Ana estava estirada no sofá, tomando um café. Parecia frustrada com o rumo que as coisas {não} haviam tomado recentemente.
Tinha 20 anos e era virgem – e não gostava da idéia. Tinha ascendente em escorpião, mas na verdade era capricorniana. Evidente que seu mapa astral era o problema.
Aos 18, estava buscando nos contos de desespero achar o amor da sua vida. Resolveu mudar seu estereótipo de boazinha que nunca teve um namorado. Fez as malas, comprou uma passagem só de ida pela Europa e lá se foi.
Tudo começou quando entrou na faculdade. Passou a freqüentar os bares com a turma feminina, em meio à boemia, as conversas sempre acabavam girando em torno de uma só coisa: homens.
Ela ficava sempre como ouvinte e, raramente, quando pediam sua opinião, inventava um ou outro detalhe visto nos filmes do Almodóvar.
Passou um ano na Europa. Teve uma estadia fantástica nos seis países em que ficou. Conheceu três caras que poderiam ter sido o seu primeiro.
O primeiro possível candidato a desvirginá-la era Calisto, da Grécia. Calisto era bonito; fazia Ana rir; levou-a para conhecer a parte histórica de Atenas. Ana estava adorando tudo: era o primeiro país no qual fora e parecia estar perto do seu objetivo.
Um mês e meio depois de flertes e beijos escondidos, Ana foi à casa de Calisto – e descobriu que ele tinha um defeito que ela não poderia curar.
Chamava-se Sofia.
Ela entrou repentinamente no quarto enquanto Calisto estava com as mãos quentes nas zonas úmidas de Ana. Começou a proferir xingamentos gregos, mas quando começou a agredir o marido com uma vassoura, Ana achou melhor ir embora.
Foi para a Escócia 15 dias depois, e tudo que conseguiu lá foi ter certeza de que o monstro do Lago Ness não existia.
De lá foi para a França – onde tudo que conseguiu foi trocar beijos um tal de Jean. Ou seria Jacques? Não se lembrava mais; não acrescentara nada.
Quando foi para a Itália, estava desanimando. Foi quando, de repente, esbarrou com Fabrizio na frente da Torre de Pisa. Ele quebrou sua máquina fotográfica e pediu “perdono” mil vezes; convidou a máquina digital para um conserto e Ana para um jantar.
Não demorou mais de dez dias, e Ana foi convidada para a cama.
Despir. Tocar. Beijar.
E ele falhou na hora de penetrá-la.
Ana ficou decepcionada, mas manteve a calma e seguiu os conselhos das revistas femininas – manteve a calma, fez ele se deitar e deu-lhe alguns beijos. Fabrizio se trancou no banheiro por alguns minutos. Quando saiu, com os olhos vermelhos, pediu para que Ana saísse da casa.
Os dois nunca mais se viram.
Última parada: Inglaterra. Não muito diferente dos outros lugares: hotel bacana, gente bonita, vários pontos turísticos.
Foi em uma das boates londrinas onde Ana conheceu James. Ele era quinze anos mais velho que ela, separado e sem filhos. Executivo bem-sucedido.
Naquela mesma noite, Ana foi para o apartamento dele.
O mesmo ritual de despir-tocar-beijar aconteceu. Mas dessa vez, Ana chegou a ser penetrada.
E doeu tanto que ela não foi até o final. Permaneceu virgem e resolveu voltar para casa.
Um ano depois, e ela estava estirada no sofá tomando café. Algum mentecapto assoprava vuvuzelas às 21:27 daquele sábado. Sentiu vontade de externar sua raiva por aquela buzina estúpida vendo algo bem violento e cheio de sangue com vingança.
Kill Bill.
Discou o número da locadora que entregava filmes. Pediu os II Volumes de
Kill Bill para rever.
- Em 15 minutos vamos estar entregando, senhora.
- Estaremos. E sou senhorita.
Pausa.
- Em 15 minutos estaremos entregando, senhorita.
- Bem melhor.
Terminou o café, levou a xícara para a pia e olhou-se no espelho: cabelo solto, shortinho jeans, blusa de banda (
The Beatles) e meias. Soprou a franja para cima e foi atender a porta.
O entregador dos filmes era ligeiramente alto e tinha a pele muito branca. Usava barba e seus óculos
vintage eram vermelhos.
Ele olhou para a blusa dela.
- É claro que a pessoa que alugou
Kill Bill dezessete vezes em dois anos é uma fã dos
Beatles.
Ana sorriu, boba.
- Quer entrar para um café?
Ele assentiu com um sorriso à Mona Lisa.
E, naquela noite, Ana perdeu sua virgindade enquanto o estéreo berrava
Helter Skelter.
(Conto baseado na idéia do Gustavo Haeser. Obrigada pela ajudinha extra à Bruna Calland e ao Henrique Gattermeyer).
"Peixes, logo vi, regente Netuno, ah Netuno, cuidado com as ilusões mocinha, profundas e enganosas como o mar que é teu elemento."
(Caio Fernando Abreu)