quinta-feira, 9 de junho de 2011

Gramática

"Adjunto adnominal é uma característica constante.
Predicativo é uma característica variável".



Olha só, eu acho que chegou num ponto que eu não consigo mais separar muito bem semântica de sintaxe. Desculpa, Carol.
Ok, em "a menina bonita", bonita é adjunto. Logo, é constante. Mas isso não necessariamente vai ser pra vida toda, porque as pessoas fazem plástica, põe silicone, botox e fazem cagadas com a própria aparência, né, professora? Além do mais, um dia todo mundo vai ficar velha e enrugada, além do mais de novo isso é bem subjetivo. Eu acho a Angelina gostosa pra caralho, meu namorado jura de pé junto que acha aquele bocão dela esquisito e acha ela uma vara-pau bizarríssima. Pensando bem, eu não devia confiar em um namorado que me diz isso.
"A menina está bonita" pode significar que a menina está mais bonita que o habitual, ela sempre foi bonita e sempre vai ser, por mais que você ou eu ou aquele babaca por quem ela rasgou o próprio coração não ache. Tem alguém por aí que ache (de novo, subjetividade pregando peças). Se a oração estiver falando de um ser humano, tudo fica mais complicado, já reparou? Pois é, os seres humanos são muito loucos, já dizia Freud. Cheio de neuroses e complicações e a porra toda. Acontece. "É" e "está" não são só verbos de ligação, porque o verbo ser transcede tanta coisa e o estar pode ter uma catarse imensa por trás disso tudo! Sempre gostei das aulas da curitibana loira dos olhos azuis azuis que nem diamantes, mas é só que a gramática anda deixando de lado muito da literatura.

Isso me confunde.

domingo, 5 de junho de 2011

Diálogo II

Mês I
- Você está fria.
- Eu sou fria.
- Você não era. Só desde sábado.
- Você não vê o quão difícil é? Cuidar de você, dos meus amigos e de mim?
Dói. Eu não queria estar me sentindo assim, também.
- Você é tudo pra mim! Mas você mudou!
- Não, eu só me dei conta que não sou especial.
- Pra mim você era.
- Era? Era? Você nunca reconheceu nada do que eu faço pra você. Se não está
bom, VAI EMBORA!
Mês II
- Eu sou uma garotinha.
- Não, você é uma garotinha linda. Eu gosto quando você cuida de mim.
- É que é difícil pegar um coração dilacerado e modelar todo de novo. Sabe, meu coração não é feito de massinha.
- Você é linda.
- Você não dilacerou meu coração.
Silêncio. Ela de novo.
- Que tipo de música ela escutava?
- Eu não quero falar dela...
- Mas...
- Por favor. Estou com você. Aceita isso?
- Eu aceito. Eu aceito! Só que... É só curiosidade.
- E isso vai te levar aonde?
- O que? A curiosidade?
- É.
- Sei lá. Só sei que tenho a terceira casa em gêmeos.
- Isso deve explicar alguma coisa.
- Te garanto que explica.
- Explica por que você gosta mais dele que de mim?
- (!) Não gosto!
- Gosta, sim. Eu ando tão inseguro. Acho que você vai me largar. Tenho muito medo de te perder.
- Acho que a gente retrocedeu um pouco depois daquilo. Você anda mais inseguro.
- E mais ciumento.
- Não achei que isso fosse possível.
- Mas é.
- Te amo. E não vou te deixar.
- Tá.
- De verdade. Você é bobo.
- Mas você gosta de mim mesmo eu sendo bobo?
- Eu sou louca por você.
- Sério?
- Sério. Tão louca por você que transformo meu coração em massa de modelar, só pra voltar a ser a garotinha linda pela qual você se apaixonou.

(O ano só tem dois meses).

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Andressa

Tinha quatro anos, era escorpiana e tinha olhos imensos cor de jabuticaba, a pele morena, a boca desenhadinha, levava os cabelos meio louros presos em marias-chiquinhas: parecia uma boneca. Foi a criança de quem cuidei durante um trabalho voluntário. A pus no colo e, assim que tentei falar com ela, percebi o quanto ela era tímida e insegura. Percebi o quanto ela estava com medo e prestes a chorar. Acalmei-a com a minha voz maternal de contralto ("eu estou aqui pra cuidar de você. Não vou te fazer mal de jeito nenhum. E a gente não vai fazer nada que você não queira, tá bom?"). Ela pareceu menos chorosa.
Perguntei a ela o que ela queria fazer. Ela quis ir ao banheiro. Foi. Perguntei de novo. Ela disse que queria ir no pula-pula, e entrei na fila com ela. Durante a fila, me apontou várias amiguinhas - mas, por algum motivo, ela não conseguiu manter uma conversa com elas durante muito tempo. Durante a fila, percebi que ela não tirava os dedinhos da boca. Estaria ela passando pela fase oral? Aos quatro anos? Já teria a libido fixada?, duvidei.
Comia tudo que lhe ofereciam. Foram vários chocolates, um pedaço de bolo, um cachorro quente, dois copos de refrigerante e duas pipocas. Para isso, não se acanhava.
Não estava tímida, também, ao pular no pula-pula. Deu o maior sorriso do mundo enquanto pulava e agarrava minha mão, um sorriso puro, inocente, de quem largava aqueles dolorosos traumas infantis e deixava a timidez e a vergonha de pedir as coisas para se jogar numa brincadeira danada de gostosa.

