sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Carta à Brasília

Suas linhas concretas, apesar de sofisticadas e elegantes, andam me fazendo mal. Não é que eu não goste de morar dentro deste avião, é só que me sufoca, incomoda. Ouvi outro dia que você é uma cidade muito não-humana, e entendi de imediato que expressaram os meus sentimentos sem que eu mesma nem pedisse. Até sua falta de transporte público, veja bem, representa a individualidade que você determina. Os bons-dias de elevador são secos, e, a caminho para a Esplanada dos Ministérios, todo trabalhador de serviço público vai cada qual em seu próprio carro -- não existe ônibus, não existe metrô.

Por essas e outras, acho que todas as relações que você me determina são um tanto quanto frígidas. Claro que dizer que "todas" é uma grande hipérbole, e que às vezes você me proporciona amigos de verdade. Mas, na maioria das vezes, estou rodeada por pessoas que negligenciam os meus sentimentos e conflitos; outras tantas me oferecem a frieza da pele, e apenas a frieza da pele, o que me deixa murcha como os ipês na seca.

Tenho certeza de que todos nós somos sertanejos nesse sertão árido e torto, e que a minha localização geográfica não é diretamente ligada à minha felicidade. Mas sinto que se eu fosse embora para algum lugar ensolarado, com samba todos os dias e cheiro de mar-areia-e-vento, eu seria mais feliz. Algo dentro de mim diz que o Rio é a minha terceira margem; mas sei que não. Eu poderia me contentar em um cruzamento entre o Paraíso e a Liberdade, ou talvez me perder entre os botecos do bairro da Savassi. Acho que me perder vai ser uma ótima forma de me encontrar.

Sou mulher o suficiente para sair daqui de dentro para buscar... Buscar o quê? A felicidade, talvez, ou dias mais alegres, com mais música, dança e cantoria. Buscar o novo, o desconhecido, cair de cabeça e mergulhar de vez. 

Quero ter minha hora e minha vez, também.

não se trata de entender o ovo, mas de apreciá-lo e senti-lo

domingo, 17 de novembro de 2013

Anaís

Há muito tempo atrás, em uma terra muito distante, um cavaleiro num cavalo negro -- cor da podridão -- lhe roubou os sentimentos todos. Desde então, Anaís dedicava-lhe tudo que sentia: lágrimas incessáveis, sorrisos, suspiros, ódios, raivas, artes.

Anaís senta e conta todas as faces, as fitas duplas-faces de quem lhe roubou o coração, e ama a mais bonita.

Não o conhece. Só o sente, e sentir cansa. Anaís se sente fisicamente exausta de dedicar toda a sua energia para alguém que cavalga para longe com tanta constância, sem se dar ao trabalho de voltar alguma vez, ou de mandar lembranças, ou de acenar-lhe o lenço branco.

Anaís não o persegue. Fica quieta no seu canto, esperando... alguma coisa. Só quer ver alguma reação, mas não irá provocá-la. Não quer se cansar mais. Anaís deseja nunca ter conhecido-o, ou nunca ter se fascinado pelo seu elmo dourado e pelo seu cuidado para com os habitantes da vila. Deseja nunca ter cruzado seu caminho com o dele; como estaria sua vida agora? Seria ela feliz? O que ocuparia os seus pensamentos, dia após dia? Teria mais medo de doer?

Esperando.

No alto de uma montanha, Anaís está enfadonha e desiste. Não quer mais.

Olha para cima, estala os dedos e vira anjo da guarda.

existem tantos dias feios aí pelo mundo ao redor; temos de saber aproveitar os bonitos

terça-feira, 22 de outubro de 2013

sinastria




Os últimos meses foram de seca: seca braba, que dá moleza, preguiça, incapacidade de produzir. Foram de seca intelectual - quando a inspiração seca, a vontade de inexistir vem junto. Como viver sem inspiração, a única escapatória desse mundo mecânico e burocrático?

E aí que te vi, menino, e você era uma coisa louca. De início, assim, te vi e achei que não se interessaria por mim. Quebrando todas as minhas expectativas (um padrão que viria a se repetir, mal sabia eu), você veio, sentou ao meu lado, manso, me pediu cigarros e isqueiro. Prontamente, gentil e pisciana, os estendi.

- Qual seu signo?
- Peixes, ascendente libra, lua em peixes.
- Meu Deus!
- É, eu choro.
- Você chora. Você sofre por amor, também?

