sábado, 21 de abril de 2012

Um diálogo

- Criei um personagem que, para todos os fins, vou chamar de Príncipe Encantado. Ele sempre vai, valente com sua espada e seu cavalo, matar dragões, destruir bruxas, está sempre por perto para beijar os lábios da princesa de quem tanto gosta e cuida e sabe. Príncipe Encantado não se cansa se cavalgar por dias e noites, no sol ou na chuva, no fogo ou na neve. Ele só quer deixar a princesa bem e salvá-la de todos os perigos. Quer levá-la para um castelo grande a aconchegante, um que tenha lareira para as noites em que ela tenha frio, um que tenha muitos lápis de cor para que os dois desenhem juntos, um lugar onde eles morem, durmam e comam e que possam chamar de "lar". E enfim, depois de vagar por alguns anos em encontro à sua princesa, ele a vê. E é aí que chega o final da história: quando eles se encontram...
Uma pausa longa.
Ele:
- O que acontece no final? Como as coisas ficam quando eles se encontram?
Ela lhe estende uma caneta.
- O final é por sua conta. Escreva-o. Não agüento mais pensar. Faça das minhas personagens o que você quiser.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Eleanor e o perigo

A garota da cabeleira cor de céu tinha um encontro com o perigo.
Seria entre as árvores de um bosque escuro que ela o encontraria hoje. Ele se escondia por trás de panos de um sobretudo escuro que lhe cobria os cabelos louros com seu capuz. O perigo era quieto e falava pouco; era tão frio quanto o vento que invadia o bosque onde os dois se encontravam. Talvez não fosse bem um bosque; era uma mata fechada, tinha grama, o barulho de um rio que desaguava ao longe e árvores altas. Era início de noite e há pouco tinha acontecido o crepúsculo, logo eu não saberia dizer direito.
Ela entra e vê o perigo deitado na grama. Ele também a vê - esguia com curvas sutis. Os cabelos curtos e escorridos, azuis e na altura do queixo, contrapunham-se e muito aos olhos pretos e enigmáticos, sem vida, que ela trazia em seu rosto.
Trocam olhares e ele a puxa pelo braço. Eleanor obedece e o vê enquanto ele tira seu longo sobretudo encapuzado, deixando os cabelos a mostra. Com o canto do olho ela observa como ele está bem vestido, com sua blusa azul marinho de botões, as calças cinzentas e os sapatos limpos e bem conservados.
Eleanor escuta ele tirando as chaves do carro do bolso e o segue até o automóvel. Polidamente, o rapaz abre a porta para a garota e, enquanto ela se senta, ele atira o sobretudo no banco de trás do carro.
Ele se senta ao volante e o mundo parece congelar por alguns segundos. Ele a olha:
- Por que azul?
Ótimo. A primeira frase que ele diz no dia não faz sentido algum.
- Desculpa. Por que o quê azul?
- Seu cabelo.
Ela pensa por um segundo.
- Não sei direito. Me deu vontade, acho.
Ele balança a cabeça em afirmativa, em sinalo de que havia entendido - mesmo que não houvesse muito o quê. Enquanto isso, seus olhos castanhos de tempestade penetram na negridão dos olhos de Eleanor.
"Que olhos intensos, meu Deus". Ela abaixa a cabeça, envergonhada. Ela não costuma estar aberta a pessoas que, como ele, enxergam sua alma sem nem pedir licença.
Ele dá a partida. Ela não sabe para onde será levada, mas tem certeza de que a velocidade do carro é inimaginável e beira o absurdo. Ele fala pouco e dirige muito e muito rápido.
Seus músculos ficam tensos. Eleanor mantém os pés cruzados e encolhidos; ela já esteve mais à vontade.
O perigo - que pode ter um nome comum como João, José ou Pedro - pára em frente a um restaurante e, ao entrar, se transforma.
Eleanor observa como ele sorri para os garçons e conversa normalmente. A intimidade que ele tem com a garçonete que lhes conduz à mesa parece ser maior do que a que ele tem com ela. Eleanor se frustra. Não entende, tudo parece tão confuso. "Ele tem um sorriso tão bonito", ela pensa, vendo-o rir de uma banalidade que foi contada por um conhecido da mesa do lado.
- Não se mova; eu já volto - ele diz.
Ela assente com os olhos e fica surpresa quando ele volta com dois pratos de comida: um para ele, o outro para ela. Pedro não pergunta se ela aceita, só pousa o prato sobre a mesa e lança um olhar a ela - um olhar que ordena: "coma".
O moço louro voltou ao seu estado original
Ela obedece. O perigo costuma deixá-la passiva, obediente. Tem medo de arriscar uma contraposição ou uma revolta verbal e perder a vida em águas profundas ou em montanhas íngremes, difíceis e altas de escalar.
Ela come e é mais indiferente à comida do que gostaria. Termina de jantar e observa-o jantando. Um lampejo de alguma emoção transpassa o rosto de Pedro - ela acha que é vergonha, mas nunca terá certeza.
Nem todo mundo se sente confortável ao ser visto comendo.


