não há mais o que fazer além de esperar a calmaria voltar.

O mar é assim: imprevisível como o amor.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

(nem metade do que deveria ser)

A moça e eu reclamávamos das infelicidades da vida e eu conseguia vê-la materializada na minha frente com os olhos escuros e intensos, bem pintados, me olhando com muita intensidade. Acho que "intensidade" é uma boa palavra para definir essa garota. A gente reclamava de cabelos, cachos desordenados, cobras de Medusa, mitologias, a gente citava Caio Fernando Abreu e ela me agradecia imensamente pelo livro, a gente projetava e reclamava sobre como as coisas são cíclicas, falávamos sobre mandar recados. E enquanto havia uma identificação mútua de sermos o mesmo bicho esquisito, que se isola e não sabe se comunicar direito e sofre por isso - porque a comunicação é imprescindivelmente parceira do sentir, e a gente sente muito -, nos deprimíamos sobre como as pessoas associam amadurecimento com o esquecimento dos próprios sonhos, falávamos de Sampa e do Rio, mas acho que conseguíamos até rir um pouco do nosso próprio pessimismo. Um pouco, e raramente, mas talvez isso tenha acontecido. A garota é incrível e queria que ela soubesse disso, queria também que ela soubesse que poderia ser minha melhor amiga se quisesse.
De qualquer forma, enquanto lamentávamos não saber dançar a dança do ventre ou ter um vozerão que encanta quando se abre para cantar ou nem de ter os cabelos ondulados que nem uma colombiana da vida, ela resumiu tudo que está escrito.

"A gente não é furacão, e sim tempestade".

(Para R.d.S)

domingo, 13 de novembro de 2011

Aos Anônimos

1) Consertei a parte do blog que dizia "padaços" de chocolate. Obrigada! Nunca teria percebido.
2) Sobre a pergunta que me fizeram no post "Cantigas" (atualmente deletado): a resposta é sim. E é justamente por isso que eu deletei aquele post.
3) O anonimato me enche de curiosidade por motivos óbvios, e de medo porque ele costuma ser usado no lado negro da força.
4) Não sou tão pequenina assim. Tenho 1.65 de altura, apesar de achar o apelido carinhoso.
5) Obrigada pelo elogio aos meus olhos.

sábado, 12 de novembro de 2011

Por que você fugiu?

Ao Lírio

Não me leve a mal quando digo isso, mas a confiança não vem sendo (e talvez nunca tenha sido) meu forte. Por decepções com rosas, lilases e outros tipos de flor, costumo me trancar muito e partilhar meus segredos íntimos com poucos. O problema é quando decido me abrir e o que há de mais profundo vem a tona para você, lírio. Isso é perigoso. Relações de qualquer tipo são dominadas por jogos de poder. E você sabe tanto e me conhece tão bem que isso me assusta. Sei que também tenho certo poder sobre suas ações; nem eu nem você diríamos que sabemos pouco sobre nossas vidas. Compartilhamos coisas íntimas. Se você quiser me despedaçar e me colocar na pior situação possível, você pode. E os seres vivos tem me desapontado muito nesse quesito, me fazendo mal sem ganhar nada em troca. Eu sou paranóica, eu sei. E não quero pensar numa possível vingança - tanto eu quanto você sabemos que eu também poderia despedaçar seu relacionamento com a abelha, por exemplo

Termino o fragmento com um pedido: por favor, não se nivele ao nível das outras flores. Elas, só pétalas e espinhos. Você, perfume e elegância. Não me desaponte.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O vaga-lume

Olha só, teve essa vez que eu falei que o mundo era bonito demais para a gente ficar sofrendo um pelo outro e eu vou repetir isso... Simplesmente porque é verdade. Tudo bem, tudo bem, às vezes as coisas tomam um rumo impensado e as pessoas são bastante estúpidas - nós fazemos coisas que não devíamos, e nem sempre paramos para dizer um ao outro que "isso não devia estar acontecendo". Você não vai lembrar das minhas palavras exatas, eu sei, e isso me soa óbvio. Moço, olha só, eu não te cobro verdades, eu não te cobro um compromisso, fidelidade, amor eterno, um casamento, planejamento de filhos porque isso é distante, é irreal e, acima de tudo, não é plausível - você tem as suas coisas, eu tenho as minhas, e as nossas vidas - por mais que partilhadas por meses - vão seguir sozinhas. Você tem as suas moças por aí, eu tenho meus rapazes por aqui e nós dois sabemos disso - por mais que seja intuitivamente, por mais que doa, que dê ciúmes, por mais que a gente não queira acreditar nisso. Minha promessa é só que as coisas vão ficar melhor assim; cada um para o seu canto e não se fala mais nisso. Eu vou ser forte dessa vez. Eu não quero voltar atrás. Eu não quero incomodar seus planos, sua jornada de estudos, o futuro possivelmente brilhante que você tem pela frente. Então segue, vaga-lume, e brilha pro mundo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Dual

Sumir das pessoas. Sumir de tudo. Sou uma decepção ambulante e compartilho a vontade infinita de um retiro.
Impressionante como comandos corpo-mente fazem milagres. Tomando e perdendo controle do meu corpo e da minha alma, mergulho no céu com diamantes. E enquanto deito e me afundo numa nuvem espessa e branca, penso que as nuvens me aguentam por muito mais tempo e com muito mais intensidade quando estou pensando em você.
Me afundar em depressão por não conseguir acertar... Ficar triste por sete bilhões de almas vagando sem rumo pelo planeta...

A cada dia que passa, tenho mais certeza de que deveriam dar seu nome a um furacão.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Meio da Semana

Pare, respire e escute um sambinha.

http://www.facebook.com/sebdinatos/posts/165101773583601

E a semana continua, no mesmo ritmo e velocidade. Fôlego, garoto!

P.S.: O vídeo é da banda de um amigo que está competindo em um concurso. Como ele é legal e pediu com jeitinho, aí está o link. Curtam.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sem título

Não sei se quem se apossa de mim é Marina, com sua auto-depreciação absurda, ou Pilar, com a boca espumando de raiva e condenando sem o menor pudor.
As lâminas, ao menos, sempre estarão aqui.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Staring at the Sea

Ela pegou o frasco de perfume que estava sobre a cabeceira da cama. Alaska, seu perfume com aroma de sol, suor e baunilha sempre fazia com que ela se sentisse bem. Não mais bonita, não mais atraente, não deliciosa. Só mais leve.
Foi encontrá-lo na beira do mar. Estava escurecendo e o sol se punha daquela forma que faz o céu ficar avermelhado e transforma as sombras de todos em monstros alongados. Sentaram-se na areia e conversaram. Ela ria daquelas mãos inquietas e o observava com grandes olhos verdes-cor-de-mar, curiosa e ansiando pelas próximas palavras. Ele sentia a garganta secar.
Olhos verdes são a mais nova maldição do século XXI, ela pensou. Quis falar, mas sorriu à Mona Lisa. Achou que dessa forma diria a ele muito mais.
Os dedos finos dele estavam envenenados. O veneno atingiu o calcanhar de Aquiles feminino, que desaguava em pés que faziam amor com o chão. O chão, por sua vez, era infinitude de milhares de pontos feitos de areia.
Ela o fitou com doçura; ele nunca saberia. Com medo - mas conformada e talvez até satisfeita com a possibilidade -, ela se perguntou se ele, muito pelo contrário, não só já saberia como também teria certeza.
A garota se inclina e beija os lábios do rapaz. Sacia seu desejo profundo daqueles lábios, que a consumia de dentro para fora há meses a fio.

