João entra no metrô com a pasta preta de couro em uma mão, terno e gravata. Advogado, menos de trinta anos, bonito, solteiro.
Com a papelada burocrática dentro da pasta, ele parece um chato quadrado de escritório. E talvez ele seja - naquela segunda-feira ressaquenta, ele nada mais é do que um chato, mal-humorado com dor de cabeça e boca seca.
Os pontos passam; desce gente, entra gente, João pensa em dormir, a senhorinha do banco ao lado pergunta as horas.
Com uma freada brusca, João sente-se desperto. O que se segue acontece demasiado rápido, e pode ser resumido assim:
João viu uma moça.
Estava em pé, apoiada na barra de ferro do metrô. Relaxada, cabelos compridos e volumosos, cheios e cheios de cachos, modam-lhe o rosto redondo.
A moça vê João, também. E os dois se encaram, os gigantescos olhos castanhos amêndoa dela refletidos nos dele. Ele morde os lábios de nervoso, ela ri.
Impressionantemente, a Moça do Metrô parece ter uma ligação espiritual, mental e física (sim, física, claro, com aquele vestido rodado e aquelas pernas, como não ter?) com João maior do que todas as suas ex-namoradas, amigas e ficantes juntas. Os movimentos parecem tão em sincronia, os olhos olhando interminavelmente, os dois se encarando como quem diz "e aí? Não vai vir me dar oi?". Um espelho na frente de João, é isso!, como se ele tirasse seu livro favorito de dentro da mochila e a moça lhe espelhasse o mesmo livro, mostrando uma das infinitas coincidências que os dois partilham.
A Moça tem sorriso bonito, João passa a mão no cabelo loiro, a estação dele está chegando. Ele entra em pânico e olha para a porta, apreensivo. A Moça percebe, claro; pisca um dos olhos, como quem diz "fica tranquilo, rapaz, um dia a gente se esbarra por aí na rua". Inexplicavelmente, ela vira o rosto para outras coisas, cessando a troca de olhares.
João sente uma parte do seu coração sair pela boca quando o metrô chega na estação. Dá um sorriso triste, sem graça, e acena para a Moça, como quem dá adeus; em retribuição, ela joga um beijo para o ar, o mais gostoso que ele já recebeu.
Ele desce; esquecem-se, mas por vezes pensam um no outro.
Talvez cheguem a se encontrar, talvez não.
Nas madrugadas insones, João confecciona um cartaz de Procurada da Moça do Metrô. Ele inclusive oferece recompensa por mais um encontro, talvez em meio a xícaras de café.
Suspira.
procuro um amor perdido e nunca encontrado