Ele abre a porta de casa.
Eleanor está atenta a tudo. A casa do rapaz tem tanto paredes roxas quanto paredes cor de vinho. Uma estante imensa e lotada de livros. Quadros grotescos enfeitam as paredes - um homem gritando; as dores da guerra (e Eleanor repara bem na mulher que chora com o filho morto nos braços); uma caveira, a representação do semblante definitivo da morte.
O que se sucede a seguir é demasiado rápido. Eleanor observava as lâminas das facas quando sentiu duas mãos gélidas em sua cintura. A troca, o deslizar, o suor e os gritos abafados. A concentração dele em algum lugar do infinito; o adentrar.
Eleanor não chega jamais a recuperar a consciência dos acontecimentos dessa noite. Ela se lembra de ter visto o perigo escorrendo-lhe pelos dedos e depois olhando a ela no fundo dos olhos e dizendo um "você tem que ir" alto e claro.
Ela obedece.
A paz a inunda e então ela entende que essa noite eliminou qualquer medo de morrer sozinha na igreja e ser enterrada junto com seu nome.
Ao perigo, que é filho da imprudência com o risco, Eleanor só tem a agradecer.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Ao meu amor, minha flor, minha menina

Em frente a cachoeira, descansei minha mente num retiro que tentava ser paz mas era puro caos, como uma música barulhenta cheia de guitarras. A moça dos olhões não parava de me perturbar e nem diria que me lembrava dela o tempo todo, porque isso não seria verdade; seus os olhos gigantes e cor de caramelo não saíam da minha cabeça por um segundo sequer; nunca precisei me lembrar de uma coisa que sempre esteve aqui comigo.
Os pássaros cantavam muito mais bonito que qualquer assovio, a luz batia na copa de uma árvore que era maior do que o maior gigante da mitologia obtusa da minha imaginação.
E os olhos cor de caramelo continuavam lá.
Não é que eu quisesse muita coisa; os lírios estavam muito altos e tinham grande probabilidade de não serem tão bonitos ou singelos quanto achei que talvez fossem e, portanto, desisti de escalar a mais alta das colinas para colhê-los. Eu estava feliz comigo só, a lembrança de um sorriso, os olhos cor de caramelo, a textura da grama nas minhas coxas. Meus pés descalçados e sujos, o vento eriçando os pêlos do meu braço e tudo parecia bem.
E se de repente me pousasse uma fada no ombro?, pensei. E então percebi que fada nenhuma passaria muito tempo perto de um homem mortal que nem eu - fada é bicho do ar, gosta de voar por aí, são muito inteligentes para conviver comigo. Tive medo, então, de que me aparecesse um anjo. Se o anjo tenta me levar para o céu, eu até apreciaria o som das harpas e sentaria para conversar um bocadinho com os santos, mas se um anjo tenta me levar para o céu lá se vão meus olhos cor de caramelo e daí subirá no céu um anjo, eu e meu novo melhor amigo Vazio.
Nem o cheiro do mais doce incenso de kiwi substituiria a magia do que era ter o aroma de terpeno invadindo-me os sentidos, o barulho de rio e de cachoeira perto de mim e os peixinhos coloridos nadando em cardume, acrescentando cor e beleza nesse mundo infinito de Deus meu.
Os pássaros cantavam muito mais bonito que qualquer assovio, a luz batia na copa de uma árvore que era maior do que o maior gigante da mitologia tosca da minha imaginação e, ao perceber que mesmo sentindo e reparando tudo isso com visão-audição-tato-e-olfato, os olhos caramelados não saíam de mim, percebi que talvez a plenitude do que é o ser não esteja somente nos cheiros ou nas cores da natureza, que sempre gostei de sentir de corpo e alma. Claramente percebemos que tudo construído ao nosso redor, por Deus ou pelo homem (salvo algumas exceção das construções feitas pelo homem), é o resumo perfeito do que é ser e o oposto do estar, mas o ser humano também tem outro jeito de transceder a natureza e embarcar no mais profundo ser-sentir; o ser está também no amor - tal que sinto ao levar a lembrança daqueles olhos comigo por onde vou e tentar acrescentar um pouco deles em tudo que me cerca.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Momentum

