Deu um beijo em sua doce esposa e saiu a caminhar. Era um pescador humilde, de casa pequena situada na Itália, na agradável cidade de Nápoles.
Caminhou e caminhou e caminhou até chegar ao seu destino – o Mar Tirreno. O homem de cabelos loiros e olhos azuis estendeu sua vara de pescar e esperou para que os peixes fossem atraídos pela visão ou pelo cheiro da sua isca.
Começou a sonhar acordado com a sua mulher. Ela o encantava de várias que são as formas de se encantar um homem. A doçura que a envolvia e a beleza que suas compridas madeixas negras tinham, principalmente quando entravam em contraste com aqueles enormes olhos verdes e penetrantes, faziam-no ficar deslumbrado. Ele gostava das curvas discretas do seu corpo, e sabia que jamais encontraria outra moça que apreciasse o gosto dele tanto quanto ela o fazia, mas se incomodava com o fato de que poderia jogar com ela e não dá-la seu devido valor e ela continuaria ao seu lado. Se sentia o monstro dos monstros quando a fazia chorar, e pior ainda quando a deixava brava. O ponto é que se amavam e estavam casados há dois anos – ainda sem filhos.
O pescador olhou para frente, frustrado com a ausência de peixes. Avistou uma cascata de cachos ruivos ao longe e tentou identificar a dona. Ela parecia nua da cintura para cima, e ele não conseguia identificar suas pernas.
A moça olhou para ele. Tinha olhos castanhos de mistério e, ao sorrir, mostrava dentes bonitos e um sorriso meigo.
Ela pulou no mar e pareceu se aproximar dele. Quando voltou à superfície, o pescador pôde contemplar os seios médios e bem formados, acompanhados de mamilos rosados. Possuía um corpo formoso, a tal da moça.
- Por que me observavas? – disse ela, com a voz mais bonita que o homem já havia ouvido: soava alta, nítida e, contudo, tranqüila. Lembrava uma cachoeira. Falou-o, também, em tom de ironia, como se já soubesse a resposta e como se fosse acostumada com tal ato.
- Observava-a porque não tinha nada mais a fazer. O Tirreno não está para peixes hoje.
- Entendo.
- Um pobre pescador como eu não deveria perder seu tempo.
Ela jogou a cabeça para trás e se desmanchou na gargalhada mais gostosa que ele já tinha ouvido. Não pôde evitar um sorriso.
- Por que a donzela estava gargalhando?
- Eu não sei; pelo simples prazer de gargalhar, quem sabe.
Ele estava se encantando com o carisma da jovem.
- De qualquer forma – ela completou – onde eu moro é fácil de achar o que procuras.
- Peixes? – ele indagou.
- Ou ao menos tuas caudas – ela sorriu de mistério. – Diga-me, pescador, qual é o teu nome?
- Saulo. E o teu, bela dama?
Ela o olhou fundo nos olhos. Penetrou sua alma e, com a mesma voz suave, quebrou o mesmo silêncio que havia construído.
- Sirena.
Os dois se fitaram. Pareceram até se compreender e Saulo parecia enfeitiçado.
- Me diga, senhor Saulo; gostarias de ir à minha casa para obter o que precisas?
Saulo teve um sentimento de ansiedade e urgência como jamais havia sentido. Junto dele, no entanto, a hesitação.
- Donzela Sirena, eu possuo uma esposa. E não acho que deveria fazer pouco caso da mulher que resolveu ser minha e somente minha.
- Entendo. E qual o nome da tua senhora?
- Lara.
- E Lara tem a voz como a minha?
- Não.
- E o corpo gracioso como o meu?
- Também não.
- O cabelo dela tem o mesmo tom vivo de vermelho como o meu?
- Os cabelos de Lara são negros.
- Entendo. Mas, meu caro Saulo – ela se aproximou e encostou sua mão cor de leite no tórax dele – ela o persuade e o seduz como eu faço, fiz ou faria?
- Não, Sirena. És melhor que a minha presente amada.
- Sim. E não vejo por que não deverias ir à minha casa, então. – Agora, sua mão encontrava-se sobre a mão dele.
Houve uma pausa.
- Me leve onde você mora, minha querida sedutora. Lara me perdoará; tu possuis a voz mais bela que já ouvi, e a ti não resistirei.
Sirena, então, o puxou para o fundo do mar em um gesto brusco. Da superfície, ouvia-se uma canção que falava sobre corações partidos. Sirena estava cantando enquanto nadava.
Já escurecia na cidade, e Lara observava o lugar aonde seu marido estava há alguns minutos.
Saiu de casa com o intuito de procurá-lo – ele nunca havia se atrasado tanto após um dia de pesca – e voltava para lá aos prantos, com a certeza de que seu marido haveria de ser devorado por uma sereia.
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