Corre para o mar, conformada com o veneno que lançaram-lhe às pernas, e vira sereia.

sábado, 8 de outubro de 2011

O menino que queria ser anjo e a cigana-bruxa (ou: sobre a beleza do efêmero)

Era uma vez um menino que queria ser anjo. O menino achava o mundo inteiro muito bonito, e queria poder voar pra ver essa beleza toda de uma vez só. Não queria ser avião ou qualquer outra coisa que voasse porque essas outras coisas acabavam, e o menino realmente ficava irritado com a efemeridade da vida. O menino queria ser anjo para ser eterno.
Abismado, ele foi até uma cigana-bruxa e pediu para ela para virar um anjo. Ela, por sua vez, ficou triste por perceber que o menino não via a beleza do efêmero. Toda linda, enfeitada por pulseiras e colares de ouro, deitou-se no chão e se contorceu até que um líquido espesso saísse da sua boca.
O menino, vendo aquela moça tão bonita se contorcendo até inexistir na frente dele, entendeu o recado que ela quis lhe passar.
Mas ainda assim, o menino ainda queria saber voar para apreciar a beleza do mundo lá do alto.

Estalou os dedos e virou pássaro.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Para o vento, sobre o lírio

Mas afinal, vento, o que queres de mim? Não entendo por que tu tiras o lírio dos meus dedos e logo o trazes de volta. Já lhe contei, seu maldito punhado de ar, que acho justo com a minha pessoa que o lírio se junte a uma abelha e nunca mais me visite. Não vejo problema - sorte da abelha, creio eu. Mas os mesmos ventos que levam a flor para longe de mim a trazem de volta - ainda mais perfumada e mais elegante. E logo os ventos tiram o suave caule dos meus dedos e sinto que hei de perder o lírio de vista. Justo quando me conformo com a ausência das carnudas pétalas, ele surge no parapeito da janela roçando minha bochecha.
Caro vento, gostaria de entender, mas não entendo. Já concluí que não entender é combustível.
Concluo que é isso que o lírio provoca em mim: um grande incêndio, causado pelo álcool - o lírio por si só me embriaga - e o fogo, que sempre sobe quando tu, o vento, trazes a flor de volta para mim. E se esse incêndio é de carinho, amizade ou desejo já não sei, mas me importo o suficiente para descobrir, aturando as indas e vindas do lírio.



P.S.: Leio todos os comentários do blog. O anonimato é uma ferramenta que me enche de curiosidade e medo. Muito obrigada. Encorajo fortemente a se revelarem!

sábado, 17 de setembro de 2011

Marina

Doce, carente e criativa: sou, por fim, água.

Cansada demais de ver as pessoas me tratando como lixo, de conviver com gente sem caráter, que derruba a barreira que construo em volta de mim mesma simplesmente para me escrotizar, decepcionar ou mentir para mim. Se fosse um ou outro talvez eu soubesse lidar melhor, mas estou rodeada desse tipo de gente.
Cansada de negligenciar minhas obrigações para me afundar em depressão e depois sentir vontade de chorar quando reprimida por isso.
Sangrar os pulsos enquanto choro e incensos são queimados no quarto já faz parte da rotina, mas não deixa de parecer uma bela cena de cinema, ainda mais quando o espelho reflete uma jovem descabelada, com o rosto manchado de rímel e lápis de olho: ela está completamente desesperada e os espectadores invisíveis, espectros que fingem estar presentes quando na verdade não estão, vêem isso. Ela está desesperada por carinho, justiça, amor e reconhecimento.
Deitada no sofá da sala, me pergunto se existe alguém do outro lado da cidade que queira e sofra pelas mesmas coisas que eu. Orgulho não é presente em mim, eu acho que as pessoas deviam seguir seus desejos sem serem julgadas. Mas a hipocrisia em massa julga, impõe. E além de achar que isso é errado, acho que é inútil. Cada um devia saber o que faz da sua vida sem se preocupar com o que os outros acham.
E por não conseguir seguir regras e por ser um paradoxo ambulante, torno-me complexa e de difícil entendimento.
As pessoas sempre desistem de mim, mas não posso dizer que isso é incompreensível.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Zoé

O mundo é mais bonito através das lentes: tem um ar envelhecido, desfocado, nostálgico. Acho que as lentes mostram o mundo como ele realmente é. Alternando minhas concepções do mundo entre incrivelmente belo e incrivelmente podre, sou dual como o ar.

Hoje eu acordei com vontade de sorvete. Sorvete de creme ou baunilha, algo gelado e branco para manchar meus lábios enquanto dou risada de uma piada de humor negro.
Levanto e canto uma música de 1967 enquanto tomo banho, as gotas de água caindo na maior felicidade do chuveiro para o meu corpo. Escorrem. Respingam. São nove horas da manhã e já posso dar bom-dia para os vizinhos com a minha voz esganiçada. Às vezes, acho que sou o melhor despertador do mundo.
Saio de casa, ando, ando, ando, suo, ando, penso em depilar as pernas e em pintar o cabelo de verde e vejo que cheguei numa passeata com vários burgueses e filhinhos de papai exigindo 10% do PIB para a educação. Que merda, essas crianças não deviam estar na escola?
Vejo um mendigo dedilhando um violão. Tiro um maço de Marlboro do bolso e jogo um cigarro para ele. Ele põe na boca. Acendo para ele com um palito de fósforos. Resolvo que é melhor bater uma foto daquela passeata, registrar a hipocrisia desse mundo por trás das lentes analógicas de uma câmera empoeirada - por mais que eu ache que esse mundo é um lugar bem legal para se morar durante, em média, uns oitenta anos.
O mendigo me oferece o violão. Começo a tocar com a alma e o coração uma música que fala sobre algo como um cavalo negro e uma cerejeira. Me descabelo e suo. As cordas vocais doeriam se não fossem tão potentes.
Ele: Você está treinando para pegar as garotas?
Eu: Ou talvez eu só ache essa música bonita, já pensou nisso?
Ele: (sorri).

E daí percebo que, quando a pessoa mais incrível que conversei nos últimos meses é um mendigo, é porque esse mundo está muito fodido.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pilar


- Fica calma e fala mais baixo: os vizinhos vão te escutar.
- Ficar CALMA!? Olha como você me deixou!, e você quer que eu fique CALMA!? Em segundo lugar, EU NÃO DOU A MÍNIMA PARA O QUE OS VIZINHOS PENSAM!