Os bastões se chocam melodiosamente e eu assisto tudo com muita atenção. Sei que isso já era óbvio, mas observando você infelizmente ao fundo, percebo que te quero muito.
O que você faz com seu corpo naquela espécie de palco me encanta. Sua voz forte e grave de homem ressoa pelos meus ouvidos e vez em quando você me olha e não consigo deixar de sorrir. Seus braços se mexem com força, seu tronco é determinado, mas mesmo assim você parece fazer tudo com muita leveza, como se tudo aquilo fosse muito fácil - mas o suor que escorre pela sua testa diz o contrário.
Acho que o mais bonito de tudo é ver como você se entretém e diverte. Por sinal, sua gargalhada é uma delícia.
Não sei o porquê de estar escrevendo isso. Acho que é por ter sentido um carinho sem precedentes por você naquela quarta-feira à noite, e foi tão bonito.
Caso ao longo dos dias esse sentimento se esvaia - talvez em uma mesa de bar, ou em um show com luzes piscantes e música alta, quem sabe - cá está o registro para que você não se esqueça.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O menino da bola murcha

O garoto só quer uma bola para jogar futebol. A sua, murcha, rota e furada já não lhe serve. Ganhou de um outro menino durante uma aposta - nosso rapazinho aqui fez oito gols. O dono original da bola fez cinco. O tal rapazinho levou a bola - agora murcha e sem lá muita utilidade - e fim de papo.
Isso foi há dois anos e agora o brinquedo está sujo, rasgado, é flácido e nem redondo parece mais.
O garoto olha para os céus e reza pedindo uma bola, mas as nuvens parecem dizer que papai do céu está de férias por tempo indeterminado - fez o mundo em seis dias dias, descansou no sétimo e resolveu sair por aí fazendo um tour pelas estrelas e galáxias. O garotinho, quando pensa nessas coisas, quer ser deus. Inveja-o.
Outro dia, uma dona parou em frente ao menino e, com pena dele sozinho e com fome, deu a ele uma espécie de bolo - ele, aos nove anos (dos quais alguns passados em internatos públicos e outros em um orfanato), conseguia juntar as letras A-L-F-A-J-O-R.
O menino achou aquele doce muito gostoso e pensou que aquela dona deveria ter muito dinheiro, mas que devia ser abençoada mesmo assim.
E mesmo com a boca suja de merengue e o estômago tapeado, ele só queria ter amigos com quem dormir em um trapiche que nem no filme que ele viu antes de fugir do orfanato. Seu apelido - claro que assim como Pirulito, Sem Pernas e Gato ele também teria um - poderia ser Bola Murcha, ele não ligaria muito, só queria alguma coisa que o aquecesse e o deixasse feliz e absorvido, alguns amigos com quem aprontar e que pudessem fazer-lhe companhia durante às noites.

E não tem.
Na verdade, muito pelo contrário, falta-lhe até uma bola colorida e cheia.


(Ao bom gosto de J.I)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Tic-tac, tic-tac

O relógio não me deixa esquecer que a cada segundo que a vida me dá eu me sinto mais sua, mais com você, mais sua amiga, mais íntima. A cada segundo que a vida me dá eu tenho mais desejo, mais vontade do seu beijo, mais sede dos livros que você me pede para ler, mais orgulho de ter gostado de filmes que você põe na sua lista de favoritos.
Eu tive uma chance com você, eu podia ter feito tudo direito, eu podia ter acertado... Eu estrago as coisas, tudo que eu construo na minha mente acaba virando pó...
Quero que você saiba que não desisti, que quero sempre ser sua âncora, quem sabe amiga, por vezes confidente, em algumas noites só mais um corpo quente que você quer abraçar simplesmente pela descarga hormonal ou pela companhia, escutarei seus monólogos sobre os grandes pensadores que nunca chegarei a conhecer, me contento em ser sua segunda ou trigésima opção - não me importa, eu só quero você, seguras suas mãos, beijar sua testa, sorrir para os seus comentários eloqüentes ou chorar junto quando você se sentir tão deprimido quanto eu normalmente me sinto.
Tic-tac, tic-tac.
Eternamente sua.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012