Daqui a quarenta dias, não haverá mais nem eu nem você. Tudo que criamos (ou, mais provavelmente, que eu criei para nós dois na minha cabeça) será destruído e irremediavelmente apagado. Não restarão minhas palavras bonitas a você, ou as suas a mim, nem seus cabelos macios no meu dedo, nem eu me maquiando e me arrumando para jantar com você em uma noite fria de novembro.
Não haverão mais as feridas que você me provocou com o seu descaso, indiferença e com a quebra de todas as promessas. Não haverão mais as brigas que me tiravam o sono e culminavam em insônia no sofá da sala, olhando pela janela de céu preto. Não terão os livros ou os filmes que você gentilmente me pediu para ver, nem minha cabeça no seu peito, nem as risadas escancaradas. Em quarenta dias, o calendário será destruído e não restarão dias 7 a serem comemorados, nem dias 16 a serem lamentados e temidos. Os dias 9, também, não serão mais lembrados com saudade.
Não haverão mais as bocas sujas de chantilly, o consumo de substâncias como forma de suicídio lento, as danças desengonçadas na minha sala de estar, os pulos de felicidade quando acordo. Não haverão mais provas que não provam a inteligência de ninguém. Terminarão os padrões e as regras irritantes e nonsenses, a burocracia e o sistema que me cansa. Não haverão mais pesadelos, nem sonhos esquisitos, nem sonhos tão bons que sentimos falta quando acordamos. Acabarão por fim as tempestades, os trovões que me assustam e os relâmpagos que acendem os meus olhos redondos no reflexo da janela.
Em quarenta dias, acabará o amor, a tristeza, a insegurança e o ressentimento. Começo, portanto, a me despedir tanto das minhas dores tanto dos meus encantamentos - ambos mundanos.
Quarenta dias para ser plena.