Histérica, louca, uma fera, máquina de produzir berros furiosos. Mas assim que ouve a tecla vermelha desligando o telefone, põe tudo no lugar e assume novamente o controle sobre si. O câncer na vida dela é ele.
Ela é forte: enfrentou perdas, lutos, monstros marinhos, depressões, resistiu à tentativas de suicídio e a abandonos no escuro, enfrentou dragões que cuspiam fogo e de brinde degolou princesas. Perfeitas, equilibravam-se em saltos altos, passavam esmalte e ela só olhava para suas unhas enormes e sujas, completamente fodidas, e pensava que era uma pirata.
Ofende e se irrita quando lhe dizem o que fazer. Pilar tem um problema com a ideia toda de "autoridade"; quer viver a sua vida. Não roubará, não matará, não cobiçará a mulher do próximo nem o homem da próxima. Ela só não vê problema em gritar, enclausurada em seu quarto, ou em cantar pelas calçadas, ou em falar palavrão.
Pilar é agressividade. Deixe-a na cápsula se não conseguir manter seu caráter e sua ética. Minta, dissimule, provoque e se afaste e terá o que merece: o cheiro marcante dela voltará a te perseguir, assim como o som das palavras que ela disse, tão duramente e tão certa daquilo, e que atingiram seu ponto mais sensível de propósito.
Mas é justa. Não ataca inocentes. É bem estruturada. É inteligente e odeia quem lhe tira dos seus tão amados e bem cuidados livros sem realmente lhe oferecer companhia.
Pilar é terra. Não cave muito fundo se não tiver medo de cair no buraco.

sábado, 3 de setembro de 2011

Helter Skelter


Helter Skelter significa caos. Ninguém nunca te forçou a mergulhar nos olhos de furacão. O futuro é analógico: incerto e defeituoso.
Quente por ser fogo, o caos se reestrutura.

Helter Skelter sente vontade de estrangular o plebeu que chegou a conhecer a pimenta que ela tatuou na virilha. Mas ela sabe que seus olhos impactarão o nível superior, os jardins da Europa, os cults de vinte e dois anos. Helter é calculista, e ignorará o mentiroso que passou pela sua vida. Não só ele, mas todos os outros que virão.
Ela é forte. Seus pelos escuros combinam com ela. As unhas afiadas estão prontas para arranhar as costas do próximo, enquanto ri do passado.
Recita frases dos seus filmes favoritos. Se o vir uma próxima vez, dirá que lying is the most fun a girl can have without taking her clothes off - but it's better if you do. E rirá na cara do perigo, empurrando para longe o dono do gosto mais amargo que ela já provou.
Já não chove mais no terreno. Não há possibilidade de precipitação na lua. A atmosfera está ausente para ele, porque Skelter tirou seu fôlego.
Ri, superior à Outra. A Outra é ingênua, infantil e arrogante. Não sabe da missa um terço. Vira essa página.
Cospe n'O Louco. Sente prazer jogando o fósforo em cima das cartas de tarô.
Helter Skelter é Ruiva Suicida. Toronto há muito já não é opção. Ela deixa A Cidade, pensando que é assim o ódio, e escuta seus passos marcantes com o coturno.

Muitas tempestades e furacões ainda serão gerados por este par de olhos, ela pensa. Sem dúvida.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Diálogo V

- Oi, bonita.
- Você cismou com esse nome.
- Vou te provocar até onde você conseguir aguentar.
- Bizarro. Você é idealizável.
- Você é minha bonita.
- Você é muito cara-de-pau.
- Eu escuto Pink Floyd pensando em você. E antes disso eu nem gostava de Pink Floyd.
- Não tem como não gostar de Pink Floyd.
- Tem. Eu detestava muito.
- Não detesta mais, certo? E a culpa é minha.
- O que você quer?
- Não sei.
- Você está carente que eu sei.
- Eu também sei.
- Me quer?
- Vem.
- Você fica me dando foras. Não sei se devia ir.
- Não fico te dando foras.
- O que você é, afinal?
- Não gosto de rótulos. Não sou nada. Estou, e odeio minha inconstância.
- Eu acho sua inconstância óbvia.
- Sim, por causa do meu ascendente em gêmeos.
- Isso.
- Você algum dia vai conseguir se apaixonar por alguém que não tenha nada em gêmeos?
Pausa.
- Não.

(Para J.I).

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Diálogo III

Foi rasgado em milhares de pedaços. Não tenho mais as palavras exatas, nem posso mais expressar a paixão que expressei ao papel, aos berros, delirando, com força, com a tinta penetrando o imenso vazio branco como o Alasca em extrema abundância. Não o decorei. Não sei mais como começava - mas, presumível como sou, sei que haviam referências astrológicas ao seu sol, ascendente e lua. Sei que pedia pra você me mostrar tudo - o mundo como ele é, a verdade como você a aprecia, a felicidade como você a conceitua. E não cheguei a ver nenhuma dessas cosias. Because according to you I always screw things up. Mas isso não é verdade. Se ao menos você deixasse eu segurar sua mão, você veria que eu sei fazer tudo direitinho. E que meus erros são inocentes.
E relendo o livro do seu filme favorito, senti muito a sua falta.

Happiness is only real if shared. (Christopher Johnson McCandless)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Diálogo IV/Let It Burn

- Descobri.
- Me conta.
- O problema é que eu escrevo.
- Como assim?
- Passo tempo demais indo de heterônimo em heterônimo para você entender. É como se eu fosse geminiana, só que com mais de dois pólos - e eles não são necessariamente opostos. Quando você começa a me ler, eu mudo. E é por isso que você me ama.
- Ah, é?
- E é por isso que você me odeia. Não me entender é combustível. Não me entender é o que te fascina.
- Quem é a garota sensível e insegura que chora quando vou embora?
- Marina.
- E a menina ácida de senso de humor duvidoso que me alfineta e me faz rir até a barriga doer?
- Essa é a Zoé. Acidez o suficiente para corroer sua pele.
- Concordo. A mulher que explode comigo e me diz absurdos mal-educados... Mas que ao mesmo tempo parece ser forte o suficiente para enfrentar qualquer coisa...?
- Pilar. Às vezes queria que ela fosse mais presente. Costumo sentir falta da força dela quando estou Marina.
- E o mulherão que me enlouquece e perturba durante noites a fio com grandes olhos de furacão? Quem é essa?
- É o caos: Helter Skelter.
- Eu gosto dela. De todas elas.
- Você não entende nenhuma. Não entender é combustível. Deixa queimar.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Filomena

Tem que ter. Em algum lugar da cidade, em algum lugar do mundo, tem que ter alguém que esteja se sentindo do mesmo jeito que eu. Feliz, mas incompleta. Satisfeita, mas vazia. Sem programa para uma sexta-feira à noite, com fome, com vontade de ver filmes e com a mesma vontade de dormir (bêbada de sono é uma expressão mais adequada). Tem que ter alguém tão frustrada quanto eu, pensando "oh, mas que droga, meu namorado não me chamou para sair hoje" ou algo dramaticamente feminino do gênero. Porque eu olho a minha gata em cima da mesa com aquela carinha de sono que ela tem e penso que ela é uma puta duma sortuda, porque só come, dorme e recebe carinho o dia inteiro.
Eu não acharia nada mal ser uma gata por um dia...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ventania

