terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Uma constante

- Não entendo como você prefere capuccino à café expresso.
- Todo mundo fala isso...
- Perdoe minha falta de originalidade, então. O que você me conta?
- Sabe o que é? Outro dia eu estava pensando em como, no inglês, ser e estar é a mesma coisa.
- Perdão?
- Sim, o verbo "to be" pode significar tanto ser como estar, só depende do contexto. Só que isso não faz o menor sentido, porque "ser" e "estar" são coisas e verbos completamente diferentes. Porque o "ser" é plenitude - a pessoa, ou a coisa, ou o que quer que seja simplesmente é. É fixo, não permite mudanças, é algo que nunca vai se perder. O ser inclui o sentir, o viver, ter experiências, aprender. O existir da vida em seu auge; o ser é o que todos queremos para nossos quem sabe oitenta anos nesse planeta - só que nem todo mundo sabe dar o nome.
- E o estar?
- O estar é completamente diferente. O estar é um freqüente período de mutação; o estar pode acontecer em dias, semanas ou até em poucas horas. O estar pode passar de um pólo para outro em instantes ou pode ser diferente, pode ser um estar fixo, simplesmente não sentir, não ter emoções, não estar vivenciando. Por exemplo, os objetos não são. Eles estão.
- Dê exemplos.
- Certo. Primeiramente, o ser. Você sabe a Mia, aquela gata que mora com aquela senhora da lojinha de artesanatos? Pois então, acho que ela é o perfeito exemplo do ser. A Mia é um ser vivo lindo, sempre alegre, de rabo levantado, indo cumprimentar e roçar em quem quer que seja na loja. A Mia é, em toda sua plenitude. Gosta de brincar com os fios, mia alto, faz o maior escândalo quando não tem água ou ração. A dona da lojinha, toda vez que me vê, tem um caso dela para contar. Ela disse que toda vez que ela está chateada ou aos prantos, a Mia aparece e fica com ela, deitada, recebendo carinho e ronronando. A Mia, para mim, é a personficação do ser, sabe? Ela é real.
- E o estar?
- Seria muita presunção minha me colocar como definição de um verbo no dicionário?
- Claro que não, sua boba.
- Eu não sou. Eu nunca fui e, muito provavelmente, nunca serei nada. É claro que sou diferente de, por exemplo, uma torradeira - que tem uma utilidade bem fixa e se, por exemplo, ela cair no chão, ela não vai sentir dor ou chorar ou gritar. Talvez ela pare de funcionar, mas não ficaremos de luto nem nunca iremos conversar com uma torradeira, nunca vamos conhecer seus pensamentos, suas dores, seus medos nem nada porque eles não existem. A torradeira está de uma forma fixa, e eu estou sempre mudando. Passo da insegurança e da vergonha ao mais primordial desejo de suor, gritos e fluidos em questão de segundos, da mesma forma que passo do amor e do carinho sem precendentes para o ódio e a raiva, passo da depressão mais pura e da vontade de me esconder e nunca mais interagir com ninguém para o ser considerada a garota mais engraçada da mesa do bar. Passo da intensidade e da loucura de emoções a um estado de coração seco, vazio, que não tem outra função senão bombear sangue para o corpo, e que não dói, não se expande de felicidade, não bate de ansiedade e em que minha empatia desparece. Eu... Não consigo me entender. Tiro o fôlego até de mim mesma tentando me acompanhar nas minhas mudanças. Mas você entende, não entende?
- (...)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Só um recado

Uma das coisas que mais me chateia nessa vida são aqueles momentos inconvenientes em que te como com meus olhos enigmáticos, finco eles em você com intensidade mas não quero que você perceba. Obviamente meu olhar atrai o seu e não tenho alternativa se não sorrir sem graça, um sorriso amarelo meio de vergonha meio de raiva que na verdade não diz nada mais do que "deixa eu ficar te olhando, poxa". Não posso dizer isso - alguém pode, afinal? Isso é coisa que se diga?

Acho que não, por isso sempre optei pelo sorriso amarelo.

Falando em sorriso, queria ver aquele seu sorriso pleno e bonito de novo, que nem naquele dia em que a gente ficou conversando na mesa. O misto de surpresa, alegria e encantamento no seu rosto foi absurdamente lindo e queria tudo de novo, igualzinho mesmo - apesar de você ter achado a noite bem engraçada e irônica e ter rido de mim no final das contas.

