quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Diálogo IV/Let It Burn

- Descobri.
- Me conta.
- O problema é que eu escrevo.
- Como assim?
- Passo tempo demais indo de heterônimo em heterônimo para você entender. É como se eu fosse geminiana, só que com mais de dois pólos - e eles não são necessariamente opostos. Quando você começa a me ler, eu mudo. E é por isso que você me ama.
- Ah, é?
- E é por isso que você me odeia. Não me entender é combustível. Não me entender é o que te fascina.
- Quem é a garota sensível e insegura que chora quando vou embora?
- Marina.
- E a menina ácida de senso de humor duvidoso que me alfineta e me faz rir até a barriga doer?
- Essa é a Zoé. Acidez o suficiente para corroer sua pele.
- Concordo. A mulher que explode comigo e me diz absurdos mal-educados... Mas que ao mesmo tempo parece ser forte o suficiente para enfrentar qualquer coisa...?
- Pilar. Às vezes queria que ela fosse mais presente. Costumo sentir falta da força dela quando estou Marina.
- E o mulherão que me enlouquece e perturba durante noites a fio com grandes olhos de furacão? Quem é essa?
- É o caos: Helter Skelter.
- Eu gosto dela. De todas elas.
- Você não entende nenhuma. Não entender é combustível. Deixa queimar.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Filomena

Tem que ter. Em algum lugar da cidade, em algum lugar do mundo, tem que ter alguém que esteja se sentindo do mesmo jeito que eu. Feliz, mas incompleta. Satisfeita, mas vazia. Sem programa para uma sexta-feira à noite, com fome, com vontade de ver filmes e com a mesma vontade de dormir (bêbada de sono é uma expressão mais adequada). Tem que ter alguém tão frustrada quanto eu, pensando "oh, mas que droga, meu namorado não me chamou para sair hoje" ou algo dramaticamente feminino do gênero. Porque eu olho a minha gata em cima da mesa com aquela carinha de sono que ela tem e penso que ela é uma puta duma sortuda, porque só come, dorme e recebe carinho o dia inteiro.
Eu não acharia nada mal ser uma gata por um dia...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ventania

Enfio as mãos debaixo da torneira que deixa escorrer água gelada e jogo o líquido no rosto. São 06h12 da manhã, a janela está aberta e me pergunto se o resto do prédio está acordado, se preparando para mais um dia da semana, ou se está dormindo. Talvez o resto do prédio esteja chorando, ou tenha insônia, ou esteja ouvindo rock progressivo em seus fones de ouvido.
Vou escovar os dentes sem nem mesmo tomar café da manhã, e sua voz ecoa na minha cabeça dizendo que preciso comer. Largo a escova e me preparo uma grande tigela de mingau, para só conseguir comer metade dela. Estou pulando o almoço desde segunda-feira passada.
Alguém dá a partida num carro cinco andares abaixo de mim e sorrio pensando na preguiça dessa pessoa. Tento me decidir sobre se gostei do meu cabelo ou não (e decido que gostei). Lá fora, o sol tinge o firmamento de um laranja-rosa-vermelho, cor que só existe aqui e em mais nenhum lugar. Meu esmalte está descascando. Penso no que mais tirar fotos para acabar com o filme.
E então tomo uma decisão importante: coloco a cabela para fora da janela e deixo a brisa gelada dar oi para as minhas bochechas, deixando meu nariz avermelhado de frio. O sol começa a fazer os ipês brilharem e ilumina as copas das árvores.

Esse mundo é bonito demais pra gente ficar sofrendo um pelo outro...