Enfio as mãos debaixo da torneira que deixa escorrer água gelada e jogo o líquido no rosto. São 06h12 da manhã, a janela está aberta e me pergunto se o resto do prédio está acordado, se preparando para mais um dia da semana, ou se está dormindo. Talvez o resto do prédio esteja chorando, ou tenha insônia, ou esteja ouvindo rock progressivo em seus fones de ouvido.
Vou escovar os dentes sem nem mesmo tomar café da manhã, e sua voz ecoa na minha cabeça dizendo que preciso comer. Largo a escova e me preparo uma grande tigela de mingau, para só conseguir comer metade dela. Estou pulando o almoço desde segunda-feira passada.
Alguém dá a partida num carro cinco andares abaixo de mim e sorrio pensando na preguiça dessa pessoa. Tento me decidir sobre se gostei do meu cabelo ou não (e decido que gostei). Lá fora, o sol tinge o firmamento de um laranja-rosa-vermelho, cor que só existe aqui e em mais nenhum lugar. Meu esmalte está descascando. Penso no que mais tirar fotos para acabar com o filme.
E então tomo uma decisão importante: coloco a cabela para fora da janela e deixo a brisa gelada dar oi para as minhas bochechas, deixando meu nariz avermelhado de frio. O sol começa a fazer os ipês brilharem e ilumina as copas das árvores.

Esse mundo é bonito demais pra gente ficar sofrendo um pelo outro...

domingo, 14 de agosto de 2011

Balinhas de Uva

Eu comecei o dia comendo balinhas de uva. Foi meu café da manhã, e não tenho conseguido comer muito mais que isso. Meu sono, se quantificado, também anda do tamanho de uma uva. E dói. E não sei. Não sei nada. Mas sinto. E queria não sentir. Nada, nada, nada. Nunca. Nunca mais. Machuca. E lembro. Retrocedo. Não queria. Disco os números. Merda, sou fraca. Não estou mais aí pra dar feliz Dia dos Pais pro seu pai, mas sei que vou receber uma mensagem sua desejando exatamente "feliz Dia dos Pais pro sogrão". Eu vou sorrir. E vou sentir falta. Porque sou fraca e estúpida. E choro enquanto digito. E enquanto eu comia minhas balinhas de uva lembrava de uma cena descrita pelo Gaiman em Coraline, quando A Outra Mãe comia besouros. Ela pegava os bichinhos, assim, e tirava as patas, e colocava na boca, e os estalava com a língua no céu da boca. Nojento, eu sei, e balinhas de uva não são besouros. Mas lembrei disso. Da mesma forma que vi um ônibus indo para o Zoológico e li "Botafogo". E não paro de escutar Polly - a versão acústica é muito mais legal que a sua preferida. Acabo de lembrar o que é uma caçapa. Me sinto mal. Acrilic on Canvas. Esse texo podiam ser vários e vários fragmentos. Seus, meus, do Caio e do Renatão. Mas não é. É só exorcismo, como sempre foi quando era em relação em você. Prometo três vezes te encontrar no futuro, porque sou curiosa, porque tenho vontade, porque quero que seja com você, porque é mais fácil passar pra psicologia na UFRJ do que na UnB. "Não, você não fez nada de errado, ele te adora, só está dormindo", sua mãe me diz. Choro. Sua mãe sabia. Me sinto estúpida. Me doei. De novo. Me fodi. De novo. Eu já devia saber. Estou ouvindo Nirvana no aleatório e agora está tocando Drain You. I want you so bad, it's driving me mad, a música ressoa numa noite de um dos primeiros cinco meses do ano, e nos beijamos, e temos vontade, e rimos, e eu lembro que li algo que ela escreveu e era bom, e quente, e acho que era pra você e escuto sua voz desesperada mandando, ordenando, implorando eu parar de retroceder. Você me pede de volta. Lembro da sua voz triste dizendo que apaguei os depoimentos. Sinto raiva por ter te dado uma aliança que você não usava o tempo inteiro. Choro. Choro. Choro. Choro. Soco as mãos dos meus amigos pra descontar a raiva. Me olho no espelho, e choro. Lembra quando eu disse que ia te dar brigadeiros na boca? E do marketing e da pizza? E de sábado? Brincadeira. Como poderíamos nos esquecer da maior cicatriz de todas no nosso namoro? Sábado está em nós. Assim como as outras pessoas, grossas, intrometidas e estúpidas. Quero acreditar em você, porque sou fraca, porque é mais fácil, porque... sei lá. Agora começou Big Cheese, do Bleach. Me pergunto onde diabos enfiei a minha camisa do In Utero. Me pergunto se você está cuidando das minhas peças de roupa. Acho que vou me travestir de você, usar sua calça e sua blusa por hoje. Ou talvez só sua blusa, porque de sapatão já tenho a voz (y otras cositas más). A Verdade Sobre o Dia dos Namorados é que nunca passei nenhum com você. A Orla nos espera, está lá, nos espiando. A Menina das Unhas Azuis se travestiu em Ruiva Suicida e está de esmalte vermelho. O que me dá mais angústia é que, além das fiéis leitoras do meu blog, só você vai entender as últimas referências. Suas fotos. Minhas fotos no seus filmes. Meus cabelos no seu rosto. Seu nariz, onipresente de tão imenso (desculpa, mas não pude resistir). Seus cabelos e seu medo de ficar careca (que medo idiota). A gente brincava que nunca conseguia terminar direito, e agora estamos terminados e mais do que nunca quero cuidar de você! Olha quanta estupidez! O que vou ganhar em troca cuidando de você? Paz. É isso. Porque iria contra os meus princípios largar um forever teen no mundo, sem saber o que fazer com a própria vida. Além do mais, é um forever teen que viveu um ano e meio comigo e sempre fui contra fingir que você nunca conheceu uma pessoa, mudar de calçada quando a vir andando, fingir que os dois não trocaram saliva, suor e fluidos em geral. Porque vocês trocaram, porra. Porque vocês trocaram porra. Eu sou homem. Mentira. Até meu lado masculino é feminino, assim como o seu. Sensível, e você chora, e você me pede de volta, e você briga comigo porque não te deixo dormir, e sei que é foda acordar sem a minha voz de contralto no outro lado da linha, e sei que você está me mandando mensagens de bom-dia porque eu dizia que sentia falta disso. E tenho certeza que você gosta de mim, apesar de você ser um cachorro e eu ser uma puta. Eu não sou um monstro e você não é estúpido. Você não é um monstro e eu não sou estúpida. Somos pessoas, e a gente erra, e eu errei com você, e você errou comigo, e era trabalhoso e eu gargalhava quando te via e ia te buscar no aeroporto, com as mãos tremendo, do mesmo jeito que elas tremiam quando eu mentia pra você, e você mente tão mal, mas tão mal, e não entendo o motivo de ter ignorado suas mentiras mais sérias e que eu sabia que eram mentiras, porque sua voz tremia e gaguejava e eu só ria porque você nunca conseguiu mentir direito pra mim... Desculpa ter rido de você quando você ia a Igreja? Brincadeira, você mereceu que eu risse de você! Glória a Deus nas alturas, hein? Bosta, não estou dando parágrafos. Don't expect me to cry. Don't expect me to lie. Don't expect me to die for thee. Desculpa não ter sido compreensiva quanto o que aconteceu no sábado. Me perdoa. Você ajoelhou pra me pedir desculpas naquele dia, no caminho da locadora, e vou te contar um segredo e você vai ficar com raiva - mas lembre-se que é por conta de gente como eu que você ganha seu salário: estou com sete filmes atrasados em dois dias. E você vai ficar puto porque a moça da locadora vai me dar desconto. Gold lions gonna tell me what love is. Wait, they don't love you like I love you. Off with your heads, just dance dance dance 'till you're dead. It's such a cold december. Ain't got nothing but love, baby, eight days a week. Sagitário, exagerado, mandão, orgulhoso, sincero... Você tinha ascendente em gêmeos, lua em libra, vênus em aquário e eu ignorei o óbvio que iria acontecer (e lembro de ter dito exatamente o que aconteceria no começo, quando dizia que você ia me trocar por uma garota de cabelo liso. Você não trocou, e espero que ela esteja se sentindo bem com a consciência dela just kidding, I hope that bitch fuck off and die). Lying is the most fun a girl can have without taking her clothes off, but it's better if you do. BECAUSE I'M A FUCKING CAVEMAN, o Larry grita em Closer enquanto você dorme em paz no meu colo e minha mãe te olha com doçura. Meu irmão tá com saudades e se perguntando quando você vem trazer os alienígenas do Ben 10 pra ele. Estou expondo todo mundo, foi mal, eu sei que você pediu pra eu não fazer isso, mas escrever é isso aí. Exorcismo. E você com meus pés nas mãos e na boca. Balinhas de uva sendo digeridas. Acabei de descobrir que uma dupla sertaneja chamada Don e Juan (hahahaha) tem uma música chamada É Assim o Amor e daqui a pouco vou te ligar gargalhando pra te contar isso (só que é domingo, são nove da manhã e você vai falar "hã?" com aquela voz de sono). A versão do Shockinbg Blue pra Love Buzz é muito mais legal, mas eu sei que você nunca admitiria isso. Lindo, lindo, lindo. Acho que escrevi coisa demais, tô me perguntando como vou fechar esse texto. E decidi. Com citações, minhas, tuas, do Caio e do Renatão.
Ninguém nunca te forçou a mergulhar nos olhos de furacão. O futuro é analógico, incerto e defeituoso. Agora as luzes vão se apagar. Dê seu último mergulho. Me deseje sorte. Diga que espera que eu fique bem. Que um dia a gente vai se ver. E vai… deixa a noite levar seus passos. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente supera. E era sempre: "não foi por mal, eu juro que não foi por mal, eu não queria machucar você. Prometo que isso nunca vai acontecer mais uma vez". E era sempre, sempre o mesmo novamente, a mesma traição. E
é só você que me provoca essa saudade vazia tentando pintar essas flores com o nome de amor-perfeito. E não te esqueças de mim.

