Estudei a vida inteira em uma escola particular. E não uma qualquer - uma absurdamente cara, que sempre foi considerada uma das melhores da minha cidade. Por ano, os alunos de Ensino Médio que não são bolsistas, pagam 16 mil reais para terem acesso a uma universidade qualificada - e o objetivo, muitas vezes, é a federal.
Ontem, Dilma sancionou o projeto que garante 50% das vagas das federais a alunos de escola pública. Os estudantes e ex-estudantes do meu colégio, quase todos com boa retórica e consciência política, se dividiram em dois grupos: os que são a favor e os que são contra (e nos que são contra, incluo os que acham que 50% é uma porcentagem alta demais).
Em primeiro lugar, gostaria de lembrar a todos que quem pode pagar uma escola particular no nosso país é a grande minoria. O governo pretende direcionar 50% das vagas para 70% dos alunos brasileiros. Os números não mentem: não há injustiça alguma nisso.
Desconsiderando aqueles que também podem pagar por um ensino qualificado no exterior, gostaria de atestar o óbvio: a probabilidade de você ser de classe média e poder pagar uma faculdade particular de qualidade (qualquer uma das dezesseis Universidades Católicas, incluindo as sete Pontifícias, por exemplo) é alta. Mas se você quer entrar em uma universidade federal de qualquer jeito, como é o meu caso, você pode pagar um cursinho e aumentar suas chances de entrar pelo sistema universal. Veja bem: seu plano A é entrar na federal sem fazer cursinho; seu plano B é entrar na federal pagando um cursinho e seu plano C é fazer uma particular (novamente, desconsiderando aqueles que podem estudar fora). Você tem plenas condições financeiras e provavelmente sociais de alcançar uma educação superior de qualidade: não merece ser priorizado.
Além do mais, onde há justiça ao fazer um aluno bem-preparado, que teve acesso a bons professores e materiais, competir com um cuja família ganha novecentos e sessenta reais por mês e que não possui nem professores titulares presentes em sua sala de aula? Um aluno que tem computador em casa e que pode obter informações aprofundadas sobre o possível tema de uma redação de vestibular deveria de fato disputar com outro que tem ainda mais deficiência na interpretação de textos?
Aos que dizem que a universidade cairá de nível: muito pelo contrário. Não sei de onde o estímulo da diversidade social prejudica um indivíduo, ainda mais quando o convívio entre pessoas de origens diferentes acontece e gera produtividade. Ainda neste tópico, dizer que alunos de escola pública não têm capacidade de acompanhar as aulas de uma federal é falso e preconceituoso. Alunos que entram por cotas têm plena capacidade de se igualar e superar o desenvolvimento dos outros. Por sinal, a universidade também não ganha muito com gente que não tem o menor conhecimento político e cria uma marcha que vai para o lugar errado.
A classe média/alta não perdeu sua chance de passar no vestibular. Não existem, de fato, vagas para todos e existe gente que vai, sim, ficar de fora. A diferença é que agora essa competição não é mais tão separatista e injusta.
Uma coisa é reclamar das cotas porque o país não investe o suficiente em educação e que o direito ao ensino de qualidade deveria ser existente desde sempre - fato, e é vergonhoso que o governo não o providencie. Mas a classe baixa não merece esperar por um milagre cair do céu. As cotas são uma medida provisória e eficiente, que já foi internacionalmente adotada. Outra coisa é reclamar das cotas por achar absurdo que tirem seus privilégios e por não reconhecer que você tem outros planos e quem ganha novecentos e sessenta reais por mês, não.
Agora seja franco: você é rico e branco e ainda se sente injustiçado quando um grupo ganha oportunidades que você sempre teve? Mesmo?