- Todo mundo fala isso...
- Perdoe minha falta de originalidade, então. O que você me conta?
- Sabe o que é? Outro dia eu estava pensando em como, no inglês, ser e estar é a mesma coisa.
- Perdão?
- Sim, o verbo "to be" pode significar tanto ser como estar, só depende do contexto. Só que isso não faz o menor sentido, porque "ser" e "estar" são coisas e verbos completamente diferentes. Porque o "ser" é plenitude - a pessoa, ou a coisa, ou o que quer que seja simplesmente é. É fixo, não permite mudanças, é algo que nunca vai se perder. O ser inclui o sentir, o viver, ter experiências, aprender. O existir da vida em seu auge; o ser é o que todos queremos para nossos quem sabe oitenta anos nesse planeta - só que nem todo mundo sabe dar o nome.
- E o estar?
- O estar é completamente diferente. O estar é um freqüente período de mutação; o estar pode acontecer em dias, semanas ou até em poucas horas. O estar pode passar de um pólo para outro em instantes ou pode ser diferente, pode ser um estar fixo, simplesmente não sentir, não ter emoções, não estar vivenciando. Por exemplo, os objetos não são. Eles estão.
- Dê exemplos.
- Certo. Primeiramente, o ser. Você sabe a Mia, aquela gata que mora com aquela senhora da lojinha de artesanatos? Pois então, acho que ela é o perfeito exemplo do ser. A Mia é um ser vivo lindo, sempre alegre, de rabo levantado, indo cumprimentar e roçar em quem quer que seja na loja. A Mia é, em toda sua plenitude. Gosta de brincar com os fios, mia alto, faz o maior escândalo quando não tem água ou ração. A dona da lojinha, toda vez que me vê, tem um caso dela para contar. Ela disse que toda vez que ela está chateada ou aos prantos, a Mia aparece e fica com ela, deitada, recebendo carinho e ronronando. A Mia, para mim, é a personficação do ser, sabe? Ela é real.
- E o estar?
- Seria muita presunção minha me colocar como definição de um verbo no dicionário?
- Claro que não, sua boba.
- Eu não sou. Eu nunca fui e, muito provavelmente, nunca serei nada. É claro que sou diferente de, por exemplo, uma torradeira - que tem uma utilidade bem fixa e se, por exemplo, ela cair no chão, ela não vai sentir dor ou chorar ou gritar. Talvez ela pare de funcionar, mas não ficaremos de luto nem nunca iremos conversar com uma torradeira, nunca vamos conhecer seus pensamentos, suas dores, seus medos nem nada porque eles não existem. A torradeira está de uma forma fixa, e eu estou sempre mudando. Passo da insegurança e da vergonha ao mais primordial desejo de suor, gritos e fluidos em questão de segundos, da mesma forma que passo do amor e do carinho sem precendentes para o ódio e a raiva, passo da depressão mais pura e da vontade de me esconder e nunca mais interagir com ninguém para o ser considerada a garota mais engraçada da mesa do bar. Passo da intensidade e da loucura de emoções a um estado de coração seco, vazio, que não tem outra função senão bombear sangue para o corpo, e que não dói, não se expande de felicidade, não bate de ansiedade e em que minha empatia desparece. Eu... Não consigo me entender. Tiro o fôlego até de mim mesma tentando me acompanhar nas minhas mudanças. Mas você entende, não entende?
- (...)
Achava que entendia, mas não mais...
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