Nada mais justo do que acabar o texto com reticências, afinal...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reticente

Nunca olhei essa palavra no dicionário, e no entanto sei que é ela que exprime como venho me sentindo. Porque estar reticente me lembra de reticência, os três pontos indecisos, que se diferem tanto do ponto final, com sua determinação, seu ar de que acabou de dar uma ordem, ou de falar algo muito certo e sério. Se diferem dos dois pontos, que explicam uma decisão importante que foi tomada ou que explicam um conceito.
As reticências são um meio termo. Elas expressam uma continuação e sabem que não vale a pena acabar com tudo já que há o arrependimento, então deixam seu mistério no ar. As reticências expressam o silêncio de alguém que queria ter algo inteligente, importante, definitivo ou explicativo para falar, mas não tem. Lembram as lágrimas quentes que caem dos meus olhos e mancham o papel, num número curiosamente ímpar. Se observarem direito, o fiapo de água que caiu de um dos olhos - o esquerdo, quem sabe - se partiu em dois, enquanto a gota do olho direito continuou solitária. As reticências, mais freqüentemente, expressam o óbvio, que não pode ou não deve ser dito. Se dito, fere, e eu nunca fui dessas de ferir. As reticências pedem carinho quando finalizam um elogio a uma outra. As reticências expressam a carência, a necessidade de dizer, de gritar, de berrar, de implorar por cuidados, colo, uma mão geminiana apertando a minha enquanto soluço de cabeça baixa, expressam o meu "nem-vinte-minutos-sem-falar-com-você-e-já-estou-com-saudades", expressam minha expectativa na sala de desembarque, as reticências são sem ser, e por eu ser demasiado, queria me resumir nesses três pontos.
Se estar reticente é se sentir assim, estou reticente...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O Lírio

"O lírio significa 'eu te desafio a me amar'". Vou além. O lírio ultrapassa significados, porque ele tem voz própria; você só precisa aprender a desvendá-lo.
O lírio diz, quando está laranja, que é alegre, feliz e que confia no teu potencial. Se branco, pede com seu aroma silencioso para que seja admirado, porque irá desabrochar. Se roxo, transmuta energias ruins em boas. Se marrom e murcho, te olha de baixo para cima, pedindo que você o regue, toque suas pétalas e se esforce um pouco e veja que o ele ainda exala seu perfume. Entenda, o lírio sabe que é especial, mas precisa ser reconhecido.
O lírio é formoso, desafiador, elegante e sensível. O lírio cheira doce, é delicado e quieto. O lírio te observa e não se expressa, porque não quer ou não sabe como. Você confia nessa flor e sabe que, com o silêncio dela, ela não vai espalhar o segredos que você lhe confiou.
A única certeza é que o lírio não está em extinção, mas quando você tem certeza de que achou um, fica nervoso com a beleza das suas pétalas. Existem vários pelos campos, mas se o vento traz um até você, você não vai querer parar de regá-lo. E vai brigar com o vento, porque não vai querer que esse punhado de ar leve sua flor embora.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Fragmento

I dare you to love me.


Peguei os lápis de cor mágicos e pintei uma flor com as cores mais bonitas que encontrei.
Plantei a flor nos destroços e você me surgiu, sorrindo com os dentes e lábios mais bonitos que já vi.
"Não vou até a casa dos gatos sem você", eu disse.

E te puxei pelo braço, a caminho do amanhecer.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Um Meio Beatlemaníaco

"Let me take you down, 'cuz I'm going to strawberry fields..."

E foi assim que comecei. Ou que começamos, ou que começamos algo que já estava escrito nas estrelas que aconteceria. Ou talvez tenha sido só uma continuação. Você respondeu Oh, Darling!, e me arrependi de não ter escolhido uma música mais romântica. Por que não "I Will", "I Wanna Hold Your Hand" ou quem sabe "I've Just Seen a Face"?
Hoje, um ano, quatro meses e treze dias após essa mensagem from me to you, sei o motivo de ter escolhido Strawberry Fields Forever; foi para lá que te levei, no fim das contas.
Montei nosso próprio campo de morangos e desde então tudo se resume a guardanapos desenhados escondidos com meus fones de ouvidos quebrados. Fragmentos, desenhos, rascunhos, minha voz saindo do tom, passos, risadas e alianças, de prata ou de cumplicidade, foram reunidos e levados para um lugar só nosso, o nosso campo de morangos, sempre aconchegante, com referências a cultura pop, posters das personagens do Tarantino pelas paredes e fotos tiradas com a minha Polaroid espalhadas pelos cantos.
Vem o vento, bagunça os guardanapos e isso tudo vira Yesterday, e depois toca In My Life, seguida de Drive My Car.
Nossa trilha sonora varia, porque é assim o amor. Mas nunca me arrependi de ter embarcado no submarino amarelo para chegar até o strawberry fields eterno com você, porque te amo, yeah, yeah, yeah.

