quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mais Estranho que a Ficção

"O telefonema pegou-a de surpresa. Atendeu com impaciência, os olhos presos ao livro que tinha em mãos, uma história policial que não conseguia parar de ler. Era bom estar sozinha, lendo um livro de suspense numa noite de ventania. O sábado já estava quase no fim e ela ali, presa àquelas páginas. O som do telefone era uma intromissão, um estorvo. Atendeu a contragosto."*
- Alô?
- Boa noite, é do telefone da Cecília Marques?
- Sou eu - disse ela, tentando identificar a voz.
- Aqui é o chefe da polícia. Cecília, me diga: o nome Priscila Coluccini é familiar para você?
- É, sim. - Ela começou a sentir medo com a menção do nome da sua melhor amiga - Nos conhecemos há oito anos. Aconteceu algo?
- Sua amiga acabou de ser encontrada morta. Ela não estava com a identidade, mas seu número estava entre os favoritos do celular dela.
Silêncio. Cecília sentia a sensação estranha de dèja vú.
- Precisamos de você para nos ajudar a resolver este caso.
- Claro. Faça as perguntas que quiser.
- Você precisa vir até aqui.
- Mas... por quê?
- Se nós a virmos pessoalmente, saberemos se você mentir.
Cecília ficou ofendida com a idéia, mas pegou o endereço do lugar e em quinze minutos estava lá.
Encontrou-se com o chefe da polícia, mas toda frase que ele falava e também todas as respostas que ela davam faziam com que Cecília se sentisse familiarizada com a situação nunca vivida.
Respondeu à perguntas banais que soube responder com facilidade; "Não, Priscila não era depressiva e não cometeria suicídio sem deixar uma carta. Ela não era bem-vista por todos em seu trabalho. Sim, ela costumava freqüentar o local do crime."
Algum tempo depois de interrogatório, Cecília foi liberada.
Ela estava dirigindo a caminho de casa com a janela aberta quando percebeu. Estava tão atordoada com a morte da amiga que não havia se tocado de que todas as cenas que tinham acontecido naquela noite aconteceram também no romance policial que lia mais cedo.
Ela ficou atônita ao constatar que era uma personagem secundária, que aparecera na história logo no início, para dar continuidade a uma série de assassinatos.
Cecília seria o segundo caso de homicídio, que aconteceu logo nas primeiras cinqüenta páginas do livro.
Ela tinha sua história escrita por alguém. Era escrava da literatura alheia - e, pessoalmente, achou a idéia um saco.
Foi consumida por um desejo louco de chegar em casa, terminar o livro para identificar o assassino e o revelar para a polícia.
Não deu tempo. Antes disso, dois tiros adentraram o carro pela janela aberta e acertaram Cecília na cabeça.

*: O início do texto é da Heloísa Seixas, do livro Contos Mínimos.

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