sábado, 18 de maio de 2013

código de barras

O bolo não é meu e nunca foi; fico triste por ter tido tanta vontade de comê-lo e nenhuma oportunidade. É triste que as coisas sejam assim, todas com prazo de validade. É importante, também, que eu me lembre que não devo comer nada vencido para não ter dor de barriga depois. Claro que às vezes a gente se engana e pega algo que estava na geladeira há anos, mas esse tipo de ação configura um erro - e a gente cresce para parar de errar, ou pelo menos para cometer erros mais sofisticados.

Então foi isso: um dia, abri a geladeira e vi que uma gata verde já tinha comido o meu bolo. Na verdade, não teve essa importância toda; só foi frustrante. Peguei os ovos e os arremessei na parede. Indescritível prazer que senti ao ver as gemas amarelas escorrendo pela tinta branca e ao sentir o cheiro fétido de ovos crus invadindo a cozinha. Enquanto atirava os doze ovos, um a um, pensava nos versos tórridos de Gregório de Matos, alternando com os doces Segredos guardados por Casimiro de Abreu, sentindo falta da alegre Ciranda de Drummond. Por fim, os ovos jaziam estilhaçados no piso azulejado da cozinha - eu também jazia, estilhaçada dentro de mim, exausta porém feliz.

Têm erros que temos de cometer só para termos a certeza confirmativa de que são erros. Minha vontade deste bolo, creio, foi uma delas.


Não há nada mais a fazer além de me conformar e comer um biscoito.

domingo, 28 de abril de 2013

quinta-feira, 11 de abril de 2013

aos meus amores de transporte público


João entra no metrô com a pasta preta de couro em uma mão, terno e gravata. Advogado, menos de trinta anos, bonito, solteiro.


Com a papelada burocrática dentro da pasta, ele parece um chato quadrado de escritório. E talvez ele seja - naquela segunda-feira ressaquenta, ele nada mais é do que um chato, mal-humorado com dor de cabeça e boca seca.

Os pontos passam; desce gente, entra gente, João pensa em dormir, a senhorinha do banco ao lado pergunta as horas.

Com uma freada brusca, João sente-se desperto. O que se segue acontece demasiado rápido, e pode ser resumido assim:

João viu uma moça.

Estava em pé, apoiada na barra de ferro do metrô. Relaxada, cabelos compridos e volumosos, cheios e cheios de cachos, modam-lhe o rosto redondo.

A moça vê João, também. E os dois se encaram, os gigantescos olhos castanhos amêndoa dela refletidos nos dele. Ele morde os lábios de nervoso, ela ri.

Impressionantemente, a Moça do Metrô parece ter uma ligação espiritual, mental e física (sim, física, claro, com aquele vestido rodado e aquelas pernas, como não ter?) com João maior do que todas as suas ex-namoradas, amigas e ficantes juntas. Os movimentos parecem tão em sincronia, os olhos olhando interminavelmente, os dois se encarando como quem diz "e aí? Não vai vir me dar oi?". Um espelho na frente de João, é isso!, como se ele tirasse seu livro favorito de dentro da mochila e a moça lhe espelhasse o mesmo livro, mostrando uma das infinitas coincidências que os dois partilham.

A Moça tem sorriso bonito, João passa a mão no cabelo loiro, a estação dele está chegando. Ele entra em pânico e olha para a porta, apreensivo. A Moça percebe, claro; pisca um dos olhos, como quem diz "fica tranquilo, rapaz, um dia a gente se esbarra por aí na rua". Inexplicavelmente, ela vira o rosto para outras coisas, cessando a troca de olhares.

João sente uma parte do seu coração sair pela boca quando o metrô chega na estação. Dá um sorriso triste, sem graça, e acena para a Moça, como quem dá adeus; em retribuição, ela joga um beijo para o ar, o mais gostoso que ele já recebeu.

Ele desce; esquecem-se, mas por vezes pensam um no outro.
Talvez cheguem a se encontrar, talvez não.

Nas madrugadas insones, João confecciona um cartaz de Procurada da Moça do Metrô. Ele inclusive oferece recompensa por mais um encontro, talvez em meio a xícaras de café.

Suspira.


procuro um amor perdido e nunca encontrado

terça-feira, 9 de abril de 2013

liberdade


Um dia eu tava na praia peneirando a areia insistentemente, vieram me perguntar: o que você procura na areia? Eu disse: 
- Eu procuro a outra parte de mim que perdi.
- Mas você não vai achar nada aí, sua boba!
Então eu respondi, sorrindo: 
- Eu já procurei o meu amor em tantos lugares... NÃO CUSTA NADA PROCURAR AQUI!
(Zoé, Antes da coisa toda começar)


Estou te procurando, não que você tenha me dito que estaria aqui, mas saí batendo pernas por aí, comecei a entrar em livrarias, te procurar dentro dos livros de auto-ajuda, dos vinis velhos e esquecidos.
Estou te procurando mesmo que você tivesse pedido para eu não te achar, então subo e desço as escadas insistentemente, confiando na sorte de você aparecer magicamente em um dos dois andares. Subo as escadas e dou meia-volta, só para descê-las de novo: você não está lá.
Desisto dos andares, começo a andar em círculos, insistentemente, rápida, frenética, te caçando no reflexo das vidraças, embaixo dos móveis, dentro das latas de leite condensado.
Me descabelo, meu coração bate mais forte, sinto um leve desespero; não te acho, não te encontro, você se escondeu de propósito só para me ver desse jeito... E eu deveria ter te ouvido, eu deveria ter desaparecido quando você pediu.
Meus olhos se enchem da água, e eu me conformo com o seu truque de mágica de mau-gosto.

