segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

tive esperanças de que o mundo acabasse dia 21

Eu tinha prometido para mim mesma que ia terminar 2012 com os textos "Pilar e Helter" e "Helter e Zoé".
Não consegui. Meus heterônimos exigem certo grau de concentração e encarnação para que eu escreva direito, na medida em que elas merecem. Por respeitar demais tanto essas quatro personagens quanto as minhas falhas na escrita, preferi não fazer um texto meia-boca, desinspirado.
Ao invés disso, registro um fragmento mais pessoal. Meu primeiro blog foi criado quando eu era (mais) criança, mas ao todo são mais de cinco anos de blog e sempre tentando aperfeiçoar a escrita. Gostaria de agradecer aos eventuais ou fixos leitores, que ajudam a manter essa brincadeira viva, e que me fazem feliz com os elogios que recebo.
As críticas, claro, também são sempre bem-vindas.

Nos últimos quatro dias do ano, pedi coisas boas ao Universo. Aparentemente, ele me atendeu. Faço um balanço do meu ano muito melhor do que ele seria por causa desses últimos quatro dias: passei me sentindo plena, bem, feliz - uma sensação de paz oposta a que senti no resto do ano.

De todas as datas comemorativas, gosto demais do Ano Novo. A metáfora que é fechar um ciclo e iniciar outro muito me agrada, mesmo sabendo que não existem anos e que os calendários são medidas burocráticas inventadas pelo homem, em sua urgente necessidade de se organizar e se colocar em caixinhas. A verdade é que preciso me renovar com frequência. 2012 foi 
corrido, puxado, querendo mais de mim do que eu poderia dar, por vezes divertido, mas sempre ansioso. Entretanto, no momento, estou descabelada (como de usual), vestindo um camisetão e, há cinco minutos, terminei de ler um bom livro - e, reconhecendo que li pouco esse ano, fico feliz por tê-lo feito.

Que 2013 venha assim para nós todos, do jeito que eu me sinto ao protagonizar essa cena: tranquila e cheia de paz.

sábado, 22 de dezembro de 2012

broto

Eu gosto de você porque você me diz essas coisas que eu não entendo, mas gosto. Você faz eu me sentir como se, sei lá, não tivesse nada de errado comigo, como se você não fosse desistir de mim, e isso faz eu gostar de fantasiar situações malucas com você. Relaxa que não é amor, mas quando eu estou deitada na cama pensando em ti, parece que você tem cheiro de homem com sabonete e desodorante gostoso. Curto muito esse seu charme de guitarrista-Beatle-psicodélico-barbudo, esse cabelo bagunçado até os ombros, os óculos claramente lennonianos.
Deve ser bacana estar em um apartamento contigo, pô, você tem um jeito preguiçoso que me faz pensar que você gosta muito de dormir. Eu também gosto, só que só durmo à tarde, então acordaria cedo pra fazer um café gostoso e te levar na cama quando você acordasse.
Outra coisa que eu acho graça: você vindo falar bêbado comigo. A gente também tem isso em comum, se diverte bastante bêbado. Se uma das nossas bebedeiras der errado, a gente pode se acordar com cafeína e ir caminhar pela madrugada, ser engolido pelo céu escuro, discutir as nossas músicas favoritas dos Beatles, fazer o nosso próprio fim do mundo e aproveitá-lo.
Na real, acho que se você não gostasse tanto de Beatles como eu gosto, eu nem estaria te escrevendo essas coisas - e acho também que você vai achar graça de chegar em casa depois do show e achar um texto assim, muito meu pra você, meio descontraído, meio a gente, despresunçoso.

É isso, broto. Encerro o texto aqui com um depois-você-me-diz-o-que-achou.

cê devia estar aqui

domingo, 16 de dezembro de 2012

das urgências da vida

Vamos, vem depressa, tem que ser agora. Não sei se você vai entender a minha urgência, mas preciso que seja o mais rápido possível, que a gente não pense nem em certo ou errado, sei lá, muita burocracia e tradição cristã pro meu gosto, acho que a gente não devia ceder dos nossos desejos, né? Essa frase nem é minha, não, é do Lacan, mas não sei, acho que encaixa nessa situação toda. Quer dizer, a frase do Lacan é "não cedas do teu desejo", mas você entendeu, né, as adaptações todas. Eu sei que estou fugindo do assunto, e do que eu falava mesmo? Ah!, sim, da urgência, da necessidade, de não deixar escapar. Acho que pra mim tem que ser agora justamente pra não te deixar escapar, porque eu não vou conseguir aceitar se você mudar de ideia, então tenho que aproveitar que agora você quer. Para de falar que não vai mudar de ideia, você não tem bola de cristal, não sabe o que pode acontecer, ainda mais sendo volátil desse jeito de sabonete que você é, não posso perder a chance, não posso deixar escapar, tá tudo certo e nada pode dar errado. Eu não sei se é você por ser você, eu acho que quero porque o mundo acaba em cinco dias, não que quero porque é você. Se fosse outro eu estaria fazendo esse discurso do mesmo jeito, e peço desculpa pela falta de romantismo mesmo sabendo que você não vai se importar nem um pouco. É só que, rapaz, é um dos raros momentos da minha vida que eu me sinto segura, não arranja desculpa, já tá bom desse jeito, você tá me enrolando e isso sim que é pecado, lembra daquela frase do Renato Russo? Não foge de mim. Tá, você já disse que não vai. Pega minha mão e me leva antes que eu me sinta mal de novo. Por favor e obrigada. Eu não sei te explicar direito, tá? Não sei. Eu quero.

Mas eu tô com medo porque toda vez que eu verbalizo minhas vontades eu tomo no cu.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Alguma coisa acontece no meu coração...

Uma chuva fina e riscada de branco começa a cair, sincronizada com seu último batimento cardíaco. Tomo a liberdade de interpretá-la como uma singela homenagem dos deuses que choram por nós, meros mortais, pontos finitos imersos na negritude desse universo.
O mundo perde um pouco do sentido - todos, abismados, correm para a janela e lá ficam, parados, arregalados, confusos, tentam entender o que acaba de acontecer, pensando se não é um telefone sem-fio, uma fofoca malfeita, um absurdo.
E acaba que é, sim, um absurdo. Um dos muitos absurdos da contemporaneidade, da efemeridade das coisas todas, as crueldades da vida e da morte - tudo que resulta em um lamúrio do lago, um suspiro dos céus ou um sussurro do plano.
Paradoxal dizer que o tempo engolirá a humanidade, as cidades cairão todas ao chão, os mares devorarão as calçadas e, mesmo assim, a lembrança das curvas e das silhuetas graciosas, continuará.

Só olhar pela janela, encarar o firmamento bem no fundo, e perceber o seu legado, seu talento, suas obras impecáveis, a criação da modernidade me abrigando, me engolindo, inteira ao meu redor.

E, a partir de agora, sempre que eu for à Catedral, me lembrarei de você e sentirei sua presença. Deve ser isso que chamam de magia.

Pela janela, o sempre expressivo céu de Brasília chora a sua perda.

Que dor é morar nesse avião agora...

