quarta-feira, 30 de março de 2011

While My Guitar Gently Weeps

"Music's the only thing that makes sense anymore, man. Play it loud enough, it keeps the demons at bay." (Across the Universe)

Se um filme que ela gostava muito dizia que música afastava os demônios, por que não obedecer? Demônios estavam sempre presente na vida dela. Atormentavam-na quando a remetiam ao passado, quando a remetiam à banalidade de sua beleza, idéias e conteúdo. Atormentavam-na quando lembravam a ela que ela nunca seria uma artista boa o suficiente.
Deixava os solos, riffs, sons e vozes aveludadas entrarem nos seus ouvidos e logo no seu corpo inteiro, preenchendo sua alma de forma tão avassaladora e iluminada que ela achava que, a qualquer segundo, chegaria a lua por meio da sua nave de energia.
Depois de alguns anos se aliviando e fugindo da realidade através das canções, nada mais atingia seu tímpano, a não ser que fosse belo como música. E quando ela se acostumou ao som das melodias, e já não era mais um som tão terapêutico, seus ouvidos estavam fechados para qualquer agrado ou elogio que viesse de um ou outro nas raras vezes que um ou outro estavam presentes.
Ciclo vicioso: era frustrada consigo mesma, tapou os ouvidos para aquele que queria curá-la e percebia a grande besteira que cometia ao bloquear sua cura; com isso, frustrava-se mais ainda.

Bem, e só quem perdia com isso era ela mesma, não?
(Ao fim desta pequena fábula, a menina resolve superar-se).

sábado, 26 de março de 2011

Intertexto

No ano de 2012, uma série de fenômenos naturais abalou o país, matando o presidente, grande parte do parlamento e do senado. A profecia maia se concretizou. Uma década depois, e somente aí, a população já havia se reconstituído, a arquitetura fora remontada, a economia já estava estabilizada e, basicamente, a vida voltara ao normal. Com uma diferença: o ditador Ernesto Fratezzi.
Recapitulação: um enorme tsunami engoliu grande parte do litoral, equiprando-se ao que acontecera ano passado com o Japão. Os sobreviventes moveram-se para o centro-oeste do país para combater a fome, mas levaram alguns vestígios de alimentos em sua viagem - na maioria dos casos, peixes.
Os peixes estavam contaminados por uma doença - até então desconhecida - que foi chamada de infecção marítima. A doença matou milhares e, por ser altamente contagiosa, atingiu o mundo inteiro. Os organismos mais fortes desenvolveram uma resistência natural à doença, o que foi suficiente para salvar apenas a menor parte da população.
Poucos meses depois da vacina para a infecção marítima ter sido feita, um terremoto atingiu o país, destruindo o sudeste praticamente em sua totalidade. O centro-oeste e o norte foram as regiões menos danificadas pelos desastres naturais.
O Japão vinha sendo um alvo freqüente de maremotos, a economia dos Estados Unidos esteve muito abalada. A erupção constante de vulcões italianos prejudicou a União Européia - e os Tigres Asiáticos já eram praticamente uma lenda.
Aos poucos, cada país foi se recuperando. Quando o país em questão, este pedaço de terra fictício da nossa história, deu a falta de um presidente, Fratezzi assumiu o poder, instalando uma ditadura.

Professoras de filosofia perdem o emprego, jovens revoltados fazem passeatas, jovens revoltados são presos, torturados e mortos; jovens alienados conformam-se. "Pelo menos a economia pode melhorar, não é? Costuma a acontecer nas ditaduras", consolam-se alguns. Enquanto isso, uma menina escreve.
Fez jornalismo. Começou com uma coluna em um jornal bem conceituado d'A Cidade. Deu sorte - foi o único jornal que Fratezzi deixou circular normalmente. Censurava os textos diariamente - não ele mesmo, é claro.
É aqui que entra nosso psicólogo; nosso músico frustrado. Formado em psicologia, passou a atender gente importante depois de alguns meses em uma clínica. "Por que em tão pouco tempo?", pergunta o leitor. Porque ele era bom.
Seguia a linha humanista. Sabendo da qualidade do serviço, Fratezzi concluiu: um humanista só pode é tratar da mente dos humanos, não? E o contratou para analisar os textos da única coluna criativa/artística/pessoal d'A Cidade: a da menina.
O psicólogo não gostava de ter que entregar as pessoas que se revoltavam, porque entendia o ponto de vista delas. A escritora não gostava de ter que esconder suas opiniões anti-governo em meio à metáforas, verbos, personificações, letras miúdas e adjetivos, porque era a favor da liberdade de expressão.
E aqui vai uma das várias coisas que eles tinham em comum: faziam seu trabalho do melhor jeito possível até que ferisse sua ética.
A escritora não criticava Fratezzi em si. Lamentava, sem lamentar, as mortes, os desaparecimentos, a falta de harmonia. Criticava o medo que se espalhava pelas ruas, a falta de liberdade imposta. Não criticava Fratezzi, porque sabia que se ele não tivesse aparecido, estariam todos vivendo como miseráveis ou selvagens. Mas não gostava do rumo que as coisas tinham tomado.
O psicólogo lia os textos da escritora diariamente. Percebia muita mágoa em seus escritos, entrevia o ódio em sua coluna. Quando alguém de um cargo superior pediu um perfil psicológico da menina, já estava apaixonado pelas coisas que ela escrevia. Provavelmente estaria amando-a também se soubesse como seu semblante de fato era. Não sabia.