Descubro que você tem três ou quatro planetas em Escorpião. Tenho idéias. Vou te adorando gradativamente - talvez não você, em si, que desconheço, mas a caricatura de si mesmo que você me apresenta. Acho que esse sábado de conexões astrais se deu por pura sorte, ou destino, ou coincidência. Lugar certo na hora certa.

Você fala que eu pareço a menina bonita de "(500) Dias com Ela", e agradeço: polida, desconfiada - feliz. Ao mesmo tempo em que é gentil e escancara para mim uma risada boa, bonita, gostosa, me diz loucuras: em um mês, fará uma apresentação de bolero. E me quer lá, em cima do palco, porque você dedicará uma música para mim. Não acredito muito quando acordo no dia seguinte, mas mesmo assim dou risada da sua espontaneidade - quem diz essas coisas, assim, do nada, na primeira noite?

Semanas depois, descubro que você sentiu minha falta durante a referida apresentação. Fico envergonhada por achar que você seria como os outros seres desse cerrado seco e torto; desculpe-me. É que até conhecer você, eu não sabia que existiam pessoas que falavam loucuras e as cumpriam: dei uma puta sorte quando te conheci, e nem soube disso. Por sinal, não te contei ainda, mas é você quem vai fazer minha tatuagem do símbolo de peixes comigo.

A décima segunda badalada me chama, e me despeço de você estendendo a mão que você beija com malícia.

Até.

você afasta meu cabelo e canta nos meus ouvidos: "I put a spell on you because you're mine..."
sou sua, sim; sempre que nos encontrarmos

domingo, 20 de outubro de 2013

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

eu: extensão de você

O retrato que alegra meus dias olha para mim, belo e iluminado. Reconheço nos seus olhos cor-de-mar os mesmos conflitos e desesperos meus. Da mesma forma que meu riso escancarado reflete nossa sinastria: se os sentimentos fossem mensuráveis, daria para medir o tanto que eu gosto de você só pelo tamanho do meu sorriso.

Pode ser que, com o passar do tempo, eu me canse de afagar suas inseguranças desconexas e absurdas. Obviamente não deixarei de fazê-lo: te consolar e cuidar, extensão do meu ser, são formas de me importar comigo, também.

Gostaria de passar meus dias a fio expondo amarguras e discutindo filosofia para com você. Interiormente, creio que essa seja minha verdadeira vocação. Também estarei aqui para te desejar saúde em resposta aos seus espirros constantes e para rir da sua mania de me pedir uma caneta emprestada nos primeiros cinco minutos de aula e só jogá-la na minha mesa depois do sino de término.

Pode até ser que Lewis Carroll não tivesse você em mente quando escreveu sua obra-prima. Peço-lhe perdão: tenho muito mais certeza nas maravilhas criadas por você do que nas por ele.

(para A.C)

domingo, 22 de setembro de 2013

diálogos V


- Por que você é tão quietinha?
- Eu observo muito... E estou cansada. - Cansada de que? - Fazendo cursinho três vezes por semana, estudando, e emocionalmente cansada. - Emocionalmente cansada? Você está triste? - Hummm. Não. - Frustrada? - Isso. - Com homens? - Sim. - Mulheres? - Não, as mulheres não me frustram. - Você me acha atraente? - Sim. - Você tem namorado? - Não. - Você me beijaria? - Sim. - Existe algum motivo para você não me beijar? - Não.

(...)
- Só não vou fazer isso agora porque estou dirigindo. Você espera? - Eu acho que aguento.

domingo, 15 de setembro de 2013

diálogos IV

- Acho que vou virar fumante, mesmo. Passar a comprar meus próprios maços e tal.
- Mas por quê? Não faz isso, não.
- Ah, porque eu tenho esse sentimento dentro de mim que me dá vontade de fumar.
- Eu também tenho. Chama-se tabagismo.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

fragmento

A pressa me consome de dento pra fora. Aguardo ansiosa pelo dia em que definharei de vez, cansada de esperar, de olhos fundos e inchados, e cairei dura e morta no chão. Não me sinto abrigada porque ninguém conhece a dor de esperar por toda a eternidade por algo que não vem. Eu queria um problema grande, diferente, qualquer um.

 qualquer coisa pra tirar minha cabeça de você

terça-feira, 6 de agosto de 2013

vamos?

Era noite qualquer -- preenchia meus vazios de forma etílica. Transpirava e enxergava tal como bebi.

E você veio, de músculos discretos e olhos incríveis, aqueles seus olhos incrivelmente azuis. Saiu comigo de braços dados, flanando pelas ruas. Você me levou a mil lugares: ao banheiro, à escada e ao paraíso.