domingo, 25 de novembro de 2012

Pilar II

Então em uma noite, nos reunimos as três: Marina, Zoé e eu. Sentadas na sala e bebendo um pouco de vinho. Marina insistiu em acender aqueles incensos que ela compra das pessoas na rua um pouco por pena e um pouco por necessidade do cheiro. Zoé falava, feliz como de usual, contava casos, gesticulava muito, dava risada e era engraçada. Marina sorria para ela - por algum motivo, desde que eu havia chegado na casa, ela se tornara menos depressiva, dando vazão à sua personalidade doce, compreensiva, carente (não isolada e antissocial), maternal. Seus olhos pareciam dizer "puxa, você é muito geminiana mesmo, Zoé, e eu não tenho nenhum planeta nem casa em Gêmeos, então acho que preciso de você. E também acho que você se perde muito nessas suas noites de farra e luzes, então gostaria de ser sua amiga, cuidar de você e das suas ressacas". Eu, reservada e discreta, ria dos casos engraçados, soltava uma piada ou outra de hora em hora, mas eu via que a interação delas era maior que a minha com qualquer uma das duas. Elas meio que se completavam, Zoé botando Marina para cima, Marina tomando conta de Zoé quando ela precisava, as duas se entendendo bem.
- O que foi, Pilar? Você está quietinha.
Pensei um pouco se falava tudo isso que eu pensei ou não e acabei falando. Disse que gostava da companhia das duas, que fiquei feliz por ter aceitado ficar uma semana com elas, mas que elas se completavam muito, que talvez eu fosse um elemento que sobrava.
As duas se entreolharam e Zoé tomou um gole de vinho enquanto apontava a mão aberta para Marina.
- Conta para ela o que você me falou na outra noite, Nina.
Marina sorriu, abaixou a cabeça, ficou meio vermelha.
- Pilar, você é uma das pessoas que eu mais gosto no mundo. Tenho uma inveja boa de você, uma inveja branca, porque você é tão forte e determinada, sabe, e tão teimosa e convicta. Você é pé não chão e não costuma se deixar abalar, é sensata e racional, mas também tem um carinho para com os outros dentro de você. Você não tenta impor nada, e o jeito que você reage às figuras de autoridade é meio engraçado. Eu gosto das suas confusões. Por sinal, o que vai acontecer com aquela história da grade que você pulou?
- Não sei, Marina, espero que me mandem uma multa ou sei lá. No máximo. Quando eu chegar em casa eu te falo.
(E foi isso mesmo. Quando cheguei em casa, uma semana depois, tinha uma multa por invasão de propriedade para mim. Não sei como esses filhos da puta me acharam. Impressões digitais? Sei lá.)
- Claro que eu também tenho muito a agradecer a Zoé, que sempre foi paciente, que aturou anos de convivência com uma pessoa complicada, sempre alegre, engraçada e de bom humor, sempre tentou me colocar para cima, me falou sobre ajuda psicológica e psiquiátrica. Mas você foi um incentivo a mais, entende? Você é a pessoa que eu sempre quis ser - forte, desbocada, autoritária. Você se encaixa, sim.
Uma aura de calma baixou sobre todas nós. Continuamos a bebericar vinho, a cantar o novo acústico do Caetano baixinho, junto com o CD, e a pensar. Então Marina pergunta:
- Quando foi o pior período da vida de vocês?
Zoé pensa um pouco. E responde:
- Acho que o momento mais difícil foi quando meus pais se separaram. Eu tinha que ouvir os dois brigando antes, e se acusando de coisas horríveis. Presenciei algumas traições, o que foi um tanto traumático.
Ela abaixa a cabeça, triste. Toma mais um gole e continua:
- Um tempo depois, ele saiu de casa para ficar com outra mulher. Passou alguns meses longe, passei o Ano Novo longe dele, minha mãe sem dormir direito, só chorando. E éramos só nós duas, então foi difícil demais... Uns meses depois, eles se reconciliaram.
- Ué, assim do nada? Não brigaram?
- Devem ter brigado um pouco, talvez até na minha frente, mas não me lembro. O tempo passa e essas coisas vão ficando pequenas, né? A gente esquece e perdoa quase tudo. Ou tudo, mesmo. Enfim, eles se acertaram e estão juntos até hoje. Mas foi complicado. Fiquei feliz quando ele voltou.
- Imagino que sim. E o seu, Marina?
- Ué, estou saindo dele agora, eu acho. Às vezes parece, às vezes não. É complicado estar doente.
- Você reconhece que está doente?
Ela concorda com a cabeça, cheia de fumaça na boca. Termina de tragar e:
- Eu sei que estou doente, só que como sou inválida, não tenho dinheiro para pagar tratamento nenhum. Vou arranjar um emprego e aí sim começo a me tratar. Enquanto isso, vou levando, meio aos trancos e barrancos. Mas sim: o período mais difícil da minha vida foi esse, de continuar sem esperança nenhuma, de não tomar nenhuma decisão drástica como suicídio sabe-se lá por que, porque não via motivo nenhum para eu continuar. Eu acordava e não queria andar, queria me drogar de Rivotril e dormir o dia inteiro, vomitava os remédios quando eu tomava muitos de uma vez, me cortava como hobby, não tinha vontade de sexo, nem de emprego, nem de cinema, música, arte, escrever, sair da cama e ver o sol, não ria das coisas, e para mim não faria diferença nenhuma se o mundo todo morresse.
- "Mas a verdade é que se não fosse por uma ou outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem."
- Oi?
- É uma frase do Bukowski. Lógico. Parece com você - acrescentou a Zoé.
- Isso. Exatamente! Menos a parte das trepadinhas legais. Porque não tem nenhuma.
- Você fica enfiada em casa vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Aí complica.
- Uai, eu sei. Não tô reclamando de nada, não, Zoé.
Outro silêncio. Daí eu resolvo falar. Explicar o que aconteceu na minha adolescência, a origem de todo o meu problema com as autoridades em geral.
- O período mais difícil da minha vida foi o Ensino Médio. 
Estou sóbria demais para começar a falar, então Nina e Zoé sorriem enquanto eu tento virar o máximo que consigo da garrafa de vinho. Elas provavelmente também não gostaram do Ensino Médio - pelos motivos óbvios: se você é adolescente e feliz, você tem problemas e deveria pedir ajuda. Ninguém gosta de ter quinze anos. Caralho, que fase. Me sentindo levemente mais tonta (claro que provavelmente é tudo bosta psicológica), continuo a falar.
- Desde sempre, eu tive problemas com Matemática. Não era nada muito grave, não, era só tipo: eu tirava dez em tudo e oito em Matemática. Tudo bem, todos falavam que eu era desatenta e que se eu prestasse um pouco mais de atenção nas minhas contas, seria aluna dez em tudo, etc, o caralho a quatro. E os anos foram passando, eu fui para o II Ensino Fundamental e as coisas complicaram um pouco. Eu ia estudando e nos períodos em que a matéria tinha uma lógica menos numérica, tipo geometria, eu ia melhor. Era frustrante, porque em provas muito fáceis, onde todo mundo tirava de sete para cima, eu sempre ficava com mais ou menos quatro. Era desestimulante, mas eu passava de ano raspando, então tudo certo. Então veio o Ensino Médio, que é tão detestável para quase todo mundo.
Marina acrescenta, sabiamente:

- Sem estímulo, desperdício de tempo e talento... Nunca entendi por que tive que aprender Biologia se meu negócio mesmo era Letras. É desperdício de potencial e talento. 
- E as pessoas são escrotas.
- As pessoas eram escrotas com você, Zoé? - perguntou Marina, surpresa.
- Comigo não. Eu era simpática, engraçada e unia a turma. Mas eu via o que faziam com os outros, eu via meus colegas que acabaram loucos e se matando, eu via todo mundo falando mal e rindo de todo mundo então era complicado.

- Eu era doce e quietinha, então acho que não mexiam muito comigo - pensa Marina. - Ajudava sempre que precisavam. Enfim, Pilar, continue.
- Pois é, minha questão não era social. No meu Ensino Médio eu tinha mudado completamente minha rotina para uma rotina de estudos aplicada e competente, estudava exatas todos os dias, fazia os exercícios e deveres. Então veio a primeira prova e meu rendimento ficou próximo de zero. Muito frustrante. A pior parte é que eu era acusada de ser preguiçosa e desatenta, e acabou que virou isso mesmo. Eu continuava estudando, mas meu progresso era mínimo, então eu me frustrava, acabava matando aulas, provas e dormindo. Peguei recuperação no primeiro e no segundo ano, a sorte é que a prova de recuperação final era feita com calculadora e era consideravelmente mais fácil que as outras. Tive rendimento mínimo necessário no primeiro ano, no segundo os professores me aprovaram por Conselho de Classe, porque eu era muito boa em humanas e eles não iam me fazer repetir essas matérias. Na metade do terceiro ano, eu já estava mais do que frustrada, tinha passado em todas as matérias de humanas e não conseguia, independentemente do meu esforço, me sair bem nas exatas. Ouvia um monte de gente dizendo que eu era preguiçosa, desatenta e meus professores encucados com as resoluções, no maior estilo "ué, estava tudo certo, mas aqui você..." ou "você não podia ter resolvido o exercício assim, tem uma fórmula para ser aplicada". O diretor da escola chegou a falar com a minha mãe que eu ia reprovar e que eles não iam poder fazer nada por mim. Os professores me desprezavam, e eu não tinha o menor motivo para ter respeito por eles, entendem? Não via a autoridade em pessoas que eram tão hostis e se negavam a me ajudar.
- E você levou isso para a vida!
Sorri com a afirmação exata.

- Precisamente. Então um dia eu conversei com uma colega e descobri que nem todas as coisas que eu errava em Matemática eram normais. Eu descobri que não é normal pensar em um número e escrever outro, que não é normal confundir divisão com subtração, que você tem que saber onde fica a direita sem levantar o braço que você escreve, que todo mundo sabe olhar em relógio analógico.
- Você fazia todas essas coisas?
- Faço até hoje. Falei isso com a Orientadora da escola e ela me levou a uma psicopedagoga. Fui diagnosticada com discalculia.
- O que é isso?
- Dislexia numérica. Quando a pessoa faz todas essas coisas que eu falei. Ela tem uma degeneração nervosa que a impede de aprender números...
- Mas você passou no vestibular para Direito!
- Sorte a minha. Eu sempre falei muito bem, tinha a oratória muito boa, a retórica melhor ainda e minha personalidade forte me deu um pouco de certeza sobre o meu curso. O negócio é que, depois de ser diagnosticada com discalculia, pude prestar vestibular como aluna com necessidades especiais. Fui muito, muito bem na parte humana da prova e consegui passar.

- Parabéns. Deve ter sido foda.
- E foi, sim.

A campainha interrompeu todo mundo e Marina se levantou para atender. Da sala, ouvimos ela gritar:
- Helter!
Marina volta para a sala. Ao lado dela, uma garota de cabelos cor de fogo, olhos intensos, caótica, suada e usando preto, sorri como quem diz:
- Cheguei.


(Para S.B)


domingo, 11 de novembro de 2012

2012

Daqui a quarenta dias, não haverá mais nem eu nem você. Tudo que criamos (ou, mais provavelmente, que eu criei para nós dois na minha cabeça) será destruído e irremediavelmente apagado. Não restarão minhas palavras bonitas a você, ou as suas a mim, nem seus cabelos macios no meu dedo, nem eu me maquiando e me arrumando para jantar com você em uma noite fria de novembro.
Não haverão mais as feridas que você me provocou com o seu descaso, indiferença e com a quebra de todas as promessas. Não haverão mais as brigas que me tiravam o sono e culminavam em insônia no sofá da sala, olhando pela janela de céu preto. Não terão os livros ou os filmes que você gentilmente me pediu para ver, nem minha cabeça no seu peito, nem as risadas escancaradas. Em quarenta dias, o calendário será destruído e não restarão dias 7 a serem comemorados, nem dias 16 a serem lamentados e temidos. Os dias 9, também, não serão mais lembrados com saudade.
Não haverão mais as bocas sujas de chantilly, o consumo de substâncias como forma de suicídio lento, as danças desengonçadas na minha sala de estar, os pulos de felicidade quando acordo. Não haverão mais provas que não provam a inteligência de ninguém. Terminarão os padrões e as regras irritantes e nonsenses, a burocracia e o sistema que me cansa. Não haverão mais pesadelos, nem sonhos esquisitos, nem sonhos tão bons que sentimos falta quando acordamos. Acabarão por fim as tempestades, os trovões que me assustam e os relâmpagos que acendem os meus olhos redondos no reflexo da janela.

Em quarenta dias, acabará o amor, a tristeza, a insegurança e o ressentimento. Começo, portanto, a me despedir tanto das minhas dores tanto dos meus encantamentos - ambos mundanos.