"You never know it hurt me so, how I hate to see you go!" (Don't Pass Me By)

P.S. I Love You

domingo, 12 de junho de 2011

A Verdade Sobre o Dia dos Namorados

Link para o vídeo bonito da B. sobre o Dia dos Namorados.

Hoje é dia doze de junho de dois mil e onze. Dia dos Namorados. São dezoito horas e quatorze minutos quando começo a digitar essas palavras. Hoje alguns casais amanheceram lado a lado e se beijaram sorrindo, outros começaram o dia discutindo a relação. Algumas pessoas fizeram aniversário, outras nasceram, outras morreram. Alguns casais tiveram seu primeiro encontro hoje. Teve gente perdendo a virgindade e gente dando o primeiro beijo. Muitas pessoas preferiram sair com os amigos para dançar, beber e não ficarem enfiados em casa sofrendo por estar solteiro. Outra parcela da população ficou em casa, chorando,
vendo filmes tristes e com dor-de-cotovelo. Teve casal à beça amaldiçoando as companhias aéreas. Teve gente que descobriu que o saldo bancário estava no vermelho. Houveram casais apaixonados, se olhando com desejo em uma cafeteria qualquer, loucos para irem para casa de uma vez. Tiveram casais homossexuais se assumindo e saindo em público. Teve gente prestando vestibular, gente caçando presente de última hora, gente ganhando flores, levando foras, matando, roubando, estuprando, cuidando dos filhos, recebendo o resultado de um teste de gravidez, perdendo alguém querido, chorando, gargalhando, contando para os pais que espera um filho, gente comemorando vinte, trinta, quarenta ou cinqüenta anos de casamento. Gente que fez um mês de namoro. Teve gente que não estava nem aí. Houveram esquerdistas reclamando desta data puramente capitalista, que "só serve para gerar lucros para as floriculturas e empresas de cartões de congratulações e blábláblábláblábláblábláblábláblá". Teve gente na França comemorando o Dia do Beagle. Teve gente pesquisando a origem do Dia dos Namorados e chegando à conclusão de que o Valentine's Day tem uma origem muito mais legal.

Amanhã vai acontecer isso tudo. De novo.

P.S.: Se você ama, todos os dias são dias dos namorados. É um dito deveras mais sábio do que "não passo o dia do índio com um índio, blábláblá". Gente, o Dia do Índio e o Dia da Árvore não foram FEITOS para você passar com um índio ou com uma árvore! O Dia dos Namorados foi!
P.P.S.: Antes que alguém pergunte, eu passei sozinha e faço parte de um dos casais que amaldiçoou as companhias aéreas (vide primeiro parágrafo).
P.P.S.: Para Rodrigo Correia. Amo você, no Dia dos Namorados, no Valentine's Day, no Natal, na Páscoa e todos os dias do ano.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Gramática

"Adjunto adnominal é uma característica constante.
Predicativo é uma característica variável".



Olha só, eu acho que chegou num ponto que eu não consigo mais separar muito bem semântica de sintaxe. Desculpa, Carol.
Ok, em "a menina bonita", bonita é adjunto. Logo, é constante. Mas isso não necessariamente vai ser pra vida toda, porque as pessoas fazem plástica, põe silicone, botox e fazem cagadas com a própria aparência, né, professora? Além do mais, um dia todo mundo vai ficar velha e enrugada, além do mais de novo isso é bem subjetivo. Eu acho a Angelina gostosa pra caralho, meu namorado jura de pé junto que acha aquele bocão dela esquisito e acha ela uma vara-pau bizarríssima. Pensando bem, eu não devia confiar em um namorado que me diz isso.
"A menina está bonita" pode significar que a menina está mais bonita que o habitual, ela sempre foi bonita e sempre vai ser, por mais que você ou eu ou aquele babaca por quem ela rasgou o próprio coração não ache. Tem alguém por aí que ache (de novo, subjetividade pregando peças). Se a oração estiver falando de um ser humano, tudo fica mais complicado, já reparou? Pois é, os seres humanos são muito loucos, já dizia Freud. Cheio de neuroses e complicações e a porra toda. Acontece. "É" e "está" não são só verbos de ligação, porque o verbo ser transcede tanta coisa e o estar pode ter uma catarse imensa por trás disso tudo! Sempre gostei das aulas da curitibana loira dos olhos azuis azuis que nem diamantes, mas é só que a gramática anda deixando de lado muito da literatura.

Isso me confunde.

domingo, 5 de junho de 2011

Diálogo II

Mês I
- Você está fria.
- Eu sou fria.
- Você não era. Só desde sábado.
- Você não vê o quão difícil é? Cuidar de você, dos meus amigos e de mim?
Dói. Eu não queria estar me sentindo assim, também.
- Você é tudo pra mim! Mas você mudou!
- Não, eu só me dei conta que não sou especial.
- Pra mim você era.
- Era? Era? Você nunca reconheceu nada do que eu faço pra você. Se não está
bom, VAI EMBORA!
Mês II
- Eu sou uma garotinha.
- Não, você é uma garotinha linda. Eu gosto quando você cuida de mim.
- É que é difícil pegar um coração dilacerado e modelar todo de novo. Sabe, meu coração não é feito de massinha.
- Você é linda.
- Você não dilacerou meu coração.
Silêncio. Ela de novo.
- Que tipo de música ela escutava?
- Eu não quero falar dela...
- Mas...
- Por favor. Estou com você. Aceita isso?
- Eu aceito. Eu aceito! Só que... É só curiosidade.
- E isso vai te levar aonde?
- O que? A curiosidade?
- É.
- Sei lá. Só sei que tenho a terceira casa em gêmeos.
- Isso deve explicar alguma coisa.
- Te garanto que explica.
- Explica por que você gosta mais dele que de mim?
- (!) Não gosto!
- Gosta, sim. Eu ando tão inseguro. Acho que você vai me largar. Tenho muito medo de te perder.
- Acho que a gente retrocedeu um pouco depois daquilo. Você anda mais inseguro.
- E mais ciumento.
- Não achei que isso fosse possível.
- Mas é.
- Te amo. E não vou te deixar.
- Tá.
- De verdade. Você é bobo.
- Mas você gosta de mim mesmo eu sendo bobo?
- Eu sou louca por você.
- Sério?
- Sério. Tão louca por você que transformo meu coração em massa de modelar, só pra voltar a ser a garotinha linda pela qual você se apaixonou.

(O ano só tem dois meses).