Desatados das amarras do superego, somos puro id - ids puros, movidos pelo princípio do prazer, instinto e libido.

Sua boca no meu pescoço, seus dedos entrelaçando meus cabelos, você apoiando firmemente as duas mãos nos meus ombros. Me faz elogios bonitos, eleva minha estima, me enlouquece. Me morde, me arranha, me molha; não pensar me faz quase tão bem quanto te faz -- encantado por não estar racionalizando, você deixa as coisas fluírem na maior naturalidade (socialmente?) permitida.

Por fim, quem racionalizou fui eu. Como a Cinderela depois das doze badaladas, tive que ir embora correndo. Você me encaminha para a minha abóbora, guiada por um cocheiro para lá de idoso, não sem antes rir de mim e se despedir sem intimidade.

Por fim, deixei contigo minha vontade de repetir no formato de um sapatinho de cristal.

Devolva-me

quarta-feira, 17 de julho de 2013

insônia

Acordo, levanto, tiro o celular da tomada: 03h52, em ponto. Frustrada, viro, reviro, mexo, remexo, mudo de posição na cama. Troco o travesseiro de lado, pedindo que Morfeu me possua. Nada acontece: definitivamente, acordei -- o Sol ainda não, mas eu sim.

Levanto.

- Mãe, tô entediada.
- Eu também.
- Tô acordada desde às 4h da manhã.
- Eu também.
- Acho que é um sinal do Universo quando nossa insônia sincroniza, mainha.
- Eu também.

Pego os fones de ouvido. Beatles. "Muito criativo e surpreendente", você pensa.
Faço café. Se não consigo dormir, ao menos desperto de vez.

(Mas não funciona, porque eu sou resistente à cafeína e já sabia disso quando coloquei a água no fogo)

Eita, caralho.

Definitivamente, desaprendi a escrever

segunda-feira, 24 de junho de 2013

fragmento

Todo bom candango ou boa candaga sabe: não chove em junho. Faz um frio desgramado, o céu acinzenta de ameaça - mas chover, mesmo, não chove. Nem água do céu cai em forma de chuvisco.

Junho é sempre assim: meu eterno chove, mas não molha.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Poeminha feminista

A palavra me permite
Que eu grite com sonoridade:
"Cadela!":
Tu és a vadia
Mais bonita da cidade

sábado, 8 de junho de 2013

Diversão sinestésica

O ensaísta Tales Ab'Sáber é articulado ao caracterizar o universo das baladas frequentadas por jovens nos dias atuais. No entanto, é pouco minucioso e comete equívocos ao falar, por exemplo, de uniformidade cultural - inexistente no Brasil e no mundo.

Uma balada pode ser descrita como desde um ambiente fechado e equipado no centro de Buenos Aires até como um baile funk situado na favela da Rocinha, frequentados por grupos sociais distintos, se não opostos. Esses grupos diversificados e abrangentes vão à balada porque ela cumpre muito bem o que se propõe a fazer: festa.

Ab'Saber está certo em classificar as boates como dispositivos para a gestão do prazer, mas se equivoca ao tentar racionalizar os motivos que as fazem ser frequentadas. Buscar festejos e prazer são atos intrínsecos à natureza humana (e avistados desde as celebrações mitológicas feitas por Baco), e não apenas associados à propaganda.

O ensaísta não poderia estar mais enganado ao dizer que a música perdeu a importância em detrimento da pirotecnia. A tecnologia nos permitiu fazer um espetáculo sensorial que agrega sensações táteis à visão e à audição musical.

As baladas, portanto, configuram um universo de entretenimento sinestésico, bastante atraente para os jovens na atualidade.

sábado, 18 de maio de 2013

código de barras

O bolo não é meu e nunca foi; fico triste por ter tido tanta vontade de comê-lo e nenhuma oportunidade. É triste que as coisas sejam assim, todas com prazo de validade. É importante, também, que eu me lembre que não devo comer nada vencido para não ter dor de barriga depois. Claro que às vezes a gente se engana e pega algo que estava na geladeira há anos, mas esse tipo de ação configura um erro - e a gente cresce para parar de errar, ou pelo menos para cometer erros mais sofisticados.

Então foi isso: um dia, abri a geladeira e vi que uma gata verde já tinha comido o meu bolo. Na verdade, não teve essa importância toda; só foi frustrante. Peguei os ovos e os arremessei na parede. Indescritível prazer que senti ao ver as gemas amarelas escorrendo pela tinta branca e ao sentir o cheiro fétido de ovos crus invadindo a cozinha. Enquanto atirava os doze ovos, um a um, pensava nos versos tórridos de Gregório de Matos, alternando com os doces Segredos guardados por Casimiro de Abreu, sentindo falta da alegre Ciranda de Drummond. Por fim, os ovos jaziam estilhaçados no piso azulejado da cozinha - eu também jazia, estilhaçada dentro de mim, exausta porém feliz.

