terça-feira, 23 de outubro de 2012

Marina e Pilar

Zoé tinha saído de casa há algumas horas para ir ao trabalho. Eu estava, portanto, sozinha em casa com os pulsos coçando, os olhos secos, o gosto de vômito dos remédios que engoli todos de uma vez e meu corpo expeliu, meio dopada de sono por causa dos remédios que havia tomado depois. Calças largas, regata preta, cabelo desgrenhado, nariz vermelho. Jogada na cama, sem vontade de abrir os olhos, sem ver o ponto de levantar da cama - pé depois de pé até o banheiro, pé após pé para o quarto, pé após pé para a cozinha... Pra quê?

A campainha tocou. Puxo o edredom para cima do meu corpo, tampo o rosto com o travesseiro. A primeira etapa é a negação, penso em um sorriso amargo. A campainha toca de novo, dessa vez várias vezes seguidas, freneticamente. A pessoa é uma idiota e não vai parar de tocar a campainha até eu me levantar e atender. Porra, que saco. Só vai piorar se o filho da puta que está tocando a campainha for um vendedor de panos de chão ou algo do gênero.

Sento na cama. Respiro. A campainha não para de jeito nenhum e minha cabeça dói. Levanto. Pé depois de pé, com calma, me arrastando, eventualmente soprando a ardência e a coceira dos pulsos. Andar é que nem viver, não é? Tem que ir pra frente, se não você está fazendo errado. Putz, acho que eu sei fazer isso direito, sim. Só perdi a prática.

Chego na porta da frente. É Pilar, a pele morena de mel e pão suada, as mãos bonitas segurando os dois sapatos de salto alto, os pés sujos. Ela está ofegando e percebo que está correndo. Por diversão?

Quase rio. Conhecendo Pilar como acho que conheço, ela está fugindo.

Ela passa para dentro da porta, eu a fecho e tranco. Ela me cumprimenta com um sorriso, prende os cachos em um coque desleixado e vai ao banheiro. Eu sento no sofá (não sei fazer nada disso direito, mas acho que tenho que fazer sala, não é?) e espero ela sair. Ela sai.

- Pulei uma grade.
- Como?
- É isso mesmo, pulei uma grade. Eu estava com pressa, olhando em frente, a porta estava aberta a alguns poucos metros de mim mas não a vi. Daí pulei a grade.
- Ué.
- Exatamente! "Ué". Não parece um grande crime falando assim, não é?
- Uai... Não...
- Só que daí os guardas começaram a me perseguir por invasão de propriedade.
- Porra, Pilar. Invasão de propriedade? Que diabo de grade é essa que você pulou?
- Caralho, Marina, sei lá, eu que vou saber? Só sei que corri, corri para cacete, aí o salto começou a me machucar. Eu tirei os sapatos, lembrei que a Zoé morava por aqui e vim correndo. Foi mal, esqueci que é você que fica por aqui de manhã. Se eu tivesse lembrado, não teria tocado a campainha daquele jeito. Te acordei?
- Acordou, sim.
- Dormiu bem?
Silêncio.
- Claro que não dormi bem.
- Puta que pariu, é mesmo. Desculpa. Às vezes parece que não te conheço.
- É. Às vezes parece que ninguém me conhece.
- Marina, vai pro quarto, vai.
- Ué. Tem certeza?
- Eu te acordei porque pulei uma bosta de um portão.
- Não, você me acordou porque fugiu dos tiras.
- É. Porque eu fugi dos tiras. Você está doente, Marina, e não quer se tratar. Não sou ninguém e não vou te obrigar a fazer nada, mas vai deitar. Não precisa ficar fingindo que gosta de ser sociável, que quer me fazer companhia... Vai dormir.
- Você vai deixar eu me afundar?
- Vou, ué. A escolha é sua, o que eu posso fazer?
- Você é a taurina menos conservadora que eu já conheci. Você não devia, sei lá, idolatrar regras? Gostar do fato de que eu pelo menos tento seguir as convenções sociais?
- Ah, meu bem, eu tenho ascendente em áries ou algum desses signos porretas aí. Sei direito não. Afinal, você vai pro quarto ou não vai?

Não fui. Preferi fazer um chá e companhia para ela até que Zoé chegasse.