Quarenta dias para ser plena.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Marina e Pilar

Zoé tinha saído de casa há algumas horas para ir ao trabalho. Eu estava, portanto, sozinha em casa com os pulsos coçando, os olhos secos, o gosto de vômito dos remédios que engoli todos de uma vez e meu corpo expeliu, meio dopada de sono por causa dos remédios que havia tomado depois. Calças largas, regata preta, cabelo desgrenhado, nariz vermelho. Jogada na cama, sem vontade de abrir os olhos, sem ver o ponto de levantar da cama - pé depois de pé até o banheiro, pé após pé para o quarto, pé após pé para a cozinha... Pra quê?

A campainha tocou. Puxo o edredom para cima do meu corpo, tampo o rosto com o travesseiro. A primeira etapa é a negação, penso em um sorriso amargo. A campainha toca de novo, dessa vez várias vezes seguidas, freneticamente. A pessoa é uma idiota e não vai parar de tocar a campainha até eu me levantar e atender. Porra, que saco. Só vai piorar se o filho da puta que está tocando a campainha for um vendedor de panos de chão ou algo do gênero.

Sento na cama. Respiro. A campainha não para de jeito nenhum e minha cabeça dói. Levanto. Pé depois de pé, com calma, me arrastando, eventualmente soprando a ardência e a coceira dos pulsos. Andar é que nem viver, não é? Tem que ir pra frente, se não você está fazendo errado. Putz, acho que eu sei fazer isso direito, sim. Só perdi a prática.

Chego na porta da frente. É Pilar, a pele morena de mel e pão suada, as mãos bonitas segurando os dois sapatos de salto alto, os pés sujos. Ela está ofegando e percebo que está correndo. Por diversão?

Quase rio. Conhecendo Pilar como acho que conheço, ela está fugindo.

Ela passa para dentro da porta, eu a fecho e tranco. Ela me cumprimenta com um sorriso, prende os cachos em um coque desleixado e vai ao banheiro. Eu sento no sofá (não sei fazer nada disso direito, mas acho que tenho que fazer sala, não é?) e espero ela sair. Ela sai.

- Pulei uma grade.
- Como?
- É isso mesmo, pulei uma grade. Eu estava com pressa, olhando em frente, a porta estava aberta a alguns poucos metros de mim mas não a vi. Daí pulei a grade.
- Ué.
- Exatamente! "Ué". Não parece um grande crime falando assim, não é?
- Uai... Não...
- Só que daí os guardas começaram a me perseguir por invasão de propriedade.
- Porra, Pilar. Invasão de propriedade? Que diabo de grade é essa que você pulou?
- Caralho, Marina, sei lá, eu que vou saber? Só sei que corri, corri para cacete, aí o salto começou a me machucar. Eu tirei os sapatos, lembrei que a Zoé morava por aqui e vim correndo. Foi mal, esqueci que é você que fica por aqui de manhã. Se eu tivesse lembrado, não teria tocado a campainha daquele jeito. Te acordei?
- Acordou, sim.
- Dormiu bem?
Silêncio.
- Claro que não dormi bem.
- Puta que pariu, é mesmo. Desculpa. Às vezes parece que não te conheço.
- É. Às vezes parece que ninguém me conhece.
- Marina, vai pro quarto, vai.
- Ué. Tem certeza?
- Eu te acordei porque pulei uma bosta de um portão.
- Não, você me acordou porque fugiu dos tiras.
- É. Porque eu fugi dos tiras. Você está doente, Marina, e não quer se tratar. Não sou ninguém e não vou te obrigar a fazer nada, mas vai deitar. Não precisa ficar fingindo que gosta de ser sociável, que quer me fazer companhia... Vai dormir.
- Você vai deixar eu me afundar?
- Vou, ué. A escolha é sua, o que eu posso fazer?
- Você é a taurina menos conservadora que eu já conheci. Você não devia, sei lá, idolatrar regras? Gostar do fato de que eu pelo menos tento seguir as convenções sociais?
- Ah, meu bem, eu tenho ascendente em áries ou algum desses signos porretas aí. Sei direito não. Afinal, você vai pro quarto ou não vai?

Não fui. Preferi fazer um chá e companhia para ela até que Zoé chegasse.

E, quando chegou, e viu nós duas reunidas ali, ficou surpresa. Acho que sorriu pelo canto da boca.

Coitada, ela achou que eu estava me curando.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

B.S

Caí de pára-quedas em uma inconveniente manhã de quarta-feira. Uma quarta-feira cinzenta e chuvosa, sem perspectiva de sol, onde eu não alimento esperança alguma de uma situação onde você me aparece assim, do nada, com seu cabelo escuro e cheio de cachos e me oferecendo carona embaixo do seu guarda-chuva.
Dei o azar de morar em uma cidade onde faz frio, céu cinza e fica abafado do mesmo jeito. 

Vou levando a falta de vontade de me apaixonar perdidamente. Acho que cansei dessas coisas, muito complicado se envolver nessas histórias de amor eterno, juras, pactos de suicídio, beijos apaixonados. Tô com preguiça. Queria viver de comer e dormir, duas coisas das quais não perdi vontade de jeito nenhum. Inventar receitas de miojo é mais legal do que muita gente que eu conheço. Meio deprimente, eu sei, mas o que eu posso fazer se assim segue a minha vida? Tudo se resume a um grande "eu tô a fim, mas não tem o que".

Mais algumas linhas estúpidas, toscas, jogadas fora. Mais um dia me sentindo só mais um tijolo em meio a um muro. Mais um dia seca de vontade de escrever e sem ter acontecimentos, sexo, amor, carência, tristeza ou inspiração o suficiente.

Dia desses, vou fumar um cigarro só para soprar toda a fumaça no seu rosto.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

(...)

Ninguém entende a dor de entrar em um quarto com o coração acelerado, as mãos suando, um sorriso no rosto e alegria pura - e sair se sentindo frágil, criança, idiota, indefesa e impotente...

E assim permanecer.

Um ano e meio amanhã.

sábado, 6 de outubro de 2012

Marina II

Bizarro ter seu bilhete grudado na minha parede até hoje, assinado em maio do ano passado, e não ter tido coragem de olhar para ele - e muito menos de tirar o ímã da parede, rasgar o bilhete, jogá-lo fora. É claro que é isso que eu deveria ter feito, picotado o bilhete, esquecido o carinho, considerado tudo como a grande mentira idiota que foi. O mais engraçado é que tantas coisas já passaram pela minha parede de ímãs - desenhos, fotos, outros bilhetes, ingressos de cinema e teatro - e há mais de um ano a sua nota com um passarinho segurando uma flor ainda perdura, pendurada.
A verdade é que descobri que cansei, cansei desse sol e desse calor que nunca refletem meu estado de espírito, cansei do samba, pai do prazer, que toca e faz com que eu me sinta ainda mais vazia, cansei da água vazando e ninguém para enxugá-la, cansei de estar sozinha, cansei de me importar. Minha vontade é sair por aí, chegar de algum jeito em outro país e permanecer por lá - sem ninguém, sozinha, recomeçar do zero. Todo mundo me atrapalha, todo mundo é estúpido e isso, além de obviamente atestar minha arrogância, me deixa cansada.
Não tenho profissão, não tenho estímulo, não tenho futuro, não tenho ninguém, não tenho casa, não tenho ideais, não tenho você, não tenho mais minhas lâminas, não tenho porra nenhuma e só quero sumir. Essa coisa de ir para outro país é o que eu faria se tivesse como. Sumir, mágica e misteriosamente, seria o ideal. Quando eu paro pra pensar, sumir parece muito com morrer, e nessas horas sofrer um acidente, pegar alguma doença ou me entupir de comprimidos não me parecem ideias tão horrorosas - mais um casal de lágrimas descendo sincronizado e nunca mais vou ter que me importar com absolutamente, maravilhosamente e simplesmente nada.

Marina

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Zoé e Marina

Abro a porta e imediatamente constato que fiz uma bobagem. A moça que bateu na minha casa era branca-leite, pálida mesmo, tinha cicatrizes saltadas ao longo dos braços, cabelos escorridos e nariz e olhos vermelhos de choro. Ela era pequena, magricela, parecia frágil e fácil de quebrar. Só os olhos, claros e saltados, pareciam se destacar em meio à confusão.

- Preciso me abrigar e me disseram que você é muito alegre, muito satisfeita com a vida.
- Às vezes, querida. Na outra parte do tempo, estou amarga. Perdoe, mas qual é o seu nome?
- Desculpe. Sou a Marina. E você?
- Me chamo Zoé.
E não sabia o que fazer. Convidei-a para entrar, e tomar um café. Parecendo constrangida, ela relutou um pouco antes de obedecer, mas depois de alguns instantes sentou-se no meu sofá. Pego duas xícaras de vidro colorido e ela aceita mel no café.

- Então você não tem família - esqueço as sutilezas e tento iniciar uma conversa.
- Eu tenho família, sim. Só que não é mais família. E daí eu não me sinto mais abrigada.
- E você não tem amigos?
- Cansei todos.
- E é por isso que você quer viver aqui? Você não se sente mais em casa quando está em casa e não sente que tem amigos quando conversa com eles?
- Também por isso. Queria viver de novo, talvez recomeçar do zero. Sentia que estava vivendo mais ou menos, amando mais ou menos, me entregando mais ou menos. Isso é oposto à intensidade que normalmente me é característica. Eu sou de signo de água, sabe.

Eu sabia.

A menina era moça, e eu não conseguia deixar de sentir certo afeto, talvez por ela ser pouco mais nova que eu e por ser uma perspectiva de companhia. Seus olhos saltados eram expressivos demais e eu mal me sentia confortável em olhar para eles; sentia como se estivesse invadindo a alma dela. Apesar de eles demonstrarem sua profunda infelicidade, ela não deixava de ser doce. Quando ela estava bem, se opunha à minha amargura. Por fim, decidi ceder a casa a ela.