Outra coisa, seu cabelo é o mais macio do mundo e eu gosto muito quando você deixa a barba ficar grande assim. Só um recado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sobre os memes literários

Há muitos e muitos anos, quando criei meu blog e comecei a dar um aspecto mais sério a ele (ou seja, parei de colocar frases de efeito "impactantes" e gifs que piscavam) e também a ler blogs mais sérios, ou ao menos mais focados em um estilo próprio, fui apresentada ao maravilhoso mundo dos memes literários (ou correntes literárias), que vou explicar rapidamente. As correntes literárias são criadas por um blog X e tem a ver, normalmente, com um livro ou com livros em geral. Então, por exemplo, um blog X cria uma corrente literária dizendo "pegue o livro mais próximo a você, abra na página 23 e transcreva a 12ª frase. Repasso a corrente para o blog Y", de forma que o blog Y repassa para o blog Z e, enfim, o alfabeto inteiro e muito mais acaba participando. Parece tosco para você? Não é para mim! Quando fui apresentada a esse maravilhoso mundo (eu tinha, sei lá, onze ou doze anos) fiquei chateada porque nunca me passavam correntes dessas. E hoje, sete anos depois da criação do meu primeiro blog (que, sim, tinha gifs piscantes e Eu ExCrEvIiAàáH axIiM e só Deus pode me julgar) me passaram meu primeiro meme literário! Sei que não tem nada a ver com o estilo do blog e sabe-se lá o motivo de eu ter escrito essa introdução enorme, mas enfim, obrigada à Beatriz Felix por realizar um sonho antigo.

Vamos lá.

Meta de Leitura: manter a minha faixa aproximada de um livro por semana. Se eu ler algo em torno de quarenta livros no ano, estarei feliz.

Primeiro do Ano: ainda não terminei de lê-lo, mas se chama Misto Quente, de Charles Bukowski.

Gênero que vou ler mais: Uma das minhas duas (!) metas de ano-novo foi ler mais literatura brasileira em 2012. É isso. Fim.

Gênero que vou ler menos: sem preconceitos. Eu até diria "romances" ou "infanto-juvenil", mas eles me fazem feliz - o que eu posso fazer? Acho que vou tentar reler menos livros.

Lançamento internacional mais aguardado: Nenhum.

Lançamento nacional mais aguardado: Idem.

Lançamento de livro brasileiro mais aguardado: Errr, idem. O que eu posso fazer? Os livros interessantes brotam na minha frente no meio do ano!

Continuação de saga mais aguardada: (...) Ok, desmerecendo o que eu falei em "gênero que vou ler menos", é o livro de uma série de ficção-científica infanto-juvenil. Não que eu esteja morrendo para lê-lo nem nada do tipo, mas enfim, a série é interessante e faz críticas básicas (mas bem construídas) a sociedade atual. O nome dele é Extras, da série Feios (escrita por Scott Westerfeld).

Final de saga mais aguardado: Idem àcima. As boas sagas que li recentemente estão terminadas - porque, por uma coincidência macabra, os dois autores morreram. São elas O Guia do Mochileiro das Galáxias (e não tenham preconceito com o sexto livro que não foi escrito pelo Douglas Adams, porque o estilo ficou parecido e tão irônico e nonsense quantos os originais) e Os Homens que Não Amavam as Mulheres, do Stieg Larsson (em uma palavra: foda).

Próximas compras: Tenho estantes imensas e lotadas de livros aqui em casa, então acho que as compras podem ser substituídas por "próximas leituras": O já citado "Extras", de Scott Westerfeild, Dez (quase) Amores (Claudia Tajes), Feliz Por Nada, Doidas e Santas (Martha Medeiros), Gabriela Cravo e Canela, Capitães da Areia (Jorge Amado), Memórias de Minhas Putas Tristes, O General em seu Labirinto, Cem Anos de Solidão (Gabriel García Marquez), Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), A Metamorfose (Franz Kafka), Marília de Dirceu (Tomás Antonio Gonzaga), O Ovo Apunhalado (Caio Fernando Abreu) e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, As Intermitências da Morte e Claraboia (José Saramago).

E é isso! Repasso o meme para a Heloisa Kennerly, do blog Menina do Balaio.

