quinta-feira, 29 de março de 2012

Ao meu amor, minha flor, minha menina

Em frente a cachoeira, descansei minha mente num retiro que tentava ser paz mas era puro caos, como uma música barulhenta cheia de guitarras. A moça dos olhões não parava de me perturbar e nem diria que me lembrava dela o tempo todo, porque isso não seria verdade; seus os olhos gigantes e cor de caramelo não saíam da minha cabeça por um segundo sequer; nunca precisei me lembrar de uma coisa que sempre esteve aqui comigo.
Os pássaros cantavam muito mais bonito que qualquer assovio, a luz batia na copa de uma árvore que era maior do que o maior gigante da mitologia obtusa da minha imaginação.
E os olhos cor de caramelo continuavam lá.
Não é que eu quisesse muita coisa; os lírios estavam muito altos e tinham grande probabilidade de não serem tão bonitos ou singelos quanto achei que talvez fossem e, portanto, desisti de escalar a mais alta das colinas para colhê-los. Eu estava feliz comigo só, a lembrança de um sorriso, os olhos cor de caramelo, a textura da grama nas minhas coxas. Meus pés descalçados e sujos, o vento eriçando os pêlos do meu braço e tudo parecia bem.
E se de repente me pousasse uma fada no ombro?, pensei. E então percebi que fada nenhuma passaria muito tempo perto de um homem mortal que nem eu - fada é bicho do ar, gosta de voar por aí, são muito inteligentes para conviver comigo. Tive medo, então, de que me aparecesse um anjo. Se o anjo tenta me levar para o céu, eu até apreciaria o som das harpas e sentaria para conversar um bocadinho com os santos, mas se um anjo tenta me levar para o céu lá se vão meus olhos cor de caramelo e daí subirá no céu um anjo, eu e meu novo melhor amigo Vazio.
Nem o cheiro do mais doce incenso de kiwi substituiria a magia do que era ter o aroma de terpeno invadindo-me os sentidos, o barulho de rio e de cachoeira perto de mim e os peixinhos coloridos nadando em cardume, acrescentando cor e beleza nesse mundo infinito de Deus meu.
Os pássaros cantavam muito mais bonito que qualquer assovio, a luz batia na copa de uma árvore que era maior do que o maior gigante da mitologia tosca da minha imaginação e, ao perceber que mesmo sentindo e reparando tudo isso com visão-audição-tato-e-olfato, os olhos caramelados não saíam de mim, percebi que talvez a plenitude do que é o ser não esteja somente nos cheiros ou nas cores da natureza, que sempre gostei de sentir de corpo e alma. Claramente percebemos que tudo construído ao nosso redor, por Deus ou pelo homem (salvo algumas exceção das construções feitas pelo homem), é o resumo perfeito do que é ser e o oposto do estar, mas o ser humano também tem outro jeito de transceder a natureza e embarcar no mais profundo ser-sentir; o ser está também no amor - tal que sinto ao levar a lembrança daqueles olhos comigo por onde vou e tentar acrescentar um pouco deles em tudo que me cerca.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Momentum

Os bastões se chocam melodiosamente e eu assisto tudo com muita atenção. Sei que isso já era óbvio, mas observando você infelizmente ao fundo, percebo que te quero muito.
O que você faz com seu corpo naquela espécie de palco me encanta. Sua voz forte e grave de homem ressoa pelos meus ouvidos e vez em quando você me olha e não consigo deixar de sorrir. Seus braços se mexem com força, seu tronco é determinado, mas mesmo assim você parece fazer tudo com muita leveza, como se tudo aquilo fosse muito fácil - mas o suor que escorre pela sua testa diz o contrário.
Acho que o mais bonito de tudo é ver como você se entretém e diverte. Por sinal, sua gargalhada é uma delícia.
Não sei o porquê de estar escrevendo isso. Acho que é por ter sentido um carinho sem precedentes por você naquela quarta-feira à noite, e foi tão bonito.
Caso ao longo dos dias esse sentimento se esvaia - talvez em uma mesa de bar, ou em um show com luzes piscantes e música alta, quem sabe - cá está o registro para que você não se esqueça.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O menino da bola murcha