Por fim, a intensidade que ela tanto queria chegou. Ela não fugiu para Paris com um novo amor, não deu tudo de si para ajudar crianças carentes em um bairro pobre, não se dedicou ao aprendizado do alpinismo para escalar o Monte Everest. Marina se afundou na depressão, em meio aos cômodos da minha casa, sem me deixar alternativa - eu não podia expulsá-la, afinal, e vê-la vulnerável me enchia de um sentimento maternal, de ternura. Às vezes, ela me contava aos prantos o quanto queria ser útil, me ajudar com as compras e com as contas. Não raro, eu a chamava para sair comigo (um cinema, uma pista de dança), mas o medo de interagir com pessoas ou de sofrer um colapso nervoso-sentimental em público costumava paralisá-la.

Era difícil de conviver com as lâminas cobertas de sangue que ela largava no banheiro. Às vezes, eu pressentia um pensamento ruim, algo mórbido e suicida. Entrava no seu quarto e a pedia para ligar para um psicólogo, queria que ela tivesse ajuda. Assustada, suas bochechas esbranquiçadas coravam - ela me disse, uma vez, que não tinha coragem o suficiente para explicar a ninguém o que estava acontecendo. Que era bobagem, e que ririam, e que ela ficaria sentida se dessem risada às custas dela. Eu tentava explicar que não, que a terapia não era assim, que conversar com as pessoas era bom, falar era importante, tentava ler um pouco dos grandes psicólogos que defendiam a cura pela fala. Ela achava interessante, gostava de buscar o conhecimento, mas a ideia de trazê-lo para dentro da sua vida não lhe parecia atraente.

Faz seis anos que abrigo Marina em minha casa e sinto que ela é uma parasita e isso me dói. Amo-a como ela é, abriguei-a por aceitá-la, mas ela me machuca, às vezes tira o melhor de mim sem perceber que o faz. Meu encanto pelas noites de música, o tilintar dos copos de cristal batendo uns nos outros, as risadas bêbadas de gente feliz - ela me tirou um pouco da minha paixão por tudo isso. Gostaria de ajudá-la, fazer com que ela se tornasse uma pessoa feliz e mais leve, e não consigo. Toda essa intensidade, lágrimas, sangue, cicatrizes e sal não me fazem ter força o suficiente para melhorá-la. Ela apenas me leva junto com ela, me arrasta para o seu leito onde as coisas são cinzentas, injustas e infelizes. Não sou deprimida como ela (talvez porque eu não tenha a predisposição genética), mas se quando a conheci estava em um pólo bom e alegre, agora sou pura amargura, sarcasmo e acidez.

Cedi minha casa para Marina e não sei quando vou voltar.

domingo, 23 de setembro de 2012

Por favor, chuva ruim, não molhe mais o meu amor assim

Enfim, choveu.

Choveu e eu fui desafiar os trovões, brinquei de ser deusa por alguns segundos, provoquei o caos ao desafiar doenças no frio molhado que caía dos céus. Deixei que a água pingasse dos meus dedos e escorresse pelo meu cabelo.

Aconteceu que não era nem dilúvio nem chuvisco; tive a dose certa do que eu precisava ter e isso apenas foi o suficiente para que eu percebesse que, por mais que eu a queira frequentemente, a chuva não é tão necessária assim na minha vida. Não deixo de agradecê-la, no entanto, por me mostrar de novo o que é umidade.

Voltando para casa, me lembro que as primeiras chuvas sempre são tóxicas e cheias de poluição. Tomo banho, esfregando o veneno que poderia até ser capaz de corroer minha pele. Vejo ele escorrer e se esvair pelo ralo.

Fim.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Duplo sentido

Como gosto quando chove.

Minha cidade caótica fica mais alegre, mais verde, as flores desabrocham, as cigarras cantam em uníssono. Gosto quando chove e estendo as mãos até que elas fiquem encharcadas, gosto de ver meus cabelos molhados e pingando água quando estava sedenta por isso. A falta de umidade me faz mal, não gosto de sentir minha garganta, pele e meu nariz secos.

Me atrevo até a dizer que gosto de todos os tipos de chuva: gosto quando chuvisca, gosto quando cai um dilúvio. Quando a chuva nem é chuva de verdade e pingam gotas esporádicas na ponta do meu nariz, dou risada da provocação, apesar de preferir o alagamento. Quando é um dilúvio, a ideia de sair nadando por aí e me esbanjando na infinitude de água muito me agrada.

Posso passar horas divagando sobre a chuva, sobre como gosto dela, sobre como queria que ela fosse mais frequente, até então, finalmente, me lembrar que estamos em época de seca há três infinitos e infernais meses.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Às vezes, a pequenez dessa cidade me sufoca

Engraçado, há meia hora você batia claras em neve na mão enquanto andava aqui pelo apartamento, usando aquela blusa social xadrez aberta. Assim que deu a partida no carro eu sabia que ia demorar mais algum tempo para ouvir de você de novo. Você me deixou um bolo de cenoura com cobertura de chocolate, mas o gosto que ficou na minha boca foi o de saudade.

Ê, complicação...

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Flertando com o drama

Depois de alguns meses, ela aparece. Por mais que não tenha sido algo inesperado nem do nada, não posso deixar de pensar o quanto senti falta daquilo tudo - o cabelo escuro, liso e macio, o sorriso bonito, os óculos grandes, o cheiro doce do corpo.
Rapaz desajeitado que sou, não sabia o que fazer com as mãos e me envergonhava do meu penteado tosco, molhado e feito de última hora. Acendo alguns cigarros e me preocupo com o gosto que vai ficar na minha boca, até relembrar que ela não é dessas frescuras.
Um dia simpático para se passar com a moça. Diálogos banais sobre chocolates, aulas e um brinco que não sai da orelha.
Não sei o que fazer e estou perdido. "Eu sou uma porra de uma passiva", penso, no auge da minha masculinidade.
- Eu estou me sentindo mais à vontade com você, né? Ou é impressão minha?
- Está, sim. Você até está falando como se fosse um ser humano de verdade.
- Você quer dizer "um ser humano normal"?
- É. Também. Porque se você já é um ser humano, não tem como você ser um ser humano de mentira. Tipo o Pinóquio.
- Ele era um menino de mentira porque ele era mentiroso.
Essa conversa nem faz sentido, meu Deus.

- Você ia me abraçar e eu não deixei.
- É, eu vi. E fiquei constrangido - digo para ela.
- É porque eu sei o que ia acontecer.
- Hm. E aí você não quer.
- A gente sempre acaba se enrolando.
- Na verdade, isso só aconteceu uma vez.
- É verdade.
- Mas olha, você quer. Do contrário, a gente não estaria nem falando sobre isso.
Ela me olha como se eu fosse retardado e não houvesse afirmação mais óbvia para ser feita.
- E eu também quero - continuo. - Isso significa que vai acabar acontecendo. Lembra quando você falou que a gente não consegue ficar longe do drama? É por isso.

Um beijo de saudade.
Eu a pego pela cintura.

- Seja bem-vindo de volta, drama.

Recomeçar.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Projeto Crônica IV/Feliz dia do irmão

Tomás era menino inteligente e curioso. Dia desses, teve de ir tomar banho e logo se revoltou.
- Ah, mas por que eu tenho que tomar banho?
- Porque senão as bactérias vão encher seu corpo e te deixar todo sujo - responde, prontamente, a mãe.
- Alguém já morreu só de não tomar banho?
Ela fica muda.
- Sei lá, Tomás. Entra no chuveiro.
O garoto logo entra com seus milhões de dinossauros e brinquedos e senta embaixo da ducha, forçando-se a aproveitar o banho.
Do ralo, começa a sair uma luz brilhante. Ele logo abaixa para ver o que é, e vê-se puxado para dentro do buraco drenador de água.
Ele acorda em um gramado, sozinho e inexplicavelmente de sunga. Acha aquilo tudo muito estranho, até que chega um tigre e começa a falar com ele.
- Oi, qual é o seu nome?
- Tomás, e o seu? Você vai me comer?
- Eu sou o Haroldo. Eu não vou te comer porque eu sou de pelúcia. Vou te levar para passear, sobe aí.
E, subindo nas costas de Haroldo, Tomás disparou a fazer perguntas.
- Como você anda se você é de pelúcia?
- As coisas aqui são mágicas.
- Ah. E onde a gente tá?
- A gente está no planeta Xermo.
- E o que tem para fazer aqui?
- Um monte de coisa! A gente pode dançar, fazer planos para pintar os dinossauros, brincar de carrinho, fingir que é espião e dançar.

Tomás ficou feliz. E aí:


Tomás já estava se divertindo a valer. Imaginou que a mãe deveria estar no trabalho, a babá com um cigarro em mãos e a irmã, coitada, dormindo à tarde toda. "Ninguém vai perceber que eu sumi, mesmo". Então, por isso, ele perguntou ao Haroldo:
- O que mais tem para fazer aqui?
- A gente pode ir nadar na fonte. Mas não é uma fonte qualquer.
- Como assim?
- A fonte do planeta Xermo é uma fonte da juventude. Você bebe da água dela e pode viver mais oito mil milhões de anos!
E Tomás pulou nas costas do Haroldo e os dois foram beber a água maravilhosa da fonte da juventude. 
O garoto e seu tigre de pelúcia, que também era de verdade, foram nadar e engoliram quase a fonte toda. Na verdade, quando eles viram, mal tinha água para que as outras crianças e os outros moradores brincassem lá dentro.
Daí, de repente, saiu uma luz brilhante do céu. E o Tomás ouviu uma voz.
- Tomás! Sai do banho. Você vai acabar com toda a água do planeta.

"Melhor se apressar. Sua mãe está gritando alguma coisa."
E Tomás estava de novo embaixo do chuveiro, com seus milhões de dinossauros e alienígenas. Terminou de tirar o sabonete do corpo, saiu correndo do chuveiro enrolado na toalha e inundando o apartamento.
- Mãe! Sabe quantos anos eu tenho agora?
- Não. Quantos, meu filho?
- Oito mil milhões! Sabe por quê?
- Tudo isso, Tomás? Por quê?
- Porque eu tomei banho na fonte da juventude! Lá no planeta Xermo!
- Que legal, filho! Vai lá contar para a sua irmã.
Ele sai correndo, encontra a irmã e diz, com voz cruel:
- Faça um leite para mim.
Ela olha para ele, inexpressiva.
- Você foi avisada.
E sai do quarto cor-de-rosa dela.

