domingo, 30 de janeiro de 2011

Rosas e Vinho Tinto

            Estavam na varanda da casa dela. O lugar, que tinha um lindo ar vitoriano, dava espaço para uma mesa de jantar – em cima, a toalha de rendas brancas, uma garrafa de vinho tinto, duas taças de cristal e um candelabro verde-água. Dividiam um crepe salgado. A sobremesa era uma latinha de Altoids.
            O celular de um dos dois tocava Esquadros, na voz da Adriana Calcanhotto misturada à de Renato Russo.
            Não conseguiam parar de sorrir.
            Ela, linda, de cabelos lisos, olhos de esmeralda e um vestidinho preto indefectível. Olhos esfumaçados de preto e lábios pintados de violeta.
            Ele, com a calça xadrez cor de creme com madeira, a blusa branca sobreposta pela camisa preta de botões.
            Devoraram-se com os olhos.
            Bebericaram vinho.
            Choveu e, entre risadas, ela mostrou os cabelos molhados e confessou que eram cacheados.
            Viram-se obrigados a entrar na casa e a se beijarem a noite toda, até que suas bocas se cansassem.

            Amaram-se durante toda a madrugada, rindo ao usar a chuva como pretexto.


            É assim o amor.

(Para Rodrigo Correia.
Brasília, 11/07/2010)

P.S.: Me perdoa?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Acústico


Deitada no sofá da sala com o sol batendo sobre mim; ouvindo uma música que me ajudava a despertar. Enfiada numa camisola, cabelos desgrenhados, unhas malfeitas. Era assim que eu estava quando a sensação veio: o amor inundando meu corpo e saindo por todos os meus poros, enquanto eu me dava conta de que aquele mesmo sol que se nasce e se põe todos os dias estava me aquecendo pela primeira vez em algumas semanas – aquecendo de verdade.

E enquanto o cheiro de pudim de leite invadia a casa, fechei os olhos e percebi como era familiar me sentir assim. Um mundo novo que sempre esteve ali, onde você era o astro-rei e meus planetas giravam em sintonia com a sua órbita.

Ter você comigo faz com que a trilha sonora da minha vida seja o acústico do Nirvana: mais leve, alegre e fácil de digerir...

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Lua Negra

“Também conhecida como Lilith, a Lua Negra é o ponto do apogeu da Lua, ponto em que transita mais longe da Terra. Ainda sem definição precisa, alguns astrólogos a associam aos traços ocultos da nossa personalidade, nossos sonhos mais secretos, os desejos sexuais não-revelados, e é ligada ao ponto de rebeldia. Na mitologia, teria sido a primeira mulher de Adão. Substituída pela submissa Eva, Lilith retirou-se para sempre do Jardim do Éden, sem nunca abrir mão de sua liberdade ou de seus impulsos sexuais”. (Robson Papaleo)

Sara estava percorrendo as ruas com uma velocidade assustadora: era tarde da noite e ela estava atrasada. Tinha um encontro.
Esmeralda tinha convidado-a para ir até a sua casa às 22h. As duas já haviam trocado intimidades, mas eram discretas. Não chegaram a saciar o fogo que havia entre as duas. Sara achava que estava se apaixonando.
Não que se apaixonar por Esmeralda fosse difícil. Ela era extremamente pálida – e explicava a todos que isso se devia ao fato de ter pais suecos. Os cabelos eram vermelho sangue, obviamente tingidos, mas eram espessos, ondulados; iam até a cintura. Seus olhos eram estreitos e absurdamente azuis. Eram freqüentemente pintados de preto. Ela maquiava os lábios grossos com batom vermelho todos os dias. Seu corpo era quase escultural. Ela era sexy, com um olhar muito penetrante e aquelas curvas.
As duas se conheceram no trabalho. Trabalhavam em período noturno na mesma empresa. Assim que Esmeralda entrou, tornou-se um assunto freqüente pelos corredores; pelos banheiros; pelas salas dos funcionários.
Sara viu-se encantada assim que as duas trocaram olhares. Ela era... Quente.
Sara achava que Esmeralda era um anjo.
Mal sabia que, naquela noite, ela veria o pior dos demônios.

