sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O menino da bola murcha

O garoto só quer uma bola para jogar futebol. A sua, murcha, rota e furada já não lhe serve. Ganhou de um outro menino durante uma aposta - nosso rapazinho aqui fez oito gols. O dono original da bola fez cinco. O tal rapazinho levou a bola - agora murcha e sem lá muita utilidade - e fim de papo.
Isso foi há dois anos e agora o brinquedo está sujo, rasgado, é flácido e nem redondo parece mais.
O garoto olha para os céus e reza pedindo uma bola, mas as nuvens parecem dizer que papai do céu está de férias por tempo indeterminado - fez o mundo em seis dias dias, descansou no sétimo e resolveu sair por aí fazendo um tour pelas estrelas e galáxias. O garotinho, quando pensa nessas coisas, quer ser deus. Inveja-o.
Outro dia, uma dona parou em frente ao menino e, com pena dele sozinho e com fome, deu a ele uma espécie de bolo - ele, aos nove anos (dos quais alguns passados em internatos públicos e outros em um orfanato), conseguia juntar as letras A-L-F-A-J-O-R.
O menino achou aquele doce muito gostoso e pensou que aquela dona deveria ter muito dinheiro, mas que devia ser abençoada mesmo assim.
E mesmo com a boca suja de merengue e o estômago tapeado, ele só queria ter amigos com quem dormir em um trapiche que nem no filme que ele viu antes de fugir do orfanato. Seu apelido - claro que assim como Pirulito, Sem Pernas e Gato ele também teria um - poderia ser Bola Murcha, ele não ligaria muito, só queria alguma coisa que o aquecesse e o deixasse feliz e absorvido, alguns amigos com quem aprontar e que pudessem fazer-lhe companhia durante às noites.

E não tem.
Na verdade, muito pelo contrário, falta-lhe até uma bola colorida e cheia.


(Ao bom gosto de J.I)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Tic-tac, tic-tac

O relógio não me deixa esquecer que a cada segundo que a vida me dá eu me sinto mais sua, mais com você, mais sua amiga, mais íntima. A cada segundo que a vida me dá eu tenho mais desejo, mais vontade do seu beijo, mais sede dos livros que você me pede para ler, mais orgulho de ter gostado de filmes que você põe na sua lista de favoritos.
Eu tive uma chance com você, eu podia ter feito tudo direito, eu podia ter acertado... Eu estrago as coisas, tudo que eu construo na minha mente acaba virando pó...
Quero que você saiba que não desisti, que quero sempre ser sua âncora, quem sabe amiga, por vezes confidente, em algumas noites só mais um corpo quente que você quer abraçar simplesmente pela descarga hormonal ou pela companhia, escutarei seus monólogos sobre os grandes pensadores que nunca chegarei a conhecer, me contento em ser sua segunda ou trigésima opção - não me importa, eu só quero você, seguras suas mãos, beijar sua testa, sorrir para os seus comentários eloqüentes ou chorar junto quando você se sentir tão deprimido quanto eu normalmente me sinto.
Tic-tac, tic-tac.
Eternamente sua.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Meias coloridas

Dias em que sofro tanto por não te ter que danço de meias pela casa e não me animo nem desanimo, só me sinto idiota por não saber dançar direito.

Fico em um conflito absurdo, sem saber se te quero na minha frente ou se desejo me esconder atrás dos meus cabelos quando me esbarrar com você na rua.

Por que você faz isso comigo? E como faz isso mesmo sem saber que faz?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

À flor

Prometo que não te encostarei um dedo (e não por falta de vontade), mas se um dia eu tiver a honra de dividir um quarto por uma noite com você, me sentirei o mais feliz e lisonjeado dos seres humanos. Obviamente eu não deixaria escapar algum romantismo inapropriado e tímido, como te levar café da manhã na cama (por sinal, o que você gostaria de comer? Uma omelete, talvez? O café puro e forte eu sei fazer)... E tudo isso porque ficaria feliz demais em te ver desabrochando lá pelo meio da manhã, com sono e com o cabelo descabelado.
A beleza não está onde menos se espera, ainda mais a sua, que é óbvia e transpira.
Você faz isso com as pessoas, lírio, e relendo tudo que já escrevi para você até agora me bateu um desespero e uma vontade de te colocar na minha cama e me deitar no colchão àbaixo. Provavelmente terei insônia imaginando as possibilidades, contando as camadas de tecidos que nos separam, pensando no que diabos fazer para você de café e qual é a bandeja mais bonita para te servir comida logo pela manhã.
Mas, se um dia eu tiver a honra de dividir um quarto por uma noite com você, seu cheiro (o perfume do Boticário, talvez, se você gostar desse tipo de sutileza), invadirá o ar.

E isso será bom...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Para (outro) alguém que não vai ler

Da prateleira, tiro um livro do Nelson Rodrigues. Sei como esse autor faz você (e o resto da população) se sentir nauseado, chocado e ter vontade de fechar o livro e chorar. Leio palavra por palavra, com prazer, pensando que sua reação seria oposta, me envolvo na história porque quero te causar dor apreciando algo que não te faz bem.
Você não é meu, você nunca será meu e você também não serve para mim, mas me comprometi a te amar pelo que conheço de você e a te desejar as melhores coisas do mundo mesmo que à distância.
É em você que penso quando deito a cabeça no travesseiro e que penso que te quero tão bem, que quero sua felicidade, e escolho milhares de cores bonitas e mando elas em forma de luz para você. Os astros não cruzaram nossos destinos e você não acredita em superstições, mas é o meu jeito de te dizer que espero que você fique e esteja bem.
Na minha fantasia, minha luz colorida te aquece e envolve e você dorme como uma pedra e sonha com anjos; minha noite, no entanto, não é tão boa assim. Acordo de hora em hora e derramos lágrimas secretas dedicadas à você.
Tento ser forte, não ser egoísta - você está melhor assim, com ela na sua mente, mas você não vê que o que você sente por ela é exatamente o que eu sinto por você?
Acordo de manhã e alguém está tocando marchinhas de carnaval pelo Eixão. Penso em nós dois sorrindo, de mãos dadas, tentando sambar desajeitadamente enquanto você lembra do Rio de Janeiro e das ondas do mar.
Quero que você saiba que eu me entregaria por completo, de corpo e alma. Por que você não quer?


Well, I was sitting, waiting, wishing
You believed in superstitions
Then maybe you'd see the signs
But lord knows that this world is cruel
And I ain't the lord, no, I'm just a fool
Learning loving somebody
Don't make them love you

(Jack Johnson - Sitting Waiting Wishing)