domingo, 14 de agosto de 2011

Balinhas de Uva

Eu comecei o dia comendo balinhas de uva. Foi meu café da manhã, e não tenho conseguido comer muito mais que isso. Meu sono, se quantificado, também anda do tamanho de uma uva. E dói. E não sei. Não sei nada. Mas sinto. E queria não sentir. Nada, nada, nada. Nunca. Nunca mais. Machuca. E lembro. Retrocedo. Não queria. Disco os números. Merda, sou fraca. Não estou mais aí pra dar feliz Dia dos Pais pro seu pai, mas sei que vou receber uma mensagem sua desejando exatamente "feliz Dia dos Pais pro sogrão". Eu vou sorrir. E vou sentir falta. Porque sou fraca e estúpida. E choro enquanto digito. E enquanto eu comia minhas balinhas de uva lembrava de uma cena descrita pelo Gaiman em Coraline, quando A Outra Mãe comia besouros. Ela pegava os bichinhos, assim, e tirava as patas, e colocava na boca, e os estalava com a língua no céu da boca. Nojento, eu sei, e balinhas de uva não são besouros. Mas lembrei disso. Da mesma forma que vi um ônibus indo para o Zoológico e li "Botafogo". E não paro de escutar Polly - a versão acústica é muito mais legal que a sua preferida. Acabo de lembrar o que é uma caçapa. Me sinto mal. Acrilic on Canvas. Esse texo podiam ser vários e vários fragmentos. Seus, meus, do Caio e do Renatão. Mas não é. É só exorcismo, como sempre foi quando era em relação em você. Prometo três vezes te encontrar no futuro, porque sou curiosa, porque tenho vontade, porque quero que seja com você, porque é mais fácil passar pra psicologia na UFRJ do que na UnB. "Não, você não fez nada de errado, ele te adora, só está dormindo", sua mãe me diz. Choro. Sua mãe sabia. Me sinto estúpida. Me doei. De novo. Me fodi. De novo. Eu já devia saber. Estou ouvindo Nirvana no aleatório e agora está tocando Drain You. I want you so bad, it's driving me mad, a música ressoa numa noite de um dos primeiros cinco meses do ano, e nos beijamos, e temos vontade, e rimos, e eu lembro que li algo que ela escreveu e era bom, e quente, e acho que era pra você e escuto sua voz desesperada mandando, ordenando, implorando eu parar de retroceder. Você me pede de volta. Lembro da sua voz triste dizendo que apaguei os depoimentos. Sinto raiva por ter te dado uma aliança que você não usava o tempo inteiro. Choro. Choro. Choro. Choro. Soco as mãos dos meus amigos pra descontar a raiva. Me olho no espelho, e choro. Lembra quando eu disse que ia te dar brigadeiros na boca? E do marketing e da pizza? E de sábado? Brincadeira. Como poderíamos nos esquecer da maior cicatriz de todas no nosso namoro? Sábado está em nós. Assim como as outras pessoas, grossas, intrometidas e estúpidas. Quero acreditar em você, porque sou fraca, porque é mais fácil, porque... sei lá. Agora começou Big Cheese, do Bleach. Me pergunto onde diabos enfiei a minha camisa do In Utero. Me pergunto se você está cuidando das minhas peças de roupa. Acho que vou me travestir de você, usar sua calça e sua blusa por hoje. Ou talvez só sua blusa, porque de sapatão já tenho a voz (y otras cositas más). A Verdade Sobre o Dia dos Namorados é que nunca passei nenhum com você. A Orla nos espera, está lá, nos espiando. A Menina das Unhas Azuis se travestiu em Ruiva Suicida e está de esmalte vermelho. O que me dá mais angústia é que, além das fiéis leitoras do meu blog, só você vai entender as últimas referências. Suas fotos. Minhas fotos no seus filmes. Meus cabelos no seu rosto. Seu nariz, onipresente de tão imenso (desculpa, mas não pude resistir). Seus cabelos e seu medo de ficar careca (que medo idiota). A gente brincava que nunca conseguia terminar direito, e agora estamos terminados e mais do que nunca quero cuidar de você! Olha quanta estupidez! O que vou ganhar em troca cuidando de você? Paz. É isso. Porque iria contra os meus princípios largar um forever teen no mundo, sem saber o que fazer com a própria vida. Além do mais, é um forever teen que viveu um ano e meio comigo e sempre fui contra fingir que você nunca conheceu uma pessoa, mudar de calçada quando a vir andando, fingir que os dois não trocaram saliva, suor e fluidos em geral. Porque vocês trocaram, porra. Porque vocês trocaram porra. Eu sou homem. Mentira. Até meu lado masculino é feminino, assim como o seu. Sensível, e você chora, e você me pede de volta, e você briga comigo porque não te deixo dormir, e sei que é foda acordar sem a minha voz de contralto no outro lado da linha, e sei que você está me mandando mensagens de bom-dia porque eu dizia que sentia falta disso. E tenho certeza que você gosta de mim, apesar de você ser um cachorro e eu ser uma puta. Eu não sou um monstro e você não é estúpido. Você não é um monstro e eu não sou estúpida. Somos pessoas, e a gente erra, e eu errei com você, e você errou comigo, e era trabalhoso e eu gargalhava quando te via e ia te buscar no aeroporto, com as mãos tremendo, do mesmo jeito que elas tremiam quando eu mentia pra você, e você mente tão mal, mas tão mal, e não entendo o motivo de ter ignorado suas mentiras mais sérias e que eu sabia que eram mentiras, porque sua voz tremia e gaguejava e eu só ria porque você nunca conseguiu mentir direito pra mim... Desculpa ter rido de você quando você ia a Igreja? Brincadeira, você mereceu que eu risse de você! Glória a Deus nas alturas, hein? Bosta, não estou dando parágrafos. Don't expect me to cry. Don't expect me to lie. Don't expect me to die for thee. Desculpa não ter sido compreensiva quanto o que aconteceu no sábado. Me perdoa. Você ajoelhou pra me pedir desculpas naquele dia, no caminho da locadora, e vou te contar um segredo e você vai ficar com raiva - mas lembre-se que é por conta de gente como eu que você ganha seu salário: estou com sete filmes atrasados em dois dias. E você vai ficar puto porque a moça da locadora vai me dar desconto. Gold lions gonna tell me what love is. Wait, they don't love you like I love you. Off with your heads, just dance dance dance 'till you're dead. It's such a cold december. Ain't got nothing but love, baby, eight days a week. Sagitário, exagerado, mandão, orgulhoso, sincero... Você tinha ascendente em gêmeos, lua em libra, vênus em aquário e eu ignorei o óbvio que iria acontecer (e lembro de ter dito exatamente o que aconteceria no começo, quando dizia que você ia me trocar por uma garota de cabelo liso. Você não trocou, e espero que ela esteja se sentindo bem com a consciência dela just kidding, I hope that bitch fuck off and die). Lying is the most fun a girl can have without taking her clothes off, but it's better if you do. BECAUSE I'M A FUCKING CAVEMAN, o Larry grita em Closer enquanto você dorme em paz no meu colo e minha mãe te olha com doçura. Meu irmão tá com saudades e se perguntando quando você vem trazer os alienígenas do Ben 10 pra ele. Estou expondo todo mundo, foi mal, eu sei que você pediu pra eu não fazer isso, mas escrever é isso aí. Exorcismo. E você com meus pés nas mãos e na boca. Balinhas de uva sendo digeridas. Acabei de descobrir que uma dupla sertaneja chamada Don e Juan (hahahaha) tem uma música chamada É Assim o Amor e daqui a pouco vou te ligar gargalhando pra te contar isso (só que é domingo, são nove da manhã e você vai falar "hã?" com aquela voz de sono). A versão do Shockinbg Blue pra Love Buzz é muito mais legal, mas eu sei que você nunca admitiria isso. Lindo, lindo, lindo. Acho que escrevi coisa demais, tô me perguntando como vou fechar esse texto. E decidi. Com citações, minhas, tuas, do Caio e do Renatão.
Ninguém nunca te forçou a mergulhar nos olhos de furacão. O futuro é analógico, incerto e defeituoso. Agora as luzes vão se apagar. Dê seu último mergulho. Me deseje sorte. Diga que espera que eu fique bem. Que um dia a gente vai se ver. E vai… deixa a noite levar seus passos. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente supera. E era sempre: "não foi por mal, eu juro que não foi por mal, eu não queria machucar você. Prometo que isso nunca vai acontecer mais uma vez". E era sempre, sempre o mesmo novamente, a mesma traição. E
é só você que me provoca essa saudade vazia tentando pintar essas flores com o nome de amor-perfeito. E não te esqueças de mim.