***
Esmeralda abriu a porta. Estava usando um vestido preto que ia até os pés. Era aberto nas costas e tinha um decote em V.
Sara estava com um vestido tomara-que-caia azul. Esmeralda reparou bem nela: imensos olhos cor de mel, os lábios rosados, o corpo mignon e o cabelo liso e cortado até os ombros. Tão doce. Tão inocente. Não tinha mudado muito dos últimos anos para cá. Mas é claro que ela não se lembrava disso... Era mortal. Provavelmente não se lembrava da megera que foi.
Mas Esmeralda se lembrava. E queria vingança.
Sara desviou os olhos do decote da outra mulher. Olhou-a nos olhos azuis e profundos.Hoje ela parecia mais corada, com os lábios mais vermelhos. Estava deslumbrante.
Sorriram uma para a outra.
- Entre. E seja bem-vinda.
A casa devia ter dois andares mais o porão. Era escura e decorada vitorianamente. A mesa de jantar estava posta. Tinha um frango assado, uma enorme travessa de salada, pão sírio acompanhado por uma barra de manteiga e um pudim de leite. Uma garrafa de vinho, uma jarra de água e outra de café também estavam servidos.
- Sara, por favor, sente-se e fique à vontade. Pode servir-se também, mas você se atrasou um pouco – apontou para o relógio que marcava 22h37 – e eu já comi. Você se importa?
- Ah, não. De jeito algum. E, sobre o atraso, me desculpe. O que aconteceu f...
- Não se preocupe em explicar, querida – e sorriu.
Sentaram-se uma do lado da outra. Sara pousou a mão sobre uma das coxas de Esmeralda, que acariciava seu pescoço.
Ela adorou a comida. Estava tudo perfeito, exatamente do jeito que ela gostava. Pediu licença para ir ao banheiro e tirou sua escova de dente da bolsa. Escovou-os e voltou para a mesa tentando puxar um assunto.
- É verdade que seus pais são suecos? Por que eles se mudaram para cá?
Uma microexpressão de surpresa cruzou o rosto de Esmeralda. Ela se recuperou rápido, no entanto, e pôs Sara de pé.
- Ora, pare com isso. Nós duas sabemos por que você está aqui.
A malícia saltou nos olhos de Sara. Esmeralda despiu-se, ficando apenas de saltos altos. Aproximou-se de Sara e encostou seus seios no corpo dela. Beijou-a na boca. Sara alisou os cabelos ruivos da parceira, tocou seus braços. Sentiu como estava gélida. Alisou suas omoplatas e desceu as mãos aos poucos.
Logo estavam no sofá, emboladas uma na outra. Esmeralda estava descontrolando-se, queria mordê-la, queria banhar-se no sangue daquele corpo quente. Mas não ia adiantar seu plano e perder a chance de torturá-la.
- Eu... Preciso tomar algo. – Esmeralda falou de repente. Sara ofegava. Estava só de vestido e assentiu com a cabeça.
Esmeralda voltou com duas taças de cristal cheias de vinho.
- À luxúria – propôs.
Brindaram.
Sara aninhou-se no colo da amante. Era tarde. Tinha se cansado – isso explicava o sono... Tinha que explicar...
Dormiu nos braços de Esmeralda.

***

Sara acordou numa sala escura, com as coxas encharcadas e demorou um pouco para perceber o que estava acontecendo. Ainda estava tonta.
Acordou aos poucos, e concluiu que estava no porão da casa. Tinha os pulsos presos em correntes que vinham do teto e tinham quinze centímetros de comprimento. Seus braços estavam sendo puxados para cima e suas pernas para baixo, com correntes que vinham do chão. Seu vestido estava quase caindo. Tinha uma coleira na base do pescoço.
Ouviu a voz de Esmeralda.
- Olhem só quem acordou.
Sara percebeu que o quarto estava completamente enevoado. Entrou em pânico: não sentia os braços, estava com dificuldade para respirar, não sabia muito bem onde estava e Esmeralda tinha sumido. A névoa não a deixava reparar no ambiente.
Engasgou-se com a própria saliva. A coleira não estava letalmente apertada, mas não facilitava a deglutição ou a respiração.
Esperou em torno de quinze minutos até alguém aparecer. A névoa sumiu e Esmeralda brotou no meio da sala.
- Foi delicioso observar sua dificuldade de engolir... Ver seu vestido caindo aos poucos, mas não totalmente, assistir ao seu pânico. Você não faz a menor idéia do que está acontecendo, não é?
Sara murmurou. Não conseguia falar alto.
- Não, não faço. Isso na sua boca é sangue?
- Bom, Sara, você adormeceu pelas últimas três horas. Fui fazer um lanchinho. Claro que o sangue de veados não deve ser tão apetitoso quanto o seu, mas...
- Você me deixou aqui por três horas?
- Claro. Graças a você, tenho a eternidade inteira.
- Não estou entendendo.
- Vou ilustrar para você, então.
“Itália, século XV. Eu fazia parte da família mais rica de Verona. Os LaPaglia tinham todo o poder econômico que você pode imaginar e, conseqüentemente, uma enorme fortuna. Eu, meus pais e meu irmão tínhamos uma harmoniosa vida, regada a banquetes, bailes e uma notável cumplicidade entre os quatro”.
Vendo que Sara estava engasgada e que desmaiaria se continuasse com a coleira, Esmeralda parou sua história e tirou-a do pescoço da mulher.
“Então você chegou. Você seduziu Pablo, meu irmão. Filha de um ferreiro, órfã de mãe e batizada de Vitória. Casou-se com ele. Ele lhe deu tudo: status, riqueza, um casarão, amor e um filho que você batizou de Pietro.
Insatisfeita, você ateou fogo na casa que meu irmão te deu. E escolheu fazer isso bem no dia em que eu estava assistindo tudo! Vi você atirar a tocha. Você o matou. Matou seu próprio filho. Recebeu sua herança e fugiu para outro canto do mundo. Na época, eu tinha apenas doze anos, e ninguém me ouvia. Nem ouviria, se eu tivesse tentado te denunciar.
Minha família desmoronou. Outros familiares mais distantes começaram a ser acusados por homicídio culposo. Começaram a nos ver como um bando de assassinos. Perdemos tudo: pararam de comerciar conosco, ficamos deprimidos com a morte de Pablo. Acabou toda a nossa felicidade. Jurei vingança. Muitos anos depois, convoquei os demônios, prometendo te matar nem que isso demorasse uma eternidade.
Lilith apareceu. Dominou meu corpo, minha mente e tomou minha alma. Transformou-me em vampira com a condição de que eu me tornasse sua escrava. Prometeu-me que a vida na qual eu te encontrasse seria sua última. Agradeci a ela. Uni-me às trevas. Procurei você durante séculos. Você reencarnou em Sara, depois de todo esse tempo. Te seduzi, provoquei e agora você está com o corpo dormente no meu porão. E não sairá daqui”.
Sara estava em pânico. A história toda lhe parecia absurdamente familiar. Sempre se sentira enjoada com fogo. Essa seria uma explicação plausível para isso. Não conseguia falar. O medo invadia sua garganta. Já não sentia os braços há muito tempo e percebeu um imenso cansaço nas pernas. Sentia-se tonta e suja. A mulher que antes trocava carícias com ela havia se transformado em um enorme pesadelo... Ela estava feroz. Agressiva. E, principalmente, estava faminta.
Sara aceitou seu destino.
Esmeralda começou a cortar o vestido de Sara. Deixou-a nua. Unhou sua pele, a fez sangrar. Com um punhal, foi perfurando seu corpo.
Sara estava viva e consciente. Berrava de dor. As lágrimas invadiram seus olhos. Os cortes eram fundos, ardiam mais do que ela poderia suportar. Pensou imbecilmente numa possível infecção. E ainda estava indefesa, com as mãos e as pernas presas. Não conseguia parar de berrar, até que a vampira amassou a própria calcinha e enfiou na boca de Sara. Ela começou a sufocar.
Esmeralda lambeu seu corpo inteiro. Sara sentiu todos os órgãos externos banhados em sangue e aquela língua feroz embebedando-se com a pele dela. Agarrou o punhal de novo. Sara achou que ia continuar a ser mutilada.
- Oh, querida, mas é claro que não vou te matar com os mil cortes.
Deixou o punhal cair no chão e abocanhou o pescoço de Sara. Ela deu seu último suspiro. Esmeralda tirou todo seu sangue, não havia mais vitalidade naquele corpo da mulher de olhos grandes.
Satisfeita, Esmeralda transformou-se em morcego e foi embora da casa que já não lhe servia mais. Voou.

