domingo, 25 de novembro de 2012

Pilar II

Então em uma noite, nos reunimos as três: Marina, Zoé e eu. Sentadas na sala e bebendo um pouco de vinho. Marina insistiu em acender aqueles incensos que ela compra das pessoas na rua um pouco por pena e um pouco por necessidade do cheiro. Zoé falava, feliz como de usual, contava casos, gesticulava muito, dava risada e era engraçada. Marina sorria para ela - por algum motivo, desde que eu havia chegado na casa, ela se tornara menos depressiva, dando vazão à sua personalidade doce, compreensiva, carente (não isolada e antissocial), maternal. Seus olhos pareciam dizer "puxa, você é muito geminiana mesmo, Zoé, e eu não tenho nenhum planeta nem casa em Gêmeos, então acho que preciso de você. E também acho que você se perde muito nessas suas noites de farra e luzes, então gostaria de ser sua amiga, cuidar de você e das suas ressacas". Eu, reservada e discreta, ria dos casos engraçados, soltava uma piada ou outra de hora em hora, mas eu via que a interação delas era maior que a minha com qualquer uma das duas. Elas meio que se completavam, Zoé botando Marina para cima, Marina tomando conta de Zoé quando ela precisava, as duas se entendendo bem.
- O que foi, Pilar? Você está quietinha.
Pensei um pouco se falava tudo isso que eu pensei ou não e acabei falando. Disse que gostava da companhia das duas, que fiquei feliz por ter aceitado ficar uma semana com elas, mas que elas se completavam muito, que talvez eu fosse um elemento que sobrava.
As duas se entreolharam e Zoé tomou um gole de vinho enquanto apontava a mão aberta para Marina.
- Conta para ela o que você me falou na outra noite, Nina.
Marina sorriu, abaixou a cabeça, ficou meio vermelha.
- Pilar, você é uma das pessoas que eu mais gosto no mundo. Tenho uma inveja boa de você, uma inveja branca, porque você é tão forte e determinada, sabe, e tão teimosa e convicta. Você é pé não chão e não costuma se deixar abalar, é sensata e racional, mas também tem um carinho para com os outros dentro de você. Você não tenta impor nada, e o jeito que você reage às figuras de autoridade é meio engraçado. Eu gosto das suas confusões. Por sinal, o que vai acontecer com aquela história da grade que você pulou?
- Não sei, Marina, espero que me mandem uma multa ou sei lá. No máximo. Quando eu chegar em casa eu te falo.
(E foi isso mesmo. Quando cheguei em casa, uma semana depois, tinha uma multa por invasão de propriedade para mim. Não sei como esses filhos da puta me acharam. Impressões digitais? Sei lá.)
- Claro que eu também tenho muito a agradecer a Zoé, que sempre foi paciente, que aturou anos de convivência com uma pessoa complicada, sempre alegre, engraçada e de bom humor, sempre tentou me colocar para cima, me falou sobre ajuda psicológica e psiquiátrica. Mas você foi um incentivo a mais, entende? Você é a pessoa que eu sempre quis ser - forte, desbocada, autoritária. Você se encaixa, sim.
Uma aura de calma baixou sobre todas nós. Continuamos a bebericar vinho, a cantar o novo acústico do Caetano baixinho, junto com o CD, e a pensar. Então Marina pergunta:
- Quando foi o pior período da vida de vocês?
Zoé pensa um pouco. E responde:
- Acho que o momento mais difícil foi quando meus pais se separaram. Eu tinha que ouvir os dois brigando antes, e se acusando de coisas horríveis. Presenciei algumas traições, o que foi um tanto traumático.
Ela abaixa a cabeça, triste. Toma mais um gole e continua:
- Um tempo depois, ele saiu de casa para ficar com outra mulher. Passou alguns meses longe, passei o Ano Novo longe dele, minha mãe sem dormir direito, só chorando. E éramos só nós duas, então foi difícil demais... Uns meses depois, eles se reconciliaram.
- Ué, assim do nada? Não brigaram?
- Devem ter brigado um pouco, talvez até na minha frente, mas não me lembro. O tempo passa e essas coisas vão ficando pequenas, né? A gente esquece e perdoa quase tudo. Ou tudo, mesmo. Enfim, eles se acertaram e estão juntos até hoje. Mas foi complicado. Fiquei feliz quando ele voltou.
- Imagino que sim. E o seu, Marina?
- Ué, estou saindo dele agora, eu acho. Às vezes parece, às vezes não. É complicado estar doente.
- Você reconhece que está doente?
Ela concorda com a cabeça, cheia de fumaça na boca. Termina de tragar e:
- Eu sei que estou doente, só que como sou inválida, não tenho dinheiro para pagar tratamento nenhum. Vou arranjar um emprego e aí sim começo a me tratar. Enquanto isso, vou levando, meio aos trancos e barrancos. Mas sim: o período mais difícil da minha vida foi esse, de continuar sem esperança nenhuma, de não tomar nenhuma decisão drástica como suicídio sabe-se lá por que, porque não via motivo nenhum para eu continuar. Eu acordava e não queria andar, queria me drogar de Rivotril e dormir o dia inteiro, vomitava os remédios quando eu tomava muitos de uma vez, me cortava como hobby, não tinha vontade de sexo, nem de emprego, nem de cinema, música, arte, escrever, sair da cama e ver o sol, não ria das coisas, e para mim não faria diferença nenhuma se o mundo todo morresse.
- "Mas a verdade é que se não fosse por uma ou outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem."
- Oi?
- É uma frase do Bukowski. Lógico. Parece com você - acrescentou a Zoé.
- Isso. Exatamente! Menos a parte das trepadinhas legais. Porque não tem nenhuma.
- Você fica enfiada em casa vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Aí complica.
- Uai, eu sei. Não tô reclamando de nada, não, Zoé.
Outro silêncio. Daí eu resolvo falar. Explicar o que aconteceu na minha adolescência, a origem de todo o meu problema com as autoridades em geral.
- O período mais difícil da minha vida foi o Ensino Médio. 
Estou sóbria demais para começar a falar, então Nina e Zoé sorriem enquanto eu tento virar o máximo que consigo da garrafa de vinho. Elas provavelmente também não gostaram do Ensino Médio - pelos motivos óbvios: se você é adolescente e feliz, você tem problemas e deveria pedir ajuda. Ninguém gosta de ter quinze anos. Caralho, que fase. Me sentindo levemente mais tonta (claro que provavelmente é tudo bosta psicológica), continuo a falar.
- Desde sempre, eu tive problemas com Matemática. Não era nada muito grave, não, era só tipo: eu tirava dez em tudo e oito em Matemática. Tudo bem, todos falavam que eu era desatenta e que se eu prestasse um pouco mais de atenção nas minhas contas, seria aluna dez em tudo, etc, o caralho a quatro. E os anos foram passando, eu fui para o II Ensino Fundamental e as coisas complicaram um pouco. Eu ia estudando e nos períodos em que a matéria tinha uma lógica menos numérica, tipo geometria, eu ia melhor. Era frustrante, porque em provas muito fáceis, onde todo mundo tirava de sete para cima, eu sempre ficava com mais ou menos quatro. Era desestimulante, mas eu passava de ano raspando, então tudo certo. Então veio o Ensino Médio, que é tão detestável para quase todo mundo.
Marina acrescenta, sabiamente:

- Sem estímulo, desperdício de tempo e talento... Nunca entendi por que tive que aprender Biologia se meu negócio mesmo era Letras. É desperdício de potencial e talento. 
- E as pessoas são escrotas.
- As pessoas eram escrotas com você, Zoé? - perguntou Marina, surpresa.
- Comigo não. Eu era simpática, engraçada e unia a turma. Mas eu via o que faziam com os outros, eu via meus colegas que acabaram loucos e se matando, eu via todo mundo falando mal e rindo de todo mundo então era complicado.

- Eu era doce e quietinha, então acho que não mexiam muito comigo - pensa Marina. - Ajudava sempre que precisavam. Enfim, Pilar, continue.
- Pois é, minha questão não era social. No meu Ensino Médio eu tinha mudado completamente minha rotina para uma rotina de estudos aplicada e competente, estudava exatas todos os dias, fazia os exercícios e deveres. Então veio a primeira prova e meu rendimento ficou próximo de zero. Muito frustrante. A pior parte é que eu era acusada de ser preguiçosa e desatenta, e acabou que virou isso mesmo. Eu continuava estudando, mas meu progresso era mínimo, então eu me frustrava, acabava matando aulas, provas e dormindo. Peguei recuperação no primeiro e no segundo ano, a sorte é que a prova de recuperação final era feita com calculadora e era consideravelmente mais fácil que as outras. Tive rendimento mínimo necessário no primeiro ano, no segundo os professores me aprovaram por Conselho de Classe, porque eu era muito boa em humanas e eles não iam me fazer repetir essas matérias. Na metade do terceiro ano, eu já estava mais do que frustrada, tinha passado em todas as matérias de humanas e não conseguia, independentemente do meu esforço, me sair bem nas exatas. Ouvia um monte de gente dizendo que eu era preguiçosa, desatenta e meus professores encucados com as resoluções, no maior estilo "ué, estava tudo certo, mas aqui você..." ou "você não podia ter resolvido o exercício assim, tem uma fórmula para ser aplicada". O diretor da escola chegou a falar com a minha mãe que eu ia reprovar e que eles não iam poder fazer nada por mim. Os professores me desprezavam, e eu não tinha o menor motivo para ter respeito por eles, entendem? Não via a autoridade em pessoas que eram tão hostis e se negavam a me ajudar.
- E você levou isso para a vida!
Sorri com a afirmação exata.

- Precisamente. Então um dia eu conversei com uma colega e descobri que nem todas as coisas que eu errava em Matemática eram normais. Eu descobri que não é normal pensar em um número e escrever outro, que não é normal confundir divisão com subtração, que você tem que saber onde fica a direita sem levantar o braço que você escreve, que todo mundo sabe olhar em relógio analógico.
- Você fazia todas essas coisas?
- Faço até hoje. Falei isso com a Orientadora da escola e ela me levou a uma psicopedagoga. Fui diagnosticada com discalculia.
- O que é isso?
- Dislexia numérica. Quando a pessoa faz todas essas coisas que eu falei. Ela tem uma degeneração nervosa que a impede de aprender números...
- Mas você passou no vestibular para Direito!
- Sorte a minha. Eu sempre falei muito bem, tinha a oratória muito boa, a retórica melhor ainda e minha personalidade forte me deu um pouco de certeza sobre o meu curso. O negócio é que, depois de ser diagnosticada com discalculia, pude prestar vestibular como aluna com necessidades especiais. Fui muito, muito bem na parte humana da prova e consegui passar.

- Parabéns. Deve ter sido foda.
- E foi, sim.

A campainha interrompeu todo mundo e Marina se levantou para atender. Da sala, ouvimos ela gritar:
- Helter!
Marina volta para a sala. Ao lado dela, uma garota de cabelos cor de fogo, olhos intensos, caótica, suada e usando preto, sorri como quem diz:
- Cheguei.


(Para S.B)


domingo, 11 de novembro de 2012

2012

Daqui a quarenta dias, não haverá mais nem eu nem você. Tudo que criamos (ou, mais provavelmente, que eu criei para nós dois na minha cabeça) será destruído e irremediavelmente apagado. Não restarão minhas palavras bonitas a você, ou as suas a mim, nem seus cabelos macios no meu dedo, nem eu me maquiando e me arrumando para jantar com você em uma noite fria de novembro.
Não haverão mais as feridas que você me provocou com o seu descaso, indiferença e com a quebra de todas as promessas. Não haverão mais as brigas que me tiravam o sono e culminavam em insônia no sofá da sala, olhando pela janela de céu preto. Não terão os livros ou os filmes que você gentilmente me pediu para ver, nem minha cabeça no seu peito, nem as risadas escancaradas. Em quarenta dias, o calendário será destruído e não restarão dias 7 a serem comemorados, nem dias 16 a serem lamentados e temidos. Os dias 9, também, não serão mais lembrados com saudade.
Não haverão mais as bocas sujas de chantilly, o consumo de substâncias como forma de suicídio lento, as danças desengonçadas na minha sala de estar, os pulos de felicidade quando acordo. Não haverão mais provas que não provam a inteligência de ninguém. Terminarão os padrões e as regras irritantes e nonsenses, a burocracia e o sistema que me cansa. Não haverão mais pesadelos, nem sonhos esquisitos, nem sonhos tão bons que sentimos falta quando acordamos. Acabarão por fim as tempestades, os trovões que me assustam e os relâmpagos que acendem os meus olhos redondos no reflexo da janela.

Em quarenta dias, acabará o amor, a tristeza, a insegurança e o ressentimento. Começo, portanto, a me despedir tanto das minhas dores tanto dos meus encantamentos - ambos mundanos.

Quarenta dias para ser plena.