Mais tarde, enquanto deitado na cama vendo desenhos na televisão o dia inteiro, ele sorri com os olhos brilhando e diz, para si mesmo e sem ter a menor noção do quanto está certo:
- Eu sou eterno.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Por que sou a favor das cotas sociais

Estudei a vida inteira em uma escola particular. E não uma qualquer - uma absurdamente cara, que sempre foi considerada uma das melhores da minha cidade. Por ano, os alunos de Ensino Médio que não são bolsistas, pagam 16 mil reais para terem acesso a uma universidade qualificada - e o objetivo, muitas vezes, é a federal.
Ontem, Dilma sancionou o projeto que garante 50% das vagas das federais a alunos de escola pública. Os estudantes e ex-estudantes do meu colégio, quase todos com boa retórica e consciência política, se dividiram em dois grupos: os que são a favor e os que são contra (e nos que são contra, incluo os que acham que 50% é uma porcentagem alta demais).
Em primeiro lugar, gostaria de lembrar a todos que quem pode pagar uma escola particular no nosso país é a grande minoria. O governo pretende direcionar 50% das vagas para 70% dos alunos brasileiros. Os números não mentem: não há injustiça alguma nisso.
Desconsiderando aqueles que também podem pagar por um ensino qualificado no exterior, gostaria de atestar o óbvio: a probabilidade de você ser de classe média e poder pagar uma faculdade particular de qualidade (qualquer uma das dezesseis Universidades Católicas, incluindo as sete Pontifícias, por exemplo) é alta. Mas se você quer entrar em uma universidade federal de qualquer jeito, como é o meu caso, você pode pagar um cursinho e aumentar suas chances de entrar pelo sistema universal. Veja bem: seu plano A é entrar na federal sem fazer cursinho; seu plano B é entrar na federal pagando um cursinho e seu plano C é fazer uma particular (novamente, desconsiderando aqueles que podem estudar fora). Você tem plenas condições financeiras e provavelmente sociais de alcançar uma educação superior de qualidade: não merece ser priorizado.
Além do mais, onde há justiça ao fazer um aluno bem-preparado, que teve acesso a bons professores e materiais, competir com um cuja família ganha novecentos e sessenta reais por mês e que não possui nem professores titulares presentes em sua sala de aula? Um aluno que tem computador em casa e que pode obter informações aprofundadas sobre o possível tema de uma redação de vestibular deveria de fato disputar com outro que tem ainda mais deficiência na interpretação de textos?
Aos que dizem que a universidade cairá de nível: muito pelo contrário. Não sei de onde o estímulo da diversidade social prejudica um indivíduo, ainda mais quando o convívio entre pessoas de origens diferentes acontece e gera produtividade. Ainda neste tópico, dizer que alunos de escola pública não têm capacidade de acompanhar as aulas de uma federal é falso e preconceituoso. Alunos que entram por cotas têm plena capacidade de se igualar e superar o desenvolvimento dos outros. Por sinal, a universidade também não ganha muito com gente que não tem o menor conhecimento político e cria uma marcha que vai para o lugar errado.
A classe média/alta não perdeu sua chance de passar no vestibular. Não existem, de fato, vagas para todos e existe gente que vai, sim, ficar de fora. A diferença é que agora essa competição não é mais tão separatista e injusta.
Uma coisa é reclamar das cotas porque o país não investe o suficiente em educação e que o direito ao ensino de qualidade deveria ser existente desde sempre - fato, e é vergonhoso que o governo não o providencie. Mas a classe baixa não merece esperar por um milagre cair do céu. As cotas são uma medida provisória e eficiente, que já foi internacionalmente adotada. Outra coisa é reclamar das cotas por achar absurdo que tirem seus privilégios e por não reconhecer que você tem outros planos e quem ganha novecentos e sessenta reais por mês, não.

Agora seja franco: você é rico e branco e ainda se sente injustiçado quando um grupo ganha oportunidades que você sempre teve? Mesmo?

domingo, 26 de agosto de 2012

Dói

tanto que eu choro e eu não consigo mais pensar em outra coisa, e estou rasgada, e não sei como reagir a isso tudo, e me pergunto por que diabos você não me quer, e se tenho que ser magra ou bonita, se devo entrar em uma dieta maluca dos treze dias ou se deito no chão e me largo ali para morrer, conformada com a sua indiferença.
Eu não posso dizer que é tudo mentira e que eu não olhei minhas mãos, meus dedos esguios e as unhas quadradas pintadas de vermelho, tocando a mesma coisa que você tocou, pensando que logo ontem você estava lá do meu lado, e que você abriu um sorriso enorme e lindo (o mais lindo que eu já vi, e já peço desculpas porque você nunca saberá disso) assim que me viu, mesmo meu cabelo estando feio e zoado e minhas meias-calças, rasgadas.
Por quê, por quê, por quê, POR QUE você não gosta de mim, e não me cuida, e não me quer, e não me beija, e não me diz?

Eu desisto de você e de entender suas loucuras, seus sorrisos afáveis e depois suas mãos esguias se desviando e indo para o lugar errado.

Desistir, eu desisto mesmo. Mas não gosto de fugir.

Call me maybe?



terça-feira, 21 de agosto de 2012

É assim o ódio

Toda vez que eu ensaio começar uma vida nova, na qual você não é presente e muito menos benvindo, você resolve mexer comigo. Hoje percebo que há muito você desistiu de me deixar abalada pelo quesito "carinho" e resolveu brincar com meus sentimentos pensando "vou te provar que você é uma otária".
Parabéns, meu anjo. Você conseguiu! Para mim, está claro que as coisas ficaram feias: você não merece mais nenhum poema. Espero que você esteja muito feliz com a sua vida medíocre de pegar garotinhas pela internet e de não conseguir arranjar um emprego. Espero que seja satisfatório me provar que eu sou uma otária enquanto você ainda mora com seus pais e mantém hábitos sexuais repugnantes e muito, mas muito duvidosos.
Quero também que você saiba que você provoca o que há de pior em mim. Ouvir notícias suas me faz tremer de raiva, você provoca minha insegurança, minha sede de vingança e meu ódio, por você ser tão imbecil e ter tanto potencial desperdiçado. Algumas coisas que eu falei para você e que continuam contendo a mais pura verdade: não devia haver gente como você no mundo e você não foi homem o suficiente comigo (e você não sabe quantas cervejas eu tomei para comemorar isso). Quantas outras garotas você vai ter que enganar até perceber que você não passa de um personagem tosco, daqueles que o autor não dedicou nada de si para criar? Você não serve para novelas mexicanas das mais toscas, muito menos para o teatro-épico-dramático-multigenérico que eu orgulhosamente chamo de minha vida.
Por sinal: você pode até se achar um garanhão, mas para mim vai ser sempre o babaca que fez uma piada com estupro, um porco traidor e mentiroso e um fracassado que deveria se envergonhar de ter nascido. Tenho nojo do meu passado com você.

Cansei de deixar você tirar o meu brilho. Vou me sujar de tinta e brincar de viver sem você: muito mais feliz e mil vezes mais colorida.

Lembra quando eu te falava que "odiar", no dicionário, significa desejar mal a alguém? Pois é isso que eu sinto por você agora: eu quero que você sofra, e quero que você sofra muito.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Projeto Crônica III

Lá estava eu, sentada sozinha na mesa de um bar e tomando a atividade mais solitária do mundo - virando garrafas de cerveja, uma atrás da outra, sozinha. Não gosto de ser intrometida ou de escutar conversas alheias, mas as pessoas da mesa ao lado estavam todas ébrias - rindo, animadas e falando bastante alto.
Uma das garotas se vira para o rapaz da ponta da mesa ("então é ele que vai pagar a conta", penso, em um ataque de senso de humor estúpido e sem graça) e pergunta:
- E aí, e a sua ex?
Ele suspira, faz uma cara meio engraçada, abre um sorriso no canto da boca e começa a falar:
- Eu arranjei uma analogia para falar dela quando me perguntarem. Vocês lembram da copa de 1994, que quando acabou o último jogo e o Brasil ganhou nos penâltis o Galvão terminou o jogo gritando "ACABOOOOOU! ACABOOOU!"?
Todos fazem sinal para que ele continue a história. Inclusive eu, do meu cantinho isolado e sozinha na mesa.
- Então. É assim que eu me sinto em relação a minha ex.
Todos riem. Eu rio um pouquinho, mas logo paro. Também estou ébria - ao contrário da mesa feliz com o rapaz fã de futebol, sou uma bêbada chata e infeliz. Que saco.
Ainda bem que estou sozinha, porque respeitosamente paro de ouvir a conversa alheia e entro dentro de mim. Penso em todas as relações e relacionamentos que acabaram por um fio - eu me sentia desconfortável, presa, mal-amada, mal-comida, pressionada, triste, cobrada - tudo isso junto ou pelo menos dois ou três fatores destes. E em como é infeliz começar uma relação que deveria ser constituída por amor acabar mal desse jeito: não com tristeza, insegurança ou um vazio, mas sim com o alívio do Galvão no final da copa de 1994: "acabou!".
Um término sem choros descontrolados, comédias românticas, sorvete e insônia não parece um término. Um término que é constituído apenas por alívio é o fim de que? De uma relação doentia? De algo que não havia começado? O fim de uma relação que causava mais mal do que bem, provavelmente.

Gostaria muito de ter terminado esse raciocínio, mas o fato de estar bebendo sozinha há umas boas quatro horas me impediu.

Tudo uma pena, realmente.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Projeto Crônica II

"Você faz meu coração sair pela boca. E, se você provoca isso em mim, tenho certeza que posso fazer o mesmo com você".
E lá ia-se ela pela rua afora, a caminho do apartamento do rapaz. Abraçava a si mesma por cima do sobretudo, tentando se proteger do frio.
Um pensamento. Um sorriso. Outro pensamento e ela toca a campainha.

