terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Antes de você ser engolido pelas ondas do mar, você costumava vir. Aparecia vez-em-quando, sempre sorrisos e perfumes. E eu, ingênua e alegre, me arrumava também - ficava bela em todos os lugares que você veria; eram horas e horas de maquilagens, fragrâncias, roupas e sapatos. Claro que a minha vaidade não lhe servia em nada -- como servir se você sempre foi mais brilhante do que eu? Você sempre foi cometa, brilho e faísca, enquanto eu era estrela frígida, miúda e encolhida em um canto invisível do céu. Sempre imaginei que, por isso mesmo, você me deixava intocada.

No começo era engraçado, sabe, toda a vaidade por nada -- me arrumar e gastar batons e rímeis e lindas roupas de baixo para que você nem desse bola, nem prosseguisse com as intenções de aumentar minha chama. Mas depois eu chegava em casa, e era sempre triste, desolada, me sentindo frígida e frágil no meu cantinho invisível do céu. Gostaria que você tivesse me tocado, e nem faço questão e imaginação de como, você poderia deveria ter me tocado nem que fosse para entrar no meu abismo, me deixando aberta e sangrenta, por mais que pudesse ter entrado mais raso também.

E assim se passaram vinte e seis meses, você brilhante e caindo do céu quando lhe convinha para deitar no meu colo e pegar um pouco de tranquilidade serena safada enquanto eu ficava aqui, depois de voltar para casa, sozinha e intocada.

mas isso tudo foi antes de você ser engolido pelas ondas do mar