terça-feira, 26 de março de 2013

as estações

       Eu me perguntava até que ponto era aquilo tudo verdade, até que ponto você realmente quis dizer aquilo que eu interpretei. Você se afastava, assim, de acordo com as estações: aparecia sempre na primavera, depois sumia até o final do outono. Me deixava sozinha no inverno, imagino que desaparecido para se aquecer em outros corpos. Eu ficava sozinha, sim, mas nunca deixava de sentir falta do seu calor.

       Então veio o verão, não muito ensolarado e também não muito quente. Achei que você viria, parecia claro, óbvio, lógico; você disse que viria e eu acreditei. Simples assim, ingênua assim.

       Em breve, virá outro outono. Enquanto as folhas caem, eu me pergunto o quanto eu gostaria de saber o que te impediu de aparecer e me pegar pela cintura - me pergunto se a verdade não seria tão dolorosa a ponto de ser desnecessária.

       Por fim, peço desculpas pelo drama e exorcismo. Da mesma forma que foi súbito eu ter virado de costas e, ao me desvirar, achar uma gata verde comendo meu pedaço de bolo, todos esses sentimentos ressentidos também são súbitos e efêmeros.

       Afinal, gata verde também sou. E vivo na esperança de achar um vira-latas pior do que você.

"Você disse some
E eu somei
Eu disse some
E você sumiu"

(Marcos Caiado)

quarta-feira, 20 de março de 2013

triciclo


(Para ler ouvindo isso.)


Três pessoas, dois homens e uma mulher, dividem uma noite em um ainda desconhecido apartamento. 

Não foi roubo, nem invasão de propriedade. Era como a cena final de um filme, uma casa escura e de porta escancarada, aberta no meio da praia, um dia de tempo feio de céu cinzento. Usaram a casa, velha e esquecida, comida pelos cupins até, para satisfazer as urgências do triciclo.

Tríade, trinômio, trindade, trímero, triângulo, tribo.

Os três se amam e por isso odeiam um ao outro. Estão em constante competição um pelo outro, atos de egoísmo sem fim, nada a ver com aquele amor-utópico-altruísta-biblíco. Estão em constante provação para si próprios e para o mundo. Sentimentos que corroem, de querer bem mas querer um, de querer satisfazer os desejos e inflar o próprio ego, rejeição à ideia de acabar sozinho. Tudo se confunde: um é um, mas também são os outros.

- No final, tudo isso aqui é necessidade - pensa Egoísta, a menina com os olhos castanhos naturalmente arregalados divagando pelo quarto, pelas cortinas, enquanto um deles chega, cabra manso, por trás. - Desejo individual de seduzir um deles, sentimento que corrói, ansiedade e insegurança... Mas urgências satisfeitas, sempre, e uma filosofia de amor livre poligâmico tão boa e tão difícil de rejeitar, sempre pelo menos um apoiado no ombro para ouvir os lamúrios...

O primeiro homem segue seu senso altruísta de dar prazer aos próximos. Termina, satisfeito consigo mesmo, se sentindo bem, de ego inflado. Beija o rapaz que logo sai para o banho, a moça ajoelha. Ele põe as mãos por trás da cabeça. Ele, Desejo, gosta do flerte, do preliminar, da atenção em dobro, de satisfazer em dobro.

Diante de brigas e pressões, queriam definir a relação. Discussões, choros incessantes. Acabam ali, esparramados, na casa, vazia, sozinhos e à sós. Se viram aqui pois a idéia de acabar em três era ruim, mas não era pior do que acabar sozinho.

O segundo homem, Carência, sai do chuveiro, após, e vê a moça e o primeiro homem na cama, se fitando, os olhos castanhos dela refletindo no verde esmeralda do dele. Parece amor, paixão, carinho, cumplicidade, e o segundo homem sente-se roda da frente do triciclo, abandonada, e teme. Quer continuar fazendo parte do triângulo. "Quero que o triângulo represente o tripé, apoio dos três lados, as três pontas firmes fincando no chão mutuamente. Não quero ver um triângulo não-triângulo, que seriam duas pessoas sendo felizes enquanto eu olho de fora. O complicado é que, se por um lado o três signifique ter duas opções, por outro ele significa a real e constante possibilidade de ser a ponta solta do triângulo, de se acabar sozinho.".


Mal sabem que tudo pode ser e deve ser o que se quiser: não tem que fazer nada - basta ser o que se é.

segunda-feira, 18 de março de 2013

poeminha III

Minhas mãos
Honestas e cruas
Feitas e brutas
Partem na busca
Intermitente
Por alguém
Inexistente

sábado, 9 de março de 2013

sábado, 2 de março de 2013

poeminha II


Por trás dos seus ombros
O mundo se esvaía
Sem fim
E eu só queria
Você feliz
Por fim

alto mar

Estou na jangada. Remo. De início, remar não é desconfortável nem difícil: é só ignorar quando o remo se torna pesado e continuar. Espero bobamente por aquela ilha deserta e paradisíaca. Não a enxergo, mas continuo remando - a Esperança, tola, nos entrega um mundo cheio de possibilidades, faz querer o inalcançável e enxergar miragens.
Remo.
Passam-se dias que se convertem em anos, o primeiro trio. Cansei, estou exausta, não quero mais remar, não sei nem por que diabos entrei nessa jangada em primeiro lugar, meus braços estão musculosos e minhas pernas, atrofiadas.
Mas continuo remando, por puro esforço, porque morrer na praia (de novo) não me parece são.

De repente, uma emoção diferente do cansaço, da fúria e das lágrimas.
Um dilema.

Olho para o lado e vejo um pedaço de terra, não muito longe de onde estou, mas também não muito confortável que a jangada onde passei os últimos dois anos. Sei que é terra firme. Também sei que não mereço isso depois de três anos remando exaustivamente e me deparando com as mais tenebrosas situações em alto-mar.
Do outro lado, bem ao longe, algo que ia me levar mais de mês, vejo uma ilha paradisíaca, ensolarada, onde as ondas vão beijar a praia - aquela ilha é meu merecido descanso, mas põe meu esforço em teste. Mais.
Também tenho certeza que, assim que pisar em terra-firme, viverei meus anos restantes e morrerei lá. Minha escolha, portanto, é definitiva - me entrego à fadiga na terrinha ou recompenso, de fato, meu esforço na ilha?

O que eu faço?
E o que você faria?