Têm erros que temos de cometer só para termos a certeza confirmativa de que são erros. Minha vontade deste bolo, creio, foi uma delas.


Não há nada mais a fazer além de me conformar e comer um biscoito.

domingo, 28 de abril de 2013

quinta-feira, 11 de abril de 2013

aos meus amores de transporte público


João entra no metrô com a pasta preta de couro em uma mão, terno e gravata. Advogado, menos de trinta anos, bonito, solteiro.


Com a papelada burocrática dentro da pasta, ele parece um chato quadrado de escritório. E talvez ele seja - naquela segunda-feira ressaquenta, ele nada mais é do que um chato, mal-humorado com dor de cabeça e boca seca.

Os pontos passam; desce gente, entra gente, João pensa em dormir, a senhorinha do banco ao lado pergunta as horas.

Com uma freada brusca, João sente-se desperto. O que se segue acontece demasiado rápido, e pode ser resumido assim:

João viu uma moça.

Estava em pé, apoiada na barra de ferro do metrô. Relaxada, cabelos compridos e volumosos, cheios e cheios de cachos, modam-lhe o rosto redondo.

A moça vê João, também. E os dois se encaram, os gigantescos olhos castanhos amêndoa dela refletidos nos dele. Ele morde os lábios de nervoso, ela ri.

Impressionantemente, a Moça do Metrô parece ter uma ligação espiritual, mental e física (sim, física, claro, com aquele vestido rodado e aquelas pernas, como não ter?) com João maior do que todas as suas ex-namoradas, amigas e ficantes juntas. Os movimentos parecem tão em sincronia, os olhos olhando interminavelmente, os dois se encarando como quem diz "e aí? Não vai vir me dar oi?". Um espelho na frente de João, é isso!, como se ele tirasse seu livro favorito de dentro da mochila e a moça lhe espelhasse o mesmo livro, mostrando uma das infinitas coincidências que os dois partilham.

A Moça tem sorriso bonito, João passa a mão no cabelo loiro, a estação dele está chegando. Ele entra em pânico e olha para a porta, apreensivo. A Moça percebe, claro; pisca um dos olhos, como quem diz "fica tranquilo, rapaz, um dia a gente se esbarra por aí na rua". Inexplicavelmente, ela vira o rosto para outras coisas, cessando a troca de olhares.

João sente uma parte do seu coração sair pela boca quando o metrô chega na estação. Dá um sorriso triste, sem graça, e acena para a Moça, como quem dá adeus; em retribuição, ela joga um beijo para o ar, o mais gostoso que ele já recebeu.

Ele desce; esquecem-se, mas por vezes pensam um no outro.
Talvez cheguem a se encontrar, talvez não.

Nas madrugadas insones, João confecciona um cartaz de Procurada da Moça do Metrô. Ele inclusive oferece recompensa por mais um encontro, talvez em meio a xícaras de café.

Suspira.


procuro um amor perdido e nunca encontrado

terça-feira, 9 de abril de 2013

liberdade


Um dia eu tava na praia peneirando a areia insistentemente, vieram me perguntar: o que você procura na areia? Eu disse: 
- Eu procuro a outra parte de mim que perdi.
- Mas você não vai achar nada aí, sua boba!
Então eu respondi, sorrindo: 
- Eu já procurei o meu amor em tantos lugares... NÃO CUSTA NADA PROCURAR AQUI!
(Zoé, Antes da coisa toda começar)


Estou te procurando, não que você tenha me dito que estaria aqui, mas saí batendo pernas por aí, comecei a entrar em livrarias, te procurar dentro dos livros de auto-ajuda, dos vinis velhos e esquecidos.
Estou te procurando mesmo que você tivesse pedido para eu não te achar, então subo e desço as escadas insistentemente, confiando na sorte de você aparecer magicamente em um dos dois andares. Subo as escadas e dou meia-volta, só para descê-las de novo: você não está lá.
Desisto dos andares, começo a andar em círculos, insistentemente, rápida, frenética, te caçando no reflexo das vidraças, embaixo dos móveis, dentro das latas de leite condensado.
Me descabelo, meu coração bate mais forte, sinto um leve desespero; não te acho, não te encontro, você se escondeu de propósito só para me ver desse jeito... E eu deveria ter te ouvido, eu deveria ter desaparecido quando você pediu.
Meus olhos se enchem da água, e eu me conformo com o seu truque de mágica de mau-gosto.