Era noite de lua cheia.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dormiram juntos

O texto a seguir contém referências explícitas ao livro “Gone”, de Michael Grant. A sinopse do livro contribuirá bastante para o seu entendimento. Por favor, não deixe de lê-la:


“De repente, sem aviso algum, todos os adultos e jovens com mais de 15 anos somem, e lá se foram todas as pessoas responsáveis pela ordem de uma cidade inteira (hospitais, lanchonetes, creches, limpeza...), e um tipo de cúpula inquebrável aparece em volta dessa cidade deixando todos os menores de 15 anos trancados sozinhos neste lugar que viria a ser chamado de “LGAR” ou Lugar da Galera da Área Radioativa.”




Dormiram juntos. E ela não queria soltá-lo nunca, principalmente em meio àquele mundo que não parecia real; onde a única coisa que a fazia perceber que as coisas realmente existiam e que as ações tinham conseqüências era o seu namorado.
Ela acordou mais tarde que o habitual. Mas era domingo, então era permitido. Tentou agarrar-se a ele, mas viu que ele tinha sumido. Frustrou-se. Os olhos encheram-se das lágrimas. Ficou incrédula... Como ele pôde ter fugido no meio da noite? Sabia que ela estava carente. Frustrou-se mais ainda ao pensar nisso.
Levantou e foi até a varanda. Deitou-se na rede. Ficou olhando para o céu, ouvindo uma música qualquer; “It’s The End Of The World As We Know It”.
Foi até a cozinha para deparar-se com uma das cenas mais apavorantes da sua vida: a xícara da sua mãe quebrada, os cacos de vidro espalhados pelo chão e uma poça de café derramada na cozinha.
Ouviu seu irmãozinho, ainda com voz sonolenta, gritar pela mãe incessantemente.
Pegou-o no colo, os dois trocaram de roupa e foram até o lado de fora da casa.
- Por que todos os carros estão parados? – indagou o menino.
E ela simplesmente não sabia o que responder.
Encontrou outras pessoas pela rua. Todas da idade dela – menores de quinze anos chamando pelos pais desesperadamente.
Todas as pessoas mais velhas haviam sumido.


Ela quis dormir e acordar em outra dimensão (ou talvez dormir e não acordar), mas sabia que não poderia fazer isso. Tinha responsabilidades. Seu irmão dependia dela, agora.


Sejam bem-vindos ao LGAR.