Procura-se um amor, há anos desaparecido, nunca encontrado.

cadê você

quinta-feira, 4 de abril de 2013

nada

"Nada", por Gustavo Loureiro
Aos poucos, me conformo que, por tentar tratar as pessoas bem e com carinho, não significa que sou merecedora da recíproca. E hoje, refletindo entre os números que eu deveria dominar, percebo: perdi algo em mim. 

terça-feira, 26 de março de 2013

as estações

       Eu me perguntava até que ponto era aquilo tudo verdade, até que ponto você realmente quis dizer aquilo que eu interpretei. Você se afastava, assim, de acordo com as estações: aparecia sempre na primavera, depois sumia até o final do outono. Me deixava sozinha no inverno, imagino que desaparecido para se aquecer em outros corpos. Eu ficava sozinha, sim, mas nunca deixava de sentir falta do seu calor.

       Então veio o verão, não muito ensolarado e também não muito quente. Achei que você viria, parecia claro, óbvio, lógico; você disse que viria e eu acreditei. Simples assim, ingênua assim.

       Em breve, virá outro outono. Enquanto as folhas caem, eu me pergunto o quanto eu gostaria de saber o que te impediu de aparecer e me pegar pela cintura - me pergunto se a verdade não seria tão dolorosa a ponto de ser desnecessária.

       Por fim, peço desculpas pelo drama e exorcismo. Da mesma forma que foi súbito eu ter virado de costas e, ao me desvirar, achar uma gata verde comendo meu pedaço de bolo, todos esses sentimentos ressentidos também são súbitos e efêmeros.

       Afinal, gata verde também sou. E vivo na esperança de achar um vira-latas pior do que você.

"Você disse some
E eu somei
Eu disse some
E você sumiu"

(Marcos Caiado)

quarta-feira, 20 de março de 2013

triciclo


(Para ler ouvindo isso.)


Três pessoas, dois homens e uma mulher, dividem uma noite em um ainda desconhecido apartamento. 

Não foi roubo, nem invasão de propriedade. Era como a cena final de um filme, uma casa escura e de porta escancarada, aberta no meio da praia, um dia de tempo feio de céu cinzento. Usaram a casa, velha e esquecida, comida pelos cupins até, para satisfazer as urgências do triciclo.

Tríade, trinômio, trindade, trímero, triângulo, tribo.

Os três se amam e por isso odeiam um ao outro. Estão em constante competição um pelo outro, atos de egoísmo sem fim, nada a ver com aquele amor-utópico-altruísta-biblíco. Estão em constante provação para si próprios e para o mundo. Sentimentos que corroem, de querer bem mas querer um, de querer satisfazer os desejos e inflar o próprio ego, rejeição à ideia de acabar sozinho. Tudo se confunde: um é um, mas também são os outros.

- No final, tudo isso aqui é necessidade - pensa Egoísta, a menina com os olhos castanhos naturalmente arregalados divagando pelo quarto, pelas cortinas, enquanto um deles chega, cabra manso, por trás. - Desejo individual de seduzir um deles, sentimento que corrói, ansiedade e insegurança... Mas urgências satisfeitas, sempre, e uma filosofia de amor livre poligâmico tão boa e tão difícil de rejeitar, sempre pelo menos um apoiado no ombro para ouvir os lamúrios...

O primeiro homem segue seu senso altruísta de dar prazer aos próximos. Termina, satisfeito consigo mesmo, se sentindo bem, de ego inflado. Beija o rapaz que logo sai para o banho, a moça ajoelha. Ele põe as mãos por trás da cabeça. Ele, Desejo, gosta do flerte, do preliminar, da atenção em dobro, de satisfazer em dobro.

Diante de brigas e pressões, queriam definir a relação. Discussões, choros incessantes. Acabam ali, esparramados, na casa, vazia, sozinhos e à sós. Se viram aqui pois a idéia de acabar em três era ruim, mas não era pior do que acabar sozinho.

O segundo homem, Carência, sai do chuveiro, após, e vê a moça e o primeiro homem na cama, se fitando, os olhos castanhos dela refletindo no verde esmeralda do dele. Parece amor, paixão, carinho, cumplicidade, e o segundo homem sente-se roda da frente do triciclo, abandonada, e teme. Quer continuar fazendo parte do triângulo. "Quero que o triângulo represente o tripé, apoio dos três lados, as três pontas firmes fincando no chão mutuamente. Não quero ver um triângulo não-triângulo, que seriam duas pessoas sendo felizes enquanto eu olho de fora. O complicado é que, se por um lado o três signifique ter duas opções, por outro ele significa a real e constante possibilidade de ser a ponta solta do triângulo, de se acabar sozinho.".


Mal sabem que tudo pode ser e deve ser o que se quiser: não tem que fazer nada - basta ser o que se é.