Procura-se um amor, há anos desaparecido, nunca encontrado.

cadê você

quinta-feira, 4 de abril de 2013

nada

"Nada", por Gustavo Loureiro
Aos poucos, me conformo que, por tentar tratar as pessoas bem e com carinho, não significa que sou merecedora da recíproca. E hoje, refletindo entre os números que eu deveria dominar, percebo: perdi algo em mim. 

terça-feira, 26 de março de 2013

as estações

       Eu me perguntava até que ponto era aquilo tudo verdade, até que ponto você realmente quis dizer aquilo que eu interpretei. Você se afastava, assim, de acordo com as estações: aparecia sempre na primavera, depois sumia até o final do outono. Me deixava sozinha no inverno, imagino que desaparecido para se aquecer em outros corpos. Eu ficava sozinha, sim, mas nunca deixava de sentir falta do seu calor.

       Então veio o verão, não muito ensolarado e também não muito quente. Achei que você viria, parecia claro, óbvio, lógico; você disse que viria e eu acreditei. Simples assim, ingênua assim.

       Em breve, virá outro outono. Enquanto as folhas caem, eu me pergunto o quanto eu gostaria de saber o que te impediu de aparecer e me pegar pela cintura - me pergunto se a verdade não seria tão dolorosa a ponto de ser desnecessária.

       Por fim, peço desculpas pelo drama e exorcismo. Da mesma forma que foi súbito eu ter virado de costas e, ao me desvirar, achar uma gata verde comendo meu pedaço de bolo, todos esses sentimentos ressentidos também são súbitos e efêmeros.

       Afinal, gata verde também sou. E vivo na esperança de achar um vira-latas pior do que você.

"Você disse some
E eu somei
Eu disse some
E você sumiu"

(Marcos Caiado)

quarta-feira, 20 de março de 2013

triciclo


(Para ler ouvindo isso.)


Três pessoas, dois homens e uma mulher, dividem uma noite em um ainda desconhecido apartamento. 

Não foi roubo, nem invasão de propriedade. Era como a cena final de um filme, uma casa escura e de porta escancarada, aberta no meio da praia, um dia de tempo feio de céu cinzento. Usaram a casa, velha e esquecida, comida pelos cupins até, para satisfazer as urgências do triciclo.

Tríade, trinômio, trindade, trímero, triângulo, tribo.

Os três se amam e por isso odeiam um ao outro. Estão em constante competição um pelo outro, atos de egoísmo sem fim, nada a ver com aquele amor-utópico-altruísta-biblíco. Estão em constante provação para si próprios e para o mundo. Sentimentos que corroem, de querer bem mas querer um, de querer satisfazer os desejos e inflar o próprio ego, rejeição à ideia de acabar sozinho. Tudo se confunde: um é um, mas também são os outros.

- No final, tudo isso aqui é necessidade - pensa Egoísta, a menina com os olhos castanhos naturalmente arregalados divagando pelo quarto, pelas cortinas, enquanto um deles chega, cabra manso, por trás. - Desejo individual de seduzir um deles, sentimento que corrói, ansiedade e insegurança... Mas urgências satisfeitas, sempre, e uma filosofia de amor livre poligâmico tão boa e tão difícil de rejeitar, sempre pelo menos um apoiado no ombro para ouvir os lamúrios...

O primeiro homem segue seu senso altruísta de dar prazer aos próximos. Termina, satisfeito consigo mesmo, se sentindo bem, de ego inflado. Beija o rapaz que logo sai para o banho, a moça ajoelha. Ele põe as mãos por trás da cabeça. Ele, Desejo, gosta do flerte, do preliminar, da atenção em dobro, de satisfazer em dobro.

Diante de brigas e pressões, queriam definir a relação. Discussões, choros incessantes. Acabam ali, esparramados, na casa, vazia, sozinhos e à sós. Se viram aqui pois a idéia de acabar em três era ruim, mas não era pior do que acabar sozinho.

O segundo homem, Carência, sai do chuveiro, após, e vê a moça e o primeiro homem na cama, se fitando, os olhos castanhos dela refletindo no verde esmeralda do dele. Parece amor, paixão, carinho, cumplicidade, e o segundo homem sente-se roda da frente do triciclo, abandonada, e teme. Quer continuar fazendo parte do triângulo. "Quero que o triângulo represente o tripé, apoio dos três lados, as três pontas firmes fincando no chão mutuamente. Não quero ver um triângulo não-triângulo, que seriam duas pessoas sendo felizes enquanto eu olho de fora. O complicado é que, se por um lado o três signifique ter duas opções, por outro ele significa a real e constante possibilidade de ser a ponta solta do triângulo, de se acabar sozinho.".


