Algumas achavam que ele era um bobo da corte, sempre pronto para debochar de quem passasse. Outros, por sua vez, achavam – e mais corretamente – que ele era só um louco. Louco. Mas eles não reparavam que, justamente por ser louco, esse tipo tinha uma visão ampla da realidade.
Ele chegou, trôpego porém estranhamente compenetrado. A vila toda, uma espécie de Vaticano com cinqüenta habitantes, fingiu não tê-lo visto, por mais que ele chamasse a atenção de todos com seus olhinhos pequenos, os óculos espalhafatosos e os sinos pendurados na roupa.
Subiu no banco e pôs-se a gritar:
- Oh, moças que têm ódio no coração! Busquem o amor, sempre!
As tais moças pararam para ouvi-lo por um instante.
- O ódio é transgressão, caras! Pensem também que se alguém lhes causa tais sentimentos, é porque vocês permitiram.
O Louco lacrimejava, como se achasse a situação inaceitável. Já a platéia de donzelas estava estática, como se tivessem absorvido a idéia. Estavam chocadas, mas não felizes.
Num salto, o Louco pôs-se a pensar. Continuou seu monólogo, por mais que tivesse notado a reação da platéia.
- O que mais me intriga é o ódio pelos homens honestos. Ora, afinal, são homens honestos! Não enganaram a vocês, em momento algum. Se hoje estão com outra pessoa, é porque nunca lhe prometeram nada. Se hoje estão com outra pessoa é por questão de afinidade! Sejam altruístas, desejem-lhes luz e amor, e depois superem a perda. E fiquem tranqüilas, porque, como me disse uma senhora de olhos puxados e pulseiras de Bangladesh, as pedras se encontram. Para quê nutrir tal sentimento como ódio por alguém que teve papel especial e lisonjeiro em suas vidas, ou para quê nutrir ódio de uma criança, simplesmente?
O Louco ria, agora.
- É mais do que fácil abster-se da culpa pela própria entrega e vulnerabilidade, não é? Só não é mais fácil que iludir-se, achando que iria curá-lo de outra pessoa, ou achando que viria a partilhar uma eternidade com o Homem Honesto que, com tremenda sinceridade, sempre deixou claro que não seria o caso!
A platéia, agora, borbulhava de raiva. Havia sido forçada a encarar a realidade, mas pôr um pano sobre os olhos era tão mais simples...
- Cegas! Todas cegas! – exclamou o Louco.
E, do mesmo jeito que entrou, saiu. Cantarolava:
- “Eu sou rapaz direito, fui escolhido pela menina mais bonita”...