E, quando chegou, e viu nós duas reunidas ali, ficou surpresa. Acho que sorriu pelo canto da boca.

Coitada, ela achou que eu estava me curando.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

B.S

Caí de pára-quedas em uma inconveniente manhã de quarta-feira. Uma quarta-feira cinzenta e chuvosa, sem perspectiva de sol, onde eu não alimento esperança alguma de uma situação onde você me aparece assim, do nada, com seu cabelo escuro e cheio de cachos e me oferecendo carona embaixo do seu guarda-chuva.
Dei o azar de morar em uma cidade onde faz frio, céu cinza e fica abafado do mesmo jeito. 

Vou levando a falta de vontade de me apaixonar perdidamente. Acho que cansei dessas coisas, muito complicado se envolver nessas histórias de amor eterno, juras, pactos de suicídio, beijos apaixonados. Tô com preguiça. Queria viver de comer e dormir, duas coisas das quais não perdi vontade de jeito nenhum. Inventar receitas de miojo é mais legal do que muita gente que eu conheço. Meio deprimente, eu sei, mas o que eu posso fazer se assim segue a minha vida? Tudo se resume a um grande "eu tô a fim, mas não tem o que".

Mais algumas linhas estúpidas, toscas, jogadas fora. Mais um dia me sentindo só mais um tijolo em meio a um muro. Mais um dia seca de vontade de escrever e sem ter acontecimentos, sexo, amor, carência, tristeza ou inspiração o suficiente.

Dia desses, vou fumar um cigarro só para soprar toda a fumaça no seu rosto.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

(...)

Ninguém entende a dor de entrar em um quarto com o coração acelerado, as mãos suando, um sorriso no rosto e alegria pura - e sair se sentindo frágil, criança, idiota, indefesa e impotente...

E assim permanecer.

Um ano e meio amanhã.

sábado, 6 de outubro de 2012

Marina II

Bizarro ter seu bilhete grudado na minha parede até hoje, assinado em maio do ano passado, e não ter tido coragem de olhar para ele - e muito menos de tirar o ímã da parede, rasgar o bilhete, jogá-lo fora. É claro que é isso que eu deveria ter feito, picotado o bilhete, esquecido o carinho, considerado tudo como a grande mentira idiota que foi. O mais engraçado é que tantas coisas já passaram pela minha parede de ímãs - desenhos, fotos, outros bilhetes, ingressos de cinema e teatro - e há mais de um ano a sua nota com um passarinho segurando uma flor ainda perdura, pendurada.
A verdade é que descobri que cansei, cansei desse sol e desse calor que nunca refletem meu estado de espírito, cansei do samba, pai do prazer, que toca e faz com que eu me sinta ainda mais vazia, cansei da água vazando e ninguém para enxugá-la, cansei de estar sozinha, cansei de me importar. Minha vontade é sair por aí, chegar de algum jeito em outro país e permanecer por lá - sem ninguém, sozinha, recomeçar do zero. Todo mundo me atrapalha, todo mundo é estúpido e isso, além de obviamente atestar minha arrogância, me deixa cansada.
Não tenho profissão, não tenho estímulo, não tenho futuro, não tenho ninguém, não tenho casa, não tenho ideais, não tenho você, não tenho mais minhas lâminas, não tenho porra nenhuma e só quero sumir. Essa coisa de ir para outro país é o que eu faria se tivesse como. Sumir, mágica e misteriosamente, seria o ideal. Quando eu paro pra pensar, sumir parece muito com morrer, e nessas horas sofrer um acidente, pegar alguma doença ou me entupir de comprimidos não me parecem ideias tão horrorosas - mais um casal de lágrimas descendo sincronizado e nunca mais vou ter que me importar com absolutamente, maravilhosamente e simplesmente nada.

Marina

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Zoé e Marina

Abro a porta e imediatamente constato que fiz uma bobagem. A moça que bateu na minha casa era branca-leite, pálida mesmo, tinha cicatrizes saltadas ao longo dos braços, cabelos escorridos e nariz e olhos vermelhos de choro. Ela era pequena, magricela, parecia frágil e fácil de quebrar. Só os olhos, claros e saltados, pareciam se destacar em meio à confusão.