A escritora recebe uma ligação de um número desconhecido. Recusou. Recebeu mais duas, três, cinco ligações desse mesmo número. Pesquisou: o número era daquele terapeuta que revisava os textos dela. Fez uma careta. O que aquele velho charlatão queria com ela? Nunca haviam se falado. Será que...?
Retornou a ligação. Ouviu, com surpresa: "seus textos são muito bons; podemos nos encontrar?". Achou melhor ir.
O velho charlatão até que era muito do bonito. Parecia ter a idade dela, apesar dos vinte anos de diferença. Tinha o sorriso mais lindo que ela já vira. Ela via o território de cútis dele coberto por lentes e armações vermelhas. Ele via na sua pele (que, mais tarde, descobriria o quão macia era) contadora de histórias, marcada por cicatrizes que pareciam representar o mapa d'A Cidade.
- Você odeia o governo Fratezzi, mas esconde isso tão bem e tão bonito que estou te poupando há meses.
Ela emudeceu. Ruborizou, agradeceu, chamou-o para sair, dormiu na casa dele e começou a vê-lo todos os dias.

Mas da mesma forma que um ator estraga o envolvimento do cantor com a sua bailarina, da mesma forma que a carta de Julieta para seu Romeu exilado se perde e, da mesma forma que uma tragédia sempre acontece nas grandes histórias de amor, conto-lhes que um outro psicólogo, intrometido, apontou todas as obviedades subversivas nos textos da menina; "muito estranho, considerando que o psicólogo a conhece tão bem, não? Ele deveria ter falado alguma coisa, porque com certeza percebeu isto..."

E foi assim que o casal mais singelamente bonito da nossa sociedade pós-apocalíptica desapareceu da face da Terra; a não ser por uma caixa com duas blusas, várias cartas e algumas latas azuis de uma bala apetitosa, seus restos nunca foram encontrados.

terça-feira, 22 de março de 2011

Indiferença

A menina
Carente
No quarto, chora
A mãe
A ignora

A menina
Carente
No quarto, se corta
O pai
Debocha

quarta-feira, 16 de março de 2011

Silly Love Songs




Eu quero mais elogios. Mais flores, talvez um buquê vermelho e bem carnudo de rosas colombianas. Quero mais abraços gostosos no meu aniversário. Quero ter menos vontade de me esconder, quero mais amigos. Quero mais visitas uma vez por mês. Quero permanecer de bom humor por mais tempo. Quero mais bebidas frias em dias quentes. Quero me sentir bonita. Quero sentir que meus sonhos são válidos, e não utopiadas. Quero menos ciúmes irracionais. Quero mais geminianos preenchendo o mundo com músicas bobinhas de amor. Quero mais latinhas de Altoids sabor wintergreen. Quero um cabelo mais bonito e olhos mais abertos. Quero mais rostos nos meus pés. Quero que as pessoas me escutem até o fim.

Quero rasgar este papel...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Carnaval

Estou andando pelo sambódromo, mas, ao contrário de todos ali, não estou folião, não estou sambando, não estou pensando em bocas ou bundas.
Estou andando pelo sambódromo, mas estou cabisbaixo, triste. Aquele axé não me agrada, não gosto de dançar, acho carnaval uma estupidez e você não está comigo.
Lembro dos seus cabelos refletidos na sombra; você ri e se chama de Medusa. Seu gosto, sua pele, os olhos de tempestade, seu sorriso. Não deixo as lágrimas molharem o chão do sambódromo, afinal as lágrimas representam tristeza, e todos ali estão felizes. Menos eu.
Ando pensando no carnaval do ano passado: terminamos a noite molhados de chuva, com você comendo um sanduíche e com os pés nas minhas mãos, lembra?
Sigo em frente, pensando que ainda nos esbarraremos, seja pela Voluntários da Pátria, seja pelo astral.

É carnaval, e você não está comigo...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Arabian Nights

Para ler ouvindo Within You Without You (The Beatles).

E para mim você é uma deusa, talvez do oriente, me dando uvas na boca com um véu cobrindo seus lábios, mas deixando seus imensos olhos verdes de fora. Beijo as cicatrizes do seu pulso, ajoelho na frente de uma escola inteira só para te pedir em casamento, falo vinte e cinco horas por dia que te acho a menina mais especial do mundo com seu violão, seu corpo de garota e o papel e a caneta dentro da sua bolsa. E fico bobo de ver como você é linda e ainda assim me espera há oito meses, você é linda e me espera de aliança no dedo, fico querendo enfiar a cara nos seus cabelos, beijar seus olhos quando eles estiverem molhados de choro, tenho vontade de batucar na sua coxa enquanto você solta essa voz bonita de contralto cantando para mim.
Você é uma deusa, do oriente talvez, e mexe os quadris enlouquecidamente ao som de uma música do George Harrison tentando agradar a mim – a mim! Você me trata como um sultão, mas eu sei (e talvez você também saiba, por baixo desse coraçãozinho louco de paixão) que eu sou um bobo, um louco, não chego aos pés de Sherazade, sou um artista/desenhista/poeta que te ama acima de todas as coisas e só vai deixar de te amar se a minha avó virar uma bicicleta.