Mal sabem que tudo pode ser e deve ser o que se quiser: não tem que fazer nada - basta ser o que se é.

segunda-feira, 18 de março de 2013

poeminha III

Minhas mãos
Honestas e cruas
Feitas e brutas
Partem na busca
Intermitente
Por alguém
Inexistente

sábado, 9 de março de 2013

sábado, 2 de março de 2013

poeminha II


Por trás dos seus ombros
O mundo se esvaía
Sem fim
E eu só queria
Você feliz
Por fim

alto mar

Estou na jangada. Remo. De início, remar não é desconfortável nem difícil: é só ignorar quando o remo se torna pesado e continuar. Espero bobamente por aquela ilha deserta e paradisíaca. Não a enxergo, mas continuo remando - a Esperança, tola, nos entrega um mundo cheio de possibilidades, faz querer o inalcançável e enxergar miragens.
Remo.
Passam-se dias que se convertem em anos, o primeiro trio. Cansei, estou exausta, não quero mais remar, não sei nem por que diabos entrei nessa jangada em primeiro lugar, meus braços estão musculosos e minhas pernas, atrofiadas.
Mas continuo remando, por puro esforço, porque morrer na praia (de novo) não me parece são.

De repente, uma emoção diferente do cansaço, da fúria e das lágrimas.
Um dilema.

Olho para o lado e vejo um pedaço de terra, não muito longe de onde estou, mas também não muito confortável que a jangada onde passei os últimos dois anos. Sei que é terra firme. Também sei que não mereço isso depois de três anos remando exaustivamente e me deparando com as mais tenebrosas situações em alto-mar.
Do outro lado, bem ao longe, algo que ia me levar mais de mês, vejo uma ilha paradisíaca, ensolarada, onde as ondas vão beijar a praia - aquela ilha é meu merecido descanso, mas põe meu esforço em teste. Mais.
Também tenho certeza que, assim que pisar em terra-firme, viverei meus anos restantes e morrerei lá. Minha escolha, portanto, é definitiva - me entrego à fadiga na terrinha ou recompenso, de fato, meu esforço na ilha?

O que eu faço?
E o que você faria?

sábado, 23 de fevereiro de 2013

poeminha

Contando o tempo
Em objetos
Minha cartela de pílula
Meu saldo de créditos
"Espera que ela vem",
Eu me engano

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Helter e Zoé

Escuto passos de salto alto; um vulto fecha a persiana e deixa o quarto escuro, mais agradável para a minha dor de cabeça e para o meu sono. Consigo sentir o perfume de Zoé, esparramada no sofá ao lado, provavelmente no décimo quinto sono.
Volto a dormir.
Acordo algumas horas depois, Zoé já de pé colocando café na minha xícara, o sorriso habitual no rosto. Ela começa a falar horrores, gesticulando, e minha cabeça lateja; não escuto direito, mas murmuro afirmativamente com os olhos fechados. Escuto ela saindo da sala e aproveito para sentar no sofá onde dormi e desembaraçar os fios vermelhos com os dedos. Sinto a cabeça latejar enquanto bebo meu café preto e quente.
Começo a acordar quando Zoé volta para a sala. Sorrio e nos abraçamos.
- Você escutou alguma coisa que eu disse?
- Não, não mesmo. O que foi?
- A Marina saiu para uma entrevista de emprego.
Levo um susto bom. Zoé, a beleza óbvia e não-convencional de seus vinte-e-tantos-trinta-e-poucos anos me olha e sorri.
- Onde? Ela é formada em Letras, certo?
- Isso, ela foi falar com o dono de uma companhia de Inglês.
- Entendi. E você não vai trabalhar?
- Hoje só chego na Agência às 14h. - responde Zoé. - Tenho umas horas.
Noite passada, arrastei Zoé para um dos meus "shows": eu cantando, algum músico da casa tocando violão acústico. Foi em um bar não muito chique e não muito caro, e a apresentei para todo mundo assim que terminei de cantar. Zoé se enturma bem e fácil como eu; nos divertimos muito entre licores, luzes, barulho de copos e pessoas. Sei que, eventualmente, Zoé entrou no carro com um dos meus amigos e eu ri - porque era tão adolescente, não-sofisticado e divertido - e conversei com meus outros homens, todos de carnavais passados.
Entre beijos, abraços e mãos, Zoé me aparece e fomos beber.
Licores.
Caipirinhas.
Cervejas.
Uísques.
Martínis.
Até agora não entendi como ela conseguiu acordar, se levantar, ir até a cozinha, fazer café e ainda por cima me servir.
Ela senta no sofá por um tempo e conversamos; sobre a vida, sobre trabalho, sobre os homens e as experiências. Ela me pergunta sobre casamentos e namorados, e eu rio; aos vinte e cinco anos, não vejo como qualquer outra resposta para esse tipo de pergunta pode ser sensata. Pergunto a ela o contrário e ela, geminiana blasé, faz um gesto de descaso com as mãos e mostra desinteresse. Zoé é assim com muitas coisas, mas também é divertida, inteligente, articulada e bondosa.
Reclamo da ressaca e ela me oferece um copo gigante de água com um comprimido. Tomo do jeito que ela manda e fecho os olhos por alguns minutos.
E acontece que os minutos foram horas, e quando acordei o sol já se punha e tinha um bilhete de Zoé dizendo que ela tinha ido trabalhar e que voltaria mais à noite.
Me levanto, desamasso meu vestido e calço os saltos altos. No banheiro, limpo a maquiagem borrada e a retoco. Grito por Marina e ela não responde. Abro um sorriso caloroso com o fato dela não estar em casa, vomitando em meio ao sangue.
Pego uma caneta e escrevo no verso do bilhete de Zoé:

"Gata,
você vive falando de como meu coração é bom e eu nunca te falei que seu sorriso é bonito. Agradeço os elogios e a estadia breve. Peço desculpas por ir embora sem me despedir. A chama de viver é urgente e meu fogo me chama. Sei que sou volátil e sei que você entende isso melhor do que ninguém. Mas relaxa. Já já apareço de novo, você sabe que sou que nem gata pingada.
Um beijo gordo

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

o sonho

Você veio num sonho.
Gostaria de me estender por mais três parágrafos de introdução-desenvolvimento-conclusão, mas foi isso mesmo. Você veio num sonho, espero que vestido de branco; eventualmente, te dei um tapa dolorido no rosto - não me lembro mais o motivo; acho que foi uma brincadeira que acabou machucando.
Fiquei receosa porque o lugar que você escolheu era uma igrejinha cristã, parecida com um mosteiro, e ri disso.
Me forcei a acordar. Na vida real, você não vem.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pilar e Helter

Helter bateu na porta que Marina abriu logo no final da noite-início da madrugada, muito bem-vestida e incrivelmente linda. Usava um tubinho preto, frente única, bastante auto-consciente do seu próprio corpo e charme. Sorria enquanto cumprimentava Zoé, os olhos verdes de esmeralda brilhando, o cabelo escorrido e vermelho caindo nas costas.
Marina meio que se encolhe e sai da sala nesse momento, dizendo alguma coisa sobre tomar banho e tentar dormir sem remédio. As três damos um tchau-Marina-boa-noite enfático e deixamos que ela se retire.
Zoé serve uma taça com o resto de vinho para Helter; as duas conversam e riem muito.
Conheço Zoé melhor do que conheço Helter: ela está sempre presente nas festas e nos bares das vidas, se mostrando alegre, faladora e engraçada, quando de mau-humor é sarcástica e auto-depreciativa, não do jeito Marina de ser, só ácida, mas sem ferir ninguém.
Helter não costuma aparecer muito. Quando aparece, conquista todas as pessoas em um raio de dez metros com seu carisma e calor. Ela passa essa impressão de ser uma grande provocadora, de chamar a atenção aonde quer que passa e saber disso. Uma das poucas vezes que a vi, ela gritava coisas ao celular. Parecia enfurecida e magoada e saiu da nossa mesa por alguns minutos. Quando voltou, os olhos refletindo verde por causa das lágrimas marejadas, falou:
- Feriram meu ego - e sorriu meio sem-graça pelo canto da boca.
Nas vezes esporádicas que nos vimos depois, ela já sorria bonito com frequência e estava sempre com um rapaz diferente.
- Helter, olha, eu vou deitar porque levanto cedo amanhã. Passa a noite aqui, vou fazer sua cama no sofá.
- Obrigada, Zoé, você ainda está naquela Agência de Comunicação?
- Sim, dirigindo o núcleo impresso.
- Ah. Isso explica o tamanho da sua casa.
Zoé ri com gosto, dá boa-noite e se retira.
Me vejo à sós com Helter e me surpreendo com isso. Nunca conversei muito com ela. Acho que ela também sente o estranhamento, porque abre a boca para falar, desiste, sorri com os lábios para mim e bebe um gole de vinho.
Respiro fundo. Sou reservada mas também sei falar, afinal.
- Bonito seu vestido. Onde você estava?
- No Dandara.
O Dandara é um bar altamente frequentado na cidade.
- Você já foi lá? - ela me pergunta.
- Hum. Não. É um bar gay, não é?
- Esse mesmo. É divertidíssimo, sempre toca músicas ótimas e a comida é gostosa também. Você deveria passar lá!
- Claro, assim que arranjar tempo. Você foi lá com quem?
- Com uma... amiga...
Eu rio de leve.
