domingo, 5 de março de 2023

Depois

 Não sou mais a adolescente que sangrava no papel, sem entender o que realmente estavam fazendo com ela; tampouco iludida, criando histórias de amor impossíveis, mas talvez bonitas, que nunca aconteceriam.

Eu vejo tudo com clareza agora. Eu me arrependo, e gostaria de poder pedir perdão a todos que prejudiquei, e fiz sofrer, e traí, e fiz chorar. Tudo que está aqui registrado, pelo menos até Agora, sou eu... Antes. De tantas coisas, e realizações, sessões de terapia e análise, papéis de boba, tudo isso. Não apaga. Mas agora eu entendo a raiz, as duas raízes que no momento vejo como principais (as duas são humanas, mas uma narcisista e repugnante, que só posso esperar que seja punido pela justiça divina, ou até a dos homens, mesmo) de tantos comportamentos autodestrutivos e irresponsáveis; Antes eu era só inconsequente com e inconsciente de mim mesma. De Antes, só sinto falta do idealismo. 

Mas agora é depois. Dizem que o arrependimento sincero eleva nosso espírito ou algo do tipo, não? Espero que sim, para que eu possa me perdoar e seguir existindo sendo eu mesma. Autêntica, espontânea e responsável, também no sentido amplo, de assumir responsabilidades muitas.

Mas sobre o Depois; não quero ficar divagando tanto sobre o antes, agora. Tanta coisa aconteceu Antes. Coisas que eu nem sei se quero expor aqui, assim. Mas foi caótico. E feio. Muitas vezes, baixo. Mas Depois...

Depois, houve paz. Houve tédio, e cumplicidade, e não havia possessividade, nem dramas intermináveis criados por mim ou por ele. Houveram muitos risos, e conversas difíceis, honestas, brutais, até; houveram gatas, as mais lindas do mundo, e móveis novos, e decoração, e tarefas domésticas infinitas. Houve muito trabalho e frustração. Também conquistas. Mas sempre com amizade, respeito, carinho. Na paz. 

Devo explicar o motivo de estar falando no passado. Não é, exatamente, que tudo seja passado. Algumas coisas são presentes, mas está tudo transformado. Agora é a cama meio vazia; a sensação de desamparo; o medo do Pior Cenário Possível; a sensação de três facas cruzando meu coração. Agora, Neste Momento, é saudade precoce. Insegurança. Muito amor e esperança de que Agora seja uma oportunidade para nós, com o Melhor Cenário Possível em mente. Mas é futuro. E futuro-incerteza-medo. Tanta emoção que voltei aqui de novo.

E bem quando eu achava que isto aqui só seria revivido em um futuro bem, bem distante, por arqueólogos da internet.

Espero conseguir ser a minha melhor versão; me frustro ao perceber que os empecilhos são os mesmos que os de Antes. Mas sigo buscando formas de seguir me organizando. E desfrutar da vida e de tantas experimentações possíveis, que de tantas ainda nem sabemos quais são. 

Espero ter você ao meu lado por muito tempo nesta caminhada. 

Talvez eu volte para registrar o Depois que seguir, mas talvez não me inspire tão cedo. Não importa, pois não há público. Me sinto anônima sem divulgação de um URL tão arcaico. Espero que assim seja.

Com carinho,

para L.G.O.S

e para mim, quando for Depois.





segunda-feira, 12 de setembro de 2016

diálogo

Ela, por cima:
- Ridícula
Ele:
- Por quê?
- Já terminei.
Sorri entre a barba, Não acredita.
- Incrível.

ela 
         (claro)

se mantém a postos, nativa de águas altruístas

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

o último texto

Deitada na praia, de canga estendida e o sol batendo na pele direito, pronto para transformá-la em morena de mel e pão. Toda vez que ela fecha os olhos, passa os dedos pelo emaranhado de cabelos e a risada dele vem, ecoando bonita e sincera.

Respira e sente o pulmão funcionando, subindo e descendo. Ele chega por trás e lhe arranha a barriga, enquanto ela, sonolenta, sorri sonolenta e joga um beijo para o ar.

Ela pensa; no casamento, em entrar bela e vestida de branco, o brinde, as alianças, a lua de mel em Santorini, as filhas, a rotina; as intermitências do cotidiano e da morte, às vezes sempre à espreita, às vezes pensamento distante que nem existe não mais.

Logo logo, ecoa a voz dele na cabeça, pedindo que ela não se afobe. Ela se chateia por não ser correspondida, mas no fundo se acalenta porque sabe que quer esses pés de centauro firmes no chão, a calma e serenidade, balanço de tranquilo de se levar e viver e deixar-se viver.