O garoto só quer uma bola para jogar futebol. A sua, murcha, rota e furada já não lhe serve. Ganhou de um outro menino durante uma aposta - nosso rapazinho aqui fez oito gols. O dono original da bola fez cinco. O tal rapazinho levou a bola - agora murcha e sem lá muita utilidade - e fim de papo.
Isso foi há dois anos e agora o brinquedo está sujo, rasgado, é flácido e nem redondo parece mais.
O garoto olha para os céus e reza pedindo uma bola, mas as nuvens parecem dizer que papai do céu está de férias por tempo indeterminado - fez o mundo em seis dias dias, descansou no sétimo e resolveu sair por aí fazendo um tour pelas estrelas e galáxias. O garotinho, quando pensa nessas coisas, quer ser deus. Inveja-o.
Outro dia, uma dona parou em frente ao menino e, com pena dele sozinho e com fome, deu a ele uma espécie de bolo - ele, aos nove anos (dos quais alguns passados em internatos públicos e outros em um orfanato), conseguia juntar as letras A-L-F-A-J-O-R.
O menino achou aquele doce muito gostoso e pensou que aquela dona deveria ter muito dinheiro, mas que devia ser abençoada mesmo assim.
E mesmo com a boca suja de merengue e o estômago tapeado, ele só queria ter amigos com quem dormir em um trapiche que nem no filme que ele viu antes de fugir do orfanato. Seu apelido - claro que assim como Pirulito, Sem Pernas e Gato ele também teria um - poderia ser Bola Murcha, ele não ligaria muito, só queria alguma coisa que o aquecesse e o deixasse feliz e absorvido, alguns amigos com quem aprontar e que pudessem fazer-lhe companhia durante às noites.

E não tem.
Na verdade, muito pelo contrário, falta-lhe até uma bola colorida e cheia.


(Ao bom gosto de J.I)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Tic-tac, tic-tac

O relógio não me deixa esquecer que a cada segundo que a vida me dá eu me sinto mais sua, mais com você, mais sua amiga, mais íntima. A cada segundo que a vida me dá eu tenho mais desejo, mais vontade do seu beijo, mais sede dos livros que você me pede para ler, mais orgulho de ter gostado de filmes que você põe na sua lista de favoritos.
Eu tive uma chance com você, eu podia ter feito tudo direito, eu podia ter acertado... Eu estrago as coisas, tudo que eu construo na minha mente acaba virando pó...
Quero que você saiba que não desisti, que quero sempre ser sua âncora, quem sabe amiga, por vezes confidente, em algumas noites só mais um corpo quente que você quer abraçar simplesmente pela descarga hormonal ou pela companhia, escutarei seus monólogos sobre os grandes pensadores que nunca chegarei a conhecer, me contento em ser sua segunda ou trigésima opção - não me importa, eu só quero você, seguras suas mãos, beijar sua testa, sorrir para os seus comentários eloqüentes ou chorar junto quando você se sentir tão deprimido quanto eu normalmente me sinto.
Tic-tac, tic-tac.
Eternamente sua.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Meias coloridas

Dias em que sofro tanto por não te ter que danço de meias pela casa e não me animo nem desanimo, só me sinto idiota por não saber dançar direito.

Fico em um conflito absurdo, sem saber se te quero na minha frente ou se desejo me esconder atrás dos meus cabelos quando me esbarrar com você na rua.

Por que você faz isso comigo? E como faz isso mesmo sem saber que faz?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

À flor

Prometo que não te encostarei um dedo (e não por falta de vontade), mas se um dia eu tiver a honra de dividir um quarto por uma noite com você, me sentirei o mais feliz e lisonjeado dos seres humanos. Obviamente eu não deixaria escapar algum romantismo inapropriado e tímido, como te levar café da manhã na cama (por sinal, o que você gostaria de comer? Uma omelete, talvez? O café puro e forte eu sei fazer)... E tudo isso porque ficaria feliz demais em te ver desabrochando lá pelo meio da manhã, com sono e com o cabelo descabelado.
A beleza não está onde menos se espera, ainda mais a sua, que é óbvia e transpira.
Você faz isso com as pessoas, lírio, e relendo tudo que já escrevi para você até agora me bateu um desespero e uma vontade de te colocar na minha cama e me deitar no colchão àbaixo. Provavelmente terei insônia imaginando as possibilidades, contando as camadas de tecidos que nos separam, pensando no que diabos fazer para você de café e qual é a bandeja mais bonita para te servir comida logo pela manhã.
Mas, se um dia eu tiver a honra de dividir um quarto por uma noite com você, seu cheiro (o perfume do Boticário, talvez, se você gostar desse tipo de sutileza), invadirá o ar.

E isso será bom...