Ele atende, de bermuda, e dá um sorriso. Ela logo retribui o cumprimento e se atira nos braços dele, dando um beijo de verdade (de cinema, de língua, na boca).
Alguns bons minutos depois, a moça substitui sua língua por seu punho na boca do rapaz. Com certo esforço, enquanto ele se asfixia, ela coloca a mão dentro da garganta dele e arranca seu coração do peito.
"Eu disse que seria capaz de fazer seu coração sair pela boca", ela pensa.

A caminho da cozinha, ela unta a frigideira com manteiga. Frita o órgão pulsante e o tempera com azeite, sal e pimenta.

E, ao mastigá-lo: "Viscoso, mas gostoso".

domingo, 5 de agosto de 2012

Projeto Crônica I

Aline não pára de rasgar o guardanapo em infinitos pedacinhos, cada vez mais minúsculos. Ela não pode abrir a boca para falar o que quer, o que - convenhamos - é um absurdo. Essa moça vive falando o que quer porque vive em paz desse jeito, sendo articulada, eloquente e amiga das palavras. Ela arregala os olhos grandes e castanhos-tempestade, numa cara meio de tristeza meio de frustração, e ele começa a falar.
- No que você está pensando?
- Hum, eu? Em nada.
- Eu estou vendo o que você está fazendo com esse guardanapo. E essa sua carinha de cachorro abandonado. O que foi?
- Ai, Arthur, cala a boca. Não foi nada. Vamos logo, a gente vai perder a sessão.
Ele a segura pelo braço.
- Senta, Aline. Conversa comigo.
- Eu não quero falar o que foi. Não com você. Você não vai entender.
- Tem a ver comigo?
- Você sabe que tem, cacetada.
- Então se eu não vou entender, quem vai?
- A Monique vai.
- Monique?
- Minha terapeuta.
- Porra, Aline, não conta. A mulher é paga para te entender. Desembucha, vai. Se não a gente vai perder o filme.
Aline pára e pensa. Ela suspira, abre a boca e fecha, abre a boca e fecha, picota o guardanapo por mais um tempinho. Ela torce a manga do vestido que ele secretamente acha muito bonito, coça o joelho, olha pro chão.
- Aline.
- Espera. Como eu vou te dizer isso sem te assustar?
- Ensaia aí na sua cabeça que eu vou ao banheiro. Quando eu voltar você me conta e a gente entra na sessão.
- Tudo bem.
Treinando a gesticulação e as expressões faciais, ela começa a pensar no tom das palavras ecoando na cabeça: "sei lá, acho que a gente não devia mais se ver. Porque você é muito presente em tudo isso, entendeu? Eu penso em você na aula de música, nos seus sapatos esquisitos quando eu ando descalça pela casa, me pergunto se vou esbarrar com você em uma festa qualquer. Entro em uma livraria e me pergunto se você gostaria de ganhar de presente esse ou aquele livro. Às vezes, bem às vezes mesmo, quando eu fico muito chateada, eu vou dormir e imagino a gente de mãos dadas. Não é muita coisa e não me acalma tanto assim, mas melhora. Um pouco. Sei lá. O que eu sinto por você é esquisito. O problema é que eu não sei se a gente devia ou não devia se ver, porque você me encanta e me dói. Mas eu acho que dou conta de ignorar a parte que você me dói, porque quando a gente está junto, meu vazio se acalma e eu não tenho vontade de sair correndo de você. O encanto ganha da dor. E eu vou viver com isso. E não vou te dar dor de cabeça."
Arthur senta na mesa de novo.
- Então. O que é que você queria me falar?
Ela sorri, toda travessa.
- Você está ridículo com esse cabelo todo espetado.
Ele ri e a olha, desconfiado.
- Tem certeza que é só isso?
- Tenho. Relaxa que não é nada.
Um selinho.
- Vamos para o filme?

domingo, 22 de julho de 2012

Pimlico

You probably don't know this, but in portuguese we have a special word for the feeling of missing someone. We call it "saudade".
It's not that I don't enjoy the english language, but I feel that saying that "I'm missing you terribly" doesn't express everything you made me feel in the past two days. Which is:

I obviously didn't tell you that I was considering suicide as a real option when we first met; that I was convinced I couldn't ever be loved, desired or considered pretty to anyone; that people wouldn't care about sweet things I'd made them; that I wouldn't find anyone who laughed at my stupid jokes nor anyone as gentle as you have been to me.

I promise you that I will cook sweet brazilian stuff for you to eat, that we will look up for tango classes (and obviously we will learn how to dance it together), we will swim in a nice sunny beach, I will share my bed with you during a whole night. I don't know how, I don't know when. But I promise you all these things are going to happen sooner or later.

Thank you for two really passionate days, for holding me in the underground station, for putting your musician's hands in my dyed hair, for having the sweetest dialogues with me in your beautiful british accent. I appreciated your cute texts, your compliments about my hair, body, face and dress and I also loved the most delicious chocolates I have ever eaten.

I am crazy about you, already. Don't ever stop being sweet to people. I hope to see you playing jazz or bossa nova not in an underground station, but in a big crowded stage, someday.

Written with tons of care to J.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

(Mais um) ao lírio

Não deixo de sorrir ao juntar todos os ingredientes numa tigela e preparar sua omelete de café da manhã. Penso que as coisas todas estão transpondo a ficção e se transformando todas em realidade, mesmo que a ressaca não estivesse programada. Entro no quarto com muita dificuldade e morta de medo de derramar café escaldante em mim mesma, mas por fim consigo entrar sem maiores problemas e te acordo sentando delicadamente em cima da sua perna. Sem querer.
Você me agradece e vejo ali uma coisa que ninguém nunca vai poder tirar de mim: o carinho sem precedentes da nossa amizade esquisita. Levar café na cama não é uma questão hormonal ou passional-egoísta; é uma forma de te agradecer por tudo que você fez e ainda vai fazer - mesmo que seja só atender ou retornar um telefonema, não me deixar cair de bêbada, dividir um cigarro comigo, repetir "eu gosto, eu não conto?" quando eu reclamo sobre você-sabe-o-que, me abraçar ou segurar minha mão quando eu estiver em um estado de menininha boba e chorona.
Prezo pela minha criatividade, por isso não vou concluir o texto dizendo que você é feita de açúcar, tempero e tudo que há de bom. Mas guarde sempre o amor e a fofura que você tem dentro de si.

PS: As formas voluptuosas das flores de Georgia O'Keeffe me lembram muito, mas muito mesmo, de você.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

És

Eu tenho sentimentos bonitos por você.
São vivos como a joaninha que percorre o meu indicador e calorosos que nem o raio de sol que deixa minha bochecha vermelhinha.
O que eu sinto por você é macio que nem meu travesseiro e parece que vai derreter na minha boca como algodão doce.
Gosto tanto de você que estava pensando outro dia em como seu beijo tem gosto de felicidade e que quando você não me abraça eu não me sinto em casa.
Às vezes eu tenho vontade de te ligar só pra contar como estou me sentindo.
Às vezes, não. Acho que isso seria uma grande bobagem.

Mas você é meio moleque, parece um menino bobo e travesso. O que eu sinto por você não tem a ver com nós, ataduras ou correntes. Deixo você livre pra se descalçar e correr na grama molhada, desafiar os trovões, pôr a língua pra fora e beber água da chuva, brincar um pouco de Deus.
Amo você pelo que você é.
E você é livre.

Deixa estar.

sábado, 7 de julho de 2012

7 de julho

Meu bem, você me dá dor de cabeça. Minto, você me dava dores de cabeça (homéricas, ininterruptas, incuráveis), mas agora tudo isso acabou.
Você fez uma escolha (que você mesmo me disse que era uma escolha ruim e sem-sentido) da qual você vai se arrepender, e eu vou lidar da melhor forma possível com essa sua escolha. Chega de te ligar mil vezes por dia, porque estou entrando em um tratamento do tipo Brilho Eterno e vou deletar seus números e você da minha vida. Não sei se você recebeu minha mensagem de voz, mas resumindo tudo, ela dizia "esquece que eu existi".
Então é isso, docinho. Não posso curar suas inseguranças profissionais, amorosas ou sexuais. Boa sorte aí na vida e na sua análise, boa sorte com a mocinha de nome bonito também. De verdade. Não se dê ao trabalho de mandar e-mails, mensagens, sinais de fumaça - é uma despedida e pronto. Sei que você acha chato que eu coloque tudo isso no blog - também acho, mas você não atende minhas ligações e odeio lotar minha caixa de entrada do e-mail com DRs e foras (praticamente só tem isso lá, não preciso de mais mensagens infelizes assim).
Você estragou tudo com a sua insinceridade, com a sua incapacidade de ter me contado naquele sábado as suas inseguranças, a omissão da sua infidelidade, a sua incrível capacidade de sempre estar por perto para destruir as melhores viagens da minha vida. Se os últimos dois anos foram descartáveis para você e se meu carinho não te serviu de nada, que me desculpem os mais cultos pelo palavreado, mas você que se foda. O máximo que vai mudar na minha vida depois dessa nossa desilusão amorosa é o tom de ruivo do meu cabelo. Você pulou do barco primeiro, e eu fico feliz em sair nadando até a próxima ilha paradisíaca, onde morenos de mel e pão me dão uvas na boca.

