sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Carta à Brasília

Suas linhas concretas, apesar de sofisticadas e elegantes, andam me fazendo mal. Não é que eu não goste de morar dentro deste avião, é só que me sufoca, incomoda. Ouvi outro dia que você é uma cidade muito não-humana, e entendi de imediato que expressaram os meus sentimentos sem que eu mesma nem pedisse. Até sua falta de transporte público, veja bem, representa a individualidade que você determina. Os bons-dias de elevador são secos, e, a caminho para a Esplanada dos Ministérios, todo trabalhador de serviço público vai cada qual em seu próprio carro -- não existe ônibus, não existe metrô.

Por essas e outras, acho que todas as relações que você me determina são um tanto quanto frígidas. Claro que dizer que "todas" é uma grande hipérbole, e que às vezes você me proporciona amigos de verdade. Mas, na maioria das vezes, estou rodeada por pessoas que negligenciam os meus sentimentos e conflitos; outras tantas me oferecem a frieza da pele, e apenas a frieza da pele, o que me deixa murcha como os ipês na seca.

Tenho certeza de que todos nós somos sertanejos nesse sertão árido e torto, e que a minha localização geográfica não é diretamente ligada à minha felicidade. Mas sinto que se eu fosse embora para algum lugar ensolarado, com samba todos os dias e cheiro de mar-areia-e-vento, eu seria mais feliz. Algo dentro de mim diz que o Rio é a minha terceira margem; mas sei que não. Eu poderia me contentar em um cruzamento entre o Paraíso e a Liberdade, ou talvez me perder entre os botecos do bairro da Savassi. Acho que me perder vai ser uma ótima forma de me encontrar.

Sou mulher o suficiente para sair daqui de dentro para buscar... Buscar o quê? A felicidade, talvez, ou dias mais alegres, com mais música, dança e cantoria. Buscar o novo, o desconhecido, cair de cabeça e mergulhar de vez. 

Quero ter minha hora e minha vez, também.

não se trata de entender o ovo, mas de apreciá-lo e senti-lo

domingo, 17 de novembro de 2013

Anaís

Há muito tempo atrás, em uma terra muito distante, um cavaleiro num cavalo negro -- cor da podridão -- lhe roubou os sentimentos todos. Desde então, Anaís dedicava-lhe tudo que sentia: lágrimas incessáveis, sorrisos, suspiros, ódios, raivas, artes.

Anaís senta e conta todas as faces, as fitas duplas-faces de quem lhe roubou o coração, e ama a mais bonita.

Não o conhece. Só o sente, e sentir cansa. Anaís se sente fisicamente exausta de dedicar toda a sua energia para alguém que cavalga para longe com tanta constância, sem se dar ao trabalho de voltar alguma vez, ou de mandar lembranças, ou de acenar-lhe o lenço branco.

Anaís não o persegue. Fica quieta no seu canto, esperando... alguma coisa. Só quer ver alguma reação, mas não irá provocá-la. Não quer se cansar mais. Anaís deseja nunca ter conhecido-o, ou nunca ter se fascinado pelo seu elmo dourado e pelo seu cuidado para com os habitantes da vila. Deseja nunca ter cruzado seu caminho com o dele; como estaria sua vida agora? Seria ela feliz? O que ocuparia os seus pensamentos, dia após dia? Teria mais medo de doer?

Esperando.

No alto de uma montanha, Anaís está enfadonha e desiste. Não quer mais.

Olha para cima, estala os dedos e vira anjo da guarda.

existem tantos dias feios aí pelo mundo ao redor; temos de saber aproveitar os bonitos