Queria ter ficado mais marcada na vida de Andressa, queria ter sido (sinceramente) a pessoa que lhe tirou os medos, que lhe encorajou a fazer o que gostava e que a fez não ter medo de conversar com essas pessoas. Pena que uma manhã de sábado é tão pouco para fazer isso.
Andressa, se algum dia alguém te contar que escrevi sobre você, se essa historinha que talvez você nem se recorde mais chegar aos seus ouvidos, só queria te deixar um recado: espero que a pessoa que citei no parágrafo acima tenha aparecido na sua vida. E, de preferência, que essa pessoa seja você mesma.

P.S.: Aos leitores que acompanham, desculpem a falta de atualizações. Só espero que essa pequena crônica tenha lhes soado como o sorriso de Andressa pareceu para mim naquele pula-pula em um sábado ensolarado.
P.P.S.: Obrigada, Julia.

domingo, 1 de maio de 2011

Nonsense

A marca dos meus cílios criou uma estampa, fincada no centro do seu peito. Só posso me aquecer se eu for ao sol. Me metamorfoseio em um lagarto, grande e gordo, me estico, absorvo gota por gota do calor e estamos prontos para mais uma rodada. Amor, pede uma porção de batata frita?, discutimos a relação em um restaurante. Minha garganta inflama. Você pensa absurdos. Os meses passam, continuo ansiando pelas suas mãos inquietas de ascendente em gêmeos. Nada se cria, tudo se transforma. Você grita que estou mentindo. Eu choro. Fazemos as pazes. Durmo aninhada no seu peito. Você continua vidrado nos meus olhos, puxa, que coisa. Nada muda. Mas aquele sábado deu errado (e daí?, forço-me a pensar). Penso em fazer aulas de francês - não, ela falava melhor do que eu. Penso em fazer dança do ventre - não, ela dançava melhor do que eu. Penso em destruir esses ciúmes e essa inveja doentia e sem-sentido do passado e vejo que preciso de ajuda. Vejo que tenho vergonha de pedir ajuda a única pessoa que pode de fato fazer isso passar. Vejo que essa vergonha não tem base alguma, já que decidi há um ano, um mês e vinte e oito dias que essa pessoa seria sempre e para sempre meu melhor amigo e cúmplice. Te peço ajuda. Sôo agressiva. Porra, como sou estúpida. Faz passar, vai, cava um pouquinho até destruir a barreira louca que estou impondo. Isso não faz sentido. Não é para fazer sentido, eu não faço sentido, você não faz sentido, somos pessoas, Freud já dizia que não fazíamos sentidos e Jung provou que é tudo muito louco, você mais do que ninguém devia saber disso.

Que merda, digito esse texto em cinco minutos e já me sinto tão melhor.
Estou perdida, me acha?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Diálogo I


- Me põe no colo?
- Por que eu faria isso?
- Eu estou te pedindo.
- Mas você já está grande o suficiente para...
- Isso não tem nada a ver com tamanho ou idade. Só quero deitar um pouco no seu colo. Deixa?
- (...)
- Ok, esquece.
- Você é um doce. Dá vontade de abraçar.
- (...) Acho que vou indo.
- Claro. Até mais.
- (...)
- (...) Posso só perguntar uma coisa?
- Pode.
- Por que você queria deitar no meu colo?
- Ah, sei lá. Vontade de fechar os olhos por algum tempo.
- Então por que você não vai para casa e dorme na sua cama?
- Porque o calor das suas coxas sempre me aconchegou muito mais. De qualquer forma, já estou indo.
- Ok. (...) Ei! Espera. Deita aqui, eu te aconchego. Cadê você? Volta?

Escuro.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Love Kills

Amores de verdade deixam marcas, de emoção, de incenso, de canivetes, no tronco de uma árvore ou na ponta do meu dedo, quando eu me distraio fazendo um misto quente para você. Amores de verdade são como o nosso, arranhando as paredes do meu coração enquanto você dorme no meu colo durante a exibição d(e um d)o(s) melhor(es) filme(s) do mundo. Amores de verdade acontecem quando você não se importa de ouvir mil vezes que você é bobo. Amores de verdade são percebidos quando conseguimos rir de todos os filmes que vemos juntos (até os de terror). Amores de verdade significam travessuras e risadas em cima de um dever de casa, de um colega de trabalho ou da burocracia. Amores de verdade acontecem quando você confunde minha mão com a sua e tem a impressão de estar usando dois anéis diferentes, quando durmo no seu ombro a caminho do aeroporto ou quando me encosto numa árvore e choramos, juntos, as dores dos planos fracassados. E nos recuperamos, caímos e tentamos tudo de novo, criamos novas expectativas, fazemos novos planos. Vamos nos perder, vamos perder juntos. E confio na sua beleza e serenidade quando você me afirma isso.
E enquanto eu puder me travestir com as suas dores, inseguranças, ciúmes e roupas, continuarei amando.

É assim o amor.