sábado, 31 de dezembro de 2011

O Surfista

A moça estava parada na extremidade da ponte, mas sua cabeça estava na lua. O lugar era bonito, ela sabia - era verde, tinha cheiro de praia, fazia sol e o vento bagunçava a juba escura da garota. Então o surfista passa e tudo muda. Ela finca os olhos verdes e intensos no mel do olhar do rapaz e as coisas viram de cabeça para baixo. Os "quem", "quando", "onde" e "por quês" inundam aquela mente despreocupada, tranqüila e que só buscava descanso e paz.
A mente volta ao seu retiro, alcança descanso e paz porque é isso que ela quer. O surfista se perde da vista dela e a troca de olhares é esquecida. Tem de ser. Mas não foi por completo, porque quando a garota foi se despedir do mar e o surfista a recebeu sorrindo, ela desmontou. E tudo vira de cabeça para baixo novamente. Uma prancha, os dois sentados na areia, mãos dadas, sorriso e vontade.
Na pseudo-ilha-quase-deserta, a garota sentiu os cabelos louros dele se emaranhando nos dedos dela e as costas quentes e bronzeadas do sol sob sua mão. Ele não ria, era sério e compenetrado, mas falava bonito sobre o mar e sobre a liberdade que os aquarianos típicos - como ele - sempre anseiam.

E na madrugada seguinte, tomada pela insônia e pelo sorriso, ela acorda e descobre que ainda sente o gosto dele de sal, protetor solar e calor em sua própria boca.

- Se eu escrevesse para você, você leria?
- Claro. Por que não?
- Então tá.
- O texto está aí? Como eu vou ler?
- Eu te acho.

E a moça é de cumprir sua palavra.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Para alguém que não vai ler

Se eu morasse em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, apagaria você da minha vida, agora. Você não passa de um garotinho assustado, igual a todos os outros, que faz promessas vazias que você não pode nem pretende cumprir, e logo depois some, me deixando sozinha, desamparada, cansado de mim por causa dos meus impulsos e dos meus choros descontrolados e eu te odiaria por isso se não quisesse que sua vida desse certo. Estive aí para você sempre que você precisou, e você esteve aí para mim enquanto eu estava sozinha. Não estou mais sozinha, mas agora você me trata com indiferença e raiva mesmo sabendo que não sou culpada de nenhum dos seus problemas. Você é só mais um, um filho da mãe idêntico aos outros, que faz questão de marcar a minha vida e desaparecer dela quando bem entende, ignorando meus pedidos de atenção. Diria que sinto falta das suas mãos, das suas risadas, do seu cabelo bem cuidado - mas não vou dizer, porque todos esses itens são substituíveis e vou encontrá-los em outra pessoa. Você foi a pessoa mais incrível na minha vida por um tempo, certo? Você escolheu ser só mais um, você escolheu fugir e, por mais que eu e você saibamos que não sou lá a pessoa mais religiosa do mundo, sei que o karma voltará pra você. Um dia, você estará sozinho e vai precisar de mim. Nesse dia, não vou retribuir seu afeto, suas mensagens, vou te tratar com indiferença, vou fingir que "nós" nunca existimos, que você nunca provou o gosto de xampu dos meus cabelos nem a saliva da minha boca, que nunca demos as mãos, que nunca vimos filmes na casa um do outro. Você pode ter se esquecido, mas eu não. E as cicatrizes vão ficar para sempre, manchando de sangue a minha roupa.

Abençoados sejam os esquecidos, pois deles tiram o melhor dos seus equívocos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Fragmento Sobre a Beleza do Lírio

A flor estava acanhada, tímida no seu canto como de usual. Às vezes, o vento fazia com que ela virasse suas pétalas em minha direção, o que fazia com que eu me derretesse e me enchesse de timidez ao mesmo tempo.
Não é meu dever fazer o que fiz, e talvez seja errado - mas, tomada por um carinho sem limites ao ver o lírio iluminado pela lua, as pétalas bem contornadas e o caule carnudo, não pude evitar. Deixei dentro do seu vaso de cristal um bilhete que dizia "lírio, você está lindo esta noite".

E a flor sabe que a acho linda todos os dias.

P.S.: Tenho sonhado com você.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Poseidon

O mar é a personificação do dual: tem de incrivelmente belo e calmo o mesmo que tem de traiçoeiro e furioso. Isso porque o mar é como a vida: ele tem seus momentos.
A imensidão azul tem dias em que o vento leva o cheiro de sal, areia e calor para os quatro cantos do mundo. Em dias assim, as ondas quebram com graça e leveza, parecendo sussurrar o segredo da eternidade.
Mas há também os dias em que o que antes era um grande macio azul se torna um grande espetáculo de fúria dirigido por Netuno. Nos dias como esses, a maré está alta e agitada, a água parece não dar pé e a sensação de que o afogamento é inevitável está sempre presente. E nos dias em que Netuno se enfurece, não há mais o que fazer além de esperar a calmaria voltar.

O mar é assim: imprevisível como o amor.