A ovelha entra na toca do lobo. Não enxerga muito bem, com a escuridão que faz lá dentro. Esbarra em alguma coisa que se quebra - é uma garrafa. Ela não poderia saber que, antes de se despedaçar em mil pedacinhos, o recipiente levava escrito de um lado "amor" e do outro "infelicidades da vida". Da garrafa sai um líquido que tem cheiro de proibido e aspecto de Afrodite, mas a ovelha, lambendo o chão, o toma mesmo assim.
Quando acorda, o lobo está fitando-a incessantemente. A ovelha não entende e nem sabe como, mas sente como se estivesse pronta para sacrificar-se e a doar-se para o lobo - e, conhecendo a natureza de ovelhas e lobos, provavelmente é o que acontecerá.
Passa-se um tempo. O lobo, uma espécie ferina e sem-matilha, convive com a ovelha, dócil como sempre fora. O lobo dá abrigo e deixa que a ovelha saia para comer e volte para a toca.
Não se sabe quanto tempo os bichos ficaram assim, mas, numa noite, o lobo esperou até que a ovelha ficasse cega de sono, afundou o focinho sobre o peito revestido de lã e, num impulso facilmente concebido, arrancou o coração da ovelha fora.
Com o órgão na boca, deu meia volta e deixou um corpo fraco e suplicante na penumbra da toca.
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