segunda-feira, 24 de junho de 2013

fragmento

Todo bom candango ou boa candaga sabe: não chove em junho. Faz um frio desgramado, o céu acinzenta de ameaça - mas chover, mesmo, não chove. Nem água do céu cai em forma de chuvisco.

Junho é sempre assim: meu eterno chove, mas não molha.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Poeminha feminista

A palavra me permite
Que eu grite com sonoridade:
"Cadela!":
Tu és a vadia
Mais bonita da cidade

sábado, 8 de junho de 2013

Diversão sinestésica

O ensaísta Tales Ab'Sáber é articulado ao caracterizar o universo das baladas frequentadas por jovens nos dias atuais. No entanto, é pouco minucioso e comete equívocos ao falar, por exemplo, de uniformidade cultural - inexistente no Brasil e no mundo.

Uma balada pode ser descrita como desde um ambiente fechado e equipado no centro de Buenos Aires até como um baile funk situado na favela da Rocinha, frequentados por grupos sociais distintos, se não opostos. Esses grupos diversificados e abrangentes vão à balada porque ela cumpre muito bem o que se propõe a fazer: festa.

Ab'Saber está certo em classificar as boates como dispositivos para a gestão do prazer, mas se equivoca ao tentar racionalizar os motivos que as fazem ser frequentadas. Buscar festejos e prazer são atos intrínsecos à natureza humana (e avistados desde as celebrações mitológicas feitas por Baco), e não apenas associados à propaganda.

O ensaísta não poderia estar mais enganado ao dizer que a música perdeu a importância em detrimento da pirotecnia. A tecnologia nos permitiu fazer um espetáculo sensorial que agrega sensações táteis à visão e à audição musical.

As baladas, portanto, configuram um universo de entretenimento sinestésico, bastante atraente para os jovens na atualidade.

sábado, 18 de maio de 2013

código de barras

O bolo não é meu e nunca foi; fico triste por ter tido tanta vontade de comê-lo e nenhuma oportunidade. É triste que as coisas sejam assim, todas com prazo de validade. É importante, também, que eu me lembre que não devo comer nada vencido para não ter dor de barriga depois. Claro que às vezes a gente se engana e pega algo que estava na geladeira há anos, mas esse tipo de ação configura um erro - e a gente cresce para parar de errar, ou pelo menos para cometer erros mais sofisticados.

Então foi isso: um dia, abri a geladeira e vi que uma gata verde já tinha comido o meu bolo. Na verdade, não teve essa importância toda; só foi frustrante. Peguei os ovos e os arremessei na parede. Indescritível prazer que senti ao ver as gemas amarelas escorrendo pela tinta branca e ao sentir o cheiro fétido de ovos crus invadindo a cozinha. Enquanto atirava os doze ovos, um a um, pensava nos versos tórridos de Gregório de Matos, alternando com os doces Segredos guardados por Casimiro de Abreu, sentindo falta da alegre Ciranda de Drummond. Por fim, os ovos jaziam estilhaçados no piso azulejado da cozinha - eu também jazia, estilhaçada dentro de mim, exausta porém feliz.

Têm erros que temos de cometer só para termos a certeza confirmativa de que são erros. Minha vontade deste bolo, creio, foi uma delas.


Não há nada mais a fazer além de me conformar e comer um biscoito.

domingo, 28 de abril de 2013

quinta-feira, 11 de abril de 2013

aos meus amores de transporte público


João entra no metrô com a pasta preta de couro em uma mão, terno e gravata. Advogado, menos de trinta anos, bonito, solteiro.


Com a papelada burocrática dentro da pasta, ele parece um chato quadrado de escritório. E talvez ele seja - naquela segunda-feira ressaquenta, ele nada mais é do que um chato, mal-humorado com dor de cabeça e boca seca.

Os pontos passam; desce gente, entra gente, João pensa em dormir, a senhorinha do banco ao lado pergunta as horas.

Com uma freada brusca, João sente-se desperto. O que se segue acontece demasiado rápido, e pode ser resumido assim:

João viu uma moça.

Estava em pé, apoiada na barra de ferro do metrô. Relaxada, cabelos compridos e volumosos, cheios e cheios de cachos, modam-lhe o rosto redondo.

A moça vê João, também. E os dois se encaram, os gigantescos olhos castanhos amêndoa dela refletidos nos dele. Ele morde os lábios de nervoso, ela ri.

Impressionantemente, a Moça do Metrô parece ter uma ligação espiritual, mental e física (sim, física, claro, com aquele vestido rodado e aquelas pernas, como não ter?) com João maior do que todas as suas ex-namoradas, amigas e ficantes juntas. Os movimentos parecem tão em sincronia, os olhos olhando interminavelmente, os dois se encarando como quem diz "e aí? Não vai vir me dar oi?". Um espelho na frente de João, é isso!, como se ele tirasse seu livro favorito de dentro da mochila e a moça lhe espelhasse o mesmo livro, mostrando uma das infinitas coincidências que os dois partilham.

A Moça tem sorriso bonito, João passa a mão no cabelo loiro, a estação dele está chegando. Ele entra em pânico e olha para a porta, apreensivo. A Moça percebe, claro; pisca um dos olhos, como quem diz "fica tranquilo, rapaz, um dia a gente se esbarra por aí na rua". Inexplicavelmente, ela vira o rosto para outras coisas, cessando a troca de olhares.

João sente uma parte do seu coração sair pela boca quando o metrô chega na estação. Dá um sorriso triste, sem graça, e acena para a Moça, como quem dá adeus; em retribuição, ela joga um beijo para o ar, o mais gostoso que ele já recebeu.

Ele desce; esquecem-se, mas por vezes pensam um no outro.
Talvez cheguem a se encontrar, talvez não.

Nas madrugadas insones, João confecciona um cartaz de Procurada da Moça do Metrô. Ele inclusive oferece recompensa por mais um encontro, talvez em meio a xícaras de café.

Suspira.


procuro um amor perdido e nunca encontrado

terça-feira, 9 de abril de 2013

liberdade


Um dia eu tava na praia peneirando a areia insistentemente, vieram me perguntar: o que você procura na areia? Eu disse: 
- Eu procuro a outra parte de mim que perdi.
- Mas você não vai achar nada aí, sua boba!
Então eu respondi, sorrindo: 
- Eu já procurei o meu amor em tantos lugares... NÃO CUSTA NADA PROCURAR AQUI!
(Zoé, Antes da coisa toda começar)


Estou te procurando, não que você tenha me dito que estaria aqui, mas saí batendo pernas por aí, comecei a entrar em livrarias, te procurar dentro dos livros de auto-ajuda, dos vinis velhos e esquecidos.
Estou te procurando mesmo que você tivesse pedido para eu não te achar, então subo e desço as escadas insistentemente, confiando na sorte de você aparecer magicamente em um dos dois andares. Subo as escadas e dou meia-volta, só para descê-las de novo: você não está lá.
Desisto dos andares, começo a andar em círculos, insistentemente, rápida, frenética, te caçando no reflexo das vidraças, embaixo dos móveis, dentro das latas de leite condensado.
Me descabelo, meu coração bate mais forte, sinto um leve desespero; não te acho, não te encontro, você se escondeu de propósito só para me ver desse jeito... E eu deveria ter te ouvido, eu deveria ter desaparecido quando você pediu.
Meus olhos se enchem da água, e eu me conformo com o seu truque de mágica de mau-gosto.

Procura-se um amor, há anos desaparecido, nunca encontrado.

cadê você