sábado, 18 de maio de 2013

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O bolo não é meu e nunca foi; fico triste por ter tido tanta vontade de comê-lo e nenhuma oportunidade. É triste que as coisas sejam assim, todas com prazo de validade. É importante, também, que eu me lembre que não devo comer nada vencido para não ter dor de barriga depois. Claro que às vezes a gente se engana e pega algo que estava na geladeira há anos, mas esse tipo de ação configura um erro - e a gente cresce para parar de errar, ou pelo menos para cometer erros mais sofisticados.

Então foi isso: um dia, abri a geladeira e vi que uma gata verde já tinha comido o meu bolo. Na verdade, não teve essa importância toda; só foi frustrante. Peguei os ovos e os arremessei na parede. Indescritível prazer que senti ao ver as gemas amarelas escorrendo pela tinta branca e ao sentir o cheiro fétido de ovos crus invadindo a cozinha. Enquanto atirava os doze ovos, um a um, pensava nos versos tórridos de Gregório de Matos, alternando com os doces Segredos guardados por Casimiro de Abreu, sentindo falta da alegre Ciranda de Drummond. Por fim, os ovos jaziam estilhaçados no piso azulejado da cozinha - eu também jazia, estilhaçada dentro de mim, exausta porém feliz.

Têm erros que temos de cometer só para termos a certeza confirmativa de que são erros. Minha vontade deste bolo, creio, foi uma delas.


Não há nada mais a fazer além de me conformar e comer um biscoito.