Difícil foi ver o último filme do Harry Potter no cinema. Esquecer você vai ser mamão com açúcar, bem.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Era uma vez

Há muito tempo atrás, em um reino distante, uma camponesa esperava. No início, ela esperava pelas visitas de seu amado. Ele vinha todos os dias depois do pôr-do-sol e Hilda o assistia com afinco e alegria; tinha nela grande amor aos cheiros e à vida, ao farfalhar do vento na grama, ao barulho de água. Achava que as coisas todas eram grandes simplesmente por serem. E, depois de se despedir do sol, Isaac aparecia e os dois iam para o estábulo. Conjuravam a palavra, o amor e o sono.
Até que um dia, Isaac parou de aparecer. Balbuciou algumas palavras, se deu ao trabalho de beijar Hilda na testa e não se viram mais.
Nos primeiros dias, ela fingiu estar bem. Continuava a buscar água do poço, a fiar a lã das ovelhas e a cozer a carne. Sorria fingindo. Rir não tinha mais graça e o pôr-do-sol não tinha mais beleza. Hilda entrou num profundo "estar". Antes, havia a esperança de que Isaac fosse aparecer. Agora que ele tinha ido, não tinha mais o que querer ou o que esperar.
Hilda, então, tomou uma decisão drástica. Vestiu uma capa escura, cor de vinho tinto, e se pôs a remar exaustivamente em direção a um castelo - longe, frio e escuro. Normalmente, ela não iria lá (e quem iria?), mas era onde Salotti morava. Sendo ele o mago mais poderoso do reino, haveria de ter uma solução para o vazio de Hilda.
Ela iria lá, portanto, e trocaria suas jóias de herança pela poção mágica - esqueceria Isaac e voltaria a ver beleza nas coisas todas; teria seu vazio preenchido e talvez até esbarrasse com a esperança na rua.
Chegou ao castelo - escuro, feito de pedras grossas e cinzentas e com mármore no piso. Ela atravessou a ponte levadiça e bateu na porta três vezes. Foi recebida por um homem extremamente alto, com a pele branca como leite e olhos azuis marinhos. Hilda presumiu que aquele homem de leves rugas e cabelos prateados pudesse ser um mordomo, mas ele se apresentou como o próprio Salotti. Ele era bonito e bem apessoado; tinha cabelos, unhas e dentes limpos e um terno bem alinhado.
Ele convidou Hilda a se sentar perto da lareira e a falar o que queria. A camponesa tirou uma caixa de madeira com moedas de bronze e jóias que eram seus únicos bens materiais nessa vida, deixados pelo seu pai antes de morrer. Salotti erguei os olhos, parecendo interessado, e ouviu Hilda. Dos lábios dela, saíam as palavras "eu quero esquecer alguém que faz o meu coração doer". "Você está sentindo a pior agonia de todas. Dê-me as jóias; mantenha as moedas de bronze. Vou curar você".
Apenas um comprimido azul claro e tudo aquilo acabaria.


Meio ano depois e Hilda vivia na simplicidade - sorria e era feliz, apenas. Não havia nada que a desconcertasse ou a deixasse aflita, e ela havia desinteressado-se do amor romântico: simplesmente não conhecia ninguém que despertasse sua vontade.
Ela foi pegar água no poço, levou para casa e fez um chá de ervas. Às vezes, cosia vestidos para as mulheres da cidade, longe do vilarejo, e alguns deles lhes rendiam moedas de ouro.
E seus dias assim eram, até que em um deles ela viu um homem perto do poço, montado em um cavalo negro. Ele a viu e lançou um sorriso bonito. Desajeitada, ela ficou com as bochechas vermelhas e ardendo em chamas; abaixou a cabeça de vergonha.
Depois de ter perdido o cavalo de vista e andado alguns metros, Hilda perguntou a uma moradora qualquer do vilarejo se ela sabia quem era aquele homem no cavalo negro. A moradora responde que o nome dele era Isaac e Hilda pegou em si o amor.

Se eu pudesse, me apaixonaria por você um milhão de vezes.

sábado, 16 de junho de 2012

16 de junho

A gente não sabe por que certas pessoas entram no nosso caminho, mas ela entram. Eu, não-religiosa como sou, não acredito muito que seja pelo carma, destino, vontade divina ou derivados. Mas, não só hoje como todos os dias, tenho a obrigação de agradecer a sua presença na minha vida.
Não é só que você seja uma grande amiga ou alguém importante na minha vida; é óbvio que sim, também, mas você é como uma janela para a felicidade - me mostrando cada dia mais a beleza do cantar dos pássaros, do azul do céu, do formato das nuvens, do açúcar do algodão doce.
Quero que você saiba que estou aqui, em todas as suas confusões de geminiana doida, que vai de um pensamento para o oposto em questão de segundos. Você é assim, minha querida, e funciona em pólos - e te amo por isso, assim como te amo por cada gargalhada, por cada conversa ao telefone, por cada grito enfático de alegria simplesmente por ter visto um moço que vende churros, uma lagartixa. Por cada dia em que você está mal e depois corta todas as lágrimas dizendo que a vida é bonita e que você tem sorte de ter a sua posição no mundo, te admiro mais - pela a sua alegria, por ter me feito uma pessoa literalmente muito mais feliz, pela  confiança que você tem em mim e pela sua beleza (notória, óbvia, tanto por fora quanto por dentro).

Meus sinceros parabéns à pessoa mais linda que conheço. Você é maravilhosa, minha Flor. Que a alegria que você tem simplesmente por viver não suma nunca -  e que você saiba sempre que, nos momentos em que ela sumir, estou aqui para segurar a sua mão e apontar uma nuvem com formato de urso no céu.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Meio vazio

Ela caminhava sozinha e oca. Havia um corpo inteiro a ser preenchido mas não havia como preenchê-lo. Era difícil respirar sem motivo para tal, ao mesmo tempo que era ridículo irritar-se com seu bulbo.
Um gorro para cobrir os cabelos escuros e curtos e proteger-lhe as orelhas. Cachecol, luvas, mangas compridas, botas e uma calça jeans escura. O possível e o impossível para proteger-se do frio e esconder as marcas das lâminas, feitas no desespero da dor, na presença do vazio que nada preenche, onde ninguém acrescenta nada.
Ela quer morrer. Ou para tirar certa dramaticidade da frase, ela quer sumir. Em um piscar de olhos, nunca ter existido, nunca ter conhecido ninguém, não ter amado os céus e os livros. Ela gostaria de esquecer o perfume das flores, a textura da pele, o som das músicas.
Viver sem esperança dói.

Um estranho com uma arma. Ele lhe pede a bolsa. Passiva, ela entrega e lhe pede um favor.
Suas últimas palavras: "no coração, por favor".

Um som de tiro.
O silêncio.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Uma carta

Brasília, 01 de junho de 2012

Cara senhora das águas,

venho por meio desta avisar-lhe que não lhe dei o direito de confundir minha cabeça e meu coração de tal forma. Veja bem, sou um pobre escritor sem esperança alguma na humanidade ou em seus indivíduos e costumo ser de tal simplicidade que às vezes penso que o maior presente que poderia dar a ti seria escrever sobre teus cabelos negros e macios ou sobre teu cheiro, que é o mais suave de todos.
Gostaria de saber também o que tens em mente de brincar com a minha doçura e fazer com que ela se transforme em raiva ou mágoa; veja bem, esses são sentimentos que costumo guardar por mais tempo que devia, e que me corroem e me fazem mal. Peço que não me deixe frustrado e que contenha sua insanidade e não deixe-a interferir nas nossas relações. Em um dia, queres minha amizade; no outro lhe estendo minha mão calejada de escrever e você me pede a boca.
Sou homem de bem e não pretendo me meter em confusões. Confesso que não entendo e nem tenho em mim a necessidade de entender, só peço para que você se decida e me noticie.

Com amor,

seu.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Um meio sarcástico

Alcancei o fundo do poço. Para aqueles que desejaram isso, minhas sinceras felicitações.
Mas aposto que vocês não contavam com a minha astúcia! Vou cavar o mais fundo possível, até achar um lençol freático de água quente e ficar lá de boa flutuando.
O segredo é tomar banhos quentes, ficar em posição fetal e cantar - cantar muito, cantar alto, deixar a alegria entrar por todos os poros, afastar o escuro e colocar um sorriso na cara.

Mas até eu terminar de cavar e achar a água quente, me dou o direito de ficar triste por um tempo. Ninguém é de ferro.
Para piorar a situação, meu cabelo está feio.

#chatiadíssima

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Treze palavras

 
 Escondo minha vontade de você entre vários "não vou te cobrar nada" e outros tantos "fica tranquilo" e assim vamos vivendo. Não que essas frases sejam mentiras, porque não vou te cobrar nada, de fato, e sua tranquilidade é algo que desejo bastante. É só que às vezes sinto um impulso louco de te ligar e falar que te quero, e muito, e agora. Desisto de fazer isso porque não quero me constranger e também não quero te deixar constrangido. Mas sempre vou achar que falar o que estou sentindo, na medida do possível, é algo necessário e que faz eu me sentir melhor comigo mesma. Um dia te pago uma cerveja e te conto toda a triste história da minha vida, sobre como já me ferrei tanto por não falar nada para ninguém.
Só quero sucumbir ao desejo de te ouvir, tocar e conversar a noite toda. Na verdade, cozinhar para você é uma ideia da qual gosto muito (e tem muitas outras ideias sobre as quais penso e gosto muito. Você está em todas elas).
Eu te olho nos olhos e, pela primeira vez, te peço algo: entra e faz o estrago que você quiser fazer. Eu te abro todas às portas e você fique à vontade. A casa é sua, afinal...

sábado, 5 de maio de 2012

(tentando achar um título)

Faz um dia bonito, o sol esquenta, a grama sorri para mim e o céu está lindamente azul. Por que você não me leva para passear?
Semana passada, comprei um vestido bonito só para quando os dias quentes e belos chegassem perto e você resolvesse que está um dia bonito para a gente flanar. O programa, não sei bem; deixo por sua conta. Eu pensaria em um piquenique no parque, em um tocar de violão em uma praça, em um vamos-tomar-sorvete numa sorveteria a céu aberto. Não sei como é sua relação com a natureza, mas algo em você e algo em mim me diz que ela é muito da bonita, então acho bem capaz de você não rejeitar minhas sugestões para um passeio nem nada.
Então façamos assim, a gente chega a conclusão de que hoje o dia é nosso, você passa aqui em um balão de ar colorido e a gente vai de lá para cá. Eu levo minha máquina e tiro fotos suas (por mais que você tente se esquivar), você pode me sujar de creme ou de tinta e a gente só vai ficar o dia todo dando risada.
Vamos falar de coisas felizes. Conte dos casos da sua infância, diga coisas que vão me fazer rir, eu vou ficar fazendo palhaçada até escutar sua gargalhada danada de bonita ressoando aos quatro ventos, porque fazer você rir me deixa muito contente e o som da sua risada é terapêutico.
Conversemos sobre a grandiosidade e a beleza sem-fim dessas coisas todas, vamos ficar chateados com os outros que não reconhecem a infinitude desse mundão lindo de meu Deus. A chateação logo passa e voltamos a fazer arte e a nos sujar, pode ficar assim combinado?