E voltaremos a nossa programação normal no próximo post.
Fim.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Dilema

Felipe pega o telefone e pensa imediatamente em ligar para Priscila, a dona dos olhos azuis mais bonitos da cidade. Algo entala em sua garganta - porque as pessoas são assim, certo? Elas sabem o que elas querem e sabem que querem de imediato, mas não tem coragem de pedir. E Felipe, na verdade, não queria muita coisa - uma tela, talvez um chocolate descansando sobre o braço da cadeira do cinema e as mãos dele entrelaçadas com as mãos dela.
Ele já teve isso. Uma noite. E queria mais. A noite terminou no meio. Ele queria as vinte e quatro horas e só teve doze. Interrompido, incompleto. E Felipe só pensava "Mais. Mais. Mais".
As poucas pessoas que sabiam da obsessão de Felipe com Priscila não entendiam, na verdade. Ela tinha, sim, olhos espetaculares. Mas o resto de sua aparência deixava a desejar. Não era feia, ela era... Ela era... Ninguém sabia direito o que ela era. Ou o que lhe faltava. E Felipe sorria e explicava a todos:
- Ela é linda. As pessoas não veem isso nela porque não prestam atenção no contorno dos lábios grossos, nas sardas que cobrem sua pele cor de leite, no nariz arrebitado e pequeno dela, no jeito que as unhas quadradas batucam na mesa quando ela está ansiosa. Ela é carismática, engraçada e provavelmente a pessoa mais inteligente que conheço. Por mais que eu não a conheça direito, sei quem ela é.

Felipe continuava com o telefone na mão, sem saber o que fazer e o que falar. E se ela não atendesse? E se ela dissesse "não"?
...E se ela dissesse sim?

Ele liga. Ela sorri ao reconhecer a voz do rapaz alto, com o cabelo cheio e cor de mel e os olhos escuros. Ela aceita ir ao cinema com ele e parece feliz por isso.
Eles saem. Se divertem juntos.
Ele continua achando-a linda.
E dois meses depois, ele se depara com o mesmo dilema.
Ele liga?
Ou ele esquece?

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

You're a wanker, number 9!

Não há nada mais bonito do que uma amizade verdadeira. Da minha janela de voyeur, observava as duas garotas (até um pouco parecidas, com os narizes perfeitos e os olhos grandes) falando. Uma se vestia de saia verde clara e uma blusa rosa. A outra também estava com uma saia e uma blusa, mas de cores sóbrias. Timidez e cara-de-pau. As duas se complementavam.
A primeira, dos olhos verdes, chorava e tentava articular. Bem assim:
- Eu não quero falar para você o que houve. Você é minha melhor amiga, mas se eu te contar vou chorar e aí vou borrar a maquiagem.
A dos olhos castanhos riu, docemente.
- Aí você passa mais maquiagem!
As duas sabiam que a mocinha dos olhos verdes não queria ficar feia para a amiga, mas riram juntas. E a mesma mocinha continuou:
- É sobre amar as pessoas, não saber explicar isso e não se sentir no direito de dizer isso a elas.
Um silêncio meio doído. Ela prosseguiu a fala.
- Eu amo você, também. E muitas vezes - e tome esse "muitas vezes" como eufemismo para "sempre" - não posso te contar isso. Não me sinto no direito. Vou acabar atrapalhando a sua vida também.
Os olhos castanhos refletiam um "eu amo você, também". Mas ela não podia dizer aquilo em voz alta, elas sabiam disso e sabiam o porquê.
A garota de olho verde continuou falando, um desabafo meio interrompido pelas lágrimas. Falava sobre os outros pelos quais fora abandonada, mas riu ao mencionar alguns outros por quem não poderia proferir seu amor e admiração.
Elas se abraçaram. Queria que as duas soubessem que, naquele momento, estavam perfeitas juntas. Eu poderia pintar um quadro daquela cena ou tirar a fotografia mais bela do mundo.
A garota da blusa rosa se sentou, tomando cuidado para não deixar a saia verde clara subir mais do que deveria. A amiga continuou de pé, segurando apenas uma garrafa.
A garota da roupa colorida estende a mão. A da roupa sóbria dá a mão.
A garota da roupa colorida estende a outra mão para pegar a garrafa - seu verdadeiro objetivo inicial.
- Ei! Eu achei que você queria me dar a mão! Eu não vou te dar cerveja! - reclama, indignada, a garota dos trajes de cor sóbria.
Travessa, a menina da saia verde clara aperta a coxa da amiga.

Fecho a cortina. Existem momentos que não devemos espiar.

(Para L.)