E mesmo que eu volte a ter quatorze anos e que eu chore e que você fique confuso, mesmo que uma vez por mês seja pouco, mesmo que você nunca me leve flores no aeroporto, mesmo que tenhamos aí uns 30 kg pra perder, mesmo que você seja meu segundo sagitariano com ascendente em gêmeos e mesmo que eu seja mais engraçada que você e mesmo que você não dê valor às coisas que eu escrevo e mesmo que você defenda sua amiga mesmo quando ela me faz mal e está errada e mesmo que não sejamos Brad e Angelina, mesmo que.

quando você deita no meu colo eu te acolho e você dorme
minha terceira margem não é o Rio -- é você

Rio de Janeiro, 11 de agosto de 2014

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Antes de você ser engolido pelas ondas do mar, você costumava vir. Aparecia vez-em-quando, sempre sorrisos e perfumes. E eu, ingênua e alegre, me arrumava também - ficava bela em todos os lugares que você veria; eram horas e horas de maquilagens, fragrâncias, roupas e sapatos. Claro que a minha vaidade não lhe servia em nada -- como servir se você sempre foi mais brilhante do que eu? Você sempre foi cometa, brilho e faísca, enquanto eu era estrela frígida, miúda e encolhida em um canto invisível do céu. Sempre imaginei que, por isso mesmo, você me deixava intocada.

No começo era engraçado, sabe, toda a vaidade por nada -- me arrumar e gastar batons e rímeis e lindas roupas de baixo para que você nem desse bola, nem prosseguisse com as intenções de aumentar minha chama. Mas depois eu chegava em casa, e era sempre triste, desolada, me sentindo frígida e frágil no meu cantinho invisível do céu. Gostaria que você tivesse me tocado, e nem faço questão e imaginação de como, você poderia deveria ter me tocado nem que fosse para entrar no meu abismo, me deixando aberta e sangrenta, por mais que pudesse ter entrado mais raso também.

E assim se passaram vinte e seis meses, você brilhante e caindo do céu quando lhe convinha para deitar no meu colo e pegar um pouco de tranquilidade serena safada enquanto eu ficava aqui, depois de voltar para casa, sozinha e intocada.

mas isso tudo foi antes de você ser engolido pelas ondas do mar

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Carta à Brasília

Suas linhas concretas, apesar de sofisticadas e elegantes, andam me fazendo mal. Não é que eu não goste de morar dentro deste avião, é só que me sufoca, incomoda. Ouvi outro dia que você é uma cidade muito não-humana, e entendi de imediato que expressaram os meus sentimentos sem que eu mesma nem pedisse. Até sua falta de transporte público, veja bem, representa a individualidade que você determina. Os bons-dias de elevador são secos, e, a caminho para a Esplanada dos Ministérios, todo trabalhador de serviço público vai cada qual em seu próprio carro -- não existe ônibus, não existe metrô.

Por essas e outras, acho que todas as relações que você me determina são um tanto quanto frígidas. Claro que dizer que "todas" é uma grande hipérbole, e que às vezes você me proporciona amigos de verdade. Mas, na maioria das vezes, estou rodeada por pessoas que negligenciam os meus sentimentos e conflitos; outras tantas me oferecem a frieza da pele, e apenas a frieza da pele, o que me deixa murcha como os ipês na seca.

Tenho certeza de que todos nós somos sertanejos nesse sertão árido e torto, e que a minha localização geográfica não é diretamente ligada à minha felicidade. Mas sinto que se eu fosse embora para algum lugar ensolarado, com samba todos os dias e cheiro de mar-areia-e-vento, eu seria mais feliz. Algo dentro de mim diz que o Rio é a minha terceira margem; mas sei que não. Eu poderia me contentar em um cruzamento entre o Paraíso e a Liberdade, ou talvez me perder entre os botecos do bairro da Savassi. Acho que me perder vai ser uma ótima forma de me encontrar.

Sou mulher o suficiente para sair daqui de dentro para buscar... Buscar o quê? A felicidade, talvez, ou dias mais alegres, com mais música, dança e cantoria. Buscar o novo, o desconhecido, cair de cabeça e mergulhar de vez. 

Quero ter minha hora e minha vez, também.

não se trata de entender o ovo, mas de apreciá-lo e senti-lo

domingo, 17 de novembro de 2013

Anaís

Há muito tempo atrás, em uma terra muito distante, um cavaleiro num cavalo negro -- cor da podridão -- lhe roubou os sentimentos todos. Desde então, Anaís dedicava-lhe tudo que sentia: lágrimas incessáveis, sorrisos, suspiros, ódios, raivas, artes.

Anaís senta e conta todas as faces, as fitas duplas-faces de quem lhe roubou o coração, e ama a mais bonita.

Não o conhece. Só o sente, e sentir cansa. Anaís se sente fisicamente exausta de dedicar toda a sua energia para alguém que cavalga para longe com tanta constância, sem se dar ao trabalho de voltar alguma vez, ou de mandar lembranças, ou de acenar-lhe o lenço branco.

Anaís não o persegue. Fica quieta no seu canto, esperando... alguma coisa. Só quer ver alguma reação, mas não irá provocá-la. Não quer se cansar mais. Anaís deseja nunca ter conhecido-o, ou nunca ter se fascinado pelo seu elmo dourado e pelo seu cuidado para com os habitantes da vila. Deseja nunca ter cruzado seu caminho com o dele; como estaria sua vida agora? Seria ela feliz? O que ocuparia os seus pensamentos, dia após dia? Teria mais medo de doer?

Esperando.

No alto de uma montanha, Anaís está enfadonha e desiste. Não quer mais.

Olha para cima, estala os dedos e vira anjo da guarda.

existem tantos dias feios aí pelo mundo ao redor; temos de saber aproveitar os bonitos