sábado, 6 de outubro de 2012

Marina II

Bizarro ter seu bilhete grudado na minha parede até hoje, assinado em maio do ano passado, e não ter tido coragem de olhar para ele - e muito menos de tirar o ímã da parede, rasgar o bilhete, jogá-lo fora. É claro que é isso que eu deveria ter feito, picotado o bilhete, esquecido o carinho, considerado tudo como a grande mentira idiota que foi. O mais engraçado é que tantas coisas já passaram pela minha parede de ímãs - desenhos, fotos, outros bilhetes, ingressos de cinema e teatro - e há mais de um ano a sua nota com um passarinho segurando uma flor ainda perdura, pendurada.
A verdade é que descobri que cansei, cansei desse sol e desse calor que nunca refletem meu estado de espírito, cansei do samba, pai do prazer, que toca e faz com que eu me sinta ainda mais vazia, cansei da água vazando e ninguém para enxugá-la, cansei de estar sozinha, cansei de me importar. Minha vontade é sair por aí, chegar de algum jeito em outro país e permanecer por lá - sem ninguém, sozinha, recomeçar do zero. Todo mundo me atrapalha, todo mundo é estúpido e isso, além de obviamente atestar minha arrogância, me deixa cansada.
Não tenho profissão, não tenho estímulo, não tenho futuro, não tenho ninguém, não tenho casa, não tenho ideais, não tenho você, não tenho mais minhas lâminas, não tenho porra nenhuma e só quero sumir. Essa coisa de ir para outro país é o que eu faria se tivesse como. Sumir, mágica e misteriosamente, seria o ideal. Quando eu paro pra pensar, sumir parece muito com morrer, e nessas horas sofrer um acidente, pegar alguma doença ou me entupir de comprimidos não me parecem ideias tão horrorosas - mais um casal de lágrimas descendo sincronizado e nunca mais vou ter que me importar com absolutamente, maravilhosamente e simplesmente nada.

Marina