- Amiga? - Não percebo a dimensão do comentário ao fazê-lo, mas duas mulheres num bar gay e uma delas sendo a Helter...
- Tá, não é exatamente uma amiga. A gente ficou hoje, mas foi só uma vez. Infelizmente. Ela não gosta de mim.
Eu não consigo disfarçar minha cara de surpresa. Imediatamente viro o resto do meu vinho - um gesto estúpido e mal-calculado, que me fez parecer altamente nervosa.
- O que foi? Você é homofóbica? - Helter coloca tanto nojo na palavra "homofóbica" que me sinto envergonhada.
- Não. Claro que não. Eu não vou sair por aí dizendo que gays ou lésbicas não deveriam se casar ou ter filhos, nem sou idiota o suficiente para achar que eles escolheram essa orientação, nem vou bater em gays na rua. Mas... Mas não sei. É diferente. Não é o que eu estou acostumada.
- E com o que você está acostumada?
- Com homens e mulheres juntos.
Uma pausa.
- Casais gays são diferentes para mim. Não é que eu ache errado, é que é fora do tradicional.
Fico com medo da Helter querer ter uma conversa sobre como não é fora do tradicional (e claro que é, se você pensar no sentido da palavra "tradição"), e isso gerar uma discussão argumentativa e... Ah, eu sou advogada. E não costumo trabalhar de graça.
Mas ela não faz isso. Ela sorri abertamente e diz:
- Entendi. Mas você nunca teve curiosidade de saber como é ficar com uma mulher?
Não sei se ela está flertando comigo. Analiso o rosto dela e percebo que não, claro que não, é mais uma pergunta inocente.
- Não. Eu acho que ficaria pensando na minha mãe.
Pausa.
- Isso não era para soar freudiano.
Helter dá uma risada alta e alegre.
- Entendi.
- E eu imaginei que você fosse hétero porque eu sempre te vejo com homens.
- Ah, depende. Vou em fazes. Depende do dia. Essa noite...
E ouvi ela me contando sobre como ela tinha saído com uma menina linda de grandes olhos castanhos, e sobre como em um ponto da conversa ambas já estavam bastante tentadas; sobre como elas riram ao perceber um velho suspeito observando os selinhos risonhos e ébrios das duas; sobre como a conversa foi agradável e a menina estava nervosa.
Helter fala sobre tudo isso com muita naturalidade, ela não tem vergonha de se expôr, ela sabe que é bonita e isso lhe dá confiança. Se existe uma pessoa tranquila e confortável com a própria sexualidade, é ela. Então ela me pergunta algo para o qual eu já tinha percebido a resposta assim que ela entrou na casa:
- Pilar, você acha que a Marina não gosta de mim? Ela nunca fica comigo no mesmo cômodo, acho que nunca trocamos mais de duas frases. Eu ajo com ela do mesmo jeito que ajo com todo mundo - claro que ela não disse isso, mas ela era calorosa, simpática e exibia sua personalidade carismática para todos os outros, e de fato também era assim com Marina - e mesmo assim... Não sei. Você sabe?
Tomo o último gole do vinho.
Respiro fundo.
- Não acho que ela desgoste de você, mas você a intimida.
Ela me olha confusa, os olhos verdes arregalados.
- Você é bonita, segura, confiante, tem uma vida sexual ativa e feliz, não costuma ficar triste, você ganha a vida cantando e isso é o máximo, você é... Ativa. Você faz coisas. E você gosta de si mesma.
Ela começou a entender.
- Você é tudo que a Marina queria ser. 

diálogos

(janeiro de 2012, no carro, pós-.)

- É bom sair com caras que nem você às vezes.
- Como assim, caras que nem eu?
- Sei lá. Você faz parecer que não tem nada de errado comigo.
- Mas o que teria de errado com você?
- (...) Não sei.

(mas se eu soubesse, eu consertava)