
Tinha quatro anos, era escorpiana e tinha olhos imensos cor de jabuticaba, a pele morena, a boca desenhadinha, levava os cabelos meio louros presos em marias-chiquinhas: parecia uma boneca. Foi a criança de quem cuidei durante um trabalho voluntário. A pus no colo e, assim que tentei falar com ela, percebi o quanto ela era tímida e insegura. Percebi o quanto ela estava com medo e prestes a chorar. Acalmei-a com a minha voz maternal de contralto ("eu estou aqui pra cuidar de você. Não vou te fazer mal de jeito nenhum. E a gente não vai fazer nada que você não queira, tá bom?"). Ela pareceu menos chorosa.
Perguntei a ela o que ela queria fazer. Ela quis ir ao banheiro. Foi. Perguntei de novo. Ela disse que queria ir no pula-pula, e entrei na fila com ela. Durante a fila, me apontou várias amiguinhas - mas, por algum motivo, ela não conseguiu manter uma conversa com elas durante muito tempo. Durante a fila, percebi que ela não tirava os dedinhos da boca. Estaria ela passando pela fase oral? Aos quatro anos? Já teria a libido fixada?, duvidei.Comia tudo que lhe ofereciam. Foram vários chocolates, um pedaço de bolo, um cachorro quente, dois copos de refrigerante e duas pipocas. Para isso, não se acanhava.
Não estava tímida, também, ao pular no pula-pula. Deu o maior sorriso do mundo enquanto pulava e agarrava minha mão, um sorriso puro, inocente, de quem largava aqueles dolorosos traumas infantis e deixava a timidez e a vergonha de pedir as coisas para se jogar numa brincadeira danada de gostosa.
Queria ter ficado mais marcada na vida de Andressa, queria ter sido (sinceramente) a pessoa que lhe tirou os medos, que lhe encorajou a fazer o que gostava e que a fez não ter medo de conversar com essas pessoas. Pena que uma manhã de sábado é tão pouco para fazer isso.
Andressa, se algum dia alguém te contar que escrevi sobre você, se essa historinha que talvez você nem se recorde mais chegar aos seus ouvidos, só queria te deixar um recado: espero que a pessoa que citei no parágrafo acima tenha aparecido na sua vida. E, de preferência, que essa pessoa seja você mesma.
P.S.: Aos leitores que acompanham, desculpem a falta de atualizações. Só espero que essa pequena crônica tenha lhes soado como o sorriso de Andressa pareceu para mim naquele pula-pula em um sábado ensolarado.
P.P.S.: Obrigada, Julia.





