“Ela resolveu liberar seus instintos cruéis
Ao cair da noite, em quartos de motéis
Era mais que conhecida pelas ruas da cidade
Uma ruiva suicida travestida de beldade
Chicote e salto alto pisando corações infiéis
Foi eleita a padroeira invertida de insanos bordéis
Um cartaz de procurada pelas ruas da cidade
Uma ruiva suicida paria da sociedade”.
Ruiva Suicida
Christina se cansou de ser maltratada, incompreendida e vilipendiada. Olhou-se no espelho, viu o cabelo laranja e as sardas que a davam uma aparência de garota.
Rebelou-se, e o que veio a seguir foi um completo ritual.
Pegou a tinta vermelho-sangue e deixou agir no cabelo. Lavou e viu as madeixas molhadas escorrendo pelos ombros.
A partir daquele momento, Christina deixou de ser só uma menina. Pintou os cabelos de sangue, e, automaticamente, sentiu-se mais poderosa. Agora voluptuosa, sentiu-se mulher. Não era mais Christina; precisava de um novo nome. “A Ruiva Suicida” logo lhe veio à cabeça. E lhe agradou.
Maquiou a pele com base, pó e corretivo. Escondeu as sardas. Pintou os olhos, deixando a negritude deles mais fria do que nunca. Nos lábios, a cor dos seus cabelos.
Quando olhou pela janela, a noite tinha caído, envolvendo a cidade com um véu negro salpicado de estrelas.
Foi dar o troco aos in felizes que haviam partido o coração dela. Nua em frente ao espelho, ela olhou bem para os seios que nunca haviam sido tocados ou beijados com amor. Nua em frente ao espelho, Ruiva Suicida perfumou-se. Vestiu sua gargantilha preta, e depois seu espartilho-lingerie. Calça de couro passou a revestir a sua pele, e por cima dos ombros cor de leite, caiu-lhe um bolero felpudo.
Olhou com a alma para o fundo da sua sapateira e escolheu, com minúcia, o sapato que usaria. Um salto-alto vermelho. Vermelho, cor da fruta proibida que Eva comera. Vermelho, cor do sangue que ela faria jorrar naquela noite. E, agora, vermelho, cor dos seus cabelos.
Contemplou suas unhas. Estavam pintadas de branco. Foi até o banheiro, pegou um chumaço de algodão e um vidro de acetona que estavam sobre a pia. Limpou as unhas compridas e tentou se lembrar aonde havia colocado o frasco de “Gabriela” que ganhara anos antes. Estava na gaveta.
Pintou as unhas com perfeição, tirou de debaixo da cama seu chicote dos tempos de circo. Saiu caminhando pelas ruas da cidade; uma ruiva suicida travestida de beldade.
Esperou embaixo do poste no qual se enroscava. Viu a cena do marido deixando sua esposa em casa e dando meia volta para procurar cortesãs do século XXI. Não demorou muito para que o primeiro carro estacionasse a levasse para um quarto de motel.
Tornou-se mais que conhecida pelas ruas da cidade. A Ruiva Suicida se divertia chicoteando e arranhando os homens em quartos alugados. Agredia um pelo dano que outro, há muito esquecido, já lhe havia feito. Divertia-se, no entanto, ainda mais no final das suas brincadeiras, porque era quando arrancava corações infiéis e os roubava.
A Ruiva Suicida estava satisfeita por estar imersa em luxúria e gula, até que passaram a reclamar seus corações de volta. Não viu alternativa senão fugir, deixando prevalecer seu cartaz de “Procurada” espalhados pelos muros da cidade.
Conto baseado na música “Ruiva Suicida”, da banda “Os Lendários Dromedários”.
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