A moça e eu reclamávamos das infelicidades da vida e eu conseguia vê-la materializada na minha frente com os olhos escuros e intensos, bem pintados, me olhando com muita intensidade. Acho que "intensidade" é uma boa palavra para definir essa garota. A gente reclamava de cabelos, cachos desordenados, cobras de Medusa, mitologias, a gente citava Caio Fernando Abreu e ela me agradecia imensamente pelo livro, a gente projetava e reclamava sobre como as coisas são cíclicas, falávamos sobre mandar recados. E enquanto havia uma identificação mútua de sermos o mesmo bicho esquisito, que se isola e não sabe se comunicar direito e sofre por isso - porque a comunicação é imprescindivelmente parceira do sentir, e a gente sente muito -, nos deprimíamos sobre como as pessoas associam amadurecimento com o esquecimento dos próprios sonhos, falávamos de Sampa e do Rio, mas acho que conseguíamos até rir um pouco do nosso próprio pessimismo. Um pouco, e raramente, mas talvez isso tenha acontecido. A garota é incrível e queria que ela soubesse disso, queria também que ela soubesse que poderia ser minha melhor amiga se quisesse.
De qualquer forma, enquanto lamentávamos não saber dançar a dança do ventre ou ter um vozerão que encanta quando se abre para cantar ou nem de ter os cabelos ondulados que nem uma colombiana da vida, ela resumiu tudo que está escrito.
"A gente não é furacão, e sim tempestade".
(Para R.d.S)
Lembra que eu tinha te falado de algum texto, que eu havia gostado? Acho que foi esse.
ResponderExcluirSei que foi direto (para R. D. S.), mas eu acho que me identifico e sinto aquela nostalgia-de-coisas-que-não-aconteceram quando leio um texto de admiração pessoal.