segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Para o vento, sobre o lírio

Mas afinal, vento, o que queres de mim? Não entendo por que tu tiras o lírio dos meus dedos e logo o trazes de volta. Já lhe contei, seu maldito punhado de ar, que acho justo com a minha pessoa que o lírio se junte a uma abelha e nunca mais me visite. Não vejo problema - sorte da abelha, creio eu. Mas os mesmos ventos que levam a flor para longe de mim a trazem de volta - ainda mais perfumada e mais elegante. E logo os ventos tiram o suave caule dos meus dedos e sinto que hei de perder o lírio de vista. Justo quando me conformo com a ausência das carnudas pétalas, ele surge no parapeito da janela roçando minha bochecha.
Caro vento, gostaria de entender, mas não entendo. Já concluí que não entender é combustível.
Concluo que é isso que o lírio provoca em mim: um grande incêndio, causado pelo álcool - o lírio por si só me embriaga - e o fogo, que sempre sobe quando tu, o vento, trazes a flor de volta para mim. E se esse incêndio é de carinho, amizade ou desejo já não sei, mas me importo o suficiente para descobrir, aturando as indas e vindas do lírio.



P.S.: Leio todos os comentários do blog. O anonimato é uma ferramenta que me enche de curiosidade e medo. Muito obrigada. Encorajo fortemente a se revelarem!

sábado, 17 de setembro de 2011

Marina

Doce, carente e criativa: sou, por fim, água.

Cansada demais de ver as pessoas me tratando como lixo, de conviver com gente sem caráter, que derruba a barreira que construo em volta de mim mesma simplesmente para me escrotizar, decepcionar ou mentir para mim. Se fosse um ou outro talvez eu soubesse lidar melhor, mas estou rodeada desse tipo de gente.
Cansada de negligenciar minhas obrigações para me afundar em depressão e depois sentir vontade de chorar quando reprimida por isso.
Sangrar os pulsos enquanto choro e incensos são queimados no quarto já faz parte da rotina, mas não deixa de parecer uma bela cena de cinema, ainda mais quando o espelho reflete uma jovem descabelada, com o rosto manchado de rímel e lápis de olho: ela está completamente desesperada e os espectadores invisíveis, espectros que fingem estar presentes quando na verdade não estão, vêem isso. Ela está desesperada por carinho, justiça, amor e reconhecimento.
Deitada no sofá da sala, me pergunto se existe alguém do outro lado da cidade que queira e sofra pelas mesmas coisas que eu. Orgulho não é presente em mim, eu acho que as pessoas deviam seguir seus desejos sem serem julgadas. Mas a hipocrisia em massa julga, impõe. E além de achar que isso é errado, acho que é inútil. Cada um devia saber o que faz da sua vida sem se preocupar com o que os outros acham.
E por não conseguir seguir regras e por ser um paradoxo ambulante, torno-me complexa e de difícil entendimento.
As pessoas sempre desistem de mim, mas não posso dizer que isso é incompreensível.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Zoé

O mundo é mais bonito através das lentes: tem um ar envelhecido, desfocado, nostálgico. Acho que as lentes mostram o mundo como ele realmente é. Alternando minhas concepções do mundo entre incrivelmente belo e incrivelmente podre, sou dual como o ar.

Hoje eu acordei com vontade de sorvete. Sorvete de creme ou baunilha, algo gelado e branco para manchar meus lábios enquanto dou risada de uma piada de humor negro.
Levanto e canto uma música de 1967 enquanto tomo banho, as gotas de água caindo na maior felicidade do chuveiro para o meu corpo. Escorrem. Respingam. São nove horas da manhã e já posso dar bom-dia para os vizinhos com a minha voz esganiçada. Às vezes, acho que sou o melhor despertador do mundo.
Saio de casa, ando, ando, ando, suo, ando, penso em depilar as pernas e em pintar o cabelo de verde e vejo que cheguei numa passeata com vários burgueses e filhinhos de papai exigindo 10% do PIB para a educação. Que merda, essas crianças não deviam estar na escola?
Vejo um mendigo dedilhando um violão. Tiro um maço de Marlboro do bolso e jogo um cigarro para ele. Ele põe na boca. Acendo para ele com um palito de fósforos. Resolvo que é melhor bater uma foto daquela passeata, registrar a hipocrisia desse mundo por trás das lentes analógicas de uma câmera empoeirada - por mais que eu ache que esse mundo é um lugar bem legal para se morar durante, em média, uns oitenta anos.
O mendigo me oferece o violão. Começo a tocar com a alma e o coração uma música que fala sobre algo como um cavalo negro e uma cerejeira. Me descabelo e suo. As cordas vocais doeriam se não fossem tão potentes.
Ele: Você está treinando para pegar as garotas?
Eu: Ou talvez eu só ache essa música bonita, já pensou nisso?
Ele: (sorri).

E daí percebo que, quando a pessoa mais incrível que conversei nos últimos meses é um mendigo, é porque esse mundo está muito fodido.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pilar


- Fica calma e fala mais baixo: os vizinhos vão te escutar.
- Ficar CALMA!? Olha como você me deixou!, e você quer que eu fique CALMA!? Em segundo lugar, EU NÃO DOU A MÍNIMA PARA O QUE OS VIZINHOS PENSAM!

