Volto a dormir.
Acordo algumas horas depois, Zoé já de pé colocando café na minha xícara, o sorriso habitual no rosto. Ela começa a falar horrores, gesticulando, e minha cabeça lateja; não escuto direito, mas murmuro afirmativamente com os olhos fechados. Escuto ela saindo da sala e aproveito para sentar no sofá onde dormi e desembaraçar os fios vermelhos com os dedos. Sinto a cabeça latejar enquanto bebo meu café preto e quente.
Começo a acordar quando Zoé volta para a sala. Sorrio e nos abraçamos.
- Você escutou alguma coisa que eu disse?
- Não, não mesmo. O que foi?
- A Marina saiu para uma entrevista de emprego.
Levo um susto bom. Zoé, a beleza óbvia e não-convencional de seus vinte-e-tantos-trinta-e-poucos anos me olha e sorri.
- Onde? Ela é formada em Letras, certo?
- Isso, ela foi falar com o dono de uma companhia de Inglês.
- Entendi. E você não vai trabalhar?
- Hoje só chego na Agência às 14h. - responde Zoé. - Tenho umas horas.
Noite passada, arrastei Zoé para um dos meus "shows": eu cantando, algum músico da casa tocando violão acústico. Foi em um bar não muito chique e não muito caro, e a apresentei para todo mundo assim que terminei de cantar. Zoé se enturma bem e fácil como eu; nos divertimos muito entre licores, luzes, barulho de copos e pessoas. Sei que, eventualmente, Zoé entrou no carro com um dos meus amigos e eu ri - porque era tão adolescente, não-sofisticado e divertido - e conversei com meus outros homens, todos de carnavais passados.
Entre beijos, abraços e mãos, Zoé me aparece e fomos beber.
Licores.
Caipirinhas.
Cervejas.
Uísques.
Martínis.
Até agora não entendi como ela conseguiu acordar, se levantar, ir até a cozinha, fazer café e ainda por cima me servir.
Ela senta no sofá por um tempo e conversamos; sobre a vida, sobre trabalho, sobre os homens e as experiências. Ela me pergunta sobre casamentos e namorados, e eu rio; aos vinte e cinco anos, não vejo como qualquer outra resposta para esse tipo de pergunta pode ser sensata. Pergunto a ela o contrário e ela, geminiana blasé, faz um gesto de descaso com as mãos e mostra desinteresse. Zoé é assim com muitas coisas, mas também é divertida, inteligente, articulada e bondosa.
Reclamo da ressaca e ela me oferece um copo gigante de água com um comprimido. Tomo do jeito que ela manda e fecho os olhos por alguns minutos.
E acontece que os minutos foram horas, e quando acordei o sol já se punha e tinha um bilhete de Zoé dizendo que ela tinha ido trabalhar e que voltaria mais à noite.
Me levanto, desamasso meu vestido e calço os saltos altos. No banheiro, limpo a maquiagem borrada e a retoco. Grito por Marina e ela não responde. Abro um sorriso caloroso com o fato dela não estar em casa, vomitando em meio ao sangue.
Pego uma caneta e escrevo no verso do bilhete de Zoé:
"Gata,
você vive falando de como meu coração é bom e eu nunca te falei que seu sorriso é bonito. Agradeço os elogios e a estadia breve. Peço desculpas por ir embora sem me despedir. A chama de viver é urgente e meu fogo me chama. Sei que sou volátil e sei que você entende isso melhor do que ninguém. Mas relaxa. Já já apareço de novo, você sabe que sou que nem gata pingada.
Um beijo gordo"
Começo a acordar quando Zoé volta para a sala. Sorrio e nos abraçamos.
- Você escutou alguma coisa que eu disse?
- Não, não mesmo. O que foi?
- A Marina saiu para uma entrevista de emprego.
Levo um susto bom. Zoé, a beleza óbvia e não-convencional de seus vinte-e-tantos-trinta-e-poucos anos me olha e sorri.
- Onde? Ela é formada em Letras, certo?
- Isso, ela foi falar com o dono de uma companhia de Inglês.
- Entendi. E você não vai trabalhar?
- Hoje só chego na Agência às 14h. - responde Zoé. - Tenho umas horas.
Noite passada, arrastei Zoé para um dos meus "shows": eu cantando, algum músico da casa tocando violão acústico. Foi em um bar não muito chique e não muito caro, e a apresentei para todo mundo assim que terminei de cantar. Zoé se enturma bem e fácil como eu; nos divertimos muito entre licores, luzes, barulho de copos e pessoas. Sei que, eventualmente, Zoé entrou no carro com um dos meus amigos e eu ri - porque era tão adolescente, não-sofisticado e divertido - e conversei com meus outros homens, todos de carnavais passados.
Entre beijos, abraços e mãos, Zoé me aparece e fomos beber.
Licores.
Caipirinhas.
Cervejas.
Uísques.
Martínis.
Até agora não entendi como ela conseguiu acordar, se levantar, ir até a cozinha, fazer café e ainda por cima me servir.
Ela senta no sofá por um tempo e conversamos; sobre a vida, sobre trabalho, sobre os homens e as experiências. Ela me pergunta sobre casamentos e namorados, e eu rio; aos vinte e cinco anos, não vejo como qualquer outra resposta para esse tipo de pergunta pode ser sensata. Pergunto a ela o contrário e ela, geminiana blasé, faz um gesto de descaso com as mãos e mostra desinteresse. Zoé é assim com muitas coisas, mas também é divertida, inteligente, articulada e bondosa.
Reclamo da ressaca e ela me oferece um copo gigante de água com um comprimido. Tomo do jeito que ela manda e fecho os olhos por alguns minutos.
E acontece que os minutos foram horas, e quando acordei o sol já se punha e tinha um bilhete de Zoé dizendo que ela tinha ido trabalhar e que voltaria mais à noite.
Me levanto, desamasso meu vestido e calço os saltos altos. No banheiro, limpo a maquiagem borrada e a retoco. Grito por Marina e ela não responde. Abro um sorriso caloroso com o fato dela não estar em casa, vomitando em meio ao sangue.
Pego uma caneta e escrevo no verso do bilhete de Zoé:
"Gata,
você vive falando de como meu coração é bom e eu nunca te falei que seu sorriso é bonito. Agradeço os elogios e a estadia breve. Peço desculpas por ir embora sem me despedir. A chama de viver é urgente e meu fogo me chama. Sei que sou volátil e sei que você entende isso melhor do que ninguém. Mas relaxa. Já já apareço de novo, você sabe que sou que nem gata pingada.
Um beijo gordo"