terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pilar e Helter

Helter bateu na porta que Marina abriu logo no final da noite-início da madrugada, muito bem-vestida e incrivelmente linda. Usava um tubinho preto, frente única, bastante auto-consciente do seu próprio corpo e charme. Sorria enquanto cumprimentava Zoé, os olhos verdes de esmeralda brilhando, o cabelo escorrido e vermelho caindo nas costas.
Marina meio que se encolhe e sai da sala nesse momento, dizendo alguma coisa sobre tomar banho e tentar dormir sem remédio. As três damos um tchau-Marina-boa-noite enfático e deixamos que ela se retire.
Zoé serve uma taça com o resto de vinho para Helter; as duas conversam e riem muito.
Conheço Zoé melhor do que conheço Helter: ela está sempre presente nas festas e nos bares das vidas, se mostrando alegre, faladora e engraçada, quando de mau-humor é sarcástica e auto-depreciativa, não do jeito Marina de ser, só ácida, mas sem ferir ninguém.
Helter não costuma aparecer muito. Quando aparece, conquista todas as pessoas em um raio de dez metros com seu carisma e calor. Ela passa essa impressão de ser uma grande provocadora, de chamar a atenção aonde quer que passa e saber disso. Uma das poucas vezes que a vi, ela gritava coisas ao celular. Parecia enfurecida e magoada e saiu da nossa mesa por alguns minutos. Quando voltou, os olhos refletindo verde por causa das lágrimas marejadas, falou:
- Feriram meu ego - e sorriu meio sem-graça pelo canto da boca.
Nas vezes esporádicas que nos vimos depois, ela já sorria bonito com frequência e estava sempre com um rapaz diferente.
- Helter, olha, eu vou deitar porque levanto cedo amanhã. Passa a noite aqui, vou fazer sua cama no sofá.
- Obrigada, Zoé, você ainda está naquela Agência de Comunicação?
- Sim, dirigindo o núcleo impresso.
- Ah. Isso explica o tamanho da sua casa.
Zoé ri com gosto, dá boa-noite e se retira.
Me vejo à sós com Helter e me surpreendo com isso. Nunca conversei muito com ela. Acho que ela também sente o estranhamento, porque abre a boca para falar, desiste, sorri com os lábios para mim e bebe um gole de vinho.
Respiro fundo. Sou reservada mas também sei falar, afinal.
- Bonito seu vestido. Onde você estava?
- No Dandara.
O Dandara é um bar altamente frequentado na cidade.
- Você já foi lá? - ela me pergunta.
- Hum. Não. É um bar gay, não é?
- Esse mesmo. É divertidíssimo, sempre toca músicas ótimas e a comida é gostosa também. Você deveria passar lá!
- Claro, assim que arranjar tempo. Você foi lá com quem?
- Com uma... amiga...
Eu rio de leve.
- Amiga? - Não percebo a dimensão do comentário ao fazê-lo, mas duas mulheres num bar gay e uma delas sendo a Helter...
- Tá, não é exatamente uma amiga. A gente ficou hoje, mas foi só uma vez. Infelizmente. Ela não gosta de mim.
Eu não consigo disfarçar minha cara de surpresa. Imediatamente viro o resto do meu vinho - um gesto estúpido e mal-calculado, que me fez parecer altamente nervosa.
- O que foi? Você é homofóbica? - Helter coloca tanto nojo na palavra "homofóbica" que me sinto envergonhada.
- Não. Claro que não. Eu não vou sair por aí dizendo que gays ou lésbicas não deveriam se casar ou ter filhos, nem sou idiota o suficiente para achar que eles escolheram essa orientação, nem vou bater em gays na rua. Mas... Mas não sei. É diferente. Não é o que eu estou acostumada.
- E com o que você está acostumada?
- Com homens e mulheres juntos.
Uma pausa.
- Casais gays são diferentes para mim. Não é que eu ache errado, é que é fora do tradicional.
Fico com medo da Helter querer ter uma conversa sobre como não é fora do tradicional (e claro que é, se você pensar no sentido da palavra "tradição"), e isso gerar uma discussão argumentativa e... Ah, eu sou advogada. E não costumo trabalhar de graça.
Mas ela não faz isso. Ela sorri abertamente e diz:
- Entendi. Mas você nunca teve curiosidade de saber como é ficar com uma mulher?
Não sei se ela está flertando comigo. Analiso o rosto dela e percebo que não, claro que não, é mais uma pergunta inocente.
- Não. Eu acho que ficaria pensando na minha mãe.
Pausa.
- Isso não era para soar freudiano.
Helter dá uma risada alta e alegre.
- Entendi.
- E eu imaginei que você fosse hétero porque eu sempre te vejo com homens.
- Ah, depende. Vou em fazes. Depende do dia. Essa noite...
E ouvi ela me contando sobre como ela tinha saído com uma menina linda de grandes olhos castanhos, e sobre como em um ponto da conversa ambas já estavam bastante tentadas; sobre como elas riram ao perceber um velho suspeito observando os selinhos risonhos e ébrios das duas; sobre como a conversa foi agradável e a menina estava nervosa.
Helter fala sobre tudo isso com muita naturalidade, ela não tem vergonha de se expôr, ela sabe que é bonita e isso lhe dá confiança. Se existe uma pessoa tranquila e confortável com a própria sexualidade, é ela. Então ela me pergunta algo para o qual eu já tinha percebido a resposta assim que ela entrou na casa:
- Pilar, você acha que a Marina não gosta de mim? Ela nunca fica comigo no mesmo cômodo, acho que nunca trocamos mais de duas frases. Eu ajo com ela do mesmo jeito que ajo com todo mundo - claro que ela não disse isso, mas ela era calorosa, simpática e exibia sua personalidade carismática para todos os outros, e de fato também era assim com Marina - e mesmo assim... Não sei. Você sabe?
Tomo o último gole do vinho.
Respiro fundo.
- Não acho que ela desgoste de você, mas você a intimida.
Ela me olha confusa, os olhos verdes arregalados.
- Você é bonita, segura, confiante, tem uma vida sexual ativa e feliz, não costuma ficar triste, você ganha a vida cantando e isso é o máximo, você é... Ativa. Você faz coisas. E você gosta de si mesma.
Ela começou a entender.
- Você é tudo que a Marina queria ser. 

diálogos

(janeiro de 2012, no carro, pós-.)

- É bom sair com caras que nem você às vezes.
- Como assim, caras que nem eu?
- Sei lá. Você faz parecer que não tem nada de errado comigo.
- Mas o que teria de errado com você?
- (...) Não sei.

(mas se eu soubesse, eu consertava)