Fico feliz por ter montado uma programação tão bonita para o dia de hoje. Então tudo bem, passe aqui agora mesmo de manhã porque o mundo é muito bonito e não podemos perder um segundo sequer nessa aventura maravilhosa que vai ser explorá-lo.

sábado, 21 de abril de 2012

Um diálogo

- Criei um personagem que, para todos os fins, vou chamar de Príncipe Encantado. Ele sempre vai, valente com sua espada e seu cavalo, matar dragões, destruir bruxas, está sempre por perto para beijar os lábios da princesa de quem tanto gosta e cuida e sabe. Príncipe Encantado não se cansa se cavalgar por dias e noites, no sol ou na chuva, no fogo ou na neve. Ele só quer deixar a princesa bem e salvá-la de todos os perigos. Quer levá-la para um castelo grande a aconchegante, um que tenha lareira para as noites em que ela tenha frio, um que tenha muitos lápis de cor para que os dois desenhem juntos, um lugar onde eles morem, durmam e comam e que possam chamar de "lar". E enfim, depois de vagar por alguns anos em encontro à sua princesa, ele a vê. E é aí que chega o final da história: quando eles se encontram...
Uma pausa longa.
Ele:
- O que acontece no final? Como as coisas ficam quando eles se encontram?
Ela lhe estende uma caneta.
- O final é por sua conta. Escreva-o. Não agüento mais pensar. Faça das minhas personagens o que você quiser.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Eleanor e o perigo

A garota da cabeleira cor de céu tinha um encontro com o perigo.
Seria entre as árvores de um bosque escuro que ela o encontraria hoje. Ele se escondia por trás de panos de um sobretudo escuro que lhe cobria os cabelos louros com seu capuz. O perigo era quieto e falava pouco; era tão frio quanto o vento que invadia o bosque onde os dois se encontravam. Talvez não fosse bem um bosque; era uma mata fechada, tinha grama, o barulho de um rio que desaguava ao longe e árvores altas. Era início de noite e há pouco tinha acontecido o crepúsculo, logo eu não saberia dizer direito.
Ela entra e vê o perigo deitado na grama. Ele também a vê - esguia com curvas sutis. Os cabelos curtos e escorridos, azuis e na altura do queixo, contrapunham-se e muito aos olhos pretos e enigmáticos, sem vida, que ela trazia em seu rosto.
Trocam olhares e ele a puxa pelo braço. Eleanor obedece e o vê enquanto ele tira seu longo sobretudo encapuzado, deixando os cabelos a mostra. Com o canto do olho ela observa como ele está bem vestido, com sua blusa azul marinho de botões, as calças cinzentas e os sapatos limpos e bem conservados.
Eleanor escuta ele tirando as chaves do carro do bolso e o segue até o automóvel. Polidamente, o rapaz abre a porta para a garota e, enquanto ela se senta, ele atira o sobretudo no banco de trás do carro.
Ele se senta ao volante e o mundo parece congelar por alguns segundos. Ele a olha:
- Por que azul?
Ótimo. A primeira frase que ele diz no dia não faz sentido algum.
- Desculpa. Por que o quê azul?
- Seu cabelo.
Ela pensa por um segundo.
- Não sei direito. Me deu vontade, acho.
Ele balança a cabeça em afirmativa, em sinalo de que havia entendido - mesmo que não houvesse muito o quê. Enquanto isso, seus olhos castanhos de tempestade penetram na negridão dos olhos de Eleanor.
"Que olhos intensos, meu Deus". Ela abaixa a cabeça, envergonhada. Ela não costuma estar aberta a pessoas que, como ele, enxergam sua alma sem nem pedir licença.
Ele dá a partida. Ela não sabe para onde será levada, mas tem certeza de que a velocidade do carro é inimaginável e beira o absurdo. Ele fala pouco e dirige muito e muito rápido.
Seus músculos ficam tensos. Eleanor mantém os pés cruzados e encolhidos; ela já esteve mais à vontade.
O perigo - que pode ter um nome comum como João, José ou Pedro - pára em frente a um restaurante e, ao entrar, se transforma.
Eleanor observa como ele sorri para os garçons e conversa normalmente. A intimidade que ele tem com a garçonete que lhes conduz à mesa parece ser maior do que a que ele tem com ela. Eleanor se frustra. Não entende, tudo parece tão confuso. "Ele tem um sorriso tão bonito", ela pensa, vendo-o rir de uma banalidade que foi contada por um conhecido da mesa do lado.
- Não se mova; eu já volto - ele diz.
Ela assente com os olhos e fica surpresa quando ele volta com dois pratos de comida: um para ele, o outro para ela. Pedro não pergunta se ela aceita, só pousa o prato sobre a mesa e lança um olhar a ela - um olhar que ordena: "coma".
O moço louro voltou ao seu estado original
Ela obedece. O perigo costuma deixá-la passiva, obediente. Tem medo de arriscar uma contraposição ou uma revolta verbal e perder a vida em águas profundas ou em montanhas íngremes, difíceis e altas de escalar.
Ela come e é mais indiferente à comida do que gostaria. Termina de jantar e observa-o jantando. Um lampejo de alguma emoção transpassa o rosto de Pedro - ela acha que é vergonha, mas nunca terá certeza.
Nem todo mundo se sente confortável ao ser visto comendo.


Ele abre a porta de casa.
Eleanor está atenta a tudo. A casa do rapaz tem tanto paredes roxas quanto paredes cor de vinho. Uma estante imensa e lotada de livros. Quadros grotescos enfeitam as paredes - um homem gritando; as dores da guerra (e Eleanor repara bem na mulher que chora com o filho morto nos braços); uma caveira, a representação do semblante definitivo da morte.
O que se sucede a seguir é demasiado rápido. Eleanor observava as lâminas das facas quando sentiu duas mãos gélidas em sua cintura. A troca, o deslizar, o suor e os gritos abafados. A concentração dele em algum lugar do infinito; o adentrar.
Eleanor não chega jamais a recuperar a consciência dos acontecimentos dessa noite. Ela se lembra de ter visto o perigo escorrendo-lhe pelos dedos e depois olhando a ela no fundo dos olhos e dizendo um "você tem que ir" alto e claro.
Ela obedece.
A paz a inunda e então ela entende que essa noite eliminou qualquer medo de morrer sozinha na igreja e ser enterrada junto com seu nome.
Ao perigo, que é filho da imprudência com o risco, Eleanor só tem a agradecer.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Ao meu amor, minha flor, minha menina

Em frente a cachoeira, descansei minha mente num retiro que tentava ser paz mas era puro caos, como uma música barulhenta cheia de guitarras. A moça dos olhões não parava de me perturbar e nem diria que me lembrava dela o tempo todo, porque isso não seria verdade; seus os olhos gigantes e cor de caramelo não saíam da minha cabeça por um segundo sequer; nunca precisei me lembrar de uma coisa que sempre esteve aqui comigo.
Os pássaros cantavam muito mais bonito que qualquer assovio, a luz batia na copa de uma árvore que era maior do que o maior gigante da mitologia obtusa da minha imaginação.
E os olhos cor de caramelo continuavam lá.
Não é que eu quisesse muita coisa; os lírios estavam muito altos e tinham grande probabilidade de não serem tão bonitos ou singelos quanto achei que talvez fossem e, portanto, desisti de escalar a mais alta das colinas para colhê-los. Eu estava feliz comigo só, a lembrança de um sorriso, os olhos cor de caramelo, a textura da grama nas minhas coxas. Meus pés descalçados e sujos, o vento eriçando os pêlos do meu braço e tudo parecia bem.
E se de repente me pousasse uma fada no ombro?, pensei. E então percebi que fada nenhuma passaria muito tempo perto de um homem mortal que nem eu - fada é bicho do ar, gosta de voar por aí, são muito inteligentes para conviver comigo. Tive medo, então, de que me aparecesse um anjo. Se o anjo tenta me levar para o céu, eu até apreciaria o som das harpas e sentaria para conversar um bocadinho com os santos, mas se um anjo tenta me levar para o céu lá se vão meus olhos cor de caramelo e daí subirá no céu um anjo, eu e meu novo melhor amigo Vazio.
Nem o cheiro do mais doce incenso de kiwi substituiria a magia do que era ter o aroma de terpeno invadindo-me os sentidos, o barulho de rio e de cachoeira perto de mim e os peixinhos coloridos nadando em cardume, acrescentando cor e beleza nesse mundo infinito de Deus meu.
Os pássaros cantavam muito mais bonito que qualquer assovio, a luz batia na copa de uma árvore que era maior do que o maior gigante da mitologia tosca da minha imaginação e, ao perceber que mesmo sentindo e reparando tudo isso com visão-audição-tato-e-olfato, os olhos caramelados não saíam de mim, percebi que talvez a plenitude do que é o ser não esteja somente nos cheiros ou nas cores da natureza, que sempre gostei de sentir de corpo e alma. Claramente percebemos que tudo construído ao nosso redor, por Deus ou pelo homem (salvo algumas exceção das construções feitas pelo homem), é o resumo perfeito do que é ser e o oposto do estar, mas o ser humano também tem outro jeito de transceder a natureza e embarcar no mais profundo ser-sentir; o ser está também no amor - tal que sinto ao levar a lembrança daqueles olhos comigo por onde vou e tentar acrescentar um pouco deles em tudo que me cerca.