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Andressa

Tinha quatro anos, era escorpiana e tinha olhos imensos cor de jabuticaba, a pele morena, a boca desenhadinha, levava os cabelos meio louros presos em marias-chiquinhas: parecia uma boneca. Foi a criança de quem cuidei durante um trabalho voluntário. A pus no colo e, assim que tentei falar com ela, percebi o quanto ela era tímida e insegura. Percebi o quanto ela estava com medo e prestes a chorar. Acalmei-a com a minha voz maternal de contralto ("eu estou aqui pra cuidar de você. Não vou te fazer mal de jeito nenhum. E a gente não vai fazer nada que você não queira, tá bom?"). Ela pareceu menos chorosa.
Perguntei a ela o que ela queria fazer. Ela quis ir ao banheiro. Foi. Perguntei de novo. Ela disse que queria ir no pula-pula, e entrei na fila com ela. Durante a fila, me apontou várias amiguinhas - mas, por algum motivo, ela não conseguiu manter uma conversa com elas durante muito tempo. Durante a fila, percebi que ela não tirava os dedinhos da boca. Estaria ela passando pela fase oral? Aos quatro anos? Já teria a libido fixada?, duvidei.
Comia tudo que lhe ofereciam. Foram vários chocolates, um pedaço de bolo, um cachorro quente, dois copos de refrigerante e duas pipocas. Para isso, não se acanhava.
Não estava tímida, também, ao pular no pula-pula. Deu o maior sorriso do mundo enquanto pulava e agarrava minha mão, um sorriso puro, inocente, de quem largava aqueles dolorosos traumas infantis e deixava a timidez e a vergonha de pedir as coisas para se jogar numa brincadeira danada de gostosa.

Queria ter ficado mais marcada na vida de Andressa, queria ter sido (sinceramente) a pessoa que lhe tirou os medos, que lhe encorajou a fazer o que gostava e que a fez não ter medo de conversar com essas pessoas. Pena que uma manhã de sábado é tão pouco para fazer isso.
Andressa, se algum dia alguém te contar que escrevi sobre você, se essa historinha que talvez você nem se recorde mais chegar aos seus ouvidos, só queria te deixar um recado: espero que a pessoa que citei no parágrafo acima tenha aparecido na sua vida. E, de preferência, que essa pessoa seja você mesma.

P.S.: Aos leitores que acompanham, desculpem a falta de atualizações. Só espero que essa pequena crônica tenha lhes soado como o sorriso de Andressa pareceu para mim naquele pula-pula em um sábado ensolarado.
P.P.S.: Obrigada, Julia.

domingo, 1 de maio de 2011

Nonsense

A marca dos meus cílios criou uma estampa, fincada no centro do seu peito. Só posso me aquecer se eu for ao sol. Me metamorfoseio em um lagarto, grande e gordo, me estico, absorvo gota por gota do calor e estamos prontos para mais uma rodada. Amor, pede uma porção de batata frita?, discutimos a relação em um restaurante. Minha garganta inflama. Você pensa absurdos. Os meses passam, continuo ansiando pelas suas mãos inquietas de ascendente em gêmeos. Nada se cria, tudo se transforma. Você grita que estou mentindo. Eu choro. Fazemos as pazes. Durmo aninhada no seu peito. Você continua vidrado nos meus olhos, puxa, que coisa. Nada muda. Mas aquele sábado deu errado (e daí?, forço-me a pensar). Penso em fazer aulas de francês - não, ela falava melhor do que eu. Penso em fazer dança do ventre - não, ela dançava melhor do que eu. Penso em destruir esses ciúmes e essa inveja doentia e sem-sentido do passado e vejo que preciso de ajuda. Vejo que tenho vergonha de pedir ajuda a única pessoa que pode de fato fazer isso passar. Vejo que essa vergonha não tem base alguma, já que decidi há um ano, um mês e vinte e oito dias que essa pessoa seria sempre e para sempre meu melhor amigo e cúmplice. Te peço ajuda. Sôo agressiva. Porra, como sou estúpida. Faz passar, vai, cava um pouquinho até destruir a barreira louca que estou impondo. Isso não faz sentido. Não é para fazer sentido, eu não faço sentido, você não faz sentido, somos pessoas, Freud já dizia que não fazíamos sentidos e Jung provou que é tudo muito louco, você mais do que ninguém devia saber disso.

Que merda, digito esse texto em cinco minutos e já me sinto tão melhor.
Estou perdida, me acha?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Diálogo I


- Me põe no colo?
- Por que eu faria isso?
- Eu estou te pedindo.
- Mas você já está grande o suficiente para...
- Isso não tem nada a ver com tamanho ou idade. Só quero deitar um pouco no seu colo. Deixa?
- (...)
- Ok, esquece.
- Você é um doce. Dá vontade de abraçar.
- (...) Acho que vou indo.
- Claro. Até mais.
- (...)
- (...) Posso só perguntar uma coisa?
- Pode.
- Por que você queria deitar no meu colo?
- Ah, sei lá. Vontade de fechar os olhos por algum tempo.
- Então por que você não vai para casa e dorme na sua cama?
- Porque o calor das suas coxas sempre me aconchegou muito mais. De qualquer forma, já estou indo.
- Ok. (...) Ei! Espera. Deita aqui, eu te aconchego. Cadê você? Volta?

Escuro.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Love Kills

Amores de verdade deixam marcas, de emoção, de incenso, de canivetes, no tronco de uma árvore ou na ponta do meu dedo, quando eu me distraio fazendo um misto quente para você. Amores de verdade são como o nosso, arranhando as paredes do meu coração enquanto você dorme no meu colo durante a exibição d(e um d)o(s) melhor(es) filme(s) do mundo. Amores de verdade acontecem quando você não se importa de ouvir mil vezes que você é bobo. Amores de verdade são percebidos quando conseguimos rir de todos os filmes que vemos juntos (até os de terror). Amores de verdade significam travessuras e risadas em cima de um dever de casa, de um colega de trabalho ou da burocracia. Amores de verdade acontecem quando você confunde minha mão com a sua e tem a impressão de estar usando dois anéis diferentes, quando durmo no seu ombro a caminho do aeroporto ou quando me encosto numa árvore e choramos, juntos, as dores dos planos fracassados. E nos recuperamos, caímos e tentamos tudo de novo, criamos novas expectativas, fazemos novos planos. Vamos nos perder, vamos perder juntos. E confio na sua beleza e serenidade quando você me afirma isso.
E enquanto eu puder me travestir com as suas dores, inseguranças, ciúmes e roupas, continuarei amando.

