Estou sentado na praça onde tive minha vida irrevogavelmente alterada. Para me sentar, escolhi o mesmo banco onde estava sentado naquela tarde de junho, no momento em que a conheci.
Devia estar no início da juventude, com meus vinte e poucos anos. O ano certo não me vem à mente.
Eu era um jovem tímido na década de 80. Estava sentado no banco citado, vestindo a camiseta mais larga que tinha, da banda liderada por um pisciano depressivo que acabou se matando. Eu roia as minhas unhas, mania que demonstrava a minha infinita insegurança.
Ela se aproximou de mim; não peguei seu nome, por isso a chamarei carinhosamente de Pequena. A primeira coisa que ela disse foi surpreendente:
- Tire a mão da boca.
Olhei para a criatura lourinha e sardenta. Tinha imensos olhos azuis e curiosos.
Eu não soube respondê-la.
- Por favor, pare de roer as tuas unhas.
Tirei a mão da boca e não vi outra opção senão questioná-la.
- Por quê?
- Porque é terrível. De longe senti a tua insegurança, percebi metade dos teus medos.
Percebi, naquela hora, tanta firmeza e verdade na voz dela que até me arrepiei. Pequena definitivamente tinha um grande lado espiritual.
- Responda-me, garoto: quando você faz aniversário?
- Hoje – respondi.
Ela arregalou os olhos. Tentando ter tato, me disse:
- Você é o primeiro geminiano que eu conheço que passa o aniversário sozinha. A idéia deve te desagradar muito.
- Realmente, é desagradável passar um aniversário sozinho. Gosto de vir aqui para pensar, e o fiz.
- Quer um conselho?
“Não”.
- Diga.
- Converse com todos, faça amigos, ande descalço na grama, largue as drogas – mas mantenha o sexo e o rock’n’roll bem alto -, cheire incensos, pense que você é jovem e tem tudo pela frente quando quiser esquecer problemas. Esqueça os problemas! Leia muito, aprenda sobre tudo, descubra-se através do misticismo. E pare de roer as unhas – alem de conotar insegurança, é nojento.
Ela me pediu um abraço e saiu dançando-saltitando-andando.
Acabou que Pequena me fez voltar a sonhar e a gostar da vida, a acreditar nas pessoas. Nas coisas simples.
Fiz tudo que ela me recomendou e ainda mais: viajei pela Europa, mergulhei no mar, me apaixonei platonicamente e comprei uma tesoura de unhas para deixá-las sempre limpas e aparadas.
Voltei à praça hoje porque em casamento a mulher que será minha até o apocalipse.
Sei que é ela, e o sei porque logo no primeiro encontro ela falou que minhas mãos eram lindas, por conta das minhas unhas limpas e bem cortadas.
Nunca mais vi Pequena, mas devo a minha condição de atual e eterna felicidade à ela.
(Para a Tia Paulinha).
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