sexta-feira, 23 de julho de 2010

À Flor da Pele

Ela foi explorar aquele prédio pequeno no qual caíra de pára-quedas e acabou achando uma sacada. Estava chuviscando.
Olhou para o lado e, enciumada, viu que um homem de jeans e blusa laranja fumando. Portanto, a sacada não podia ser considerada sua descoberta. Os tocos de cigarros no chão comprovavam isso.
Tirou da bolsa os manuscritos e os releu. Essa segunda vez pareceu mais uma facada no peito do que qualquer outra coisa.
Acendeu seu cigarro com aroma de maçãs. Estava escurecendo, mas ela decidiu que tinha que contar a ele – logo, saiu correndo até a sua casa.
Não era tão longe assim. Cortou caminho pelo gramado – descalçou-se.
Tocou a campainha da casa gótica. 19:09.
Ele abriu a porta, ela entrou. Ele deu-lhe uma toalha, ela se secou e acendeu outro cigarro.
Tomou coragem e resolveu contá-lo sobre o que havia sentido ao ler seus manuscritos.
Soltou a fumaça e apagou o cigarro. Ainda estava tremendo.
- Não suporto mais ler o que você escreve, porque admiro demais as suas musas barra personagens, e sei que você não as escreveu pensando em mim.
- Amor, você me faz sentir do mesmo jeito. Toda vez que leio um conto seu, penso: “porra, mas isso foi fantástico!”.
- Mas você não fica enciumado.
- Fiquei com o conto das cerejas, lembra?
- Foi só uma vez, com um conto só.
Pausa. Ela retomou a fala.
- Sinto ciúmes da sua literatura, primeiro porque escrevo cada vez mais para você enquanto você dá cada vez mais espaço para outras mulheres na sua escrita. E segundo porque nunca imaginei que eu namoraria alguém que escreve tão melhor que eu. Por outro lado, não consigo parar de te ler, simplesmente porque você é bom nisso.
Ele riu diante das afirmações que considerava absurdas e da arrogância que considerava deliciosa.

***

Horas mais tarde, depois de alguns capuccinos que ela fez e de um dilúvio n’A Cidade – que antes era só uma porção de gotas chuviscadas -, ele falou:

- Então vou escrever um conto sobre você.
Ela, sorrindo, olhou para ele com a mesma cara com a qual olharia para o Paul McCartney. Depois de instantes, dissuadiu-se:
- Mas, se for sobre mim, eu não vou admirar a personagem como admiro as suas outras, entende?

***

Era assim o amor.

***

Definitivamente para Rodrigo Correia.

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