segunda-feira, 26 de julho de 2010

Gente

que acena para o avião que voa ao longe, como se fosse um sonho tão bonito quanto distante. Gente malandra, que não poupa um assobio para a mulata que passa de vestido. Um pessoal que cria galinha, cabrito, cachorro e gato dentro de casa e ainda dá um jeito de deixar todos os bichanos felizes. Gente que ouve o forrozinho gostoso demais da conta dentro da casa que deixa ver as telhas, e que não se importa se está alto demais. Gente que se suja de terra e come arroz com feijão todo dia, que deita na rede e anda com todas as canas da plantação no ombro. Gente que pendura roupa molhada no fio do lado de fora da casa e não se preocupa se os outros virem, porque os outros fazem o mesmo. Quase-gente que carrega doze quilos de carvão nas costas, volta para casa e vê a mãe lavando roupa no balde e o pai metendo a enxada nessa terra do serão feio e seco, pra depois a família toda ir pra missa eu vai acontecer na igrejinha do meio da praça, aquela mesma, que tá com a pintura amarela descascando e que tem o sino enferrujado bem no alto. Gente que toma banho na cachoeira, olha pro alto e vê aquele mesmo avião e acena pra outra gente, uma gente diferente que não sabe nem o que é sofrer por causa da chuva que não vem.
E mesmo assim eu não consigo ficar com raiva, porque é tanta beleza nesse mundão lindo de meu Deus...
Porto de Galinhas, 17 de julho de 2010.

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