Nada mais justo do que acabar o texto com reticências, afinal...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reticente

Nunca olhei essa palavra no dicionário, e no entanto sei que é ela que exprime como venho me sentindo. Porque estar reticente me lembra de reticência, os três pontos indecisos, que se diferem tanto do ponto final, com sua determinação, seu ar de que acabou de dar uma ordem, ou de falar algo muito certo e sério. Se diferem dos dois pontos, que explicam uma decisão importante que foi tomada ou que explicam um conceito.
As reticências são um meio termo. Elas expressam uma continuação e sabem que não vale a pena acabar com tudo já que há o arrependimento, então deixam seu mistério no ar. As reticências expressam o silêncio de alguém que queria ter algo inteligente, importante, definitivo ou explicativo para falar, mas não tem. Lembram as lágrimas quentes que caem dos meus olhos e mancham o papel, num número curiosamente ímpar. Se observarem direito, o fiapo de água que caiu de um dos olhos - o esquerdo, quem sabe - se partiu em dois, enquanto a gota do olho direito continuou solitária. As reticências, mais freqüentemente, expressam o óbvio, que não pode ou não deve ser dito. Se dito, fere, e eu nunca fui dessas de ferir. As reticências pedem carinho quando finalizam um elogio a uma outra. As reticências expressam a carência, a necessidade de dizer, de gritar, de berrar, de implorar por cuidados, colo, uma mão geminiana apertando a minha enquanto soluço de cabeça baixa, expressam o meu "nem-vinte-minutos-sem-falar-com-você-e-já-estou-com-saudades", expressam minha expectativa na sala de desembarque, as reticências são sem ser, e por eu ser demasiado, queria me resumir nesses três pontos.
Se estar reticente é se sentir assim, estou reticente...