quarta-feira, 1 de outubro de 2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

o último texto

Deitada na praia, de canga estendida e o sol batendo na pele direito, pronto para transformá-la em morena de mel e pão. Toda vez que ela fecha os olhos, passa os dedos pelo emaranhado de cabelos e a risada dele vem, ecoando bonita e sincera.

Respira e sente o pulmão funcionando, subindo e descendo. Ele chega por trás e lhe arranha a barriga, enquanto ela, sonolenta, sorri sonolenta e joga um beijo para o ar.

Ela pensa; no casamento, em entrar bela e vestida de branco, o brinde, as alianças, a lua de mel em Santorini, as filhas, a rotina; as intermitências do cotidiano e da morte, às vezes sempre à espreita, às vezes pensamento distante que nem existe não mais.

Logo logo, ecoa a voz dele na cabeça, pedindo que ela não se afobe. Ela se chateia por não ser correspondida, mas no fundo se acalenta porque sabe que quer esses pés de centauro firmes no chão, a calma e serenidade, balanço de tranquilo de se levar e viver e deixar-se viver.

E mesmo que eu volte a ter quatorze anos e que eu chore e que você fique confuso, mesmo que uma vez por mês seja pouco, mesmo que você nunca me leve flores no aeroporto, mesmo que tenhamos aí uns 30 kg pra perder, mesmo que você seja meu segundo sagitariano com ascendente em gêmeos e mesmo que eu seja mais engraçada que você e mesmo que você não dê valor às coisas que eu escrevo e mesmo que você defenda sua amiga mesmo quando ela me faz mal e está errada e mesmo que não sejamos Brad e Angelina, mesmo que.

quando você deita no meu colo eu te acolho e você dorme
minha terceira margem não é o Rio -- é você

Rio de Janeiro, 11 de agosto de 2014

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Antes de você ser engolido pelas ondas do mar, você costumava vir. Aparecia vez-em-quando, sempre sorrisos e perfumes. E eu, ingênua e alegre, me arrumava também - ficava bela em todos os lugares que você veria; eram horas e horas de maquilagens, fragrâncias, roupas e sapatos. Claro que a minha vaidade não lhe servia em nada -- como servir se você sempre foi mais brilhante do que eu? Você sempre foi cometa, brilho e faísca, enquanto eu era estrela frígida, miúda e encolhida em um canto invisível do céu. Sempre imaginei que, por isso mesmo, você me deixava intocada.

No começo era engraçado, sabe, toda a vaidade por nada -- me arrumar e gastar batons e rímeis e lindas roupas de baixo para que você nem desse bola, nem prosseguisse com as intenções de aumentar minha chama. Mas depois eu chegava em casa, e era sempre triste, desolada, me sentindo frígida e frágil no meu cantinho invisível do céu. Gostaria que você tivesse me tocado, e nem faço questão e imaginação de como, você poderia deveria ter me tocado nem que fosse para entrar no meu abismo, me deixando aberta e sangrenta, por mais que pudesse ter entrado mais raso também.

E assim se passaram vinte e seis meses, você brilhante e caindo do céu quando lhe convinha para deitar no meu colo e pegar um pouco de tranquilidade serena safada enquanto eu ficava aqui, depois de voltar para casa, sozinha e intocada.

mas isso tudo foi antes de você ser engolido pelas ondas do mar