Histérica, louca, uma fera, máquina de produzir berros furiosos. Mas assim que ouve a tecla vermelha desligando o telefone, põe tudo no lugar e assume novamente o controle sobre si. O câncer na vida dela é ele.
Ela é forte: enfrentou perdas, lutos, monstros marinhos, depressões, resistiu à tentativas de suicídio e a abandonos no escuro, enfrentou dragões que cuspiam fogo e de brinde degolou princesas. Perfeitas, equilibravam-se em saltos altos, passavam esmalte e ela só olhava para suas unhas enormes e sujas, completamente fodidas, e pensava que era uma pirata.
Ofende e se irrita quando lhe dizem o que fazer. Pilar tem um problema com a ideia toda de "autoridade"; quer viver a sua vida. Não roubará, não matará, não cobiçará a mulher do próximo nem o homem da próxima. Ela só não vê problema em gritar, enclausurada em seu quarto, ou em cantar pelas calçadas, ou em falar palavrão.
Pilar é agressividade. Deixe-a na cápsula se não conseguir manter seu caráter e sua ética. Minta, dissimule, provoque e se afaste e terá o que merece: o cheiro marcante dela voltará a te perseguir, assim como o som das palavras que ela disse, tão duramente e tão certa daquilo, e que atingiram seu ponto mais sensível de propósito.
Mas é justa. Não ataca inocentes. É bem estruturada. É inteligente e odeia quem lhe tira dos seus tão amados e bem cuidados livros sem realmente lhe oferecer companhia.
Pilar é terra. Não cave muito fundo se não tiver medo de cair no buraco.

sábado, 3 de setembro de 2011

Helter Skelter


Helter Skelter significa caos. Ninguém nunca te forçou a mergulhar nos olhos de furacão. O futuro é analógico: incerto e defeituoso.
Quente por ser fogo, o caos se reestrutura.

Helter Skelter sente vontade de estrangular o plebeu que chegou a conhecer a pimenta que ela tatuou na virilha. Mas ela sabe que seus olhos impactarão o nível superior, os jardins da Europa, os cults de vinte e dois anos. Helter é calculista, e ignorará o mentiroso que passou pela sua vida. Não só ele, mas todos os outros que virão.
Ela é forte. Seus pelos escuros combinam com ela. As unhas afiadas estão prontas para arranhar as costas do próximo, enquanto ri do passado.
Recita frases dos seus filmes favoritos. Se o vir uma próxima vez, dirá que lying is the most fun a girl can have without taking her clothes off - but it's better if you do. E rirá na cara do perigo, empurrando para longe o dono do gosto mais amargo que ela já provou.
Já não chove mais no terreno. Não há possibilidade de precipitação na lua. A atmosfera está ausente para ele, porque Skelter tirou seu fôlego.
Ri, superior à Outra. A Outra é ingênua, infantil e arrogante. Não sabe da missa um terço. Vira essa página.
Cospe n'O Louco. Sente prazer jogando o fósforo em cima das cartas de tarô.
Helter Skelter é Ruiva Suicida. Toronto há muito já não é opção. Ela deixa A Cidade, pensando que é assim o ódio, e escuta seus passos marcantes com o coturno.

Muitas tempestades e furacões ainda serão gerados por este par de olhos, ela pensa. Sem dúvida.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Diálogo V

- Oi, bonita.
- Você cismou com esse nome.
- Vou te provocar até onde você conseguir aguentar.
- Bizarro. Você é idealizável.
- Você é minha bonita.
- Você é muito cara-de-pau.
- Eu escuto Pink Floyd pensando em você. E antes disso eu nem gostava de Pink Floyd.
- Não tem como não gostar de Pink Floyd.
- Tem. Eu detestava muito.
- Não detesta mais, certo? E a culpa é minha.
- O que você quer?
- Não sei.
- Você está carente que eu sei.
- Eu também sei.
- Me quer?
- Vem.
- Você fica me dando foras. Não sei se devia ir.
- Não fico te dando foras.
- O que você é, afinal?
- Não gosto de rótulos. Não sou nada. Estou, e odeio minha inconstância.
- Eu acho sua inconstância óbvia.
- Sim, por causa do meu ascendente em gêmeos.
- Isso.
- Você algum dia vai conseguir se apaixonar por alguém que não tenha nada em gêmeos?
Pausa.
- Não.

(Para J.I).

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Diálogo III

Foi rasgado em milhares de pedaços. Não tenho mais as palavras exatas, nem posso mais expressar a paixão que expressei ao papel, aos berros, delirando, com força, com a tinta penetrando o imenso vazio branco como o Alasca em extrema abundância. Não o decorei. Não sei mais como começava - mas, presumível como sou, sei que haviam referências astrológicas ao seu sol, ascendente e lua. Sei que pedia pra você me mostrar tudo - o mundo como ele é, a verdade como você a aprecia, a felicidade como você a conceitua. E não cheguei a ver nenhuma dessas cosias. Because according to you I always screw things up. Mas isso não é verdade. Se ao menos você deixasse eu segurar sua mão, você veria que eu sei fazer tudo direitinho. E que meus erros são inocentes.
E relendo o livro do seu filme favorito, senti muito a sua falta.

Happiness is only real if shared. (Christopher Johnson McCandless)