- No que você está pensando?
- Hum, eu? Em nada.
- Hum, eu? Em nada.
- Eu estou vendo o que você está fazendo com esse guardanapo. E essa sua carinha de cachorro abandonado. O que foi?
- Ai, Arthur, cala a boca. Não foi nada. Vamos logo, a gente vai perder a sessão.
Ele a segura pelo braço.
- Ai, Arthur, cala a boca. Não foi nada. Vamos logo, a gente vai perder a sessão.
Ele a segura pelo braço.
- Senta, Aline. Conversa comigo.
- Eu não quero falar o que foi. Não com você. Você não vai entender.
- Eu não quero falar o que foi. Não com você. Você não vai entender.
- Tem a ver comigo?
- Você sabe que tem, cacetada.
- Você sabe que tem, cacetada.
- Então se eu não vou entender, quem vai?
- A Monique vai.
- Monique?
- Minha terapeuta.
- Porra, Aline, não conta. A mulher é paga para te entender. Desembucha, vai. Se não a gente vai perder o filme.
Aline pára e pensa. Ela suspira, abre a boca e fecha, abre a boca e fecha, picota o guardanapo por mais um tempinho. Ela torce a manga do vestido que ele secretamente acha muito bonito, coça o joelho, olha pro chão.
- A Monique vai.
- Monique?
- Minha terapeuta.
- Porra, Aline, não conta. A mulher é paga para te entender. Desembucha, vai. Se não a gente vai perder o filme.
Aline pára e pensa. Ela suspira, abre a boca e fecha, abre a boca e fecha, picota o guardanapo por mais um tempinho. Ela torce a manga do vestido que ele secretamente acha muito bonito, coça o joelho, olha pro chão.
- Aline.
- Espera. Como eu vou te dizer isso sem te assustar?
- Ensaia aí na sua cabeça que eu vou ao banheiro. Quando eu voltar você me conta e a gente entra na sessão.
- Tudo bem.
Treinando a gesticulação e as expressões faciais, ela começa a pensar no tom das palavras ecoando na cabeça: "sei lá, acho que a gente não devia mais se ver. Porque você é muito presente em tudo isso, entendeu? Eu penso em você na aula de música, nos seus sapatos esquisitos quando eu ando descalça pela casa, me pergunto se vou esbarrar com você em uma festa qualquer. Entro em uma livraria e me pergunto se você gostaria de ganhar de presente esse ou aquele livro. Às vezes, bem às vezes mesmo, quando eu fico muito chateada, eu vou dormir e imagino a gente de mãos dadas. Não é muita coisa e não me acalma tanto assim, mas melhora. Um pouco. Sei lá. O que eu sinto por você é esquisito. O problema é que eu não sei se a gente devia ou não devia se ver, porque você me encanta e me dói. Mas eu acho que dou conta de ignorar a parte que você me dói, porque quando a gente está junto, meu vazio se acalma e eu não tenho vontade de sair correndo de você. O encanto ganha da dor. E eu vou viver com isso. E não vou te dar dor de cabeça."
Arthur senta na mesa de novo.
Arthur senta na mesa de novo.
- Então. O que é que você queria me falar?
Ela sorri, toda travessa.
- Você está ridículo com esse cabelo todo espetado.
Ele ri e a olha, desconfiado.
- Tem certeza que é só isso?
- Tenho. Relaxa que não é nada.
Um selinho.
- Tenho. Relaxa que não é nada.
Um selinho.
- Vamos para o filme?