quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Pilar


- Fica calma e fala mais baixo: os vizinhos vão te escutar.
- Ficar CALMA!? Olha como você me deixou!, e você quer que eu fique CALMA!? Em segundo lugar, EU NÃO DOU A MÍNIMA PARA O QUE OS VIZINHOS PENSAM!

Histérica, louca, uma fera, máquina de produzir berros furiosos. Mas assim que ouve a tecla vermelha desligando o telefone, põe tudo no lugar e assume novamente o controle sobre si. O câncer na vida dela é ele.
Ela é forte: enfrentou perdas, lutos, monstros marinhos, depressões, resistiu à tentativas de suicídio e a abandonos no escuro, enfrentou dragões que cuspiam fogo e de brinde degolou princesas. Perfeitas, equilibravam-se em saltos altos, passavam esmalte e ela só olhava para suas unhas enormes e sujas, completamente fodidas, e pensava que era uma pirata.
Ofende e se irrita quando lhe dizem o que fazer. Pilar tem um problema com a ideia toda de "autoridade"; quer viver a sua vida. Não roubará, não matará, não cobiçará a mulher do próximo nem o homem da próxima. Ela só não vê problema em gritar, enclausurada em seu quarto, ou em cantar pelas calçadas, ou em falar palavrão.
Pilar é agressividade. Deixe-a na cápsula se não conseguir manter seu caráter e sua ética. Minta, dissimule, provoque e se afaste e terá o que merece: o cheiro marcante dela voltará a te perseguir, assim como o som das palavras que ela disse, tão duramente e tão certa daquilo, e que atingiram seu ponto mais sensível de propósito.
Mas é justa. Não ataca inocentes. É bem estruturada. É inteligente e odeia quem lhe tira dos seus tão amados e bem cuidados livros sem realmente lhe oferecer companhia.
Pilar é terra. Não cave muito fundo se não tiver medo de cair no buraco.