Há muito tempo atrás, em uma terra muito distante, um cavaleiro num cavalo negro -- cor da podridão -- lhe roubou os sentimentos todos. Desde então, Anaís dedicava-lhe tudo que sentia: lágrimas incessáveis, sorrisos, suspiros, ódios, raivas, artes.
Anaís senta e conta todas as faces, as fitas duplas-faces de quem lhe roubou o coração, e ama a mais bonita.
Não o conhece. Só o sente, e sentir cansa. Anaís se sente fisicamente exausta de dedicar toda a sua energia para alguém que cavalga para longe com tanta constância, sem se dar ao trabalho de voltar alguma vez, ou de mandar lembranças, ou de acenar-lhe o lenço branco.
Anaís não o persegue. Fica quieta no seu canto, esperando... alguma coisa. Só quer ver alguma reação, mas não irá provocá-la. Não quer se cansar mais. Anaís deseja nunca ter conhecido-o, ou nunca ter se fascinado pelo seu elmo dourado e pelo seu cuidado para com os habitantes da vila. Deseja nunca ter cruzado seu caminho com o dele; como estaria sua vida agora? Seria ela feliz? O que ocuparia os seus pensamentos, dia após dia? Teria mais medo de doer?
Esperando.
No alto de uma montanha, Anaís está enfadonha e desiste. Não quer mais.
Olha para cima, estala os dedos e vira anjo da guarda.
existem tantos dias feios aí pelo mundo ao redor; temos de saber aproveitar os bonitos
Os últimos meses foram de seca: seca braba, que dá moleza, preguiça, incapacidade de produzir. Foram de seca intelectual - quando a inspiração seca, a vontade de inexistir vem junto. Como viver sem inspiração, a única escapatória desse mundo mecânico e burocrático?
E aí que te vi, menino, e você era uma coisa louca. De início, assim, te vi e achei que não se interessaria por mim. Quebrando todas as minhas expectativas (um padrão que viria a se repetir, mal sabia eu), você veio, sentou ao meu lado, manso, me pediu cigarros e isqueiro. Prontamente, gentil e pisciana, os estendi.
- Qual seu signo?
- Peixes, ascendente libra, lua em peixes.
- Meu Deus!
- É, eu choro.
- Você chora. Você sofre por amor, também?
Descubro que você tem três ou quatro planetas em Escorpião. Tenho idéias. Vou te adorando gradativamente - talvez não você, em si, que desconheço, mas a caricatura de si mesmo que você me apresenta. Acho que esse sábado de conexões astrais se deu por pura sorte, ou destino, ou coincidência. Lugar certo na hora certa.
Você fala que eu pareço a menina bonita de "(500) Dias com Ela", e agradeço: polida, desconfiada - feliz. Ao mesmo tempo em que é gentil e escancara para mim uma risada boa, bonita, gostosa, me diz loucuras: em um mês, fará uma apresentação de bolero. E me quer lá, em cima do palco, porque você dedicará uma música para mim. Não acredito muito quando acordo no dia seguinte, mas mesmo assim dou risada da sua espontaneidade - quem diz essas coisas, assim, do nada, na primeira noite?
Semanas depois, descubro que você sentiu minha falta durante a referida apresentação. Fico envergonhada por achar que você seria como os outros seres desse cerrado seco e torto; desculpe-me. É que até conhecer você, eu não sabia que existiam pessoas que falavam loucuras e as cumpriam: dei uma puta sorte quando te conheci, e nem soube disso. Por sinal, não te contei ainda, mas é você quem vai fazer minha tatuagem do símbolo de peixes comigo.
A décima segunda badalada me chama, e me despeço de você estendendo a mão que você beija com malícia.
Até.
você afasta meu cabelo e canta nos meus ouvidos: "I put a spell on you because you're mine..."
O retrato que alegra meus dias olha para mim, belo e iluminado. Reconheço nos seus olhos cor-de-mar os mesmos conflitos e desesperos meus. Da mesma forma que meu riso escancarado reflete nossa sinastria: se os sentimentos fossem mensuráveis, daria para medir o tanto que eu gosto de você só pelo tamanho do meu sorriso.
Pode ser que, com o passar do tempo, eu me canse de afagar suas inseguranças desconexas e absurdas. Obviamente não deixarei de fazê-lo: te consolar e cuidar, extensão do meu ser, são formas de me importar comigo, também.
Gostaria de passar meus dias a fio expondo amarguras e discutindo filosofia para com você. Interiormente, creio que essa seja minha verdadeira vocação. Também estarei aqui para te desejar saúde em resposta aos seus espirros constantes e para rir da sua mania de me pedir uma caneta emprestada nos primeiros cinco minutos de aula e só jogá-la na minha mesa depois do sino de término.
Pode até ser que Lewis Carroll não tivesse você em mente quando escreveu sua obra-prima. Peço-lhe perdão: tenho muito mais certeza nas maravilhas criadas por você do que nas por ele.
- Por que você é tão quietinha? - Eu observo muito... E estou cansada.
- Cansada de que?
- Fazendo cursinho três vezes por semana, estudando, e emocionalmente cansada.
- Emocionalmente cansada? Você está triste?
- Hummm. Não.
- Frustrada?
- Isso.
- Com homens?
- Sim.
- Mulheres?
- Não, as mulheres não me frustram.
- Você me acha atraente?
- Sim.
- Você tem namorado?
- Não.
- Você me beijaria?
- Sim.
- Existe algum motivo para você não me beijar?
- Não. (...) - Só não vou fazer isso agora porque estou dirigindo. Você espera?
- Eu acho que aguento.
- Acho que vou virar fumante, mesmo. Passar a comprar meus próprios maços e tal.
- Mas por quê? Não faz isso, não.
- Ah, porque eu tenho esse sentimento dentro de mim que me dá vontade de fumar.
- Eu também tenho. Chama-se tabagismo.