terça-feira, 3 de janeiro de 2012

You're a wanker, number 9!

Não há nada mais bonito do que uma amizade verdadeira. Da minha janela de voyeur, observava as duas garotas (até um pouco parecidas, com os narizes perfeitos e os olhos grandes) falando. Uma se vestia de saia verde clara e uma blusa rosa. A outra também estava com uma saia e uma blusa, mas de cores sóbrias. Timidez e cara-de-pau. As duas se complementavam.
A primeira, dos olhos verdes, chorava e tentava articular. Bem assim:
- Eu não quero falar para você o que houve. Você é minha melhor amiga, mas se eu te contar vou chorar e aí vou borrar a maquiagem.
A dos olhos castanhos riu, docemente.
- Aí você passa mais maquiagem!
As duas sabiam que a mocinha dos olhos verdes não queria ficar feia para a amiga, mas riram juntas. E a mesma mocinha continuou:
- É sobre amar as pessoas, não saber explicar isso e não se sentir no direito de dizer isso a elas.
Um silêncio meio doído. Ela prosseguiu a fala.
- Eu amo você, também. E muitas vezes - e tome esse "muitas vezes" como eufemismo para "sempre" - não posso te contar isso. Não me sinto no direito. Vou acabar atrapalhando a sua vida também.
Os olhos castanhos refletiam um "eu amo você, também". Mas ela não podia dizer aquilo em voz alta, elas sabiam disso e sabiam o porquê.
A garota de olho verde continuou falando, um desabafo meio interrompido pelas lágrimas. Falava sobre os outros pelos quais fora abandonada, mas riu ao mencionar alguns outros por quem não poderia proferir seu amor e admiração.
Elas se abraçaram. Queria que as duas soubessem que, naquele momento, estavam perfeitas juntas. Eu poderia pintar um quadro daquela cena ou tirar a fotografia mais bela do mundo.
A garota da blusa rosa se sentou, tomando cuidado para não deixar a saia verde clara subir mais do que deveria. A amiga continuou de pé, segurando apenas uma garrafa.
A garota da roupa colorida estende a mão. A da roupa sóbria dá a mão.
A garota da roupa colorida estende a outra mão para pegar a garrafa - seu verdadeiro objetivo inicial.
- Ei! Eu achei que você queria me dar a mão! Eu não vou te dar cerveja! - reclama, indignada, a garota dos trajes de cor sóbria.
Travessa, a menina da saia verde clara aperta a coxa da amiga.

Fecho a cortina. Existem momentos que não devemos espiar.

(Para L.)

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