Abro a porta e imediatamente constato que fiz uma bobagem. A moça que bateu na minha casa era branca-leite, pálida mesmo, tinha cicatrizes saltadas ao longo dos braços, cabelos escorridos e nariz e olhos vermelhos de choro. Ela era pequena, magricela, parecia frágil e fácil de quebrar. Só os olhos, claros e saltados, pareciam se destacar em meio à confusão.
- Preciso me abrigar e me disseram que você é muito alegre, muito satisfeita com a vida.
- Às vezes, querida. Na outra parte do tempo, estou amarga. Perdoe, mas qual é o seu nome?
- Desculpe. Sou a Marina. E você?
- Me chamo Zoé.
E não sabia o que fazer. Convidei-a para entrar, e tomar um café. Parecendo constrangida, ela relutou um pouco antes de obedecer, mas depois de alguns instantes sentou-se no meu sofá. Pego duas xícaras de vidro colorido e ela aceita mel no café.
- Então você não tem família - esqueço as sutilezas e tento iniciar uma conversa.
- Eu tenho família, sim. Só que não é mais família. E daí eu não me sinto mais abrigada.
- E você não tem amigos?
- Cansei todos.
- E é por isso que você quer viver aqui? Você não se sente mais em casa quando está em casa e não sente que tem amigos quando conversa com eles?
- Também por isso. Queria viver de novo, talvez recomeçar do zero. Sentia que estava vivendo mais ou menos, amando mais ou menos, me entregando mais ou menos. Isso é oposto à intensidade que normalmente me é característica. Eu sou de signo de água, sabe.
Eu sabia.
A menina era moça, e eu não conseguia deixar de sentir certo afeto, talvez por ela ser pouco mais nova que eu e por ser uma perspectiva de companhia. Seus olhos saltados eram expressivos demais e eu mal me sentia confortável em olhar para eles; sentia como se estivesse invadindo a alma dela. Apesar de eles demonstrarem sua profunda infelicidade, ela não deixava de ser doce. Quando ela estava bem, se opunha à minha amargura. Por fim, decidi ceder a casa a ela.
Por fim, a intensidade que ela tanto queria chegou. Ela não fugiu para Paris com um novo amor, não deu tudo de si para ajudar crianças carentes em um bairro pobre, não se dedicou ao aprendizado do alpinismo para escalar o Monte Everest. Marina se afundou na depressão, em meio aos cômodos da minha casa, sem me deixar alternativa - eu não podia expulsá-la, afinal, e vê-la vulnerável me enchia de um sentimento maternal, de ternura. Às vezes, ela me contava aos prantos o quanto queria ser útil, me ajudar com as compras e com as contas. Não raro, eu a chamava para sair comigo (um cinema, uma pista de dança), mas o medo de interagir com pessoas ou de sofrer um colapso nervoso-sentimental em público costumava paralisá-la.
Era difícil de conviver com as lâminas cobertas de sangue que ela largava no banheiro. Às vezes, eu pressentia um pensamento ruim, algo mórbido e suicida. Entrava no seu quarto e a pedia para ligar para um psicólogo, queria que ela tivesse ajuda. Assustada, suas bochechas esbranquiçadas coravam - ela me disse, uma vez, que não tinha coragem o suficiente para explicar a ninguém o que estava acontecendo. Que era bobagem, e que ririam, e que ela ficaria sentida se dessem risada às custas dela. Eu tentava explicar que não, que a terapia não era assim, que conversar com as pessoas era bom, falar era importante, tentava ler um pouco dos grandes psicólogos que defendiam a cura pela fala. Ela achava interessante, gostava de buscar o conhecimento, mas a ideia de trazê-lo para dentro da sua vida não lhe parecia atraente.
Faz seis anos que abrigo Marina em minha casa e sinto que ela é uma parasita e isso me dói. Amo-a como ela é, abriguei-a por aceitá-la, mas ela me machuca, às vezes tira o melhor de mim sem perceber que o faz. Meu encanto pelas noites de música, o tilintar dos copos de cristal batendo uns nos outros, as risadas bêbadas de gente feliz - ela me tirou um pouco da minha paixão por tudo isso. Gostaria de ajudá-la, fazer com que ela se tornasse uma pessoa feliz e mais leve, e não consigo. Toda essa intensidade, lágrimas, sangue, cicatrizes e sal não me fazem ter força o suficiente para melhorá-la. Ela apenas me leva junto com ela, me arrasta para o seu leito onde as coisas são cinzentas, injustas e infelizes. Não sou deprimida como ela (talvez porque eu não tenha a predisposição genética), mas se quando a conheci estava em um pólo bom e alegre, agora sou pura amargura, sarcasmo e acidez.
Cedi minha casa para Marina e não sei quando vou voltar.
