quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Por que sou a favor das cotas sociais

Estudei a vida inteira em uma escola particular. E não uma qualquer - uma absurdamente cara, que sempre foi considerada uma das melhores da minha cidade. Por ano, os alunos de Ensino Médio que não são bolsistas, pagam 16 mil reais para terem acesso a uma universidade qualificada - e o objetivo, muitas vezes, é a federal.
Ontem, Dilma sancionou o projeto que garante 50% das vagas das federais a alunos de escola pública. Os estudantes e ex-estudantes do meu colégio, quase todos com boa retórica e consciência política, se dividiram em dois grupos: os que são a favor e os que são contra (e nos que são contra, incluo os que acham que 50% é uma porcentagem alta demais).
Em primeiro lugar, gostaria de lembrar a todos que quem pode pagar uma escola particular no nosso país é a grande minoria. O governo pretende direcionar 50% das vagas para 70% dos alunos brasileiros. Os números não mentem: não há injustiça alguma nisso.
Desconsiderando aqueles que também podem pagar por um ensino qualificado no exterior, gostaria de atestar o óbvio: a probabilidade de você ser de classe média e poder pagar uma faculdade particular de qualidade (qualquer uma das dezesseis Universidades Católicas, incluindo as sete Pontifícias, por exemplo) é alta. Mas se você quer entrar em uma universidade federal de qualquer jeito, como é o meu caso, você pode pagar um cursinho e aumentar suas chances de entrar pelo sistema universal. Veja bem: seu plano A é entrar na federal sem fazer cursinho; seu plano B é entrar na federal pagando um cursinho e seu plano C é fazer uma particular (novamente, desconsiderando aqueles que podem estudar fora). Você tem plenas condições financeiras e provavelmente sociais de alcançar uma educação superior de qualidade: não merece ser priorizado.
Além do mais, onde há justiça ao fazer um aluno bem-preparado, que teve acesso a bons professores e materiais, competir com um cuja família ganha novecentos e sessenta reais por mês e que não possui nem professores titulares presentes em sua sala de aula? Um aluno que tem computador em casa e que pode obter informações aprofundadas sobre o possível tema de uma redação de vestibular deveria de fato disputar com outro que tem ainda mais deficiência na interpretação de textos?
Aos que dizem que a universidade cairá de nível: muito pelo contrário. Não sei de onde o estímulo da diversidade social prejudica um indivíduo, ainda mais quando o convívio entre pessoas de origens diferentes acontece e gera produtividade. Ainda neste tópico, dizer que alunos de escola pública não têm capacidade de acompanhar as aulas de uma federal é falso e preconceituoso. Alunos que entram por cotas têm plena capacidade de se igualar e superar o desenvolvimento dos outros. Por sinal, a universidade também não ganha muito com gente que não tem o menor conhecimento político e cria uma marcha que vai para o lugar errado.
A classe média/alta não perdeu sua chance de passar no vestibular. Não existem, de fato, vagas para todos e existe gente que vai, sim, ficar de fora. A diferença é que agora essa competição não é mais tão separatista e injusta.
Uma coisa é reclamar das cotas porque o país não investe o suficiente em educação e que o direito ao ensino de qualidade deveria ser existente desde sempre - fato, e é vergonhoso que o governo não o providencie. Mas a classe baixa não merece esperar por um milagre cair do céu. As cotas são uma medida provisória e eficiente, que já foi internacionalmente adotada. Outra coisa é reclamar das cotas por achar absurdo que tirem seus privilégios e por não reconhecer que você tem outros planos e quem ganha novecentos e sessenta reais por mês, não.

Agora seja franco: você é rico e branco e ainda se sente injustiçado quando um grupo ganha oportunidades que você sempre teve? Mesmo?

domingo, 26 de agosto de 2012

Dói

tanto que eu choro e eu não consigo mais pensar em outra coisa, e estou rasgada, e não sei como reagir a isso tudo, e me pergunto por que diabos você não me quer, e se tenho que ser magra ou bonita, se devo entrar em uma dieta maluca dos treze dias ou se deito no chão e me largo ali para morrer, conformada com a sua indiferença.
Eu não posso dizer que é tudo mentira e que eu não olhei minhas mãos, meus dedos esguios e as unhas quadradas pintadas de vermelho, tocando a mesma coisa que você tocou, pensando que logo ontem você estava lá do meu lado, e que você abriu um sorriso enorme e lindo (o mais lindo que eu já vi, e já peço desculpas porque você nunca saberá disso) assim que me viu, mesmo meu cabelo estando feio e zoado e minhas meias-calças, rasgadas.
Por quê, por quê, por quê, POR QUE você não gosta de mim, e não me cuida, e não me quer, e não me beija, e não me diz?