É assim o amor.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Don't Panic

E eu te amo, por mais que nosso amor seja regido pela nave Coração de Ouro e seu maravilhoso Gerador de Improbabilidade Infinita.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Viagem pelo Corpo

Eu quero a força de um ariano, a calma de um taurino e a poesia de um geminiano. Quero o carinho de um canceriano, a bondade de um leonino e a organização de um virginiano. Quero a justiça de um libriano, o mistério de um escorpiano e a beleza filosófica de um sagitariano. Também não me poderiam faltar o senso de humor capricorniano e a revolução de um aquariano.
Por ser um peixe, adaptável em quaisquer águas, talvez por ser o último dos doze, capaz que eu tenha um pouco disso tudo guardado em mim.
Já a doçura, a criatividade e a carência de um pisciano; ah! Não poderia descrever minha essência de forma mais sincera.

quarta-feira, 30 de março de 2011

While My Guitar Gently Weeps

"Music's the only thing that makes sense anymore, man. Play it loud enough, it keeps the demons at bay." (Across the Universe)

Se um filme que ela gostava muito dizia que música afastava os demônios, por que não obedecer? Demônios estavam sempre presente na vida dela. Atormentavam-na quando a remetiam ao passado, quando a remetiam à banalidade de sua beleza, idéias e conteúdo. Atormentavam-na quando lembravam a ela que ela nunca seria uma artista boa o suficiente.
Deixava os solos, riffs, sons e vozes aveludadas entrarem nos seus ouvidos e logo no seu corpo inteiro, preenchendo sua alma de forma tão avassaladora e iluminada que ela achava que, a qualquer segundo, chegaria a lua por meio da sua nave de energia.
Depois de alguns anos se aliviando e fugindo da realidade através das canções, nada mais atingia seu tímpano, a não ser que fosse belo como música. E quando ela se acostumou ao som das melodias, e já não era mais um som tão terapêutico, seus ouvidos estavam fechados para qualquer agrado ou elogio que viesse de um ou outro nas raras vezes que um ou outro estavam presentes.
Ciclo vicioso: era frustrada consigo mesma, tapou os ouvidos para aquele que queria curá-la e percebia a grande besteira que cometia ao bloquear sua cura; com isso, frustrava-se mais ainda.

Bem, e só quem perdia com isso era ela mesma, não?
(Ao fim desta pequena fábula, a menina resolve superar-se).

sábado, 26 de março de 2011

Intertexto

No ano de 2012, uma série de fenômenos naturais abalou o país, matando o presidente, grande parte do parlamento e do senado. A profecia maia se concretizou. Uma década depois, e somente aí, a população já havia se reconstituído, a arquitetura fora remontada, a economia já estava estabilizada e, basicamente, a vida voltara ao normal. Com uma diferença: o ditador Ernesto Fratezzi.
Recapitulação: um enorme tsunami engoliu grande parte do litoral, equiprando-se ao que acontecera ano passado com o Japão. Os sobreviventes moveram-se para o centro-oeste do país para combater a fome, mas levaram alguns vestígios de alimentos em sua viagem - na maioria dos casos, peixes.
Os peixes estavam contaminados por uma doença - até então desconhecida - que foi chamada de infecção marítima. A doença matou milhares e, por ser altamente contagiosa, atingiu o mundo inteiro. Os organismos mais fortes desenvolveram uma resistência natural à doença, o que foi suficiente para salvar apenas a menor parte da população.
Poucos meses depois da vacina para a infecção marítima ter sido feita, um terremoto atingiu o país, destruindo o sudeste praticamente em sua totalidade. O centro-oeste e o norte foram as regiões menos danificadas pelos desastres naturais.
O Japão vinha sendo um alvo freqüente de maremotos, a economia dos Estados Unidos esteve muito abalada. A erupção constante de vulcões italianos prejudicou a União Européia - e os Tigres Asiáticos já eram praticamente uma lenda.
Aos poucos, cada país foi se recuperando. Quando o país em questão, este pedaço de terra fictício da nossa história, deu a falta de um presidente, Fratezzi assumiu o poder, instalando uma ditadura.

Professoras de filosofia perdem o emprego, jovens revoltados fazem passeatas, jovens revoltados são presos, torturados e mortos; jovens alienados conformam-se. "Pelo menos a economia pode melhorar, não é? Costuma a acontecer nas ditaduras", consolam-se alguns. Enquanto isso, uma menina escreve.
Fez jornalismo. Começou com uma coluna em um jornal bem conceituado d'A Cidade. Deu sorte - foi o único jornal que Fratezzi deixou circular normalmente. Censurava os textos diariamente - não ele mesmo, é claro.
É aqui que entra nosso psicólogo; nosso músico frustrado. Formado em psicologia, passou a atender gente importante depois de alguns meses em uma clínica. "Por que em tão pouco tempo?", pergunta o leitor. Porque ele era bom.
Seguia a linha humanista. Sabendo da qualidade do serviço, Fratezzi concluiu: um humanista só pode é tratar da mente dos humanos, não? E o contratou para analisar os textos da única coluna criativa/artística/pessoal d'A Cidade: a da menina.
O psicólogo não gostava de ter que entregar as pessoas que se revoltavam, porque entendia o ponto de vista delas. A escritora não gostava de ter que esconder suas opiniões anti-governo em meio à metáforas, verbos, personificações, letras miúdas e adjetivos, porque era a favor da liberdade de expressão.
E aqui vai uma das várias coisas que eles tinham em comum: faziam seu trabalho do melhor jeito possível até que ferisse sua ética.
A escritora não criticava Fratezzi em si. Lamentava, sem lamentar, as mortes, os desaparecimentos, a falta de harmonia. Criticava o medo que se espalhava pelas ruas, a falta de liberdade imposta. Não criticava Fratezzi, porque sabia que se ele não tivesse aparecido, estariam todos vivendo como miseráveis ou selvagens. Mas não gostava do rumo que as coisas tinham tomado.
O psicólogo lia os textos da escritora diariamente. Percebia muita mágoa em seus escritos, entrevia o ódio em sua coluna. Quando alguém de um cargo superior pediu um perfil psicológico da menina, já estava apaixonado pelas coisas que ela escrevia. Provavelmente estaria amando-a também se soubesse como seu semblante de fato era. Não sabia.

A escritora recebe uma ligação de um número desconhecido. Recusou. Recebeu mais duas, três, cinco ligações desse mesmo número. Pesquisou: o número era daquele terapeuta que revisava os textos dela. Fez uma careta. O que aquele velho charlatão queria com ela? Nunca haviam se falado. Será que...?
Retornou a ligação. Ouviu, com surpresa: "seus textos são muito bons; podemos nos encontrar?". Achou melhor ir.
O velho charlatão até que era muito do bonito. Parecia ter a idade dela, apesar dos vinte anos de diferença. Tinha o sorriso mais lindo que ela já vira. Ela via o território de cútis dele coberto por lentes e armações vermelhas. Ele via na sua pele (que, mais tarde, descobriria o quão macia era) contadora de histórias, marcada por cicatrizes que pareciam representar o mapa d'A Cidade.
- Você odeia o governo Fratezzi, mas esconde isso tão bem e tão bonito que estou te poupando há meses.
Ela emudeceu. Ruborizou, agradeceu, chamou-o para sair, dormiu na casa dele e começou a vê-lo todos os dias.

Mas da mesma forma que um ator estraga o envolvimento do cantor com a sua bailarina, da mesma forma que a carta de Julieta para seu Romeu exilado se perde e, da mesma forma que uma tragédia sempre acontece nas grandes histórias de amor, conto-lhes que um outro psicólogo, intrometido, apontou todas as obviedades subversivas nos textos da menina; "muito estranho, considerando que o psicólogo a conhece tão bem, não? Ele deveria ter falado alguma coisa, porque com certeza percebeu isto..."

E foi assim que o casal mais singelamente bonito da nossa sociedade pós-apocalíptica desapareceu da face da Terra; a não ser por uma caixa com duas blusas, várias cartas e algumas latas azuis de uma bala apetitosa, seus restos nunca foram encontrados.