- Preciso me abrigar e me disseram que você é muito alegre, muito satisfeita com a vida.
- Às vezes, querida. Na outra parte do tempo, estou amarga. Perdoe, mas qual é o seu nome?
- Desculpe. Sou a Marina. E você?
- Me chamo Zoé.
E não sabia o que fazer. Convidei-a para entrar, e tomar um café. Parecendo constrangida, ela relutou um pouco antes de obedecer, mas depois de alguns instantes sentou-se no meu sofá. Pego duas xícaras de vidro colorido e ela aceita mel no café.

- Então você não tem família - esqueço as sutilezas e tento iniciar uma conversa.
- Eu tenho família, sim. Só que não é mais família. E daí eu não me sinto mais abrigada.
- E você não tem amigos?
- Cansei todos.
- E é por isso que você quer viver aqui? Você não se sente mais em casa quando está em casa e não sente que tem amigos quando conversa com eles?
- Também por isso. Queria viver de novo, talvez recomeçar do zero. Sentia que estava vivendo mais ou menos, amando mais ou menos, me entregando mais ou menos. Isso é oposto à intensidade que normalmente me é característica. Eu sou de signo de água, sabe.

Eu sabia.

A menina era moça, e eu não conseguia deixar de sentir certo afeto, talvez por ela ser pouco mais nova que eu e por ser uma perspectiva de companhia. Seus olhos saltados eram expressivos demais e eu mal me sentia confortável em olhar para eles; sentia como se estivesse invadindo a alma dela. Apesar de eles demonstrarem sua profunda infelicidade, ela não deixava de ser doce. Quando ela estava bem, se opunha à minha amargura. Por fim, decidi ceder a casa a ela.

Por fim, a intensidade que ela tanto queria chegou. Ela não fugiu para Paris com um novo amor, não deu tudo de si para ajudar crianças carentes em um bairro pobre, não se dedicou ao aprendizado do alpinismo para escalar o Monte Everest. Marina se afundou na depressão, em meio aos cômodos da minha casa, sem me deixar alternativa - eu não podia expulsá-la, afinal, e vê-la vulnerável me enchia de um sentimento maternal, de ternura. Às vezes, ela me contava aos prantos o quanto queria ser útil, me ajudar com as compras e com as contas. Não raro, eu a chamava para sair comigo (um cinema, uma pista de dança), mas o medo de interagir com pessoas ou de sofrer um colapso nervoso-sentimental em público costumava paralisá-la.

Era difícil de conviver com as lâminas cobertas de sangue que ela largava no banheiro. Às vezes, eu pressentia um pensamento ruim, algo mórbido e suicida. Entrava no seu quarto e a pedia para ligar para um psicólogo, queria que ela tivesse ajuda. Assustada, suas bochechas esbranquiçadas coravam - ela me disse, uma vez, que não tinha coragem o suficiente para explicar a ninguém o que estava acontecendo. Que era bobagem, e que ririam, e que ela ficaria sentida se dessem risada às custas dela. Eu tentava explicar que não, que a terapia não era assim, que conversar com as pessoas era bom, falar era importante, tentava ler um pouco dos grandes psicólogos que defendiam a cura pela fala. Ela achava interessante, gostava de buscar o conhecimento, mas a ideia de trazê-lo para dentro da sua vida não lhe parecia atraente.

Faz seis anos que abrigo Marina em minha casa e sinto que ela é uma parasita e isso me dói. Amo-a como ela é, abriguei-a por aceitá-la, mas ela me machuca, às vezes tira o melhor de mim sem perceber que o faz. Meu encanto pelas noites de música, o tilintar dos copos de cristal batendo uns nos outros, as risadas bêbadas de gente feliz - ela me tirou um pouco da minha paixão por tudo isso. Gostaria de ajudá-la, fazer com que ela se tornasse uma pessoa feliz e mais leve, e não consigo. Toda essa intensidade, lágrimas, sangue, cicatrizes e sal não me fazem ter força o suficiente para melhorá-la. Ela apenas me leva junto com ela, me arrasta para o seu leito onde as coisas são cinzentas, injustas e infelizes. Não sou deprimida como ela (talvez porque eu não tenha a predisposição genética), mas se quando a conheci estava em um pólo bom e alegre, agora sou pura amargura, sarcasmo e acidez.

Cedi minha casa para Marina e não sei quando vou voltar.