Eu desisto de você e de entender suas loucuras, seus sorrisos afáveis e depois suas mãos esguias se desviando e indo para o lugar errado.

Desistir, eu desisto mesmo. Mas não gosto de fugir.

Call me maybe?



terça-feira, 21 de agosto de 2012

É assim o ódio

Toda vez que eu ensaio começar uma vida nova, na qual você não é presente e muito menos benvindo, você resolve mexer comigo. Hoje percebo que há muito você desistiu de me deixar abalada pelo quesito "carinho" e resolveu brincar com meus sentimentos pensando "vou te provar que você é uma otária".
Parabéns, meu anjo. Você conseguiu! Para mim, está claro que as coisas ficaram feias: você não merece mais nenhum poema. Espero que você esteja muito feliz com a sua vida medíocre de pegar garotinhas pela internet e de não conseguir arranjar um emprego. Espero que seja satisfatório me provar que eu sou uma otária enquanto você ainda mora com seus pais e mantém hábitos sexuais repugnantes e muito, mas muito duvidosos.
Quero também que você saiba que você provoca o que há de pior em mim. Ouvir notícias suas me faz tremer de raiva, você provoca minha insegurança, minha sede de vingança e meu ódio, por você ser tão imbecil e ter tanto potencial desperdiçado. Algumas coisas que eu falei para você e que continuam contendo a mais pura verdade: não devia haver gente como você no mundo e você não foi homem o suficiente comigo (e você não sabe quantas cervejas eu tomei para comemorar isso). Quantas outras garotas você vai ter que enganar até perceber que você não passa de um personagem tosco, daqueles que o autor não dedicou nada de si para criar? Você não serve para novelas mexicanas das mais toscas, muito menos para o teatro-épico-dramático-multigenérico que eu orgulhosamente chamo de minha vida.
Por sinal: você pode até se achar um garanhão, mas para mim vai ser sempre o babaca que fez uma piada com estupro, um porco traidor e mentiroso e um fracassado que deveria se envergonhar de ter nascido. Tenho nojo do meu passado com você.

Cansei de deixar você tirar o meu brilho. Vou me sujar de tinta e brincar de viver sem você: muito mais feliz e mil vezes mais colorida.

Lembra quando eu te falava que "odiar", no dicionário, significa desejar mal a alguém? Pois é isso que eu sinto por você agora: eu quero que você sofra, e quero que você sofra muito.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Projeto Crônica III

Lá estava eu, sentada sozinha na mesa de um bar e tomando a atividade mais solitária do mundo - virando garrafas de cerveja, uma atrás da outra, sozinha. Não gosto de ser intrometida ou de escutar conversas alheias, mas as pessoas da mesa ao lado estavam todas ébrias - rindo, animadas e falando bastante alto.
Uma das garotas se vira para o rapaz da ponta da mesa ("então é ele que vai pagar a conta", penso, em um ataque de senso de humor estúpido e sem graça) e pergunta:
- E aí, e a sua ex?
Ele suspira, faz uma cara meio engraçada, abre um sorriso no canto da boca e começa a falar:
- Eu arranjei uma analogia para falar dela quando me perguntarem. Vocês lembram da copa de 1994, que quando acabou o último jogo e o Brasil ganhou nos penâltis o Galvão terminou o jogo gritando "ACABOOOOOU! ACABOOOU!"?
Todos fazem sinal para que ele continue a história. Inclusive eu, do meu cantinho isolado e sozinha na mesa.
- Então. É assim que eu me sinto em relação a minha ex.
Todos riem. Eu rio um pouquinho, mas logo paro. Também estou ébria - ao contrário da mesa feliz com o rapaz fã de futebol, sou uma bêbada chata e infeliz. Que saco.
Ainda bem que estou sozinha, porque respeitosamente paro de ouvir a conversa alheia e entro dentro de mim. Penso em todas as relações e relacionamentos que acabaram por um fio - eu me sentia desconfortável, presa, mal-amada, mal-comida, pressionada, triste, cobrada - tudo isso junto ou pelo menos dois ou três fatores destes. E em como é infeliz começar uma relação que deveria ser constituída por amor acabar mal desse jeito: não com tristeza, insegurança ou um vazio, mas sim com o alívio do Galvão no final da copa de 1994: "acabou!".
Um término sem choros descontrolados, comédias românticas, sorvete e insônia não parece um término. Um término que é constituído apenas por alívio é o fim de que? De uma relação doentia? De algo que não havia começado? O fim de uma relação que causava mais mal do que bem, provavelmente.

Gostaria muito de ter terminado esse raciocínio, mas o fato de estar bebendo sozinha há umas boas quatro horas me impediu.

Tudo uma pena, realmente.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Projeto Crônica II

"Você faz meu coração sair pela boca. E, se você provoca isso em mim, tenho certeza que posso fazer o mesmo com você".
E lá ia-se ela pela rua afora, a caminho do apartamento do rapaz. Abraçava a si mesma por cima do sobretudo, tentando se proteger do frio.
Um pensamento. Um sorriso. Outro pensamento e ela toca a campainha.

Ele atende, de bermuda, e dá um sorriso. Ela logo retribui o cumprimento e se atira nos braços dele, dando um beijo de verdade (de cinema, de língua, na boca).
Alguns bons minutos depois, a moça substitui sua língua por seu punho na boca do rapaz. Com certo esforço, enquanto ele se asfixia, ela coloca a mão dentro da garganta dele e arranca seu coração do peito.
"Eu disse que seria capaz de fazer seu coração sair pela boca", ela pensa.

A caminho da cozinha, ela unta a frigideira com manteiga. Frita o órgão pulsante e o tempera com azeite, sal e pimenta.

E, ao mastigá-lo: "Viscoso, mas gostoso".

domingo, 5 de agosto de 2012

Projeto Crônica I

Aline não pára de rasgar o guardanapo em infinitos pedacinhos, cada vez mais minúsculos. Ela não pode abrir a boca para falar o que quer, o que - convenhamos - é um absurdo. Essa moça vive falando o que quer porque vive em paz desse jeito, sendo articulada, eloquente e amiga das palavras. Ela arregala os olhos grandes e castanhos-tempestade, numa cara meio de tristeza meio de frustração, e ele começa a falar.
- No que você está pensando?
- Hum, eu? Em nada.
- Eu estou vendo o que você está fazendo com esse guardanapo. E essa sua carinha de cachorro abandonado. O que foi?
- Ai, Arthur, cala a boca. Não foi nada. Vamos logo, a gente vai perder a sessão.
Ele a segura pelo braço.
- Senta, Aline. Conversa comigo.
- Eu não quero falar o que foi. Não com você. Você não vai entender.
- Tem a ver comigo?
- Você sabe que tem, cacetada.
- Então se eu não vou entender, quem vai?
- A Monique vai.
- Monique?
- Minha terapeuta.
- Porra, Aline, não conta. A mulher é paga para te entender. Desembucha, vai. Se não a gente vai perder o filme.
Aline pára e pensa. Ela suspira, abre a boca e fecha, abre a boca e fecha, picota o guardanapo por mais um tempinho. Ela torce a manga do vestido que ele secretamente acha muito bonito, coça o joelho, olha pro chão.
- Aline.
- Espera. Como eu vou te dizer isso sem te assustar?
- Ensaia aí na sua cabeça que eu vou ao banheiro. Quando eu voltar você me conta e a gente entra na sessão.
- Tudo bem.
Treinando a gesticulação e as expressões faciais, ela começa a pensar no tom das palavras ecoando na cabeça: "sei lá, acho que a gente não devia mais se ver. Porque você é muito presente em tudo isso, entendeu? Eu penso em você na aula de música, nos seus sapatos esquisitos quando eu ando descalça pela casa, me pergunto se vou esbarrar com você em uma festa qualquer. Entro em uma livraria e me pergunto se você gostaria de ganhar de presente esse ou aquele livro. Às vezes, bem às vezes mesmo, quando eu fico muito chateada, eu vou dormir e imagino a gente de mãos dadas. Não é muita coisa e não me acalma tanto assim, mas melhora. Um pouco. Sei lá. O que eu sinto por você é esquisito. O problema é que eu não sei se a gente devia ou não devia se ver, porque você me encanta e me dói. Mas eu acho que dou conta de ignorar a parte que você me dói, porque quando a gente está junto, meu vazio se acalma e eu não tenho vontade de sair correndo de você. O encanto ganha da dor. E eu vou viver com isso. E não vou te dar dor de cabeça."
Arthur senta na mesa de novo.
- Então. O que é que você queria me falar?
Ela sorri, toda travessa.
- Você está ridículo com esse cabelo todo espetado.
Ele ri e a olha, desconfiado.
- Tem certeza que é só isso?
- Tenho. Relaxa que não é nada.
Um selinho.
- Vamos para o filme?